O mais questionador discípulo de Yehoshua era, contudo, aquele a quem ele mais distinguia entre todos.

O mais questionador discípulo de Yehoshua era, contudo, aquele a quem ele mais distinguia entre todos.

Terceira hora daquele dia esplendoroso. Era o décimo quinto ano do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos o Governador da Judéia e Herodes Antipas o tetrarca da Galiléia. O Sol brilhava como se estivesse em festa e o calor, logicamente, estava subindo. Na margem de um riacho que desaguava no Jordão, um homem alto, muito forte, de barba e cabelo alourados e desgrenhados, falava para uma aglomeração de pessoas que se espalhava pelas pedras à margem do riacho. Sua roupa, rústica até para aqueles tempos, era feita de pele de camelo, apertada na cintura por uma tira de couro. João Batista não se alimentava como os outros seus conterrâneos. Acostumado a viver no deserto, comia gafanhotos com mel silvestre. Mesmo assim, era um homem muito forte. Sua aparência, entretanto, metia medo, o que era reforçado por sua agressividade na fala sempre condenatória, sempre recriminadora, sempre acusadora. Naquele momento o homem estava dentro das águas, quase na embocadura do riozinho com o Jordão. Falava alto e sua voz tinha uma entonação de raiva. Era muito musculoso e seu aspecto assustava. Onde estava, a correnteza diminuía porque o riozinho se alargava antes de mergulhar no tumultuoso Jordão. A água chegava quase aos joelhos do gigante louro que parecia enfurecido, a julgar pelo tom agressivo de suas palavras.

Yehoshua desceu da mula e entregou as rédeas da alimária ao seu acompanhante e discípulo Judas Iscariotes. Sem procurar  se esconder, mas também sem buscar se destacar dentro da multidão, aproximou-se até fundir-se com um pequeno grupo de pessoas, homens na maioria, que, de pé, ouviam a pregação do gigante louro. Yehoshua colocou-se de modo a não perturbar o pequeno grupo, e ao lado e um pouco atrás dele permaneceu quieto, ouvindo seu primo falar.

Tibério, imperador romano ao tempo de Yehoshua, tinha esta aparência.

Tibério, imperador romano ao tempo de Yehoshua, tinha esta aparência.

É bom esclarecer a situação política de Roma, por aquela época. Isto, porque esta situação, não mencionada na Bíblia, foi de muita importância na história de Yehoshua. A distância entre Jerusalém e Roma, em linha reta e viajando-se pelo Mar Mediterrâneo, é, na medida atual, de 4.644,07 Km. Isto significa que a viagem leva muito tempo, mesmo num transatlântico moderno. Tibério César, porém, no tempo em que Yehoshua se apresentou para seu batismo, tinha mandado Pulvius Quintus, um Tribuno de sua inteira confiança, em viagem oficial ao Egito, que ficava muito mais próximo de Jerusalém. Havia, ainda, querelas sobre a cessão feita por Marco Antônio, que dera a Cleópatra todo o território da Celessíria, da Cilícia e do Chipre (território que, em sua totalidade, era conhecido como Território dos Lagidas, naqueles tempos). Pulvius Quintus ia em delicada missão sobre um problema surgido justamente em função de questões territoriais, mas seu caminho se cruzaria com o de Yehoshua e isto faria que o Mestre viesse a ser conhecido por Tibério César.

A Celessíria compreendia o território da Síria e da Palestina e isto envolvia diretamente o povo judeu. Este, como é sabido, não aceitava nenhuma religião que não fosse aquela supostamente a eles ensinada por Moisés. Também não aceitava nenhum rei ou imperador ou fosse lá que título tivesse, que não fosse exercido por um hebreu legítimo. Daí que viviam em constante recusa a Herodes Antipas, o qual não era hebreu legítimo. Havia, portanto, inquietação entre este povo, que se rebelava por causa dos impostos e também por causa disso. Pulvius Quintus viajava em regime de urgência para tentar encontrar um meio de acalmar os povos que ameaçavam litigar por questões que não lhe interessavam, mas que, politicamente, eram importantes para Roma.

Naquele tempo um Procurador Romano não tinha o poder que viria a ter muitos anos depois. Era, na verdade, somente um funcionário de confiança do imperador e dele totalmente dependente. O título designava funcionários com atribuições várias, como, por exemplo, a de gerente dos bens patrimoniais do imperador e dos membros de sua família. Também podia ser o chefe de uma chancelaria ou o guardião dos arquivos imperiais. Eles eram recrutados entre os membros da ordem dos eqüestres. Havia, em Roma, duas Ordens. A Ordem Senatorial continha aqueles homens que eram nomeados pelo imperador, entre os cidadãos que possuíssem grandes fortunas, (uma fortuna avaliada em torno de um milhão de sestércios). Compreendiam a elite privilegiada de homens que possuíam grandes propriedade rurais (latifúndios) e, por isto, tinham o direito de exercer os principais cargos da administração direta. Eram escolhidos para membros do Senado, para exercer o cargo de Magistrado ou Governador das províncias. Tinham apenas a obrigação de dar ao povo o chamado “pão e circo” para manter as multidões tranquilas e satisfeitas, afim de evitar revoltas.

Supõe-se que Pôncio Pilatos tinha esta aparência. Ele era arrogante, revoltado e rancoroso, mas tinha suas razões para isto.

Supõe-se que Pôncio Pilatos tinha esta aparência. Ele era arrogante, revoltado e rancoroso, mas tinha suas razões para isto.

A outra, era a Ordem Equestre, ou Ordem dos Cavaleiros. Esta, era composta de plebeus ricos que obrigatoriamente prestavam serviço militar a cavalo. Disponham de fortunas superiores a quatrocentos mil sestércios. Estes plebeus ricos também tinham privilégios, estavam ligados à administração do Império nos assuntos de comércio e negócios diversos. Os imperadores, para limitar o poder dos senadores, passaram a nomear os cavaleiros importantes para cargos administrativos. Pôncio Pilatos era integrante desta Ordem, mas se remoía de inveja dos integrantes da Ordem Senatorial. Sua vida foi, toda, voltada para a luta por obter o título de Senador. Mas no tempo em que fôra nomeado para “Governador” da Judéia ele era um tribuno legionário que ganhara fama por ter sido um respeitado líder comandante, valente guerreiro e bom estrategista nos exércitos romanos. Por este treinamento militar, Pilatos era geralmente seco e rude no trato. Não se havia agradado de ter sido mandado supervisionar os negócios na Judéia e, para minorar sua mágoa, o Imperador lhe tinha outorgado o título fictício de Governador, mas na verdade, ele não passava de um simples administrador de segunda categoria. Os hebreus o chamavam pejorativamente de epitropos, que no Grego (inclusive no koiné, o grego vulgar falado amplamente na Palestina do tempo de Jesus) significava procurador, algo como um Prefeito. E na verdade era o que Pôncio Pilatos era, visto que só governava a Judéia e não a Palestina toda. Por isto também  Pilatos se sentia humilhado. Parecia-lhe que o pomposo título de Governador lhe fôra dado para o ridicularizar e, não, para o enaltecer. E piorando as coisas, ainda se sentia humilhado por ter que governar um povo rude, tacanho e tremendamente trabalhoso porque era estupidamente apegado demais a dogmas religiosos que ele não compreendia e desprezava com repugnância. Os judeus, revoltosos, resistente ao domínio romano e de onde mais saíam os bandidos conhecidos como sicários devido aos longos punhais afiados, chamados sica, com os quais matavam, à traição e em emboscadas preferencialmente noturnas, os legionários romanos e os guardas de Herodes, davam muitas dores de cabeça ao revoltado Procurador da Judéia. Este, não podia agir com mão-de-ferro, como gostaria, contra esses bandidos, pois Tibério tinha concedido muitos privilégios àquele povinho miserável e exigia não haver indisposição com eles, exceto em casos extremos. Como os assassinatos não eram casos extremos, ele tinha de mandar investigar e tentar prender os verdadeiros culpados, embora, para ele, todos os hebreus fossem culpados desde mesmo quando nasciam. E Yehoshua era judeu, visto que nascera em Belém, a cidade de Moisés, o que o colocaria sob as suspeitas e antipatias do “Governador” da Judéia muito em breve.

O Procurador, vulgo Governador, da Judéia era dependente do Governador da Província da Síria. Este, como legítimo Governador, dispunha de três legiões do Exército Romano, a saber: a III Legião, ou Gálica; a VI Legião, ou Ferrata, e a X Legião, ou Fretensis. Mais um motivo de rancor para Pilatos, que não tinha nenhuma legião sob seu comando. A ordem era, se houvesse alguma rebelião perigosa entre os judeus e que ele não tivesse meios de dominar, pedir socorro ao Governador da Síria. Isto punha Pôncio Pilatos extremamente irritado. Até porque sabia bem que não contaria com o socorro do Governador, visto que os dois se antipatizavam. Sua situação, portanto, não era confortável, como a Bíblia dá a entender. Além destas legiões, o Governador da Síria também dispunha de tropas auxiliares, num efetivo total de cerca de trinta e seis mil legionários, enquanto Pilatos só contava com uma centúria com dez decúrias para sua guarda e a manutenção da ordem entre aquele povo rebelde e perigoso.

Herodes não se parecia nem de leve com este ator que o representa nas telas. Era forte, atarracado devido à sua baixa estatura, e tinha uma cabeleira negra, tanto quanto seus olhos. Testa larga, olhar penetrante e muita força física.

Herodes não se parecia nem de leve com este ator que o representa nas telas. Era forte, atarracado devido à sua baixa estatura, e tinha uma cabeleira negra, tanto quanto seus olhos. Testa larga, olhar penetrante e muita força física.

Na história dos herodíades, 126 anos antes de Yehoshua surgir na Judéia, os idumeus foram derrotados por João Hircano que obrigou o povo a se judaizar. Isto criou um sério conflito entre os judeus e os judaizados. Estes não eram aceitos na comunidade judaica e a estabilidade daquele povo foi abalada seriamente pela medida desastrada de João Hircano. Herodes I, quando veio ao mundo, não veio em uma família tradicional hebraica. Nasceu filho de um idumeu casado com uma nebatéia. Ao assumir o trono, não foi de modo algum aceito pelos judeus legítimos. Ainda que tivesse feito um Governo excelente, demonstrando ser um administrador admirável e um construtor de respeito, sua servilidade para com os romanos irritava sobremodo os judeus. E quando foi confirmado rei pelo Imperador de Roma, o ódio dos hebreus contra ele e os romanos se incrementou de modo irrevogável. Em contrapartida, Herodes I não morria de amores pelos hebreus. Fez inúmeras construções, todas homenageando imperadores romanos. Foi o caso da cidade de Samaria, a qual reedificou e deu-lhe novo nome: Sebaste, que, em grego, equivalia a Augusto. Fundou uma nova cidade, no porto marítimo chamado outrora de “Torre de Estraton” e dá a ela o nome de Cesaréia, em homenagem a Júlio César. Instituiu jogos tipicamente greco-romanos, quadrienais, todos em honra de César Augusto. Fez-se rodear de sábios e filósofos gregos e adotou muitos dos costumes e das tradições gregas, como a dos efebos, o que levou ao auge a repulsa dos judeus ortodoxos contra ele. O efebismo, que fazia que jovens adolescentes servissem, por um ou dois anos, de fêmeas para os militares romanos, era totalmente contrário aos princípios religiosos hebraicos. Entre eles, um homem que servisse de fêmea para outro homem era lapidado em praça pública. Mas não podiam justiçar os efebos e isto os irritava insuportavelmente. Herodes também procurou agradar os hebreus e até mandou reconstruir o Templo e embelezou-o muito mais do que se podia imaginar àquela época. Fê-lo grande, imponente e luxuoso. E para isto, teve de mandar ensinar o ofício de pedreiro a mil levitas, a fim de evitar que simples operários, não da classe levítica, profanassem os locais reservados aos sacerdotes, todos da casta levítica. 

A representação mais próxima do Batista não lhe faz jus. Ele não tinha esta expressão beatífica nem andava com uma cruz como cajado. Era rude, grosseiro e ríspido no falar. Trajava-se com pele de camelo e pregava com aspereza.

A representação mais próxima do Batista não lhe faz jus. Ele não tinha esta expressão beatífica nem andava com uma cruz como cajado. Era rude, grosseiro e ríspido no falar. Trajava-se com pele de camelo e pregava com aspereza.

Mas se era adulador dos levitas, Herodes era, por outro lado, adversário ferrenho e perseguidor dos fariseus e isto terminou gerando a confraria dos Zelotas ou Zelotes, composto de hebreus que pregavam a rebelião contra os romanos, aos quais chamavam kittin, e terminou por fazer explodir a primeira revolta hebraica, a guerra que durou de 66 a 70 depois de Yehoshua. E foi justamente de dentro deste partido político-religioso que surgiu a seita dos sicários, radicais e revoltosos assassinos. Os terroristas daqueles tempos. Judas Iscariotes era um sicário ativo, quando se encontrou com Yehoshua. Embora tenha abandonado parcialmente a prática política radical do grupo, acalentava a esperança de que Yehoshua viria a liderar o povo hebraico numa revolta decisiva contra os kittins. Era franco, fiel aos seus princípios políticos e com o tempo, passou a ser grande admirador de seu Mestre. Yehoshua gostava de sua franqueza e de sua fidelidade aos seus ideais políticos. Era um homem decidido e que arriscaria a vida por um ideal que adotasse. Era o homem perfeito para os planos do Mestre, os quais diferiam profundamente das esperanças de Judas Iscariotes, que esperava que ele viesse a liderar a guerra libertadora contra os malditos e odiados kittins e seu vassalo, Herodes Antipas e seus irmãos.

Dizia-se à larga que João Batista era o profeta que era identificado no Santo Livro como a Voz que clama no Deserto. E João preenchia totalmente aquela descrição. Por isto, centenas de pessoas, das mais diversas nacionalidades, vinham ouvi-lo e ficavam impressionados com o que ouviam. E porque ficavam magnetizados pela fala candente do gigante louro, quase em total histeria, a maioria esmagadora se entregavam ao batismo que João fazia, mergulhando os crentes nas águas do afluente do Jordão.

Yoshua adiantou-se ao grupo e desceu em direção ao seu primo.