Agora que sei quem sou, dialogo amigavelmente com quem, em mim, vai terminar definitivamente.

Agora que sei quem sou, dialogo amigavelmente com quem, em mim, vai terminar definitivamente.

Geralmente não me incomodo de falar como se ainda fosse psicoterapeuta. Está em mim, no meu psiquismo mortal. Foram cinco anos estudando com afinco e dezoito anos na prática e na pesquisa. Então, minha “Alma Mortal”, ou seja, minha Identidade, está muito condicionada a pensar segundo suas próprias conclusões, mas quase sempre moldadas dentro da Psicologia e suas teorias. Exceto, claro, no assunto Religião. Aqui, meu Eu Superior se rebela contra os conceitos “certo-errado” que se cultiva milenarmente e que só manietam o Espírito Imortal Humano. Ontem, eu pensava em uma mulher especial e minha mente estava muito longe daqui. Eu cortava a grama de meu “jardim” e minhas recordações flutuavam indo ao passado – coisa que, já aprendi e me conformei, é o que o psiquismo mortal de nossos Elementais Físicos mais fazem. Recordar, com o passar do tempo, é só o que lhe resta. A modernidade perde o valor. As criações mirabolantes da tecnocracia não tem qualquer importância para nós. O que tínhamos de fazer em nosso tempo, nós fizemos. Eu e todos os de minha idade. E os infelizes que não concluíram a missão a tempo, estes sim, ainda se atiram afanosamente à busca da “felicidade de ter bens materiais”, desperdiçando seu sagrado momento de conversar com seu Elemental Físico e lhe acalmar o medo diante da perspectiva da dissolução eterna – aliás, a única coisa eterna que realmente há sobre a Terra. Ninguém jamais conseguirá reeditar um elemental físico humano, depois que ele desce à sepultura ou é cremado. 

É muito bom estar psicológica e espiritualmente longe deste mundo cheio de preconceitos inúteis.

É muito bom estar psicológica, emocional e espiritualmente longe deste mundo que é  cheio de preconceitos inúteis.

Tenho tido longas “conversas emocionais” com este corpo físico que minha Centelha Divina ocupa há 75 anos. E parece que ele está-se conformando com seu fim inevitável. A maioria das pessoas teme a morte. Condicionadas por religiões disparatadas, as pessoas perdem um tempo precioso pensando no mal ou no bem que fizeram; no luxo que nunca desfrutaram; no dinheiro que nunca ganharam e assim por diante. E sem atentarem para isto, passam o tempo de suas vidas temendo inconscientemente o tal “julgamento” que de um ou de outro modo deverá vir, quando do outro lado. Castram-se em seus direitos de experienciar, de se atirar à busca de respostas para suas perguntas íntimas. Deixam de ir à luta para corrigir defeitos de seus Elementais Físicos que não são realmente deles, mas que lhes foram impostos por um modo educacional familiar ou religioso horrivelmente castrador. Mesmo os que se dizem agnósticos, ainda que não o confessem nem a pau, por orgulho tolo, temem o momento final do seu Elemental Físico. Não deviam. Deviam, sim, desprender-se dele, de seus apegos materiais, de seus desejos tolos. Por exemplo: o Lula já está “com o pé na cova”. Não adianta espernear. Seu dia está mais próximo do que ele pode imaginar. Mesmo assim, ainda desgasta suas energias físicas e psicológicas na tentativa de burlar os outros para gozar de fugazes momentos ilusórios de Poder e Prazer. É um tolo. Aposto que, mesmo garganteando o contrário, no íntimo teme a “Magra” e aquele momento crucial que ninguém pode evitar, para chegar à velhice tranqüilo e satisfeito consigo mesmo. 

Nós, Elementais Físicos, mudamos o mundo para que se tornasse agradável a nós mesmos. Mas também o estamos destruindo horrivelmente...

Nós, Elementais Físicos, mudamos o mundo para que se tornasse agradável a nós mesmos. Mas também o estamos destruindo horrivelmente…

Amigos meus, nossa vida devia ser um diálogo permanente conosco mesmos. Um esforço para separar o “que é de César do que é de Deus”. César, aqui, é nosso Elemental Físico. Ele não tem freios e não é culpado por isto, pois é eminentemente instintivo e infantil. Deus, por sua vez, é o que Ele chamou de Centelha Divina. Uma Centelha Imorredoura, que nunca se confunde com os Elementais de que se reveste toda vez que decide que precisa reciclar alguma aprendizagem que deixou de lado num dado momento de sua Progressão Evolutiva. Até conseguir sacudir de mim as milhares de regras, conceitos e preconceitos religiosos; até que conseguisse me separar dos desejos frustrados como algo “terrível” em minha vida; até que compreendesse que eu sou diferente de meus Elementais, levei uma vida toda. Espero que, ao retornar a esta dimensão, minha Centelha Imortal já não mais tenha de desperdiçar tempo batalhando contra ignorâncias “sábias”. Ele ensinou isto, este diálogo íntimo, há três mil anos. Eu li suas palavras um milhar de vezes, pois elas mexiam com alguma coisa profunda dentro de mim. No entanto, só há pouco tempo foi que compreendi a imensidade de Sua Mensagem: “Quando quiseres orar, entra em teu quarto (teu íntimo), fecha tua porta (teus sentidos) e ora em silêncio ao Teu Pai (tua Centelha Divina) que está no Céu (no teu cérebro no Mental Superior), que Ele te dará conforme teu merecimento”. E o que Ele (ou Ela) me dá é surpreendente, pois nada, absolutamente NADA tem haver com os desejos de meus Elementais. Mas isto é história que vai longe. Então, vamos à minha visita.

Vera chegou macambúzia. Sentou-se e ficou vendo assistindo as porcarias na TV fechada até quando eu vim ter com ela. Ainda teve de esperar eu tomar banho, pois corria suor por todo o corpo. Finalmente, sentei-me diante dela e esperei que falasse. Ela pigarreou, mexeu-se inquieta e finalmente, desembuchou.

— Eu… eu sei que o senhor não gosta de dar consulta, mas não é bem isto que eu desejo.

Eu não disse nada. Apenas assenti com um leve aceno de cabeça. E ela continuou, titubeante.

— Talvez seja somente minha fantasia… — calou-se como se procurasse palavras para se expressar. Deixei que lutasse consigo mesma. Afinal, o dilema era dela, não meu.

— É que meu marido… o Felício… ele… ele… Ah, meu Deus, eu me sinto mal falando dele, assim. Parece que o estou traindo.

Olhou-me como se pedisse socorro, mas eu me mantive calado e esperando.

— Não vai me ajudar, não é? — Perguntou com voz embargada.

— A falar? Não. É você quem deve dizer o que se passa. Não posso me meter nisto — respondi com voz insossa.

Ela abaixou a cabeça, passou a mão pela coxa e deu um profundo suspiro. Então, voltou a me olhar e finalmente falou.

— Bem, eu tenho notado que o Felício anda frio na cama. Pronto, disse.

Continuei calado. Ela esperou, esperou e esperou e eu calado, apenas olhando-a no rosto. Finalmente, estendendo as mãos espalmadas à frente, ela quase implorou.

— Pelo Amor de Deus, diga alguma coisa!

— O que espera que eu diga? Você veio aqui me dizer que notou que seu marido esfriou na cama. Pronto. Ouvi. E daí?

— Como e daí? Estou com um problemão danado e o senhor só me diz e daí?

— O problemão danado é seu, Vera. O que eu poderia dizer? Não me deitei com o Felício nem uma única vez e, se quer saber, nunca pretendo fazer isto. Não sou do time, se me entende.

Ela inspirou fundo e desembuchou.

— Por que um homem esfria com sua mulher? Isto é normal? Se é, como posso reverter esta situação?

Cruzei as mãos atrás de minha cabeça, espreguicei-me e voltei a lhe olhar.

— Quanto tempo faz que vocês coabitam?

— Aproximadamente dois anos. Por que?

— Você já ouviu dizer que o amor termina aos dois anos de casamento?

— Já, mas sempre pensei que isto fosse um mito. Não é, não?

— Não. A voz do povo é a voz de Deus, nunca ouviu isto? Pois bem, o desejo entre o macho e a fêmea humanos tende a arrefecer mais ou menos com este tempo. E há uma explicação: o que as pessoas chamam de “gênio” do companheiro ou da companheira faz parte integral da Educação Social que a pessoa adquire ao longo de sua vida. Conceitos, preconceitos, tipo de vínculo com que se relaciona e vai por aí. Na verdade, este “gênio” que faz esfriar uma relação, tirando fora a união feita apenas na base da atração sexual coital, o que acontece muito e é fruto do impulso instintual dos Elementais Físicos, também é fundamentalmente fruto da formação educacional social da pessoa. Claro que aqui também entra boa parte da educação familiar. A insegurança da criança, estimulada pelo modo como os pais e os irmãos se relacionam, pode fortificar o natural impulso de posse e ele atinge o perigoso nível do ciúme. E o ciúme sempre mata o interesse do macho pela fêmea e vice-versa.

— O senhor falou em vínculo. O que é isto, exatamente?

— O vínculo é o modo como as pessoas se relacionam entre si e com seu meio-ambiente. Uma pessoa ciumenta, por exemplo, tende a se vincular com os vínculos de Dominação ou Tirania. No segundo caso, seu parceiro ou sua parceira não vai suportar a convivência nem por um ano e a união se desfaz rapidamente. Não vou entrar por este caminho porque a explicação profunda vai entrar pela Psicologia de modo intenso. Você, até onde sei, é tendenciosamente ciumenta. Acha que seu ciúme “é normal”, mas não é. Ciúme, por menos intenso que seja, indica dois fatores muito ruins para uma união. Primeiro: insegurança de si mesmo. Segundo, auto-estima reduzida.

— O senhor acha que eu tenho auto-estima reduzida? Acredita que sou uma pessoa insegura?!

— Eu não disse isto. Eu lhe expliquei os fatores principais da reação de ciúme. Cabe a você ouvir, se analisar e tirar suas conclusões. Claro que há muito mais por baixo deste angu de caroço, mas o básico está no que lhe expliquei. Diga-me uma coisa: você lê meus artigos?

— Às vezes. Não gosto muito de política e o senhor, desculpe-me dizer isto, é muito ácido quando fala dos políticos. Às vezes até coprolálico… Desculpe-me por dizer isto.

— Verdade. Sou mesmo. Mas sou muito mais “coprográfico”, pois é raro apelar para a coprolalia, quando falo. E olha que, quando escrevo sobre nossos polititicas, eu me contenho… Mas se me lê com atenção, lá no meu blog você encontra material de sobra para se auto-ajudar. Não precisa de mim para tanto.

— Preciso. Há conceituações suas que lhe são fáceis, mas para leigos, como eu, são complexas.

— Você lê o que escrevo sobre Yehoshua?

— Leio, sim. E isto tem sido motivo de muita conversa entre mim e Felício. Ele acha que o senhor inventa tudo. Eu acho que não. Há, em suas descrições da vida de Jesus, discursos que Ele teria feito, que ninguém pode escrever com aquela profundidade, espontaneamente, como o senhor faz. Aliás…

— Não discuta com ninguém sobre os artigos — cortei eu. — Retire dali o que há de melhor para se aplicar. Isto vai-lhe fazer muito bem, eu garanto. E quanto ao que escrevo sobre Teosofia, ali também há informações básicas para você se analisar profundamente. Não me leia como uma distração. Não sou para isto. É por isto que não cheguei a milhões de leitores. Não sou fácil e sei disto. Mas como não me interessa número de leitores e, sim, qualidade, tudo está dentro dos conformes. Mais alguma coisa?

— Sim. Gostaria que me explicasse o desejo relativamente ao Elemental Físico. Pode ser?

— Desejo físico é integralmente atributo do Elemental Físico. O Espírito humano desconhece esta reação emocional e muitas outras similares. O Elemental Físico não se conserva fiel a qualquer coisa física por muito tempo. Como uma criança enjoa de um brinquedo, ele também enjoa de uma única experiência. O Elemental Físico é impulsivo e curioso. Ele sempre quer variar. Quem se deixa dominar por ele ou é classificado como “galinha”, ou é classificada como “cachorra”. Entendeu?

— Desejo não é… Amor? O Amor entre um homem e uma mulher?

— Não. Desejo é atração entre um Elemental Físico e outro Elemental Físico. E é aqui que está o fulcro do mistério da vida humana. Ou você pugna para dominar seu Elemental Físico, ou é dominado por ela e sua vida passa em branco, no que diz respeito à evolução espiritual.

— Eu… O senhor é complexo. Acho que…

— Que vai ler o que lhe interessa em meu blog, não é? — Cortei incisivo. Ela hesitou, baixou a vista por um tempo e, suspirando, pôs-se de pé.

— Sim, acho que vou. Mas nem pense que ficou livre de mim.

Estendendo a mão num cumprimento caloroso e um sorriso maroto, ela se foi.

Às vezes é um porre ser guru de alguém…