A representação mais próxima do Batista não lhe faz jus. Ele não tinha esta expressão beatífica nem andava com uma cruz como cajado. Era rude, grosseiro e ríspido no falar. Trajava-se com pele de camelo e pregava com aspereza.

A representação mais próxima do Batista não lhe faz jus. Ele não tinha esta expressão beatífica nem andava com uma cruz como cajado. Era rude, grosseiro e ríspido no falar. Trajava-se com pele de camelo e pregava com aspereza.

“Arrependei-vos, ímpios e pecadores. Jeovah, nosso pai, vê onde vossos olhos não enxergam e onde vossas consciências, nubladas por vossos pecados, não vos revelam: vossas almas pecaminosas. Muitos traidores vêm aqui pensando que eu não os descubro porque estão disfarçados, mas aqui e agora, há fariseus e saduceus prontos para colocar suas mãos imundas em mim. Eu os amaldiçôo, raça de víboras. Pensais que vindo até mim, disfarçados e obtendo de mim o batismo para vos fazerdes passar despercebidos eu não vos reconhecerei? Sim, eu vos identificarei e vos apontarei ao povo, para que ele vos vilipendiem como mereceis, imundos! E não queirais dizer dentro de vossos íntimos: nós temos por pai a Abraão; porque eu vos digo, que poderoso é Jeovah para fazer que nasçam destas pedras filhos a Abraão. Ele põe a vida onde deseja e dá a paternidade a quem deseja que a tenha. E eu vos digo, a vós, víboras traidoras, que o machado já está posto à raiz das árvores. Toda aquela, pois, que não dá bom fruto, será cortada e lançada ao fogo. Em verdade e em testemunho eu vos digo que aqui batizo com água para vos trazer à penitência; porém o que há-de vir depois de mim é mais poderoso que eu e eu não sou digno de lhe ministrar o calçado. E ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo! A Sua pá na Sua mão se acha”

Um murmúrio cresceu entre a multidão que se acotovelava para ouvir aquele homem desgrenhado e agressivo. As pessoas entreolhavam-se desconfiadas e arredias. Yehoshua, então, avançou decidido por entre as gentes, afastando-os de seu caminho com determinação e entrando na água foi postar-se diante de seu primo.

Nada mais estúpido que esta expressão de bobo-alegre emprestada aos desenhos representativo de Yehoshua. Ele NUNCA adotou posturas idiotas como a desta figuração.

Nada mais estúpido que esta expressão de bobo-alegre emprestada aos desenhos representativos de Yehoshua. Ele NUNCA adotou posturas idiotas, tolas como a desta figuração. E Yahya nunca foi tão bonitinho em vestes e aparência pessoal.

Yahya, séculos mais tarde conhecido como João Baptista, parou de falar e olhou o belíssimo jovem que se postava diante de si. Então, com voz baixa, perguntou-lhe:

— O que deseja de mim, meu senhor, que vindes postar-vos aqui?

— Batiza-me, primo. É para isto que aqui estou.

— Eu não sou digno de tal façanha, meu senhor. Eu batizo com água. Vós, por outro lado, tendes o poder de batizar com o fogo do Espírito Santo. Vosso batismo não precisa de lugares especiais. Vós o fazeis quando o homem o mereça por seus pensamentos, por seus sentimentos por suas palavras e por suas ações.

— Vim para que se cumpram as Escrituras, primo. Então, cumpramo-las. Batiza-me, pois assim fazendo, tu e eu tornaremos este rito sagrado diante de nosso Pai Celestial.

Voltando-se para a multidão, Yahya falou bem alto.

— Eis entre nós aquele que veio em nome do Senhor. Eu vos batizo com água, mas ele vos batizará com o fogo do Espírito e vós sereis salvo.

Ele pegou seu primo pela cintura e pela testa e o fez mergulhar nas águas do afluente do rio Jordão. Quando Yehoshua saiu das águas, uma luz estranha brilhou sobre ele e Yahya. Não tinha a forma de pomba, como se diz na Bíblia cristã, mas era somente uma luz levemente azulada. Ela brilhou um momento e logo se desfez. Não houve nenhuma voz misteriosa dizendo “Eis aqui meu filho no qual me comprazo etc e tal” nem nada semelhante. Alguns dos presentes acharam que aquela luz tinha sido o reflexo da luz solar sobre o escudo polido de um legionário romano que o tinha colocado no chão e o segurava com os braços cruzados sobre sua borda, enquanto observava com curiosidade o espetáculo daquele banho ritualístico, para ele totalmente sem significado. Nunca se esclareceu a tal luz, mas a Igreja Católica Apostólica Romana tratou de aproveitá-la e inseriu ali um “delirium tremens” de algum fanático dos tempos iniciais do nascimento da religião chamada cristã, embora Ele tenha insistentemente solicitado a seus discípulos que nunca permitissem que O transformassem em um Deus que devesse ser adorado pelos homens.

Yehoshua saiu das águas e sem se incomodar com as vestes molhadas nem com o que ficou acontecendo lá no riacho, foi em busca de seus discípulos. Andou até Jericó, próxima de Jerusalém, onde foi esperar pelo seu discípulo Judas Iscariotes. Este, só apareceu no dia seguinte, ao cair da tarde. Vinha acompanhado de Bartolomeu, André e seu irmão Pedro, ambos pescadores; Thiago Maior e Thiago Menor. Eles informaram que não tinham podido trazer os demais porque não estavam em suas regiões, quando por lá passaram para os convocar. Yehoshua sentou-se com eles nas margens de um poço natural, sobre pedras, e lhes falou.

— Estais muito distante do que tendes de estar, espiritualmente, para arcar com a pesada responsabilidade que pretendo colocar sobre vossos ombros. E a partir do momento em que fui batizado por meu primo, o qual logo será aprisionado e morto por Herodes, minha caminhada para meu termo nesta encarnação entre vós se iniciou. Até agora, embora tenhamos andado pelas terras da Palestina e ao redor, pregando e promovendo o que chamais de milagres, minha história não deixou rastro. Mas de agora em diante, ela deixará, pois alguns dentre vós hão-de se encarregar de assim o fazer. Vou ausentar-me por 40 dias e 40 noites e vós tendes a missão de arregimentar os outros escolhidos e me aguardar nas margens do Yam (Mar Morto).

— Por que não esperamos juntos e quando eles chegarem iremos todos aonde tu vais?

A pergunta veio de Bartolomeu, cujas varizes na perna continuavam a lhe torturar.

— Porque a quem vou encontrar vós não podeis nem ver nem sentir.

— E… E podemos saber quem é esse aí? — Quis saber Thiago Menor, filho de Alfeu. 

— Sim, podeis. Ele é o Espírito do Mâyâ, um Deva Maior cuja função é manter a Terra e seus habitantes na Ilusão e na Fantasia. Estes dois estados iniciais do Espírito, meus irmãos, impelem o homem ao Conhecimento. Emprestam-lhe a coragem para afrontar o perigo e as dores. Infundem-lhe destemor e o encorajam a buscar o Caminho Verdadeiro. Não podeis chegar a este Caminho sem necessariamente perder-vos nos labirintos do Mâyâ. Viver o Mâyâ é uma das condições da aprendizagem do Espírito em revelação dentro de cada um de vós.

Os apóstolos se entreolharam confusos. Aquelas palavras não lhes diziam nada coerente. Não tinham significados para elas, em seu linguajar. Não tinham aprendizagem nenhuma que lhes facilitasse conhecer o que significavam. Mas o Mestre não se preocupou a lhes dar qualquer explicação. Apenas despediu-se com um aceno de cabeça e se retirou. Seus apóstolos permaneceram abobalhados, desorientados. O que fazer? Ele sumira por três longos anos e, agora, voltava, retirava-os abruptamente de suas famílias e os deixava ao léu, sem orientação, a esperar seu retorno por longos 40 dias. Pedro foi o primeiro a falar.

— Voltemos às nossas famílias e aos nossos afazeres. Então, decorridos os 39 dias da partida de Yehoshua, retornaremos aqui para o encontrar no quadragésimo dia e traremos conosco os outros. O que acham?

Todos concordaram com acenos de cabeça. Estavam decepcionados com o comportamento de seu líder, mas nenhum expressou a contrariedade. Eles também se foram.

Sozinho, em jejum, ele esperava seu desafiante. Precisava colocar-se o mais possível enfraquecido para que ele pudesse se aproximar.

Sozinho, em jejum, ele esperava seu desafiante. Precisava colocar-se o mais possível enfraquecido para que ele pudesse se aproximar.

Yehoshua caminhou pelo deserto até o anoitecer. Escolheu um lugar pedregoso, onde um monte se elevava sobre o terreno estéril. Lá de cima podia enxergar o Mosteiro de Qunram a mais ou menos 3 km de onde estava. Ao redor, tudo era desolação. O Mestre dos Mestres sentou-se, fechou os olhos e permaneceu quieto. Não movia um único músculo de seu poderoso corpo. Sentara-se de costas para o Mosteiro. Com os olhos abertos só enxergava o deserto ameaçador com sua paisagem seca, morta, diante de seus olhos e a perder de vista. E assim passou a primeira noite e o primeiro dia. Ao final, já no início da noite, desceu até um minadouro de onde escorria um filete de água de dentro de uma fenda profunda no sopé do morro. Bebeu água na palma das mãos e retornou ao seu posto. A primeira semana passou sem novidade, exceto que o poderoso corpo do Mestre dos Mestres começou a dar mostras de sentir a falta de alimentação. A fome, contudo, já não mais o atormentava. Mas emagrecera e já apresentava sinais de cansaço e fraqueza. O calor do sol do meio-dia, que chegava aos 55º C, era uma tortura quase insuportável. Seu corpo começou a apresentar bolhas de queimadura, na segunda semana, visto que só trajava uma sunga e nada mais. E as bolhas ardiam como se fossem ferro em brasa, quando o sol batia forte sobre elas. Mas o Mestre dos Mestres parecia não sentir aquela agrura, embora realmente a sentisse em toda a sua força. E assim passou a segunda semana sem novidade. Yehoshua já começara a delirar e o cansaço vergava seu corpo e lhe dificultava a respiração. No entanto, ele o sabia, não podia entregar-se ao sono físico, caso contrário nunca mais acordaria dele. Por isto, mantinha-se à pura força de Vontade, desperto, embora sua mente já desse sinais de delírios estranhos. Imagens de lagos e rios lhe vinham à mente e até ouvia o marulho dos rios por onde andara e onde se dessedentara. Descer até o minadouro era uma façanha hercúlea, mas ele sabia que não podia dispensar a água. Quase arrastando-se chegava a ela. Subir de volta ao seu posto era uma aventura sobre-humana.  Era o início da quinta semana. Trinta e cinco dias. Ninguém reconheceria naquela figura esquelética o poderoso homem que ali chegara, cheio de vida e força. Sentado, ereto, um esqueleto coberto por uma pele cheia de feridas assombraria quem viesse até aquele lugar desolado. Então, na noite do último dia de sacrifício, quando ele já nem mais conseguia descer para dessedentar-se, um homem trajando roupa negra, vestindo-se como um árabe, sentou-se ao seu lado.

— O que queres com isto, Yehoshua? — A voz soava estranhamente rouca e metálica. Yehoshua abriu os olhos com dificuldade e virou-se para sua visita, suportando as tremendas dores no pescoço pelo esforço sem fazer careta nem gemer. Ele a esperara por longos trinta e nove dias.

— Esperava por ti — respondeu num fio de voz.

— Aqui estou. O que queres de mim?

— Que façamos um trato.

— Um trato?! O que tens a me oferecer?

— Nada que te interesse dentro de teu reino. Mas posso garantir-te que terás o domínio da raça humana, se eu perder nossa aposta.

— De que aposta falas? Não vejo nada em ti que me possa interessar. Teu corpo esquelético, logo, logo, estará servindo de repasto aos abutres. Uma burrice, se me permites a colocação.

— Eu vencerei as três tentações que me vais fazer agora. Se eu perder, tu ganharás o domínio sobre a raça humana até seu extermínio sobre a Terra.

O estranho riu um riso rouco e de deboche.

— Não podes apostar o que já é meu, Yehoshua. Mas fiquei interessado na diversão que me ofereces. Vejamos se tu realmente podes suportar o que eu posso te oferecer. Estás pronto?

— Primeiro, responde, Mâyâ, tu aceitas minha proposta?

— Mas é claro! O que tu apostas já é meu. Então, vou aceitar teu desafio só por diversão. Depois, ficarei para ver teu fim.

— Está bem. Começa.

O estranho se pôs de pé e estendeu a mão à frente. Um castelo coruscante de pedras preciosas surgiu diante dos olhos de Yehoshua. Era coberto de pedrarias e tinha suas cúpulas todas em chapas de ouro.

— Vês? Este é o palácio do Marajá mais poderoso da Índia. Ali, os banquetes são fartos. Eu vou trazer-te uma das mesas dele cheia de comida para ti. Podes comer. Eu não vou-me importar por isto.

Um gesto abarcante do braço direito do estranho e uma grande mesa surgiu diante do esfaimado Mestre dos Mestres. O aroma dos assados e dos temperos invadiu as narinas do faminto. No entanto, ele não mexeu um músculo e permaneceu olhando aquilo tudo com indiferença. O estranho estendeu a mão e tomou da mesa um pedaço de pernil de porco. Comeu-o, acocorado diante do rosto de Yehoshua.

— Vês? É real. Não se trata de ilusão. Tudo isto aqui é verdadeiro. Come! Toma um copo de suco, já que não bebes vinho. Olha! A água nos copos de cristal é límpida e fresca. Bebe, Yehoshua. Sinto tua sede. Ela te tortura infernalmente. Mas basta que tu pegues este copo d’água tão perto de tua mãe e ela cessará como por encanto. E aí? Vais ficar sedento tendo tanta água boa à tua disposição? E então?

Yehoshua se manteve quieto como as pedras sobre as quais se sentava.

— Está bem, não queres comer das comidas deliciosas do meu palácio nem beber de suas e bebidas fartas. Então, toma esta pedra! Segura-a!

Yehoshua não se mexeu. O estranho fez que tudo desaparecesse e só restou a pedra nas mãos do seu visitante.

— Toma! É apenas uma pedra. Mas sei que tens o poder de transformá-la em delicioso pão hebreu — e, ao falar, o estranho fez chegar às narinas de Yehoshua o cheiro gostoso do pão que Míriam, sua mãe, costumava fazer para ele e seus irmãos. O Mestre dos Mestres salivou e isto lhe causou dores na garganta seca. Ele apertou os olhos ressecados e engoliu a saliva grossa, mas não se moveu. O visitante insistiu e insistiu como pôde. Usou de toda sua verve buscando despertar o interesse de sua vítima, mas não logrou êxito. Já raivoso, sacudia a pedra diante da face de Yehoshua e lhe gritou impropérios, mas nada abalava o Mestre dos Mestres.

— Imbecil! O que tu lucras defendendo uma raça miserável como a humana? Mais valeria teu sacrifício se estivesses defendendo os animais. A raça humana não presta, Yehoshua. Ela já está perdida desde o primeiro dia em que surgiu na Terra. Ela é a criação defeituosa d’Aquele a quem chamas de Pai. E isto é tão verdadeiro que Ele te enviou para tentar consertar o que não tem conserto. Deixa de bobagem e te alimenta ou vais morrer. Tu não suportarás mais nem um dia. Então, come! Eu não farei nada contra ti, prometo.

Não funcionou. Cansado de insistir, o homem se afastou para o escuro e lá permaneceu por quase uma hora, mirando as costas de seu desafiante. Então, retornou com outra proposta.

— Está bem. Mas me responde: por que não aceitaste nem mesmo um simples pão?

— Está escrito: nem só de pão viverá o homem, mas também de toda palavra que procede de Deus, seu criador. Este é e deverá ser sempre seu verdadeiro alimento. Se tu só tens pão a me ofertar, então, não me interessa.

Houve um longo silêncio entre os dois. Então, com um profundo suspiro, o homem falou.

— Venceste a primeira tentação. Parabéns. És forte. Mas vamos à segunda?

Yehoshua não se mexeu. O homem, então, rodopiou sobre si mesmo e se transformou num redemoinho poderoso que levou o fraco e magro corpo de Yehoshua sobre o deserto e o depositou sobre a mais alta das torres do Templo de Jerusalém. Então, o homem surgiu diante de Yehoshua e lhe apontou o piso de pedra, lá embaixo, a mais ou menos 20 metros.

— Tu te dizes o Filho de Deus. Então, prova-me isto. Se és verdadeiramente filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e também é dito que eles te sustentarão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.”

Yehoshua estava no limite de suas forças. Seus olhos quase não distinguiam o piso lá embaixo. Sua mente fraquejava e ele pensou que seria bom poder descansar um pouco… Deixar-se cair e pôr fim àquela agonia… Mas inspirou com dificuldade e respondeu com voz rascante.

— Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus. E eu o sou, mesmo que isto te aborreça. Não importa. Eu sou quem sou e tu nada és perante mim.

O abantesma urrou de raiva e trouxe o Mestre dos Mestres de volta ao deserto. Ali, deu vasão à sua ira, berrando e esturrando como se fosse um leão. O solo tremeu com aqueles rugidos de fúria, mas nada impressionou Yehoshua, que apenas fechou os olhos e orou em silêncio ao Pai Celestial. |O abantesma finalmente se acalmou e veio ter com o Mestre dos Mestres. Pediu-lhe desculpas pelo momentâneo descontrole de raiva. Então, propôs outro desafio. O terceiro e último. Com um gesto de mão ele transportou Yehoshua a uma altíssima montanha de onde ambos podiam descortinar todos os reinos e impérios do mundo. e, então, o abantesma falou.

Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”. Tudo o que a criação de teu Pai fez, como eu te disse, é meu. Sua criação está no meu reino, logo, é minha, goste Ele ou não. Então, o que me dizes? É fácil. Só terás de te ajoelhares diante de mim e terás o poder sobre todos estes fabulosos reinos humanos. Vale a pena… E então, o que me dizes?

— Retira-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto.

Houve forte tremor de terra. Uma ventania tremenda levantou pesado manto de poeira que sufocava. Mas Yehoshua se manteve inabalável. Quando, finalmente, tudo cessou e ele se viu absolutamente sozinho no silêncio pesado e frio da madrugada daquela noite terrível, o Mestre dos Mestres deixou-se cair no solo totalmente vencido pela fome, pela sede e pelo cansaço. Então, a noite se iluminou e três arcanjos surgiram pressurosos e cuidaram dele. Foi limpado, dessedentado e alimentado e teve suas forças refeitas. Seu corpo voltou a ser o que era quando ali chegou. Gabriel, quando seu Mestre estava em forma, postou-se diante dele e lhe perguntou:

— Por que tu te submeteste a uma provação destas? O que pretendias com isto?

— És muito curioso, meu amigo. Mas eu te respondo. Se, na condição de homem, e só como homem, eu venci o Demônio da Ilusão e do Engano, então, o homem, o simples e mortal homem em provação, também poderá fazê-lo, quando ele se apresentar a todos, individualmente, ofertando-lhe todas as facilidades que só a ilusão pode criar. E acredita em mim, Gabriel, o próprio homem criará suas tentações. Então, o Mâyâ, a quem chamam de Diabo ou Satanás, apossar-se-á delas para derrubá-lo. Que meu desafio lhes sirva de lição para que, quando se virem diante das tentações que eles mesmos criarão, possam resistir e vencê-las, vencendo assim, a tentação do Mâyâ. Respondi à tua curiosidade?

— Sim, Issa. Mas ninguém presenciou o que aqui aconteceu. Como é que ficarão sabendo de teu tremendo desafio?

— Eu providenciarei… Não. Tu providenciarás para que um apóstolo meu veja, em sonhos, o que fiz e o que venci.

— Eu??!!

— Quem te mandou ser curioso? — E Yehoshua desatou em uma gostosa gargalhada.