CAP. I – No Chalé (Conclusão)

           

Os fenômenos estranhos se sucediam e ninguém os sabia explicar. Por que? Ainda há coisas sobre a Terra que o homem desconhece.

Os fenômenos estranhos se sucediam e ninguém os sabia explicar. Por que? Ainda há coisas sobre a Terra que o homem desconhece.

— Chegou a hora — Andréa ouviu a voz do pescador e saiu do torpor e da divagação em que se encontrava. Na cozinha reinava um silêncio tumular e lá de fora só se ouvia o barulho surdo das ondas quebrando na praia.

— Senhor?

— Chegou a hora, Andréa. Deite-se com as pernas em direção do rosto de Ivaldo, por favor. Tome a posição da mulher que vai ter uma criança. Não se preocupe com as cólicas que vai sentir.

 Andréa obedeceu. Deitou-se, fletiu os joelhos e abriu as pernas como faria se estivesse numa mesa ginecológica. Mal fez isto e sentiu forte cólica, tão forte que soltou um grito de surpresa e dor.

A pancada não foi sentida por Ivaldo. Ele se viu novamente jogado para dentro de um túnel escuro, apertado, sufocante, mas um túnel do qual não tinha como escapar, a não ser seguir em frente, para a direção em que era fortemente empurrado. Ele teve o seu ser inundado pelo medo intenso. “Estou aqui, de novo. Estou nascendo de novo! Eu quero parar com isto! É terrível!” Ivaldo sentia como se estivesse perdendo algo muito bom; perdendo uma segurança que não queria perder. O túnel escuro começou a apresentar uma luz acima de sua cabeça. Ele se espichou todo em direção a ela, premido pelo arrocho que era muito forte em torno de seu corpo frágil. Estava quase saindo quando alguma coisa se prendeu a seu pescoço. Era como se  uma corda forte o estrangulasse. Sufocou e fez mais força para sair dali o mais depressa possível… E caiu bruscamente da cadeira de balanço na cozinha do chalé.  Andréa deu um salto de onde estava sentada, debruçada sobre a mesa, acordada pelo barulho da queda do detetive. A frigideira caída no chão espalhara beicon e ovos pelo piso de pedra.

— O que… o que foi? — perguntou a serviçal pondo-se de pé.

— Caramba! — exclamou Ivaldo, levantando-se. — Tive um tremendo pesadelo — Ele correu para o janelão e olhou lá fora. O canil, as árvores naturais, o caminhozinho de pedras rústicas, enfim, tudo estava conforme tinha de ser.

— O que foi? — tornou a perguntar Andréa, limpando rapidamente o chão sujo. — Tem alguma coisa diferente, lá fora?

—  Não, não. Tudo está correto. Tá tudo nos conformes, graças a Deus — disse o detetive sentindo um grande alívio. Andréa o olhou ressabiada e espichou os olhos para o janelão. Só avistou o céu escuro e sem lua. Cautelosamente foi até o janelão e olhou lá pra fora. Tudo estava normalmente em seus lugares.

— O que você sonhou? — perguntou ela sem se voltar.

— Oh, nada, nada de importante. Eu nem saberia como contar… — desconversou Ivaldo.

— Ainda quer o seu beicon com ovos? Eu acho que também dormi e o que fiz espalhou-se pelo chão… — E Andréa tentava controlar-se, pois lembrava-se vagamente de haver feito algo muito indecente com aquele moço que mal conhecia. Disfarçadamente passou a mão pelo ventre, mas não notou qualquer anormalidade. “Será que eu sentei mesmo naquilo dele? E será que ele sonhou a mesma coisa que eu?”  – Andréa não conseguia olhar Ivaldo nos olhos e estava ansiosa para ir para o seu quarto. O detetive, por sua vez, também queria ir para o seu e encontrar Damastor. Queria certificar-se que seu companheiro estava bem e não havia morrido na enchente da ilha.

— Se o senhor não quer mais nada eu…

— Eu também, Andréa, eu também. Estou morrendo de sono. Boa-noite e obrigado — cortou Ivaldo retirando-se apressadamente.

Tamara deu um pulo da cama e se sentou pálida e sufocada. Tinha os olhos esbugalhados de susto e custou algum tempo para perceber que estava na suite do chalé, cercada de todo o conforto porque tanto ansiara. Tremia e tinha medo até de se mover e terminar abrindo os olhos naquele pesadelo infernal. Qual era mesmo a realidade? A ilha misteriosa ou o chalé, aquele quarto e todo o seu conforto? Olhou para a cama de Karina e a viu dobrada sobre si mesma, com as mãos sobre o estômago e gemendo sufocadamente.

— Karina… o que está acontecendo? Por que está gemendo?

Karina olhou-a com olhos esbugalhados e balbuciou com voz roufenha:

— Eu… eu não… não morri… Foi um sonho… um so… — e ela caiu em pranto convulsivo. Tamara, ainda trêmula, foi sentar-se a seu lado e a abraçou.

— Calma, acho que você teve um sonho mau, como eu também. Mas estamos aqui e tudo está correto… – Ela olhou para o janelão e não viu a montanha lá fora. Tinha vontade de ir até lá, mas ainda estava com medo de que o que estava acontecendo agora não passasse de sonho e a realidade fosse a da ilha onde estava morrendo afogada na lama.

— Ludmila — gritou Mara sacudindo a amiga pelos ombros violentamente. Ludmila estava gritando um grito agudo, histérico, e olhava para alguma coisa que devia ser muito terrível, tal era a sua expressão de medo. — LUDMILA! ACORDE! PELO AMOR DE DEUS, ACORDE!        

A ruiva começou a ter uma expressão mais real nos olhos e fitou Mara sem a reconhecer. balbuciava coisas desconexas — ele morreu… Damastor morreu.. Karina foi espetada pela árvore… Meu Deus, que horror!

— Do que você está falando, criatura? Ninguém está morto, não. Damastor está na sua suite com o Ivaldo. Tamara e Karina estão na delas e nós, aqui. Quer despertar de uma vez e parar de gritar deste jeito, heim? Vai por todo o chalé em polvorosa, cruzes!

Ludmila foi aos poucos tomando consciência. Tremia tanto que parecia estar com febre amarela. Mara a abraçou forte, dizendo-lhe insistentemente:

— Calma, calma, querida, estamos aqui, estamos no chalé. Tudo está bem, estamos todos bem, você me entende? Estamos todos bem. Você teve  um pesadelo,  foi só isso.   

Ludmila ainda não acreditava que estava ali, na cama cheirosinha do chalé, nos lençóis limpinhos e macios. Ela olhava tudo sob tremenda tensão e lutava para não perder o controle dos nervos.

Damastor despertou caído no chão. Estava ofegante e sentia uma dor muito aguda na perna. Olhou ainda muito confuso e descontrolado motoricamente para o lugar onde doía, pensando ver a ferida da picada da cobra, mas na verdade o que viu foi uma cadeira bem no lugar onde doía. Puxou a perna adormecida e com dificuldade retirou a pesada cadeira de cima de sua canela. Levantou-se com dificuldade e foi olhar pela janela. Esperava ver a paisagem terrificante da misteriosa ilha, mas o que viu foi a plácida e bucólica paisagem da ilha da milionária de quem eram hóspedes.

— Meu Deus, foi um sonho… Um sonho terrível! E eu juraria que foi de verdade…

Ele voltou a se deitar justamente quando Ivaldo entrou na suíte.

— Damastor? — chamou ele, ansioso.

— O que foi? — respondeu Damastor, sentando-se.

— Você está bem? — perguntou Ivaldo olhando para o seu parceiro à luz mortiça do abat-jour de 15 velas que clareava suavemente a suíte.

— Eu… eu estou. Por que? De onde você está vindo?

— Da cozinha.

— E o que fazia lá?

— Eu… eu ia comer um sanduíche, mas desisti. Está muito tarde… Você dormiu?

— Sim.

— Eu… eu acho que… eu acho que vou fazer a mesma coisa.

Ivaldo foi para o banheiro e mergulhou num bom banho quente. Damastor deitou-se e ficou a fitar o teto, agradecido porque tudo não passara de um grande pesadelo. Sentiu alguma coisa incomandando-o nas costas. Meteu a mão por baixo do corpo e apanhou um seixo preto que atirou ao chão sem dar muita importância.

Milena deu um salto tão grande em sua cama que deslizou para o lado e caiu no chão, arrastando os lençóis consigo. Gritando abafada sob os panos, ela se debatia em agonia, ainda pensando estar sendo engolfada por uma onda de lama e galhos secos de árvores arrastados na enxurrada. Quando finalmente se livrou dos lençóis, pôs-se de pé tremendo e de olhos esbugalhados e boca aberta soltando gritos surdos de puro pavor. Recuou de costas até tocar a parede e lá ficou a olhar tudo em volta sem compreender nada. O que estava acontecendo? Que lugar era aquele, agora? Onde estavam os outros? E a onça? A chuva de lama… lama… Milena olhou-se enojada, mas viu somente sua roupa limpa e cheirosa, suas pantufas cor-de-rosa e o chão espelhado todo em mármore rosado de sua suíte. Demorou muito para recuperar a razão e o domínio de seus nervos em frangalhos.

— Estou… estou em casa! eu voltei! Eu voltei, meu Deus, eu voltei! Não sei como, mas estou aqui, em minha suíte! Ah, meu Deus, eu vos agradeço de coração… Eu estou em casa… Tudo foi um terrível sonho… vai ver que até o jacaré foi um tremendo sonho… E os outros? Estarão de volta, também?

 Milena saiu para o corredor. O chalé estava em paz e todos pareciam dormir.

— Eu… eu acho que o pesadelo foi só meu…

Ela voltou para a sua suíte, encheu a banheira com água e sais de banho e mergulhou nela deliciando-se com a limpeza e o perfume que a envolvia…

Argos e César estavam chegando ao iate quando notaram que o chão sofrera uma mudança. Voltara a ser de pedra e as flores que sempre ladeavam a senda estavam novamente ali. Olharam para trás e só viram a senda. Olharam para cima e o rochedo tinha desaparecido. Olharam para o mar e viram o iate flutuando sobre as águas serenas da baia, de onde milhares de reflexos vinham ferir-lhes as vistas.

— O que houve? — perguntou César, desconcertado.

— Eu não sei, mas se você não estivesse junto a mim, agora, eu juraria que tinha sonhado… ou alucinado tudo o que vimos momentos atrás.

— Será que o chalé… — E César apontou por sobre os ombros para o alto, que não viam graças às copas das árvores.

— Só saberemos quando chegarmos ao atracadouro – disse Argus estugando o passo.

Chegaram ao pier. Não havia ninguém lá. Olharam para o chalé e o viram ainda iluminado na cozinha. Os postes em volta clareavam fracamente, como sempre o fizeram, o entorno da casa.

— Não é possível – explodiu César passando as mãos pela cabeça. – Como é que ele voltou e a montanha escura sumiu?

— E onde está a Lua cheia? – perguntou Argus olhando o céu escuro.

— Eu não sei. Eu não sou capaz de entender nada, meu caro — disse César. Subiram ao barco e tocaram o sino chamando todos ao convés. A tripulação veio estropiada e sonolenta.

— Por que não ficaram de vigia, conforme eu ordenei? — perguntou Argos olhando um a um nos olhos. Eles se entreolhavam desconcertados.

— Comandante, o que quer dizer? — perguntou um dos marujos, bocejando.

— Eu mandei que vocês ficassem aqui e tocassem o sino se alguma coisa anormal acontecesse lá em cima — informou Argos, pondo as mãos na cintura.

— Em cima aonde? – perguntou novamente o marujo.

— E quando foi que o senhor nos deu essa ordem? — completou o cozinheiro.

— Ora… não faz nem uma hora…. — atrapalhou-se Argos.

— Está enganado, comandante. Ninguém se lembra de ter recebido tal ordem. Todos estávamos dormindo – contestou o marujo com o senho franzido.

— Comandante — chamou César, ao notar que todos estavam perplexos com o que ouviam de seu comandante.

— O que é, César?

— Pergunte a eles se não notaram nada de anormal aqui, há coisa de uma hora.

Argos olhou o mordomo e entendeu o que ele queria.

— Quem de vocês notou algo anormal acontecendo aqui, há coisa de hora e meia atrás? — perguntou ele à tripulação.

Todos ficaram calados, entreolhando-se sem compreender o que o comandante pedia.

— Comandante — falou o marujo em nome dos demais — eu fui o último a me recolher, depois que o senhor chegou do chalé. Todos já estavam dormindo. Que eu me lembre, só nos levantamos agora, quando o senhor tocou o sino. Antes, tenho absoluta certeza, ninguém veio até aqui e ninguém recebeu qualquer ordem sua. Por que nos faz esta pergunta?

— Olhem lá pra cima. O que vêem? — mandou Argos, ignorando a pergunta do seu marujo.

— Eu vejo o chalé — disse o marujo. — E vocês, pessoal, o que estão vendo?

— Vemos o chalé e o céu sem lua — responderam alguns secundados por acenos de cabeça.

— E… e isto não lhes causa espanto? — admirou-se Argos.

— Por que deveria, comandante? — inquiriu, por sua vez, o cozinheiro.

— Bem… — e Argos olhou desconcertado para César.

— Acho que está tudo certo, comandante. Todos dormiam — disse César. — Só nós pensamos ter visto aquele fenômeno.

— Que fenômeno? — perguntaram alguns dos presentes, curiosos.

— Uma estranha luz no céu. Pensamos que fosse um OVNI. Vai ver, foi só um balão. O comandante queria saber se havia alguém acordado que tivesse visto a mesma luz que nós. Mas parece que todos vocês dormiam…

— É isso aí — disse Argos, aproveitando a dica de César. — Desculpem por tê-los acordado no meio da noite. Podem voltar a dormir, obrigado.

A tripulação ficou um momento olhando o céu, desconfiada e curiosa, mas um a um todos voltaram aos seus beliches. Sós, Argos e César ficaram a se olhar embaraçados.

— O que acha que devemos fazer? — perguntou César a Argos.

— Silenciar. Se contarmos a eles ou a qualquer pessoa o que vivenciamos hoje, no mínimo vão pensar que estamos sob forte estresse e vão-nos pedir exames psiquátricos. Eu não quero isto. E você?

— Nem eu. Acho que o senhor está certo, comandante.

— Então, boa-noite, César. Vamos tentar dormir um pouco e rezar para que novas esquisitices não nos aconteçam.

— Boa-noite, comandante. Eu desço daqui a pouco. Estou sem sono.

— Eu compreendo.

E Argos desceu, deixando César sozinho no convés. O cientista não demorou para correr para a praia e meter os pés n’água do mar. Ela estava lá, de volta.

— Voltamos da prega do tempo. Mas como? – murmurou César, perplexo. – Perdi uma oportunidade rara de analisar este fenômeno. Que lástima!

Após um tempo em que ficou olhando o mar, César voltou ao iate e se recolheu. Mas não dormiu. Lembrou-se de que havia um fenômeno conhecido pelo nome de Ressonância Schumann. Levantou-se e foi buscar um livro de capa grossa. Pôs-se a ler suas mil páginas, intrigado. Sim, havia a probabilidade de este fenômeno causar anomalias desconhecidas no Tempo sobre determinada região. Não era comprovado, mas alguns moradores que tinham sofrido sua influência posteriormente relatavam acontecimentos sobrenaturais, como terem vivenciados experiências em tempos passados distante. Teria acontecido aquilo, ali, na ilha de Milena Forcis?

Sobre Andréa        

Enquanto esteve utilizando o aparelho psicofisiológico de Andréa, o pescador falava-lhe, embora sabendo que ela não teria condições de guardar todas as informações que lhe passava devido ao seu condicionamento social e sua pouca capacidade cultural. A mulher possuía instrução. Fizera até o terceiro ano da faculdade de Assistência Social, o que a capacitava para receber informações mais avançadas, ainda que, por um período de sua vida, devido ao desespero que a acometera, tivesse aceitado entrar para a seita dos evangélicos e se deixado obturar para o conhecimento. Contudo, não tardou para perceber o quanto de falso, mentiroso e inútil era o blá-blá-blá dos pastores, homens gananciosos e que só pensavam em auferir lucro explorando a ignorância de alguns, a insegurança de outros e a boa-fé dos tolos. Toda aquela gritaria, todas as vãs promessas de milagres através de hinos e orações gritadas em histeria coletiva ajudaram em nada a aliviar a dor da mulher. Foram dias de desespero amargo e solidão angustiosa. Para completar sua decepção, o pastor do templo que ela freqüentava e ao qual procurou para minorar seu sofrimento tentou obter seus favores sexuais. Revoltada, Andréa abandonou a religião protestante e mergulhou em grande ceticismo. Foi quando uma conhecida lhe falou maravilhas do Candomblé. Ela passara a ter horror à simples menção deste nome, graças ao fanatismo despótico dos pastores que batiam furiosamente na mesma tecla: Candomblé é coisa do Demônio. Custou muito a se decidir, mas terminou por ir a um terreiro. Ficou chocada com os rituais, principalmente com as “incorporações”. Realmente, aqueles sacolejos esquisitos dos que se diziam “médiuns” era algo de meter medo, mas Andréa não desistiu. Entrou para a seita e por algum tempo tentou encontrar resposta para seu angustioso problema. Só após a matança de muitos pombos e galinhas pretos e a oferenda de muitos bodes a “Exu” tanto nas encruzilhadas como nas portas dos cemitérios e no próprio terreiro foi que terminou por se desiludir. O Candomblé não se diferenciava muito das seitas evangélicas, no que dizia respeito ao fanatismo e ao apego ao dinheiro. E ambos mentiam descaradamente. Prometiam, prometiam e prometiam, mas nada de concreto faziam. Passou-se para a Umbanda. Muito similar ao Candomblé, também ali não havia senão fanatismo e uma disputa acirrada pela “posse” de um Guia que fosse mais “poderoso”, mais “Chefe” mais e mais “mais“. Mas a Umbanda também não lhe ajudou. Os seus guias desfizeram muitos “trabalhos” e chamaram para a cética mulher uma entidade que nunca se manifestou, por mais que ela fosse colocada na roda do desenvolvimento espiritual – como ali se dizia. Ao final, Andréa concluiu que tanto na Umbanda, quanto no Candomblé e no Evangelismo o fanatismo era igual, a mentira era igual e o egoísmo era igual. “Eles se merecem”, concluiu ela afastando-se de toda e qualquer religião e de toda e qualquer seita. Seu ceticismo fez que se tornasse alguém fechada para a comunicação, desconfiada da raça humana e uma pessoa odiosa. O catolicismo há muito se havia queimado com ela. A adoração da culpa, o desprezo muito mal disfarçado pela mulher e as mentiras absolutamente impossíveis de engolir por quem tenha um Q.I. normal levaram-na à descrença muito antes de seu problema atual. Em seu íntimo Andréa ansiava por conhecer algo além das fantasias de homens tão ou mais ignorantes que ela e com certeza mais maliciosos e espertalhões.

Quando o simpático pescador lhe falou as coisas estranhas naquela noite que ela passou a chamar de “noite de meu mais maravilhoso pesadelo”, muita coisa ficou como se gravada em fogo na sua recordação. Um choque muito forte se dava em seu interior, entre o que o simpático ancião lhe dissera e que ia de encontro a tudo o que os falsos profetas apregoavam, e o condicionamento de medo, incerteza e tolhimento que os “representantes de Deus na Terra” lhe haviam feito. Agora, Andréa sentia-se impulsionada para a busca do Conhecimento e da Sabedoria. Só não fazia idéia de onde poderia encontrar o Caminho, mas sentia no fundo de seu coração que ele existia. Durante muito tempo permaneceu silenciosa e evitando falar sobre sua estranha experiência. Recordava com muita vivacidade a presença do pescador. Lembrava de seu rosto, de seus cabelos brancos e de sua paz ao falar e ao ordenar coisas absolutamente insólitas para os seus padrões morais e que, no entanto, agora lhe pareciam uma verdadeira dádiva divina. As palavras dele lhe vinham, com o passar do tempo, muito confusas, mas recordava de algumas coisas que a estarreciam, como a história que contou sobre o homem Jesus. Aquilo a incomodava e a excitava. Se o que o pescador dissera fosse a verdade, então, tudo, absolutamente tudo, teria de mudar na face da Terra. Ele humanizara Jesus. Ele colocara Jesus ao nível dos homens e isto o tornava muito mais simpático, muito mais aceitável do que aquela coisa incompreensível pintada pela Igreja Católica e exagerada pelos evangélicos histéricos.

O que Andréa não sabia era que aqueles conhecimentos um dia lhe seriam tanto de grande valia como de grande aflição…

Em sua memória havia uma espécie de esquematização clara do que o pescador lhe ensinara e que era a seguinte:

UM CÍRCULO – que simboliza o Universo sem princípio nem fim. E este círculo vazio simboliza o estado de repouso do Criador, quando toda a Criação está em suspensão e tudo não passa de pura possibilidade. Neste estado o Universo encontra-se em Pralaya. Nele, só o NADA cheio de POSSIBILIDADES.

A seguir vem o Círculo Cheio de matéria divina (fig. 2). Este círculo simboliza o Universo em Manvântara. Este é o período da Criação, quando Sete Ondas de Vida o percorrem e possibilitam toda a saga da Vida Manifestada na Forma durante aquele Manvântara. No Início do Manvântara o Espaço (Consciência de Deus) é preenchido pelas “bolhas” de Koilon – a matéria primordial.

Surge, então, no Universo, O Germe da Criação para cada Centro de Emanação de Energias, as quais são próprias para determinados tipos de Formas que suportarão a Vida naquele Centro. No caso da Vida manifestada na Terra, este Germe compreende o Logos Solar.

O Senhor da Criação para um determinado Centro de Emanação de Energias comanda todo o Universo daquele Centro com seu Esplendor, mas Ele mesmo, que tudo pode, é impotente na Matéria que deve criar para Aprender. Ele necessita de um Seu representante nela.

O homem é, então, criado. Mas por rebeldia cai de sua posição privilegiada entre os Devas no subplano Etérico e desce para o limite superior do Primeiro Círculo Infernal que engloba toda a superfície da Terra, onde adquire o instrumento de seu martírio – o corpo físico denso. A potência do Inominado, nele, fica enfraquecida e dividida. Metade pertence à Luz e Metade às Trevas.

Com a queda do Ser Humano no Hades (um local que, mal comparando, é correspondente ao Inferno dos Cristãos) surge a Cruz Jaina ou Esvástica. Inicia-se o giro da Roda do Samsara, também chamada de Mó das Almas. Através da dor e do sofrimento o homem aprenderá novamente o Caminho para a reconquista do Paraíso Perdido. Não sairá da roda enquanto se desloque nas ortogonais. Terá de buscar o Caminho do Centro, o Equilíbrio Perfeito, principalmente na atividade sexual, motivo de sua queda.

Estes esquemas surgiram durante os primeiros dias que se sucederam à visita do estranho pescador e foram tomando forma na mente de Andréa à medida que ela mais e mais meditava no assunto. Seu comportamento não se alterou no quotidiano e ela dava a perfeita impressão a quem a observasse, como muitas vezes o faziam sua patroa e o comandante do iate, de que nada sabia ou nada se recordava daquela estranha noite no chalé. Embora fosse a mesma Andréa prestativa, suave nas maneiras e taciturna no falar, por dentro a mulher mudara substancialmente e estava mudando cada vez mais. Uma nova fé nascia de algum lugar muito profundo em seu Ser. Uma fé que não tinha nenhum pregador frenético para ser acreditado como verdadeiro. Uma fé silenciosa, que ia mudando cada vez mais e mais fortemente aquele seu pessimismo diante da vida. Uma força interior que lhe dava a convicção de que tudo era absolutamente passageiro e que, se assim o desejasse, poderia mudar sua atual situação.

Andréa passara a esperar a volta do pescador e todo final de dia saia disfarçadamente para a sacada e ficava observando o mar na esperança de ver um barco que identificasse como o dele. Mas os dias se sucediam como as contas de um rosário, monotonamente, e o pescador não aparecia. Mesmo assim, a mulher não desanimava. Sabia, sem saber porque sabia, que ele voltaria. E quando isto acontecesse, por mais esquisitas que fossem as coisas que lhe acontecesse, segui-lo-ia com fé e determinação…