"O que é fé? Eu lhes digo..."

“O que é fé? Eu lhes digo…”

Recebo a visita de velhos amigos – Felício e Vera, Orozimbo e Jesus de Deus. Chegaram todos juntos. Uma algazarra danada. Muita coisa para contar, principalmente os dois primeiros. Jesus de Deus ri muito, mas é reticente e fala pouco. Diz que esteve em Roma e andando por aí. Conversa vai, conversa vem, e de repente surge um debate sobre a Fé.

A discussão se acirrou. Felício defendia a tese católica: a Fé é um Dom de Deus. O homem só a recebe se ora com contrição e se entrega de corpo e alma ao Criador. A Fé não está no homem, mas em Deus. É Ele que a concede como um bem. Jesus teria provado isto, quando seus discípulos não conseguiram curar o menino endemoniado. Jesus os teria censurado pela falta de Fé. Trouxeram a criança a Ele e ele expulsou o demônio que a atormentava. A discussão se acirrou e eu notei que Jesus de Deus sorria e se abstinha de dar opinião. 

— É preciso ter o coração puro — dizia Felício, vermelho de entusiasmo. — Se não houver pureza no coração da pessoa, não haverá lugar para a Fé.

Ele nunca falou nada errado. E ensinou. Só que, como disse, "veja quem tem olhos de ver; ouça quem tem ouvidos de ouvir".

Ele nunca falou nada errado. E ensinou. Só que, como disse, “veja quem tem olhos de ver; ouça quem tem ouvidos de ouvir”.

E lá se foram para a Bíblia buscar novamente a palavra do Cristo. Voltaram à história do menino endemoniado, quando Jesus teria dito a seus discípulos: “Se tiverdes fé direis a esta montanha move-te daqui para lá e ela obedecerá”. Aí, a coisa pegou fogo. A montanha era mesmo de pedra, ou Ele falara metaforicamente?

Não sei quanto tempo durou a discussão entre os três. Orozimbo apenas ouvia e pitava. Para ele aquilo era o de menos. Fé se deve ter na capacidade de Olorum e seu filho, Oxalá, julgar o pedinte e atender ou não os pedidos feitos pelo necessitado de ajuda e levado a Eles por Exu. Se qualquer um d’Deles visse que o rogante tinha merecimento, atenderia o pedido. Pronto. Nada mais simples. Exu voltaria e faria o “milagre” solicitado. Exu só tem poder se Olorum ou Oxalá lhe permitir que aja. Sem esta permissão, Exu não faz nada. Não atende nada. Ponto final.

Gabriel, para Orozimbo, é Exu e ninguém lhe muda sua crença.

Gabriel, para Orozimbo, é Exu e ninguém lhe muda sua crença.

Ao ver de Orozimbo, Exu recebe vários nomes no Cristianismo: São Miguel, São Gabriel, São Rafael e outros. Não importa. Exu não se incomoda com os nomes que lhe dão. Ele apenas serve fielmente a Olorum e seu Filho, Oxalá. De passagem, também pode obedecer a Iemanjá, mas em primeiro lugar estão o Pai e o Filho.

Solicitado a participar, Jesus de Deus respondeu monossilábico. Segundo suas palavras, a Fé é um Dom do Homem. Não um dom difícil, pois só o ato de viver já implica a existência da Fé. Somos os mais fracos seres da Natureza e Deus nos teria feito assim exatamente para que vivêssemos o Milagre da Fé. Não fosse a Fé e o homem não teria passado da condição de animal à condição de humanidade em que se encontra, neste momento, desenvolvendo-se e evoluindo espiritualmente aos trancos e barrancos. Os outros questionaram sua afirmativa de que a fé é um Dom do homem, não de Deus ao homem. Aí a coisa pegou fogo mesmo. Vera estava vermelha de excitação. Seu marido não ficava atrás. Ele ainda era o padre, eu observei para mim mesmo. Ela, a questionadora. Orozimbo o candomblezeiro inveterado. E Jesus de Deus o mesmo escorregadio de sempre. Não se inflamava e ria divertido da querela que se formara entre os outros, cada qual querendo mostrar que sua tese era a melhor e a mais certa. E então, de repente, todos se voltaram para mim e instaram que eu dissesse o que pensava a respeito.

Fez-se silêncio expectante. Jesus de Deus me olhou e riu divertido quando me viu atrapalhado com a atenção de todos presa a mim.

Respirei fundo e falei.

Ele teve fé e fez o impossível.

Ele teve fé e fez o impossível. Todos que o seguiam era homens de fé, ou não teriam levado a efeito um dos mais grandiosos exemplos de coragem e determinação.

— Eu vou contar um pedacinho do que vivi, em 1970. Acho que isto vai esclarecer o que creio que seja a Fé. Eu tinha seis meses de trabalho na Seção de Seleção e Treinamento de Pessoal da EMBRATEL. Era o responsável por elaborar e aplicar as provas de seleção nos candidatos. Também era o responsável por classificá-los por nota obtida, enviá-los ao serviço de Psicologia do CEPA e receber o resultado da avaliação, a fim de elaborar a ordem de classificação final e providenciar a admissão dos selecionados até o número de vagas existentes. Ora, no Rio de Janeiro o que mais tem é negro ou descendente de negro. Ali, na Cidade Maravilhosa, não há, a rigor, ninguém que seja realmente ariano puro. Uma miscigenação maior que a que existe no carioca não se encontra em nenhum outro Estado brasileiro. Então, qual não foi minha surpresa quando fui chamado à Presidência e ouvi do General Francisco Augusto Gomes de Moura Galvão uma ordem que me atordoou: “Brito, você está proibido de selecionar negros para a empresa. Na EMBRATEL não entra negro. Fui claro?” 

Ele é negro. E um belo negro. E é meu amigo. E não abro mão de sua amizade por título algum da terra.

Ele é negro. E um belo negro. E é meu amigo. E não abro mão de sua amizade por título algum da terra.

Fiquei em silêncio. O General Galvão tinha um modo de tratar, com quem não tivesse sido Oficial Superior nas forças armadas, com bastante preconceito. Nós, mortais comuns, éramos obrigados a permanecer de pé diante de sua mesa. Sentar, só era permitido se se tivesse sido um major ou patente superior, ou se se ainda fosse isto. Fora esta condição, só era permitido sentar diante de sua mesa aquele que ocupasse um cargo de diretoria de alguma outra empresa e viesse em missão em nome dela, ou, então, fosse engenheiro de telecomunicações, uma especialização da Engenharia raríssima no Brasil daquela época. Ficar de pé para reconhecer minha condição de subalterno diante de um merdinha como o Galvão era coisa que me revirava as entranhas. Ele era miúdo e eu sempre me perguntei como diabo tinha conseguido sobreviver ao treinamento dos aspirantes a oficiais do Exército. Eu sabia que o treinamento físico, na AGULHAS NEGRAS, era para macho. Muito macho. E aquele esbirro de homem ali, diante de mim, não me parecia grande coisa. Na verdade, ele e eu, fisicamente, éramos bem parecidos e eu tinha sobrevivido ao terrível treinamento de guerra que sofrera no Terceiro Regimento de Infantaria, em São Gonçalo, Niterói. Por que não ele?

— Você me entendeu? — A voz imperiosa e arrogante me tirou de minhas reflexões. Respirei fundo e, com calma forçada, lhe respondi.

— Sim, senhor. Entendi. Mas quero esta ordem por escrito.

Foi como se tivesse cutucado as costelas do Diabo com palito de fósforo. O homem se pôs de pé e esmurrou o tampo de vidro sobre sua mesa, avermelhando-se até o último fio de cabelo.

— Quem diabos você pensa que é para me questionar? — Urrou o esbirro de gente. ele se esquecia que o outro esbirro de gente diante dele era tão ou mais teimoso que ele mesmo. E reagia negativamente a qualquer ordem dada aos berros. A raiva se apossou de mim e eu me curvei sobre a mesa, propositadamente imitando-o no apoiar-me com os punhos fechados sobre o tampo de vidro. Encarei-o olho no olho e lhe rosnei, cheio de raiva e a ponto de aplicar um tremendo soco na cara.

— É ordem da Diretoria desta Empresa. Nada se fará aqui que não seja documentado. E está escrito em um memorando que me foi enviado por esta Presidência: “A Seleção de Pessoal tem de ser absolutamente rigorosa. Ninguém será admitido sem que tenha passado nas provas de seleção e sido indicado por serviço de psicologia específico”. Naquele memorando não é dito que está proibido a seleção de negros ou mulatos. Então, esta sua ordem, “general” (e eu pronunciei o título militar com destaque, para mostrar que a rigor ele não passava de um civil como eu, já que era reformado), não tem nenhum valor. A menos que seja ratificada pela Diretoria TODA, não vou obedecê-la e ponto final. 

Não preciso discorrer sobre a acre troca de palavras que se seguiu ao que eu disse. Eu tinha acabado de selar meu destino ali mesmo. Havia comprado uma briga de vida ou morte com o arrogante ex-general que ainda era bajulado como se ainda fosse general. Meu anjo de guarda, a partir daquela manhã e daquela hora, passou a ser a sombra do DOI-Codi I. Eu iria amargar três anos de perseguição acirrada; de armadilhas traiçoeiras e mentiras montadas para me lançar naquele centro de Tortura do 1º Exército. Rancoroso e empertigado como se tivesse engolido o cetro do Rei de Roma, o espirro de homem babou na gravata e gritou comigo como se eu fosse um recruta de seu extinto quartel. Dei-lhe as costas e saí sem atender aos seus chamamentos histéricos. Ia decidido a colocar negros nos quadros da empresa, custasse o que custasse. Não achava justo que a pessoa tivesse estudado com afinco para passar na prova; fosse indicada pelo serviço de psicologia sem restrições e perdesse sua vaga somente porque era negro. Aquilo, para mim, era desumano. Eu não ia de modo algum obedecer àquela ordem imbecil. Além disto, sou neto de um preto retinto, do qual eu gostava muito. Obedecer ao desgraçado espirro de p… era ferir de morte a memória de meu avô. Era aviltar minha descendência. Nem por Jesus Cristo eu faria aquilo.

E travei a mais árdua batalha contra todos os chefes da empresa, militares ou afilhados deles. Mas a primeira negra entrou na EMBRATEL contra tudo e contra todos, um mês depois do entrevero amargo. E depois dela, mais oito. E em São Paulo, pus para dentro da EMBRATEL quinze nisseis, o que “furibundou” todos os Chefes. Eu me tornei a maior persona non grata da Empresa. O alvo certo de todos os militares, exceto de dois: Coronel Carlos Alberto Goulart Pereira, e o Brigadeiro Franco (não sei o nome dele todo). Só estes me defenderam. O primeiro, abertamente e, por isto, chegou a sofrer dois infartos devido à tremenda tensão que teve de enfrentar junto comigo, lutando ao meu lado contra todas as armadilhas que os falsos militares (eram todos reformados) me armavam. O segundo, em silêncio e nos momentos certos. Como um sombra, guardando o máximo de silêncio, o Brigadeiro Franco atuava no momento certo, sem estardalhaço e sempre sem ser visto em ação. Mas ele me tirou de três situações críticas, nas quais parecia que eu não teria escapatória. O primeiro se foi e me deixou grande saudade. O segundo, depois que saiu da EMBRATEL, nunca mais soube dele. Também deve estar morto, a esta altura, mas se não houver ninguém que lhe tenha profundo agradecimento e grande admiração na Terra, há eu. Sou a exceção. Não vou discorrer sobre a batalha que travei contra toda a pestilenta discriminação, o pestilento racismo que explodiu ali. Era eu sozinho contra todos. E sofri o diabo por causa daquele momento de enfrentamento da arrogância entronada na percepção de Nada como Poder. O general está morto há muitos anos. Morreu paralítico, numa cadeira de rodas, à beira da Praia de Copacabana, onde morava. E com ele já se foram os cinco coronéis chamados exclusivamente para, sob a capa de constituírem a Auditoria Interna, tentaram por todos os meios concretizar provas que lhes dessem motivos para me lançar dentro das paredes escuras e terríficas do DOI-Codi no Rio de Janeiro.

Eu agi por fé. Fé na Justiça. Fé na humanidade contra a cegueira do racismo. Fé em valores que devem ser defendidos a qualquer preço, em qualquer situação. É isto que eu acho que seja Fé. Não ir a uma igreja, seja ela de que tipo seja, pegar um livro de escrituras e agitá-lo acima da cabeça, olhos fechados, lágrimas de histeria correndo pela face, gritando Aleluia ou Salve Salve ou coisa parecida. Para mim isto não é Fé. A Fé, a verdadeira, é uma herança espiritual do Homem, visto que, segundo as palavras do próprio Cristo, “vós sois deuses e podeis fazer o que faço e muito mais, até”. A fé realmente remove montanhas. Não montanhas de pedra e pó, que isto não vale nada. Mas a montanha da arrogância, da ignorância, da prepotência, da tirania e da cegueira humana. Esta, sim, é a montanha a que Ele se referiu. Eu movi a montanha. Eu, sozinho e esmirrado, fiz o que todos achavam impossível e, quanto me lancei à luta, achavam impossível que saísse vivo. E saí. E estou aqui, enquanto eles já partiram. Não sei como será quando nos encontrarmos lá do outro lado, mas espero que tenham adquirido alguma visão e se envergonhado da mesquinhez com que agiram, quando pensavam que eram poderosos.

Fez-se tão grande silêncio entre meus amigos que eu, que tinha voltado àquele passado amargo, retornei a mim e os olhei interrogadoramente. Senti que só Jesus de Deus e Orozimbo não estavam agastados. Então, levantei-me e fui buscar uma garrafa de vinho. Abri-a, distribui os copos e, sorrindo, despejei o líquido neles, dizendo:

— Tomai e bebei. Este não é o vinho da água que Ele transformou, mas substitui sua presença entre nós. Brindemos ao maior amigo que eu já tive e tenho na vida.

— E quem é ele? — Quis saber Vera, inocentemente.

— Vocês o chamam de Jesus. Eu, de Yehoshua. Saúde!