Ele tinha a palavra certa para o momento certo. Sempre. E não dizia nada que um homem sábio não pudesse dizê-lo. No entanto, por que jamais o fizeram?

Ele tinha a palavra certa para o momento certo. Sempre. E não dizia nada que um homem sábio não pudesse dizê-lo. No entanto, por que jamais o fizeram?

O Rei dos Reis caminhou apressadamente até chegar às margens do Mar de Cesaréia, onde foi-se encontrar com seus discípulos. Havia uma casa simples, com redes de pescar diante de sua entrada. Ali o esperavam os homens que tinha escolhido para discípulos. Simples, ignorantes, iletrados (quase todos) e rudes. Mas tinham uma virtude em comum: eram justos. E por isto, eram verdadeiros em suas ações e suas palavras. Mesmo que acreditassem em ensinamentos vis, por não saberem que eram isto, defendiam-nos com todo o coração. Yehoshua os escolhera mesmo sabendo de suas limitações. Bem poderia ter escolhido homens de outras nacionalidades, como os gregos, grandes estudiosos e filósofos, desapegados do fanatismo religioso que caracterizava e emburrecia os hebreus de seu tempo. Mas aqueles povos já tinham conquistado suas luzes e elas iluminariam os homens por séculos à frente. Já os hebreus seriam o freio daquelas luzes. Também poderia ter escolhido entre os romanos, outro povo cujo saber também seria um facho de luz na escuridão da Mente Humana nos anos futuros. Mas este povo era demasiadamente apegado às armas e às conquistas e isto nublaria seu legado futuro, levando o mundo humano à beira do extermínio, visto que sua cultura se espalharia pelos países do mundo futuro. Poderia ter escolhido entre indianos e chineses, povos que eram avançadíssimos em conhecimentos ocultos. Mas os primeiros eram demasiadamente fechados e os segundos eram demasiadamente separatistas e aguerridos tanto ou mais que os romanos.

Assim se trajavam homens e mulheres hebreus nos tempos do Mestre.

Assim se trajavam homens e mulheres hebreus nos tempos do Mestre.

À porta do casebre Yehoshua encontrou Matilde, a esposa de Josué, o dono da casa. Quando o viu o semblante da mulher se iluminou de alegria e ela correu em sua direção, atirando-se em seus braços sem qualquer cerimônia. Rindo, Yehoshua também a abraçou sem constrangimento. Beijou-a na testa e com a mão na cintura de Matilde, deixou-se levar para dentro da casa simples e acolhedora. Matilde lavou-lhe os pés, conforme era o costume entre os hebreus, e lhe serviu um copo de vinho. Yehoshua aceitou a bebida e perguntou pelos seus homens. Matilde lhe informou que eles tinham ido à pesca em companhia de Josué. Yehoshua bebeu o vinho e, pedindo licença à dona da casa, foi para a praia, distante quase duzentos e vinte metros de onde estava.

À beira do Yan ele viu a vela do barco de pesca. Sentou-se na areia e esperou, olhos no barco que lhe parecia pequenino e vez por outra era escondido pelas ondas. Estava assim, divagando com o olhar perdido na direção do mar, quando sentiu que alguém se aproximava. Voltou-se e viu um homem trajando roupas de rabino. Suspirou. Não era seu desejo encontrar-se com alguém daquele grupo, mas já que o homem o tinha visto e, ao que parece, reconhecido, que fosse. O estranho parou diante de Yehoshua que não se movimentou. O homem lhe tirava a visão do mar. Yehoshua esperou que ele se movesse, mas como não fizesse isto, olhou-o com curiosidade e o reconheceu incontinenti.

—Esdras de Samaria. És tu mesmo? Estás envelhecido, meu amigo. O que fazes por aqui?

Esdras se sentou ao lado de Yehoshua e também olhou para as águas do Yan por um longo tempo, sempre calado. Então, com um suspiro, falou.

— Soube que tinhas voltado. Por que o fizeste? Se pensas que teu nome foi esquecido pelos que te odeiam, estás redondamente errado.

— Nunca fiz nada para que alguém me odiasse… Não é estranho isto? — E havia um quê de divertimento no olhar do Mestre para seu visitante.

— Ora, Yehoshua, tu tens a língua mais solta e mais agressiva que eu já conheci — rebateu Esdras de Samaria, com irritação. — Herodes e sua coletânea de corruptos estão de olho em ti. Por todo lado se fala do Rei dos Judeus e não o dizem com respeito a ele. Isto o incomoda sobremodo. Tu estás na mira do tetrarca desde mesmo quando vieste ao mundo e isto é muito, mas muito ruim. Por que não ficaste lá onde estavas? Não sei aonde estavas, mas se estavas fora destas terras com certeza estavas mais seguro que estando aqui. Herodes não desistiu de te encontrar…

— Ele e eu nos encontraremos no devido tempo, Esdras de Samaria. E não vai demorar muito… Mas é somente ele que te preocupa em relação à minha segurança?

Esdras de Samaria fixou os olhos na face de Yehoshua, com o cenho franzido.

— Ora, vamos. Tu sabes de quem falo… — insistiu o Mestre, com um sorriso matreiro na face queimada de sol.

— O Templo também não anda satisfeito com o que tu fizeste e disseste por aqui. E sabes bem disto. Tens uma tendência horripilante de fazer inimigos entre gente poderosa, meu caro.

— Poderosa?! Eles? Ora, não me envergonhes, Esdras de Samaria. — Só há Um com Poder e Ele não está entre esses que tu mencionaste.

— Verdadeiramente, não. Mas se estamos entre furiosos, é melhor não os irritar. Ou pensas o contrário?

— Yehoshua manteve silêncio por um pequeno tempo e, então, citou o livro de Provérbios: “Por ventura a sabedoria não está repetidas vezes clamando e a prudência não faz ouvir a sua voz?” — citou Yehoshua, olhando para a arrebentação ao longe.

— Sim, está — Respondeu o rabi e continuou — No mais alto e elevado das eminências, ao longo do caminho, no meio das veredas, postas em pé junto às portas das cidades, nas mesmas entradas.”

— E então? Elas não têm boca de falar para que sejam ouvidas. É preciso que alguém lhes empreste a sua e isto é o que faço. Onde erro, se estou fazendo conforme mandam as sagradas escrituras hebraicas?

— E qual das duas virtudes tu pensas que és? A Sabedoria ou a Prudência?

Yehoshua sorriu e mirou a face de seu interlocutor.

— Eu sou ambas e muito mais, amigo. Minhas palavras são sábias pois ecoam o que as Escrituras ensinam verdadeiramente. Não digo nada de mim, mas do que já se disse há muito tempo pelas bocas dos profetas de outrora.

— Ah, é? E onde está tua Prudência, se te arriscas a despertar a ira dos que te podem matar?

Yehoshua soltou uma gargalhada e bateu a mão amigavelmente no ombro do rabi, que o olhou espantado com aquela reação intempestiva.

— E tu achas que eu seria prudente se me encolhesse diante dos pústulas que se pensam poderosos? Que prudência seria esta a que me aconselhas, se com calar minha voz eu negaria aos meus irmãos o Caminho, a Verdade e a Vida?

Esdras de Samaria permaneceu calado, olhando fixamente nos olhos brilhantes de vida daquele homem estranhamente forte e poderoso debaixo de sua aparente mansidão.

— Sabe, Yehoshua? Sinto que tu não és o que vejo. Não és verdadeiramente este homem que está ao meu lado. Há algo que se esconde atrás desta figura. O que é? Podes-me dizer?

Yehoshua ficou sério e ambos se olharam intensamente por um longo tempo.

— Tu também não és o que meus olhos vêem. Então, dize-me, Esdras de Samaria, quem és?

— Ora… Eu sou quem sou. Um homem. Mas tu não me pareces ser isto. Tu me dás a impressão de que és diferente do que mostras aos homens. Isto é o que incomoda aos que privam contigo ou ao menos te vêem de longe. Eu posso me definir até certo ponto. Mas tu, tu também te podes definir-te para os homens comuns, como eu?

— Tu me entristeces, Esdras de Samaria. Sou transparente como a água límpida de um regato. Sempre me defini diante das multidões: eu sou o filho do Pai. O enviado do altíssimo para ensinar aos homens a Verdade e o Caminho. Se me ouvirem, beberão da água da vida eterna. Se não, pobres almas. Quão longas e penosas serão suas dores.

— Yehoshua, por que blasfemas diante de mim e olhando-me nos olhos? Estás me provocando? Sou teu amigo. Não íntimo, mas teu amigo. E sabes disto. Então, por que te defines como filho do Altíssimo, se sabes que blasfemas?

— Eu?! Blasfemo? Explica-me isto, pois não compreendi. Está escrito que somos todos filhos do Altíssimo, pois Ele nos criou do barro da terra. Ou será que digo bobagem? Se não somos iguais na aparência, nós o somos em Espírito, Esdras de Samaria. E nossos Espíritos são Seus verdadeiros Filhos e isto nem o Sinédrio pode negá-lo. Discordas? Vê, quando prego aos pagãos e gentios, aos hebreus nobres ou escravos, minha voz está clamando aos filhos dos homens e é a estes que ela se dirige. Meus lábios sempre se abrirão para anunciarem o que é reto e eles detestarão ao ímpio. Justos, ó Esdras de Samaria, são todos os meus discursos e neles não há cousas más nem depravadas. Eles são retos para os inteligentes, e de eqüidade para os que neles acham ciência. Eu procuro fazer que recebam as minhas instruções com maior gosto do que se recebessem moedas de prata. Busco fazer que escolham antes a doutrina do que o ouro da terra, pois este só tem de belo o brilho metálico e nada mais. Pois melhor é a sabedoria do que todas as riquezas do mais subido valor. E tudo quanto é apetecível com ela não se pode comparar. Eu, a Sabedoria, habito no Conselho dos Justos e me acho presente nos pensamentos judiciosos. Prego o Amor ao Pai Celestial. Prego a Fé em sua Presença em cada um de vós, judeus ou não. Já o temor do Senhor, que pregais como correto, é-Lhe desagradável, pois não se deve ensinar aos filhos o temor a seus pais. Se assim se faz, eles se tornam barcos de pesca sem redes de pescar; veleiros sem vela e com piloto que não sabe navegar.   

— Por que introduzes nos Provérbios coisas tua? Tu disseste, há pouco, que nada dizes de teu, mas o fazes agora, neste exato momento. Por que?

— Porque há equívocos propositadamente ali inseridos, meu amigo. É necessário que se os corrija para que a Verdade não se turve, ou discordas de mim? Não saí dos Provérbios. Apenas os retifiquei, pois para corrigir a Lei foi que vim até os homens.

Esdras de Samaria permaneceu fitando o rosto sereno de Yehoshua que o olhava com um leve sorriso nos lábios.

— Citas os Provérbios com muita propriedade, meu amigo. Mas entristeces-me porque vejo que seguirás determinado em buscar a morte. Não te invejo. E quando estiveres no suplício, não digas que não te avisei.

Ele se levantou, cumprimentou Yehoshua com um leve curvar de cabeça, rodou nos calcanhares e se foi.

O Mestre ficou sério olhando sua silhueta sumir por entre as curvas da senda que levava à vilazinha. Então, com um profundo suspiro, voltou os olhos para a areia e começou a desenhar nela com o dedo indicador da mão esquerda…