Ele deixou o mosteiro silenciosamente e foi atrás das pessoas. Queria ensinar.

Ele deixou o mosteiro silenciosamente e foi atrás das pessoas. Queria ensinar. Tinha pressa.

Aquela manhã alvoreceu estranha. Os irmãos de Yehoshua não estavam na labuta diária e os monges, acostumados com eles, sentiram a falta. Um foi ter com Jeroboão, que lhe informou que os irmãos de Yehoshua estavam em retiro, só devendo sair dele após decorridos 13 dias de jejum. Neste tempo se alimentariam de água e… ar. Os monges sabiam que todos tinham de fazer jejum e já o faziam há bastante tempo. Mas treze dias só com água e ar? Ninguém tinha sido submetido a tanto. O monge retornou aos outros e lhes informou sucintamente do que tinha sabido. A faina continuou sem mais questionamentos. As mulheres também estavam na faina diária. Tudo parecia absolutamente normal. Mas Yehoshua não se encontrava em nenhum lugar no Templo. Ele havia saído bem cedo para ir à vila. Não dera seu paradeiro a ninguém e apenas Jeroboão podia sentir por onde ele andava naquele exato momento. Mas o ancião não falava sobre o que intuía ou sentia. Quando muito, sorria diante dos questionamentos que ouvia.

O Maior dos Avatares, Sua história foi tão deturpada que, hoje, grande parte dos povos não lhe dão mais valor que o que atribuem às suas crenças mundanas e, vez por outra, esta suplantam aquela.

Yehoshua se colocava de propósito em situações de grande perigo, com destemor e com um único objetivo: ensinar a Paz e a Harmonia entre as pessoas.

O jovem Yehoshua se deleitava perambulando por entre aquela gente barulhenta. Estava no mercado. Era na verdade uma feira a céu aberto. Ali se faziam os mais variados negócios. Ali se falavam os mais variados dialetos e línguas distantes, como a chinesa e a turca, por exemplo. Ele não parecia ter qualquer dificuldade em se comunicar com qualquer pessoa. Sua simpatia, seu sorriso luminoso e suas tiradas chistosas lhe davam acesso às frutas de que tanto gostava, pois não tinha um único níquel com que negociar. Vez que outra, ele dava espetáculo com o cajado alto que trazia consigo. Eram exercícios vigorosos, de movimentos ágeis e saltos acrobáticos. Havia muita queda que seu corpo elástico amaciava, para deleite dos espectadores. As barracas próximas logo estavam cheias de fregueses atraídos pelo jovem hebreu que os deslumbrava com suas habilidades e isto fazia que ele tivesse acolhida imediata dos comerciantes, sem que este lhe cobrasse um único centavo pelos acepipes que escolhia.

Curiosamente não trajava o hábito do Mosteiro e, por isto, não era identificado como um monge. Isto não lhe dificultava a comunicação fácil. Trajava uma calça de seda, larga no corpo, mas bem amarradas nos tornozelos, lembrando a vestimenta dos gênios dos contos árabes. Sua blusa também era de seda e aberta no peito, deixando ver um tronco musculoso, de músculos rijos e peitorais amplos, de pele branca. Sua cabeleira acobreada chamava a atenção de todos, pois era muito raro ver-se alguém que tivesse uma semelhante. Sua barba, muito bem aparada, lembrava aquela dos sultões ou marajás indianos, mas terminavam em uma ponta muito bem cuidada.

Há séculos a prática do wushu chinês fascina as pessoas. Mas poucos são os que primam pela filosofia da Arte. Focam no bater somente.

Há séculos a prática do wushu chinês fascina as pessoas. Mas poucos são os que primam pela filosofia da Arte. Focam no bater somente.

Quase meio-dia. Yehoshua sentou-se para descansar. Os exercícios puxados faziam que suasse, embora a temperatura próxima dos sete graus acima do zero, não animasse a ninguém imitá-lo trajando aquele tipo de roupa. Estava degustando algumas tâmaras secas, raras ali em cima, quando viu surgir um pequeno grupo de chineses que vieram direto até onde ele estava. O mais velho, pele encarquilhada, olhar arguto, barba de pelos hirtos, mirada direta, olhos escuros e muito forte, cumprimentou-o juntando as mãos diante do rosto. Yehoshua apenas curvou levemente a cabeça, sorrindo.

— Vimos tua demonstração de habilidades com esse bastão que tens ao lado do corpo. De que escola tu és?

O ancião fitava-o sério, parecendo desafiador.

— Da escola de meu Pai — respondeu o jovem hebreu, sorrindo com simpatia para o ancião sisudo.

— E quem é teu pai? Onde é sua escola? — Inquiriu o homem, sem parecer notar o sorriso acolhedor de Yehoshua.

— Meu pai também é vosso pai. Sua escola é o mundo em que todos vivemos.

Houve um pequeno silêncio entre os recém-chegados, que se entreolharam. Então, o ancião trovejou.

Um metre de Wushu geralmente são quase adorados por seus discípulos.

Metres de Wushu geralmente são quase adorados por seus discípulos.

— Não me faltes com o respeito. Sou um Mestre muito respeitado em minha terra e vim ter contigo buscando conhecer tuas habilidades mais profundas. Queremos ver o que realmente sabes fazer, além de saltar como um macaco bêbado.

— Sois mestre de quê, posso perguntar? — E Yehoshua, agora, estava sério.

— Wushu. Sabes o que é isto?

— Não. Mas não me parece algo importante, desculpe-me. A mim, me basta viver saltando como um macaco bêbado. E a vós?

Em silêncio, o ancião convidou com um gesto de mão o jovem Yehoshua a segui-lo. Todos se puseram em marcha de volta ao centro da feira livre. Ali, o ancião bateu palma três vezes e falou alto, primeiro em cantonês, depois em nepalês e em mais três outros idiomas. Uma grande mole humana se formou ao redor do grupo.

— Tu entendeste o que eu falei? — Perguntou o ancião ao jovem hebreu.

— Não sei falar vosso idioma, mas sei o nepalês e entendi, sim, o vosso desafio. Mas por que desejais medir-vos comigo? Não sou guerreiro. Não uso armas. Nem mesmo as porto. E quanto a bater nos meus irmãos, isto me vira as entranhas.

O combate com bastão de wushu.

O combate com bastão de wushu.

— Qualquer coisa nas mãos de um mestre é uma arma. Teus movimentos são dignos de um bom mestre de wushu, então, o bastão que levas contigo e que usas como cajado pode ser, e creio que seja, uma arma de combate disfarçada. Ninguém aparece aqui há muito tempo se exibindo com tu te exibiste. E se o fizeste foi porque me desafiavas. Então, aqui estou. Vamos ver quem é o melhor.

Yehoshua sentou-se diante do chinês e cruzou as pernas em padmasambava. Fechou os olhos e ficou imóvel como uma estátua. Os homens ao seu redor se entreolharam confusos. O que ele queria com aquilo?

— Por que te sentas como um monge? — Trovejou, raivoso, o ancião. — Anda! Levanta-te e me enfrenta ou vou surrar-te assim mesmo!

Sem abrir os olhos, o Rei dos Reis respondeu:

— Se és tão pequeno a tal ponto, mostra-o aos que nos rodeiam. Mostra a pequenez da alma daquele que os aterroriza com pancadas e armas, pois é só isto que teu espírito tem para oferecer. Eu ofereço riso e alegria. Tu, lágrimas e medo. Então, mostremos aos que nos vêem o que cada um de nós possui, para que julguem o que preferem ter entre eles.

Um pesado silêncio se fez entre o grupo de pessoas que os cercavam. O ancião correu o olhar sobre as faces ao redor e nelas só viu censura e reprovação dirigidas a ele e seus discípulos. Durante um tempo que pareceu uma eternidade ele e os circunstantes se observaram. Então, largando o batão no chão, o ancião ajoelhou-se diante de Yehoshua e curvou sua cabeça tocando o solo com a testa. E assim, falou:

— Não sou nada diante de tamanha sabedoria. Levei minha vida toda aprendendo a bater e ferir; levei minha vida toda acreditando que a Arte Marcial me faria superior a todos os homens. E eis que encontro um jovem que ri, que brinca, que distrai os outros e sabe tanto quanto eu da arte de ferir, mas não a usa. Sou indigno do grau que me conferiram e, diante de vós, jovem sábio, abdico de minha arrogância e de minha violência. De hoje em diante serei um mendigo buscando alcançar o que tu já alcançaste primeiro.

Yehoshua abriu os olhos e sorriu. Pôs-se de pé e carinhosamente tomou a mão direita do ancião entre as suas e o puxou para que se erguesse.

Seu cajado era somente isto: um cajado. Ele nunca foi pastor de ovelhas. Às vezes servia-se do cajado para se apoiar em suas longas andanças.

Seu cajado era somente isto: um cajado. Ele nunca foi pastor de ovelhas. Às vezes servia-se do cajado para se apoiar em suas longas andanças.

— Então, aprende a primeira lição do Amor Fraternal: nenhum homem deve curvar sua cabeça diante de seu semelhante. Todos somos iguais perante meu Pai que está no Céu e em cada um distintamente. O Deus que te habita não é inferior ao meu. Apenas somos diferentes porque a vida nos deu caminhos diferentes a palmilhar. E acredita, meu irmão, isto acontece porque assim o quer nosso Pai Celestial. Jamais um homem desvendará os segredos ocultos nas razões de sua vida. Nunca chegará ao fundo das razões de suas reações emocionais ou mentais. Mas crê em mim, meu irmão: não há nem erro nem pecado naquilo que qualquer pessoa faz. Se o faz de tal ou qual modo, é porque primeiro há uma lição a aprender; segundo, porque não poderia fazer diferente, diante do que deve ser sua aprendizagem espiritual. Terceiro, porque a cada momento na vida de qualquer pessoa há sempre um desafio a ser vencido e que só pode sê-lo pelo dono daquela vida e ninguém mais. E estes desafios superam em muito os combates tolos entre homens que se medem pelas suas habilidades seja em que seja. Tu devias aprender o que aprendeste para ensinar o que ensinaste aos que também deviam palmilhar caminhos semelhantes ao teu. Mas nenhum de teus discípulos continuará tua senda. Alguns tomarão tuas técnicas e as transformarão em caminhos de meditação e aprimoramento da Moral e da Ética no trato com seus semelhantes. Outros, tomarão teus ensinamentos e partirão para a busca incessante da auto-afirmação, porque são pequenos de alma e fracos de espírito. Cada qual definirá sua própria senda e a palmilhará até o último momento. Segue, pois, pela nova senda que acabaste de descobrir aqui, hoje, em silêncio e sem te sentires humilhado, pois teu combate tu venceste. Não contra mim, teu semelhante, mas contra teu orgulho tolo e tua venda espiritual.

Mal terminou de falar, Yehoshua tomou seu cajado e abriu passagem por entre a multidão, afastando-se em direção ao Mosteiro sem olhar para trás. Caminhava rápido, quando um jovem mercador veio postar-se a seu lado. Ele sorriu, sem mirar o companheiro recém-chegado.

— O que desejas, Gabriel? Por que estás aqui, agora?

— Vim dizer-te que não concordo em que te arrisques assim, como acabas de fazer. Tu impedes que nós, teus guardiães, te precedamos e te informemos sobre o que vai suceder. Também impedes que tua consciência divina te revele os eventos do mundo humano para onde te diriges. O que pretendes com colocar-te inteiramente à mercê do acaso e da violência humana? Sabes que há perigo para ti. Onde quer que tu te determines ir, há sempre perigo de morte para teu corpo físico. Por que te arriscas deste modo?

— Não tens a felicidade de viver a vida mergulhado num elemental físico, Gabriel. Tua senda é bem diferente da senda humana. Os elementais físicos têm vida própria; têm desejos próprios; têm objetivos que jamais ultrapassam o material e o finito. E isto é fantástico, meu amigo, pois eles, desde quando nascem do ventre da mulher, já pugnam por viver seu tempo, esticando-o o máximo que puderem. Por isto mesmo estão sempre em oposição ao Espírito, que batalha para retornar à Casa do Pai. Os anseios do Espirito são diametralmente opostos aos anseios dos elementais físicos humanos.

— Mas se o que importa é o Espírito e, não, o Elemental Físico, o corpo de que te serves, então, por que o Espírito humano tem de experienciar este viver agoniado e cheio de sofrimentos?

— Simples: o Espirito vive num mundo de beatitude, de perfeição. Para que aprenda que a Perfeição inclui a imperfeição, só há um caminho: descer à vida elemental. Ser dominado por um tempo por esta vida. Experimentar o que o mundo criado para elementais de todas as espécies tem a oferecer. Só assim poderá, depois, ascender com Sabedoria e Conhecimento. Se não vivenciar isto, não nascerá de novo, como costumo dizer.

— E para que serve esta experiência inferior, Yehoshua? Ela não fica aqui mesmo?

— Não. Ela segue na forma de Conhecimento. Um conhecimento precioso para o Espírito que evoluirá sempre em direção à Divindade.

— Mesmo aqueles espíritos que são característicos dos tiranos e cruéis?

— Nenhum espírito humano é tirano ou cruel, Gabriel; nem tão pouco corrupto ou incorruptível. Ele vivencia a tirania ou a crueldade, a corruptividade e a incorruptividade por suas duas faces, ou seja, a primeira, sendo cruel ou corrupto; a segunda, sendo a vítima da crueldade ou da corrupção. A isto os homens chamam de karma. O karma, na verdade, não é uma Lei punitiva, que punição não faz pare de nosso mundo e tu bem o sabes. O karma é somente um termo para definir a dualidade do viver espiritual encarnado. Assim como um espírito humano pode se revestir de um elemental mulher e experienciar o amor primitivo e intenso da maternidade, também pode revestir-se de um elemental homem e vivenciar o ser dobrado em sua impetuosidade e arroubo pelas armas e pelas lutas, pelo olhar meigo e pelas carícias femininas. Estas vivências duplas são a Lei. Diante dos olhos de meu Pai, Gabriel, não há nem crime nem pecado, senão aprendizagem e evolução. Além disto, o Espírito humano descobre que ainda quando se trate do mundo mais rude e mais denso na Criação de meu Pai, ali habita o Amor sob diversas formas. Que belo não é o amor da mulher pelo seu homem? Que belo não é ver o desenvolvimento da coragem e da abnegação do homem por sua mulher e pela prole que ambos geraram? Nada há mais magnífico neste mundo inferior, meu amigo.

Gabriel caminhou em silêncio e sorrindo ao lado de seu bem-amado amigo e protegido. Mesmo sendo quem era, ele tinha o que aprender daquele ser esplendoroso. 

O Rei dos Reis aproveitava cada momento válido para ensinar. Talvez fosse atrás deles, no mundo dos homens, ainda que sabendo que enfrentaria perigos até mortais. Não lhe importava isto. Queria dar sua mensagem a quantos a pudessem ouvir.

Mas nós, civilizados como nos dizemos ser atualmente, três mil anos depois de Sua estada entre nós nem de longe ouvimos os ecos verdadeiros de sua voz…