Era chegado o dia do retorno e o Mestre dos Mestres parecia, aos mais chegados, um pouco triste..

Era chegado o dia do retorno e o Mestre dos Mestres parecia, aos mais chegados, um pouco triste…

A reunião aconteceu no grande salão de refeição. Nele, apenas as mulheres da família de Yehoshua e o ancião do Mosteiro, Jeroboão. Yehoshua falava.

— Hoje à noite, quando adormecerdes, esquecereis do que quer que tenhais recuperado de quem sois realmente. Não é bom para minha missão que alguma de vós esteja de posse de sua consciência total.

— Eu, também, filho? — A doce voz de Míriam não traía nem preocupação, nem contrariedade. Apenas serenidade e conformação.

— Vós também, mãe. Vosso elemental físico se apoderará novamente de seu controle sobre a vossa vida encarnada nele. Sereis a hebréia com as convicções dos hebreus. Até mesmo radical, como realmente sois devido à educação que vosso elemental físico recebeu. Nós nos desentenderemos várias vezes, mas não vos preocupeis, pois eu não terei qualquer mágoa de vosso gênio forte. Quanto às demais, sofrerão a mesma dominação e se tornarão apenas mulheres judias submetidas às Leis e aos costumes judaicos.

— O quê?! Tu me dizes que eu vou-me tornar uma judia burra?! Então, não vou dormir esta noite! — Revoltou-se Ruth, pondo-se de pé. Yehoshua olhou-a com meiguice no olhar e sorriu benevolente.

— Tu, Ruth, és aquela que é a mais impulsiva dentre todas as mulheres desta família. No entanto, ainda que nos amemos com intensidade, tu e eu, não poderás rebelar-te contra o que determino. E crê em mim: isto é absolutamente necessário.

— E tu? Tu também vais perder tua consciência espiritual? — Questionou, intempestiva, a jovem Ruth, faces afogueada de revolta.

— Sim. No devido tempo. Agora, não é o momento adequado.

— Eu vou…

— Tu vai sentar-te e aquietar teu gênio, irmãzinha. O tempo urge e tereis muito que fazer. Quanto aos meus irmãos, Jeroboão, quero que os prendas aqui até quando… Minha missão estiver deflagrada. Tu saberás. Então, envia-me Matheus. Ele irá conforme esteja e obedecerá ao que eu lhe ordenar.

— E quanto a Yoseph e Thiago?

— Devem permanecer aqui, em meditação e treinamento. Devem vencer o Mâyâ e sem tua ajuda não vão conseguir esta proeza. Quanto a vós, queridas minhas, ide preparar as poucas coisas que devemos levar conosco.

— E tu? O que tu vais preparar? — Perguntou Ruth, ainda raivosa e desafiadora.

— Eu?! — Riu Yehoshua divertido. — Maninha, teu irmão sempre traz consigo tudo o de que precisa. Eu estou sempre pronto. Minha bagagem não implica em mais que meu pente de cabelo, minha lâmina de aparar minha barba, uma roupa para trocar, um par de sandálias extras e um pedaço de sabão. É só.

— Vais-nos dizer que percorreste os países que nos contaste ter percorrido apenas com isso?!

— Ora, não tendo muito comigo, não tinha a que me apegar. E a pouca bagagem é uma vantagem quando se está sempre na iminência de ter de sair às pressas. Vêde vós. Ireis gastar algumas horas arrumando o de que julgais necessário. Eu? Vou dormir. Boa-noite a todas vocês e ao Jeroboão, nosso muito bom amigo.

Sob as gargalhadas do ancião, Yehoshua se levantou, deu um beijo carinhoso em todas as mulheres, cumprimentou o ancião e se retirou com um largo gesto de cumprimento.

— Detesto quando ele faz isto! — Gritou Ruth, batendo o pé no chão, com os punhos fechados.

— Bom, agora que deste vazão à tua raiva, vamos trabalhar. Quanto mais rápido fizermos nossas trouxas, mais depressa iremos descansar – Disse Míriam, a mãe. E todas se retiraram. Jeroboão permaneceu sentado, silencioso, olhar perdido à frente…

Agora era o regresso. Yehoshua procurou manter-se quieto e distante.

Agora era o regresso. Yehoshua procurou manter-se quieto e distante.

Partiram manhã cedinho. Iam com uma caravana que levava óleo, panos, peles e algumas especiarias para vender em Jerusalém e arredores. A viagem transcorreu monótona. Nada aconteceu de notável, exceto a reclamação constante das irmãs de Yehoshua que detestavam o calor do deserto. Finalmente, já ao entardecer, estavam nas terras da Peréia, próximos das margens do rio Jordão.

— Não entraremos em Jerusalém — disse Yehoshua, descendo do camelo que o trouxera até ali. — Seguiremos para Calíore (Nota: ver “A Viagem da Família” – 31/01/2014). Pretendo encontrar-me com Judas Iscariotes, pois sei que dentre todos, ele é o que está ali, à minha espera. Os demais, principalmente os casados, estão entregues à faina de todo dia e até já quase não têm memória de mim.

Ninguém lhe contradisse as palavras. Era quase noite e o caravaneiro convidou a todos acamparem ali mesmo. No dia seguinte, iriam todos a Calíore, pois lá ele também tinha negócios a tratar. Estavam em terras da Peréia, assim, não era nenhum sacrifício fazer o desvio para Calíore. Todos concordaram e acamparam onde a caravana tinha parado.

A noite ia alta e o frio do deserto já incomodava. No entanto, Yehoshua estava sentado em uma duna, distante um pouco do local do acampamento. Míria, sua esposa, e Míriam, sua mãe, na companhia de Ruth e Míriam, sua irmã, vieram ter com ele. Atrás delas vinha o caravaneiro, um árabe idoso, de longas barbas brancas e forte como um búfalo. Todos se sentaram ao redor do Mestre.

Nos tempos de Yehoshua eles abundavam nas terras da Palestina e arredores.

Nos tempos de Yehoshua eles abundavam nas terras da Palestina e arredores.

— Yoshua — disse o caravaneiro — estas paragens costuma ter leões e hienas que caçam à noite. Perto daqui os pastores apascentam suas ovelhas. Não é prudente distanciar-se assim, da caravana. — Não tão perto, meu amigo — disse Yehoshua, rindo. — Estão a muito chão de onde nos encontramos. Um leão não arrasta sua presa por tanto tempo.

— Não falo dos que já caçaram, homem. Falo dos que normalmente se dirigem para as terras de pastoreio. Estamos bem no meio do caminho deles. A fogueira nos protege de seus ataques. Vem, vamos retornar antes que recebamos uma visita inoportuna e… perigosa.

Yehoshua ergueu-se sem dizer mais nada e seguiu o caravaneiro. No dia seguinte, já passava da 12ª hora (18 horas em nosso horário) e a noite começava a se fazer notar, o Mester e seus familiares chegaram à casa onde, sabiam, morava uma parenta de Judas Iscariotes. Foram recebidos com alegria e Martha, irmã de Iscariotes, correu a chamar o irmão. Quando este chegou e viu Yehoshua atirou-se a ele, abraçando-o com efusividade.

— Por onde andastes, Yehoshua? Eu já pensava que nunca mais voltaria a vos ver.

— Andei por muitos lugares, Judas. Tens notícias dos outros a me dar?

Yehoshua confiava em Iscariotes e lhe dava as mais delicadas missões e as mais árduas também.

Yehoshua confiava em Iscariotes e lhe dava as mais delicadas missões e as mais árduas também.

Iscariotes suspirou fundo e com ar de desânimo, convidou o mestre a se sentar. Sua irmã trouxe uma terrina com água onde o Mestre lavou ambas as mãos, o que chamou a atenção de Iscariotes, visto que entre os judeus apenas se lavava a mão direita. Mas ele não disse nada. Depois, foram servidas as refeições, onde o carneiro assado era o prato mais importante. Yehoshua não comeu a carne do carneiro, mas aceitou os pombos assados que acompanhavam o carneiro. Comeu um e muitas frutas. Também tomou vinho e, quando todos estavam satisfeitos, ele e Iscariotes se retiraram para conversar.

— E então, o que tens a me dizer sobre os outros?

— Não tive mais notícias de quase nenhum. Com exceção de Simão, o pescador. Ele vez que outra vem aqui, ter comigo em busca de notícias vossa. Mas não as tendo eu para lhas dar, ele retorna sempre triste. Creio que por sua causa, os outros não têm vindo ter comigo. Satisfazem-se com o que ele lhes transmite. E vós, mestre, o que desejais fazer, agora que regressastes?

— Amanhã mesmo, tu e eu vamos ter com meu primo, João Batista. É preciso que eu seja batizado por ele, para que se cumpram as escrituras.

— Será uma longa…

— Arranja-nos duas mulas. Iremos nelas. Preciso chegar às margens do Jordão, onde sei que ele prega e batiza, para que se realize o meu desejo.

— Tenho as mulas. Sairemos cedo, então.

Os dois se retiraram para dormir, mas Yehoshua passou a noite em claro, mirando o escuro diante de si e suspirando fundo, mergulhado em pensamentos que não eram nada agradáveis…