Yehoshua, ao contrário do que alguns pregam, era defensor ferrenho das mulheres e muito apegado à sua mãe e às suas irmãs.

Yehoshua, ao contrário do que alguns pregam, era defensor ferrenho das mulheres e muito apegado à sua mãe e às suas irmãs.

A tarde caía devagar. A brisa do mar balançava as folhas de algumas tamareiras que havia no quintal da humilde casa do casal em que se encontravam Yehoshua e seus doze. Alimentados, banhados, eles se sentavam ao redor do mestre junto à fogueira que os diligentes donos da casa haviam acendido para aquecer os corpos e espantar as trevas da noite que já descia sobre todos e tudo. Yehoshua se mantinha em silêncio e todos os demais pendiam de seus lábios. Da escuridão ao redor começaram a chegar vários vultos que se revelavam de mulheres jovens e idosas, vindo todas ter com Yehoshua. Tinham sabido, por Matilde, que o Pregador estava entre eles e haviam acorrido para a casa. Umas, para o ver pela primeira vez. Outras, para revê-lo, após anos sem lhe colocarem os olhos em cima.

Havia uma pequena multidão sentada e a sombra da noite já começava a fazer que os que sentavam mais afastados não passassem de vultos no lusco-fusco do fogo. O silêncio pesava e a expectativa era grande. Então, pondo-se de pé para poder ser visto por todos, o Mestre falou.

— Vós me honrais, queridos irmãos e queridas irmãs. Mas, antes de vos falar, pedirei aos meus discípulos que cedam seus lugares aqui na frente para as mulheres que se encontram lá atrás.

Houve um rebuliço entre os presentes e Yehoshua sentiu o mal-estar que seu pedido causou entre os discípulos. Ceder lugar a mulheres era algo insultuoso para eles, devido à consideração que o modo de vida dos hebreus a elas dispensava. Mas, ainda que contrariados, os discípulos trocaram de lugar e foram lá para trás, murmurando entre si sobre a desconsideração do Mestre para com eles, que eram os seus escolhidos. Yehoshua se manteve calado até que o silêncio novamente se fez.

— Dizei-me, vós, homens, quem é que faz vossa comida em casa? — E sua voz soou cristalina como a luz suave que descia do luar no céu.

Houve um longo silêncio até que se ouviu a voz de Samuel, timidamente, um primo do dono da casa.

— Nossas mulheres.

— E quem cuida de vossos filhos, desde que vós os colocais nos ventes capacitados para os gerar?

— Nossas mulheres — várias vozes de homens se fizeram ouvir, desta vez.

— Quem cuida de vossas casas, enquanto ides trabalhar para ganhar o pão de cada dia?

— Nossas mulheres — responderam os homens, com exceção de alguns de seus discípulos, entre eles Judas Iscariotes.

— Quem vos lava os pés, quando entrais em casa, seja vindo de um dia de dura lide, seja em visita a algum parente?

— Nossas mulheres — responderam os homens, secundados por “nós, mulheres” dito pela maioria das presentes à reunião.

— Quem se afana em busca de remédio e cuida de vós, homens, quando vos encontrais doentes em vossos leitos?

— Nossas mulheres — responderam os homens.

Nós, mulheres — disseram quase todas as que ali estavam.

— Quem, carinho e afeto, vos consola quando sofreis, vós homens, alguma decepção ou alguma injustiça em vossa lide diária?

— Nossas mulheres — disseram os homens.

Nós, mulheres — gritaram entusiasmadas as que ali estavam.

— Quem passa a vida se dedicando com humildade ao seu lar e a seus filhos?

Nós, mulheres — Responderam as presentes. Nenhum homem disse nada.

— Quem são as mais humildes e as mais prestativas pessoas entre o povo hebreu?

Um pequeno silêncio e algumas vozes femininas se fizeram ouvir, sem muita convicção.

Nós, mulheres.

— Temos entre nós, meus irmãos, os verdadeiros exemplares da Vontade de Nosso Pai Celestial que nos habita — as mulheres. No entanto, por que os homens hebreus as tratam como inferiores e as discriminam em sua sociedade? Andei por vários lugares, durante o tempo em que estive ausente daqui, e vi nações de guerreiros que distinguiam suas mulheres sem que, por isto, se sentissem humilhados diante delas. Vi e vivi sociedades humanas onde as mulheres decidiam os destinos de todos, mas nem por isto os homens dali se sentiam humilhados ou insultados. Também nem por isto as mulheres se tinham masculinizado. Também vi que nas sociedades em que as mulheres são as que decidem e comandam não há apego às armas e à brutalidade. As pessoas daquelas comunidades eram gentis e acolhedoras, tanto os homens quanto as mulheres. E vi que entre aquelas pessoas havia felicidade e alegria. Aqui, entre vós, contudo, vejo rostos fechados, bocas com lábios apertados, olhares de rancor e desconfiança de uns para com os outros. Aqui, entre vós, a emoção que vos guia é o Ódio, e a discriminação entre vós é vossa fraqueza. Aqui, entre vós, o solo vive fétido pelo sangue derramado de vossos irmãos, aos quais assim não reconheceis porque vos distinguis deles por ilusórias crenças vazias. Aqui, entre vós, vossos guias espirituais, os rabis do Templo, vos pregam a separatividade entre os filhos de nosso Pai Celestial, nosso Criador. No entanto, Ele não nos fez diferentes. Somos iguais em tudo e se alguns de nós se diferencia na aparência não é senão em função das condições naturais dos ambientes em que vivemos. Assim como as roupas não moldam o caráter do homem, também assim a cor de suas peles ou o formato de seus olhos não o fazem. O caráter de qualquer pessoa é moldado primeiramente em casa, nos cuidados que as mães têm para com seus filhos. Na educação que elas lhes dão. Em seguida, pelo sistema político e religioso que os líderes do povo adotam como leme que lhes dirigirá as vidas. Vós vos submeteis sem questionamentos aos desmandos de líderes ensandecidos pelo orgulho e pela arrogância, mas em verdade em verdade vos digo que tais líderes são cegos que não sabem onde pisam nem, muito menos, a que os levam. A Religião que pregam os vossos guias são somente mímicas sem qualquer valor diante do Altíssimo, pois Este vê onde vossos olhos míopes nem mesmo vislumbram: as vossas almas imortais. Irmãos e irmãs, não vos deixeis guiar pelas palavras ilusórias e pelas artimanhas vis dos que pugnam por lhes dominar a Vontade e a Liberdade. Sede livres para pensar e agir, como eu o sou e como deve ser todo filho do Altíssimo. Não curveis vossas cabeças diante de tiranos que se impõem a vós pelo terror e pela crueldade. Honrai vossas esposas e vossas filhas e não as trateis com tirania, pois ao tirano retornará toda dor e toda humilhação, pois ele mesmo não se perdoará pelo que fez, quando a hora seja chegada. A mãe perdoa tudo ao filho amado, mas a consciência deste mesmo filho lhe apontará o dedo acusador que ninguém pode remover de diante de seus olhos Espirituais. Não ajais de modo a vos tornardes réus diante de vosso Deus Interior, pois Ele é implacável. Ele é Aquele ao qual os rabis se referem como se habitasse um céu alhures, no espaço acima de vossas cabeças. Mas não. O Verdadeiro Deus encontra-se dentro de cada ser humano, homem ou mulher. E este verdadeiro Deus é justo e Sua Justiça não se curva a vilanias e a falsos arrependimentos…

— Rabi — gritou um dos presentes, cuja silhueta mal se via na escuridão. — O que nos dizes não ofende a Yahveh, bendito seja seu nome?

— Em verdade em verdade vos digo, a vós todos. Yahveh não se incomoda com o que pensais a Seu respeito nem, tampouco, com o que fazeis ou deixais de fazer para agradá-l’O. Não é a Ele que deveis cultuar, pois que ele tem por missão toda a raça hebraica, seus destinos futuros de conformidade com suas ações meritórias ou não, no presente. Yahveh não se volta para agradar a nenhum homem nem a qualquer mulher, pois Sua santa missão é determinar os rumos de toda a Nação hebraica, não o miserável caminho a ser percorrida por um membro desta Nação. Como Herodes, que não se importa com nenhum de vós, embora vivais sob suas leis e sob sua vontade, também assim Jeovah é. A diferença é que Herodes é cruel, ganancioso, pecaminoso e Jeovah é a Perfeição porque é Divino. Então, não percais tempo realizando rituais para obter os favores de Yahveh, pois que Ele não ouvirá a nenhuma prece isolada ou não, nem dará atenção a qualquer ritual que não honre a Piedade, a Fraternidade e a União entre os filhos da Nação da qual deve cuidar.

— Rabi, Yahveh não é o Criador de todas as coisas? Não é ele o dispenseiro de nossos destinos? — A voz veio do lado esquerdo da multidão, de um homem que estava de pé, mas não podia ser visto distintamente.

— Em verdade, em verdade vos digo: Yahveh não é o Criador de todas as coisas. Ele, como uma dezena de outros a Ele iguais, conforme consta de vossas escrituras, é um dos serviçais do Grande Criador de Todas as Coisas.

— Mas as Escrituras afirmam taxativamente que Yahveh é nosso Deus.

— E Ele o é, para todos os efeitos. Mas não é o Criador Supremo. A Este ninguém sabe o nome, pois que Ele tem todos. Sei que conheceis o livro a que nos referimos, então sei que sois sabedor que quando o Criador colocou os homens na Terra ele os dividiu em sete grupos e a cada grupo deu um Guardião. Ao grupo a que pertence o povo hebreu coube Yahveh.

— Não vos assusta blasfemar contra Yahveh, bendito seja seu nome?

Todas as cabeças se voltaram para a figura mal definida na escuridão. A pergunta era capciosa e acusadora. Subitamente havia tensão no ar.

— E poderias tu me dizer em quê eu blasfemo? — E a voz de Yehoshua soou dura e áspera, o que provocou inquietação nos que o ouviam. Subitamente todos estavam tensos. Embora o homem que questionava o Mestre se mantivesse nas sombras, suas palavras o denunciavam como alguém do Templo e isto era suficiente para colocar a todos inquietos.

— Tu negas o Poder de Yahveh e só por isto merecias ser condenado à morte — trovejou o estranho, também com voz dura e áspera.

— E tu ousarias ir contra a Lei expressa por Yahveh? Tu ousarias te condenares perante ele? — E a voz de Yehoshua soou como uma trombeta, fazendo a todos tremer de susto.

— Eu não me condenaria se te matasse por insultar nosso Deus, Yahveh. É assim que ditam as Leis do Templo.

— No entanto, está escrito nas tábuas entregues a Moisés pelo próprio Yahveh e que constituem as Leis que Ele ditou ao seu povo para que as cumprissem com rigor: NÃO MATARÁS. O que tens a me dizer diante disto? São as Leis ditadas pelos rabinos do Templo maiores que a Sua Lei? E no livro a que nos referimos tu podes ler que é dito: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que assim o fizer”. E, neste momento, tu invocas Seu Santo Nome para me ameaçar de morte por crime que não cometi. Como te julgas diante dele? Por acaso, de Suas Santas Mãos tu recebeste procuração para acusar, julgar e matar em Seu Santo Nome? És merecedor de Sua Clemência, se odeias teu irmão e anseias por encontrar um meio de mandar matá-lo? Tu te julgas merecedor de Seu excelso respeito, se te escondes nas trevas, qual Demônio, para me atacar, a mim que falo sob a luz para que todos me vejam? Eu não escondo minha face nem dos homens nem de Yahveh. Mas, e tu? Minhas palavras são límpidas e serenas e pregam Sua Paz e Sua Fraternidade. Mas e tu? O que tu pregas em Seu Santo Nome? Ódio? Desde quando Yahveh é odioso, meu irmão? Justo, sim, Ele é. Mas odioso? Tu, porém, o és. E teu ódio por mim te faz infringir outro mandamento d’Ele, que diz: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças”. Aquele que todos acreditam ser Misericordioso e Bom e que eu te digo, como Seu Filho, que habita dentro de ti também, poderia aceitar um filho Seu que agisse e sentisse como Caim? 

Fez-se pesado silêncio e todas as cabeças se voltaram para o vulto de pé, que estava mudo. Então, rodando em seus calcanhares o estranho se movimentou rápido por entre o povo e desapareceu em direção à praia no meio da escuridão.

  — Vede, irmãos, o inimigo vos chegará pelas sombras, como aqui chegou o enviado do Sinédrio. No entanto, o sinedrita saiu fugido porque não teve argumentos contra a Verdade que eu vos disse e a ele também. Em verdade em verdade eu vos digo que não curveis vossas cabeças diante do ímpio e do violento, pois sois filhos do Altíssimo e Ele não vos colocou aqui para que tremêsseis diante do violento e do arrogante. Ouvi, em primeiro lugar, vossas consciências, pois ela é a Voz que Prega a Verdade em vossos íntimos. Não haverá guias exteriores que vos guie melhor que vossas consciências, visto que ela é a voz silenciosa do Criador, que sempre vos apontará o reto caminho. Não vos desvieis dele, pois a culpa será o acicate que vos torturará pelo resto de vossos dias, até que vos redimais diante de vós mesmos. E não sejais arrogantes nem defensores de leis ditadas por outros que não o Deus que vos habita. Ouvi-O em primeiro lugar e por mais confusa que seja a situação em que vos encontreis, segui o que Ele, no silêncio de vossos corações, vos indicar, ainda que tal caminho vos conduza a confrontos mortais. Não tremai diante do perigo aparente, pois o verdadeiro perigo é se perder a salvação por covardia. Ide, agora, e pensai bem no que vos digo, pois eu só vos falo a Verdade.

E assim dizendo, Yehoshua se retirou para dentro da casa de seus amigos e se dirigiu para o quarto que a ele tinha sido reservado…