Demente? Não, corruptor. A fisiognomia de outrora daria a este homem o diagnóstico de demência psiquiátrica em função do estudo de sua face. Pode ser que no futuro se venha a considerar a corrupção como sintoma de demência mental social.

Demente? Não, corruptor. A fisiognomia de outrora daria a este homem o diagnóstico de demência psiquiátrica em função do estudo de sua face. Pode ser que no futuro se venha a considerar a corrupção como sintoma de demência mental social.

Você conhece o sujeito com nome estranho batizado como Valencius Wurch Duarte Filho? Claro que não. Pois bem, de leve, ele pode ser comparado com os antigos torturadores do III Reich, no que toca ao campo da Psiquiatria no Brasil.

Lobotomia, manicômios nos moldes dos tempos do início do Século XX, eletrochoques etc, etc, etc… são o receituário dele para tratamento de disfunções psiquiátricas. Bom, né? Eu digo que não. Quando era estudante de Psicologia, na UGF, fui fazer um estágio em uma famosa clínica psiquiátrica situada na Barra da Tijuca. Um lugar bem aprazível, amplo, arborizado, aparentemente um paraíso para se internar parentes desequilibrados por motivos diversos. Enfermeiros todos de braco, com roupas absolutamente limpas. Enfermarias impressionantes quando olhadas sem profundidade. Impressionava.

Eu pensei que ia aprender muito ali dentro. Mas…

Já no primeiro dia de efetivo trabalho tive uma surpresa enorme. Uma surpresa que de saída já me dizia que eu não ficaria ali muito tempo – o estágio duraria 6 meses, com trabalho de 4 h por dia, de segunda a sábado, e não era pago.

Pacientes psiquiátricos em hospital de Brasília.

Pacientes psiquiátricos em hospital de Brasília.

Recebi meu avental limpíssimo, com o logotipo da clínica e fui sentar-me em um banco sob uma árvore, à espera do que seria determinado para mim. Não aguardei nem cinco minutos e me chega um jovem de mais ou menos 23 anos de idade. Reconheci-o de imediato, pois ele já me tinha sido indicado por outros estagiários como um sujeito “difícil”, até mesmo “perigoso” para qualquer estagiário. Era de família rica e estava internado por problemas com drogas. O rapaz era violento e já batera em alguns estagiários não só da UGF, como também de outras Universidades. Não gostei daquilo. Era minha primeira vez; meu primeiro dia; e ninguém me dera qualquer informação sobre o que me competia fazer. A enfermeira que acompanhava o rapaz, segurava-o pelo braço e, diante de mim, falou.

— Seu Orisval, o senhor vai tomar conta deste paciente. Seu nome é F… e seu trabalho é entrevistá-lo. Deve fazer uma anamnese completa, está entendeno?

— Não, não estou — foi minha resposta imediata. — Você me diz que devo fazer uma entrevista de anamnese psicológica em um paciente da clínica que já está aqui, pelo que sei, há mais de dois anos?

— Foi o que o Diretor da clínica me mandou dizer ao senhor. Se tem algum questionamento, faça ao Diretor, não a mim. Até daqui a uma hora, que é o tempo que lhe é concedido para realizar a tarefa.

Ela se retirou e o rapaz ficou diante de mim, olhando-me com ar de deboche e riso de escárnio. Não ia prestar. Então, como eu não me mexesse e permanecesse olhando irritado para o lado por onde a enfermeira tinha desaparecido, ele falou:

— E então, minha babá do dia, o que vai ser?

Olhei-o com irritação. Mas me controlei e pedi que sentasse ao meu lado. Não obedeceu. Em vez disto, afastou-se e foi direto para outro interno que caminhava ao lado de uma estagiária de outra faculdade de Psicologia. Quando chegou perto dos dois, deu violento empurrão na estagiária, jogando-a ao chão. A jovem gritou surpresa e recebeu um chute. Levantei-me num salto e corri até onde o rapaz agredia a jovem. Mandei que parasse – e ali já não era mais o estagiário, mas o homem enraivecido pelo que via. O jovem desaforado, riu alto, pôs as mãos na cintura e começou a nos xingar, a mim e à jovem caída e chorosa, com quantos nomes feios sabia. Recebeu violento soco na boca e estatelou-se no chão, surpreso. Levantou-se gritando: “Isto não vai ficar assim! Minha família é rica! E você não pode-me bater! Você é minha babá e tem de tomar conta de mim!” Ele se pôs de pé e levou outro soco. Desta feita, em pleno peito. Seu corpo se curvou pela metade, seus olhos se encheram d’água e ele soltou o ar num sopro. Cambaleou com as mãos no peito e caiu de joelhos. Furioso, eu me ajoelhei diante dele e lhe rosnei, raivoso:

— Não me interessa que sua família seja da Presidência da República. Se tentar abusar de novo, vai apanhar feito cachorro doido, está entendendo? E pra começar trate de se desculpar com a moça que você agrediu! Agora!!!

Meu berro de raiva o colocou de pé num instante. Com as mãos trêmulas ele pediu desculpas à jovem e jurou que nunca mais faria aquilo com ela. O interno que ela acompanhava, olhar perdido no vazio, esperava que a ele se dissesse alguma coisa. Estava alheio a tudo, num estado de quase catatonia. Eu apontei para o interno, indicando-o ao jovem agressivo e lhe rosnei, com a cara quase colada na dele:

— Aquilo ali é desequilíbrio mental, cara! Você está aqui por algum motivo, menos porque seja paciente psiquiátrico. E já que querem uma anamnese completa de você, vamos começar. Venha! Sente-se ao meu lado e trate de responder às minhas perguntas. E não se meta a valente comigo, pois já viu que o buraco é mais embaixo.

Uma hora depois eu tinha a estarrecedora história do porquê o jovem estava internado. Não havia absolutamente nada com ele, exceto que era usuário de maconha e de LSD. Em resumo, era considerado a “vergonha da família” e porque incomodava com sua rebeldia e seus vícios, foi internado a troco de muito dinheiro para que a clínica o mantivesse lá pelo maior tempo possível. E fiquei sabendo que já lhe tinham aplicado cinco “injeções de entorta”. Levei-o de volta à enfermaria, entreguei a folha de anamnese preenchida com a história que ele me contara e perguntei o que era a injeção de entorta. A enfermeira jogou a folha sobre a mesa, sem se dignar a olhar o que eu tinha escrito e me chamou para assistir a uma sessão de aplicação da tal injeção. Um “paciente”, amarrado em uma maca, aos berros de terror, foi levado para um local todo fechado. Não havia qualquer janela ali. Outro enfermeiro lhe aplicou na veia uma injeção com líquido amarelo citrino denso. Enquanto o líquido era injetado, o “paciente” começou a se contorcer de modo absurdo. Sua boca se entornou para o lado como não se pode nem imaginar. Seus olhos dançavam uma dança maluca dentro das órbitas. Dedos, braços, pernas, tronco, pescoço, tudo se contorcia. Seu corpo se sacolejava de modo alarmante. Prenderam seu corpo com mais tiras de couro e me disseram que era necessário para que ele não lesionasse a coluna.

— Quanto tempo vai durar esta tortura? — Perguntei, boquiaberto e com o coração aos pulos. Já imaginava que teria de distribuir socos e ponta-pés à granel, pois quem sabe o que poderiam tentar fazer comigo, quando soubessem que eu não era um bem comportado estagiário de Psicologia? Pior: que eu tinha descoberto um crime da família do rapaz com a conivência da diretoria da clínica? Eu não me deixaria ser amarrado na maca para também ser entortado. Mataria, se preciso fosse, mas aquilo, nunca!

Não perdi o estágio naquele dia. Mas uma semana depois, vi um jovem ser jogado numa espécie de jaula. Uma enfermeira segurando uma mangueira molhava-o todo e choque elétrico era aplicado no chão molhado. O desgraçado urrava como um animal e terminou desabando no chão eletrificado, onde ficou babando e se contorcendo. Então, foi retirado de lá e levado para dentro do prédio da clínica. Nunca mais o vi (isto é, até eu ser mandado embora, o que não demorou muito). No dia seguinte vi a aplicação de eletrochoque num outro paciente. Motivo? Ele estava “agressivo” no refeitório. O eletrochoque o acalmaria por algum tempo, me disseram.

Cinco dias depois de eu ter entregado meu relatório de anamnese do rapaz de meu primeiro “trabalho” fui chamado pelo Diretor. Era um psiquiatra entrado em anos que me pediu que fechasse a porta atrás de mim. Ouvi uma longa e confusa explicação das razões pelas quais a clínica mantinha uma boa dúzia de jovens, homens e mulheres, internados porque eram incômodos à família. Meu dever não era escarafunchar as histórias de suas vidas, mas determinar um desequilíbrio emocional que justificasse a estadia deles ali. Depois de uma hora e um pouco mais de questionamentos, fui embora e nunca mais pisei lá. Meu estágio estava terminado.

O que sucedia naquela clínica, sucedia mil vezes pior nos manicômios do Rio de Janeiro daqueles idos de 60/70. Agora, a Doida do Planalto nomeia o papa do retrocesso psiquiátrico para MINISTRO DA SAÚDE. A coisa repercutiu tão mal que até Reino Unido, Portugal, Argentina e Índia se manifestaram contra.

O que diabo quer a Doida do Planalto?