Ele sabia ser feliz, mas quando seu dia de dor se avizinhava, não podia escapar a uma grande tristeza e à solidão que sentia cada vez mais crescer ao redor de si...

Ele sabia ser feliz, mas quando seu dia de dor se avizinhava, não podia escapar a uma grande tristeza e à solidão que sentia cada vez mais crescer ao redor de si…

O que foi mostrado aos irmãos de Yehoshua ninguém pôde ver, senão eles. O certo é que saíram da gruta totalmente transformados. Estavam envelhecidos, cabelos encanecidos, barbas embranquecidas e faces um pouco enrugadas. Mas no olhar de cada um deles via-se um quê de assombro, maravilha e reverência jamais vistos em ninguém. Entraram no Mosteiro com passos firmes, maneiras brandas e altaneiras. Jeroboão os observou de longe, em companhia de Míriam, a mãe. Ambos permaneceram silenciosos até que os irmãos de Yehoshua sumissem templo a dentro. Então, os dois se entreolharam e acenaram afirmativamente com as cabeças. Jeroboão desceu e foi ter com os irmãos. Eles estavam sentados nos almofadões, olhos fechados e expressão de grande inebriamento. O Rimpoche tocou no ombro direito de cada um e quando eles abriram os olhos convidou-os, com um aceno de cabeça, a acompanhá-lo em silêncio. Foram conduzidos para uma gruta de pedra, por onde desceram até um corredor iluminado por velas de cera grossas e compridas. Um a um eles foram introduzidos em pequenas celas, onde havia uma cama, uma jarra com água e grossos lençóis feitos com o couro peludo e curtido de iaques. As portas das pequenas e frias celas foram seladas e o rimpoche se retirou sem falar nada.

Yehoshua, por sua vez, só voltou a ser visto em Hemi à noite, na décima segunda hora. As últimas orações da noite tinham sido feitas e Jeroboão estava reunido com a mãe, a esposa e as irmãs do Mestre.

O monumentoso Templo de Salomão, o Templo de jerusalém.

Longe dali, mergulhados na ignorância da Ganância, da Mentira e da Crueldade que legariam à posteridade de todas as nações, os maus nem desconfiavam do que iram fazer ao Rei dos Reis.

— Em três dias completarei meus 30 anos de vida entre os homens. É chegado o tempo de eu retornar ao povo de Abraão.

Fez-se um pequeno silêncio constrangedor. As mulheres, com exceção de Míriam, a mãe, não compreendiam porque tinham de retornar. Elas se haviam adaptado tão bem ali, que a vida anterior lhes parecia tão distante quanto a Lua da Terra.

— Tu nos falaste pouco de tuas andanças, filho — disse Míriam, a mãe, sorrindo levemente. — Por que não nos contas mais sobre o que fizeste este tempo em que estiveste andando por terras estranhas?

As danças tribais entre os índios brasileiros aparentam terem somente um ritmo. Todos circulam cantando, balançando os corpos e batendo forte o pé direito no chão.

Entre o povo tupi da Terra das Palmeiras, havia a lenda de que um homem, chamado Issa, lhes tinha vindo do mar e lhes tinha ensinado como usar as plantas como remédio. E ele lhes falara muito sobre o grande Tupã…

— Mãe, onde fui e com quem falei; onde ensinei a Verdade, ficará somente entre os povos que visitei. Povos orientais de costumes muito diferentes dos que adotam os povos deste lado de cá do mundo; povos de terras distantes, que vivem dentro de florestas e são inocentes como crianças e cujos costumes seriam considerados bárbaros demais pelos homens de hoje, que se julgam civilizados… Vosso filho pregou entre todos eles. E entre todos deixou discípulos. Sei que minhas palavras sofrerão muitas alterações, mas a mensagem que elas contêm permanecerão como uma sombra inarredável de seus sons, de suas mensagens. Elas serão adaptadas às capacidades incipientes e às realidades primitivas em que vivem e na qual acreditam aquelas gentes. Mas a essência de minha Mensagem, o Amor entre as gentes, permanecerá em todos aqueles filhos de Meu Pai e meus irmãos. De um ou de outro modo, aqueles irmãos meus me seguirão e darão grandes exemplos de ternura, honra, amor ao próximo e ao Criador de Todos eles e de toda a Terra. Eu vos cansaria inutilmente os ouvidos com narrativas tolas. Vamos, pois, repousar nossos corpos físicos que necessitam disto em períodos bem definidos.

Yehoshua levantou-se, beijou na face cada uma das mulheres e com a mão na cintura de sua esposa retirou-se para seus aposentos. Aquela foi sua última noite de prazer humano carnal…

Aquele dia do mês que viria a ser conhecido muitos séculos depois como Agosto, o Mosteiro de Hemi amanheceu festivo e todo enfeitado. Houve muitos cânticos alegres e muitas danças durante o dia. Em todas as festividades Yehoshua foi o homenageado de honra. E ele comeu e bebeu fartamente. Mas entre uma comemoração e outra, Míriam, a esposa, notava-lhe certa tristeza nublando-lhe o olhar. Havia em seu esposo uma indefinível apatia; um leve distanciamento de toda aquela alegria. Ele parecia estar só, mesmo cercado de monges que o admiravam e procuravam agradá-lo com as maiores gentilezas de que eram capazes.

Já o sol esmaecia sua luz quando Míriam, a irmã, bateu palmas e chamou a todos para o grande templo. Ali, sentados e expectantes, todos a ouviram.

Como se fosse uma bailarina dos dias atuais, Míriam dançou como jamais uma mulher apaixonada o fez.

Como se fosse uma bailarina dos dias atuais, Míriam dançou como jamais uma mulher apaixonada o fez.

— Queridos e inesquecíveis irmãos monges e monjas — disse ela em sua voz cristalina — hoje é aniversário de 30 anos de nosso irmão Yehoshua. Contra nossa vontade, ele decidiu que devemos retomar uma vida que de bom grado todas nós dispensaríamos sem qualquer saudade. No entanto, aprendemos que a Vontade de Yehoshua não se contraria. Ela é de ferro e tão firme quanto estas montanhas. Assim, antes de nos irmos; antes que encerremos este dia que jamais será varrido de nossas recordações, Míriam, a ditosa esposa de meu amado Yehoshua, dançará para todos três músicas do povo para o qual retornaremos em breve.

Fez-se silêncio, enquanto todos aguardavam que os músicos se acomodassem. Então, a primeira música começou, suave, melódica, que foi num crescendo alegre e festivo. Míriam, a esposa, surgiu radiante, trajando leves e diáfanos lenços de seda transparente, que esvoaçavam ao seu redor como se tivessem vida própria. E ela dançou.

E dançou com muito amor.

E dançou com os olhos marejados. voando e rodopiando sobre o tablado como um colibri ao redor de uma flor.

E seu corpo esguio e de belas e suaves curvas, rodopiava como se movido por invisíveis cordéis. E seus movimentos suaves eram lindos como lindo é o bailar abrupto da borboleta de asas azuis. A platéia assistia aos seus rodopios como que hipnotizada por sua beleza incomparável. E quando os últimos acordes da última melodia cessavam, ela caiu de modo estudado sobre o colo de seu esposo, olhando-o totalmente feliz e enamorada e lhe puxou a cabeça para um longo e sensual beijo na boca.

Yehoshua guardaria a recordação daquele momento, que para ele tinha sido uma grata surpresa, por todo o Manvantara de existência da Terra…

A orquestra entrou em uma melodia mais himalaica e Yehoshua ergueu-se puxando sua amada pela mão. E os dois dançaram. E a música foi mudando para uma melodia acelerada, parecida com aquela dos ciganos. E Yehoshua mostrou que era um bailarino incomparável. Erguia sua amada no alto como se ela não pesasse nada. Jogava-a acima de sua cabeça e a recebia de volta nos braços fortes como se ela fosse feita de pluma. Subitamente eles eram dois deuses impecáveis e imaculados dando um espetáculo único para olhos especiais e mentes plenas de Sabedoria e Amor.

E a dança durou um tempo não medido. Mas quando a música cessou e os dois ficaram imóveis como duas estátuas que se olhassem nos olhos para toda a Eternidade, seus corpos estavam suados e o suor lhes pingava da testa e da ponta dos narizes. Curvado sobre o corpo de Míriam, segurando-a com um braço e mirando seu rosto, Yehoshua deixava cair sobre ela seu suor, que, de mistura com o que dela escorria e caía sobre o tablado como gotas de cristais.

Não houve aplausos, mas um silêncio reverente. Então, Ruth subiu ao palco com dois copos de vinho que entregou aos dançarinos. Rindo, eles dispensaram o vinho e pediram água. Tinham sede. E quando Ruth trouxe os copos com o precioso líquido, Yehoshua ficou um momento olhando para ele no copo. Então, ergueu-o no ar e disse com voz clara:

— Um dia terei sede e pedirei água. Mas me darão vinagre, o símbolo do desamor que meus irmãos hão de alimentar em seus corações por muitas e muitas gerações… Pobres irmãos meus. Chorarão muitas dores por anos e anos de tormentas e desditas, porque terão tido a Luz entre eles e não a terão visto… Mas aqui e agora, entre vós, beberei a água que jamais hão-de me servir os que me vão matar. Eu os saúdo e os pedôo desde já!

E ele bebeu com sofreguidão toda a água do copo, como se ela fosse a última da Terra.

Um murmúrio percorreu a platéia, desconcertada com aquelas palavras incompreensíveis para os presentes, exceto um. Míriam, a mãe, levou a mão ao coração e sentiu um grande aperto no peito. Duas lágrimas lhe rolaram pelas faces rosadas e ela curvou a cabeça e sufocou o pranto nas palmas das mãos, para que as outras mulheres não a vissem chorar…