Ele aproveitava toda ocasião para ensinar o que os rabis não desejavam que fosse do conhecimento público.

Ele aproveitava toda ocasião para ensinar o que os rabis não desejavam que fosse do conhecimento público.

Manhã cedinho. Todos reunidos para a refeição matinal foi notada a ausência de Judas Iscariotes. Pedro, que não aceitava muito bem o companheiro, aproximou-se de Yehoshua e lhe cochichou ao ouvido.

—”O Judas Iscariotes não está conosco. Por acaso o senhor sabe aonde ele foi?”

 — Sei — respondeu o Mestre sem se alterar.  — Neste exato momento está na companhia de Esdras de Samaria. Por que?

 — Aquele rabi não é nosso amigo, Yehoshua  — disse Pedro, contrariado.  — Ele nos sonda o tempo todo com palavras macias e traiçoeiras. Acredito mesmo que, ontem à noite, era ele sob aquela árvore, no escuro.

 — Não era, não. A voz de Esdras de Samaria é aguda e ele fala sempre apressado. Quem falou, ontem, tinha um tom militar.

 — Um kittin?  — Assustou-se Pedro.

 — Ser militar não significa ser um legionário, Pedro. Por que tu temes tanto a eles? Acho que tens mais razão de temer aos rabis do Templo de Jerusalém ou a Herodes. Eles é que pensam em nós o tempo todo. Nem sempre o fazem com amor em seus corações…

Ele era fiel a Yehoshua, mas por motivos opostos aos do Mestre.

Ele era fiel a Yehoshua, mas por motivos opostos aos do Mestre.

Yehoshua estava certo. Naquele exato momento Judas Iscariotes conversava com Esdras de Samaria. O rabi, corpulento e com expressão séria no rosto de olhar acerado e barba densa, fitava-o atentamente.

 — … e o tal homem sumiu na escuridão, após Yehoshua lhe ter lançado na cara trechos do Livro Sagrado…

 — Não blasfemes diante de mim, Iscariotes! Ninguém lança trechos do Tanakh (Torá) na cara de outrem. Cita-se versículo nele contido. Um ou mais, compreendes?

— Está bem, eu não quis ofender — apaziguou o discípulo de Yehoshua. — O que verdadeiramente me trouxe aqui foi perguntar ao senhor se sabe quem poderia ser o misterioso provocador…

— Não, não sei quem é ele. Mas posso dizer-te que tu deves desconfiar de gente de Herodes. O Tetrarca nunca desistiu de eliminar de vez o irresponsável de teu Mestre. Eu o admiro, mas ele sempre coloca pimenta em sua interpretação do Tanakh (Torá) e isto é embaraçoso. Por precaução eu procuro me manter o mais discreto quanto aos nossos encontros. E se queres um conselho, afasta-te dele enquanto ainda é tempo. Prevejo futuro muito ruim para todos vocês. As idéias de Yehoshua jamais serão aceitas entre nós, hebreus, os escolhidos de Yevé, bendito seja seu nome.

— Rabi, Yehoshua preenche todos os requisitos do profetizado que surgiria entre nós para nos libertar do jugo romano e nos levar ao reinado sobre todo o mundo. Eu já até sei que vou ocupar um lugar de grande destaque em seu exército, em sua guarda pessoal — jactou-se o discípulo sonhador e guerreiro.

— Como?! — Espantou-se o rabi. — Ele te disse isto ou tu divagas?

— Ele deixou isto muito claro para mim — afirmou Judas Iscariotes orgulhosamente. — E se o senhor desejar um lugar de destaque na corte que ele terá, então, é bom que se aproxime para o ouvir com mais atenção. Creio que ele fala e faz o que faz só para despistar suas verdadeiras intenções. Ele é nosso conquistador, eu estou certo disto, rabi. Não vê que já arrasta multidões atrás de si?

— Multidões de mendigos e pobretões, Judas — comentou, com desdém, Esdras de Samaria. — E isto, convenhamos, não é um exército para enfrentar nem mesmo a guarda de Herodes, quanto mais a romana.

— São gente que passa fome; desamparados pelos poderosos; revoltados e assassinos enrustidos, esperando somente quem lhes dê um fio de esperança. E Yehoshua sabe fazer isto. Ele lhes incendeia os corações, assim como fez comigo. Eu estou convencido de que ele, agora que voltou sei lá de onde, vai levar avante nosso plano. E com muito mais firmeza. Fica atento, pois tu um dia farás a opção por ele.

— Até onde estou sabendo, és um espião do Templo…

— Sim, sou. Mas espiono ao contrário. Yehoshua precisa de alguém infiltrado e este, sou eu.

Caifás em seu traje cerimonial.

Caifás em seu traje cerimonial.

—Não gosto nem de Caifás nem de Anás, mas não me sinto confortável ouvindo-te dizer o que dizes. É melhor que eu não registre isso, pois minha consciência pode-me levar a te delatar.

— Morres tão rápido que nem terás tempo de ver de onde virá a punhalada — ameaçou, soturnamente, o discípulo guerreiro. Seu olhar era de fogo e escrutava o rabi diante de si como a víbora escruta sua presa.

Esdras de Samaria sentiu que suava e tremeu de medo. A fama de Iscariotes como chefe de um bando de sicários era notória e seu nome já constava dos anais de Herodes. O rabi sentiu que tinha falado demais. O sicário diante de si era um dos mais perigosos de que se tinha notícia. Mesmo estando ao lado de Yehoshua seu gênio vingativo e rancoroso não devia ser provocado e ele o fizera descuidadamente.

— Aquieta-te, homem! Não serei eu a te trair, posso assegurar-te. Até porque também eu tenho interesse no tal reino que tu dizes que teu Mestre deseja constituir. Não quero ficar de fora de suas conquistas, mas no momento, é mais prudente que eu me mantenha afastado, compreendes?

— E de boca fechada, se queres ver o dia de nossa vitória — rugiu entredentes o Iscariotes, levantando-se e se retirando com um último olhar assassino para o rabi. Este, ficou tremendo de inquietude e medo. Precisava ter mais cuidado ao falar com o sicário…

Yehoshua encontrava-se sentado sobre um grande pedregulho, debaixo de uma frondosa oliveira. Seus discípulos o cercavam, sentados no chão ao redor da grande pedra. Yehoshua lhes dirigia a palavra, enquanto mais pessoas se iam aproximando para o ouvir.

“Porque vós sabeis de que modo habitamos nós na terra do Egito, e como passamos pelo meio das nações, e ao passá-las vistes as suas abominações e imundícias, isto é, seus ídolos, o pau e a pedra, a prata e o ouro que elas adoravam. Não suceda que entre vós se ache homem ou mulher, família ou tribo, cujo coração esteja apartado do Senhor vosso Deus: de modo que vá servir aos deuses daquelas nações: e seja entre vós uma raiz que produza fel e amargura” Assim está escrito no Livro Deuteronômio. O que achais que estas palavras significam?

— Citas uma passagem das Ameaças e Promessas, do Pentateuco, na Tanakh, Yehoshua — falou um dos presentes, um homem grisalho, vestido com túnica rústica e pele curtida pelo sol. — Moisés reuniu toda a Israel, seus servos e seus príncipes, e lhes deu o recado que Yaveh lhe tinha ordenado dar.

— Exato, Mizael — concordou Yehoshua voltando-se para o homem. — Mas qual é a mensagem que se deve retirar destas palavras?

— Que nosso Deus, Yaveh, bendito seja seu nome, abominaria todo hebreu que se deixasse levar pela adoração dos ídolos dos povos inferiores e o condenaria ao fogo eterno. É por isto que nossos rabis não aceitam qualquer representação do Senhor, seja em barro, seja em pedra; seja em prata, seja em ouro. Não devemos, nosso povo eleito por Ele, bendito seja seu nome, adorar senão a Ele. Fazer o contrário é merecer a condenação eterna.

— Arão — disse Yehoshua, voltando-se para outro homem que, silencioso, assentia com seu companheiro fazendo vigorosos acenos de cabeça. — Tens filhos?

— Oito homens e cinco mulheres — respondeu Arão sem hesitar. — Por que?

— Tu os ama?

—De todo meu coração.

— Tu condenarias a qualquer um a ser queimado eternamente porque te desobedeceu em uma proibição que não te traz qualquer prejuízo?

— Eu?! Claro que não! Por quem me tomas?

— E se tu, um simples mortal, não farias tal crueldade com teu filho ou tua filha, por que julgas que o Pai Celestial o faria aos seus? Por acaso, uma simples imagem construída pela mão do homem tem tanto valor diante dos olhos do Pai Celestial que ele condenaria um de seus filhos ao fogo eterno somente por que este se curvou perante a tal imagem? Crês mesmo que o nosso Pai abominaria um filho Seu apenas porque se prostrou diante de uma imagem de pedra, de pau, de prata ou de ouro? Pois não foi Ele mesmo quem criou tais cousas? Não foi Ele mesmo que as colocou à disposição de seus filhos? Não foi Ele mesmo que deu aos seus filhos a liberdade de experimentar o que lhes deu para isto?

— Mas está em nossos livros sagrados, Yehoshua. Está lá e tu o sabes tão bem que és capaz de citá-los de cor.

— Sim, está ali, bem escrito, claramente escrito. No entanto, vós não tendes olhos para ver nem ouvidos para ouvir o que se oculta por detrás daqueles símbolos. O Egito a que as Escrituras se referem não é aquele dos faraós, pois diante deles o povo hebreu nunca foi escravo, nem foi humilhado, nem sofreu restrição quanto à liberdade de fazer e agir conforme seus costumes e conforme sua religião.

— Mas Moisés…

— Ele mesmo jamais escreveu uma única sílaba sobre as histórias que constam nos livros a que chamais sagrados, meu irmão. Quem escreveu o Pentateuco, sabeis? E o Livro Números? Alguém sabe seu nome? Várias foram as mãos que ajudaram a colocar nos papiros as histórias dos hebreus. Mas quem fez isto, não escreveu senão como eu vos falo: por parábolas e representações. Não que tudo tenha acontecido como está escrito, mas sim que no que está escrito escondem-se informações que não devem desaparecer com o tempo, nem serem reveladas a quem não tem meios nem conhecimento para as compreender. O erro dos rabis, sejam de Jerusalém, sejam os ambulantes, é que não esclarecem o povo sobre as mensagens que os seus antepassados ocultaram no mito e nas parábolas que deixaram para a posteridade. Escolhi o trecho que lhes citei porque seu ensinamento é simples. O Egito, nele, representa as vidas que cada um de vós já vivestes nos vossos passados. Como bem o defendem os fariseus, o Espírito é imortal e retorna a tantas vidas quantas lhes sejam necessárias para a aprendizagem e a iluminação. Em vossas vidas, duras, penosas, tendes sido sempre escravos, meus irmãos. Não escravos de outros irmãos vossos, mas o verdadeiro escravo da ignorância. Por isto, retornais.

— Mas no trecho que tu citaste, Yehoshua — disse uma jovem que estava sentada perto do Mestre —, é dito que passamos pelo meio das nações. Que nações são estas, no caso do retorno espiritual à vida terrena?

— São as nações nas quais vós já tivestes vividos, irmã. Um espirito humano não se prende a somente uma nação, para seu retorno. O que aprenderia, se tal fosse assim? Pouco. Mas se atravessa, em sua caminhada para o Conhecimento e a Iluminação, vários povos com vários costumes diferentes e várias crenças diversas entre si, então, amealha grande Conhecimento, não é mesmo?  

Ninguém disse nada e muitos se remexeram incomodados.

— As abominações e as imundícias nada mais são que apegos infelizes a coisas sem qualquer importância. Apegos a vendas espirituais, pois deste mundo, vós bem o sabeis, ninguém leva absolutamente nada. E o que aqui fica, modifica-se totalmente, pois sempre retorna à Terra e nela se dissolve para retornar sob outras formas. Tudo muda. Nada é fixo. Ídolos, paus e pedras, prata e ouro, tudo isto são vendas a que o Espírito não deve se apegar. Não se deve adorar coisas passageiras que jamais nos pertencerão. Só uma coisa nos pertence de verdade: nosso Espírito. Até o corpo que usais, este também desaparecerá na terra, pois não foi dito que “és pó e ao pó voltarás?” Ou haverá aqui, entre vós, quem conteste esta Verdade?

Novamente ninguém disse nada.

— Aquele que se deixa arrastar por ilusões deste mundo, seja em jóias, seja em ídolos, seja em paixões, perde seu tempo e desperdiça sua vida. Crede no que vos digo: Vosso Pai está convosco, em vosso íntimo. Não o busqueis algures no Espaço ou em ídolos, quais sejam eles. Não é necessário que este ídolo seja uma estátua ou algo semelhante. Os ricos deste mundo adoram o ouro, tenha ele a forma que tiver, não é? Isto é pecar contra si mesmo, contra o Pai que os habita. Vós, quando vos apegais à Lei cegamente, cometeis o mesmo erro que os ricos, visto que tal como o brilho do ouro lhes cega o entendimento, a Lei vos cega a razão e de vós retira o direito de pensar com sabedoria. Aquele que segue a Lei escrita sem pensar, é um cego de Espírito. Move-se, alimenta-se, coabita e tem filhos, mas não é ninguém perante o Pai que o observa a partir de seu íntimo.

— A Lei, então, é errada, Yehoshua? — A pergunta veio de um homem jovem, forte, com jeito e modos de estrangeiro. Era um celta. Um celta que servia a Herodes, embora ali não estivesse fardado.

— Não. A Lei é como um dedo apontando o caminho. Cabe a cada um seguir ou não, o caminho indicado. A Lei é fixa, mas o caminho é mutável. Quando ela foi escrita, o mundo era de determinado modo. Depois, o mundo mudou e a Lei permaneceu tal e qual foi escrita. Então, cabe ao homem consertar a Lei ou adaptá-la à nova realidade. Em verdade, em verdade vos digo: O Pai Celestial não dita Leis aos homens. Estes é que fazem suas Leis conforme suas condições de vida e suas necessidades. E estas, celta, são mutáveis.

O homem movimentou-se inquieto. Yehoshua tinha-lhe revelado a origem e isto não era bom, pois os olhos que se voltaram para o mirar não transmitiam amizade. E, pior, ele se vestia como um hebreu e falara em grego vulgar, o koiné, como todos geralmente o faziam. Mesmo assim, fôra identificado e posto a descoberto.

— Não estou aqui para te vigiar, Yehoshua. Não estou a serviço de Herodes, pois este dia é meu dia de folga. Vim ouvir-te porque tuas palavras sempre me tocam e me fazem refletir no que os sacerdotes de meu povo pregam. E a propósito, Yehoshua, qual é o significado de pau e pedra, prata e ouro que há na citação do tal livro sagrado dos hebreus?

Ele sabia que o que ensinava era compreendido por um pequeno punhado e este, quase sempre, não era de judeus.

Ele sabia que o que ensinava era compreendido por um pequeno punhado de pessoas e este, quase sempre, não era de judeus.

— Vede, irmãos — disse o Mestre — nenhum de vós ousou perguntar sobre os símbolos cruciais que estas coisas naturais representam nos ensinamentos ocultos de vossos livros. No entanto, um homem de cultura diferente da vossa percebeu onde podia estar a informação mais importante do texto que citei. Sim, celta, tu viste onde os olhos míopes dos hebreus não enxergaram. O símbolo pau significa o Conhecimento Morto. Quer dizer o Conhecimento que o homem adquire sobre valores fúteis, como moda, por exemplo. Ou pátria, ou conceitos como nobres e plebeus. Há uma infinidade de Conhecimento Morto que o homem vulgar joga sobre si e assim se sepulta para a visão da Liberdade e da Fé. Eu os convido a analisar a Tanakh falada que os rabis ensinam. Verificarão que a totalidade de tais ensinamentos são paus, isto é, lenha para fogo. O fogo da alma; o sofrimento do Espírito. Este é o verdadeiro Fogo do Inferno a que alguém se condena por se entregar ao que não tem valor nenhum. A pedra significa o peso do Egoísmo, da Egolatria, da Usura, da Possessividade, da Mentira, do Desejo, da Traição, do Falso Testemunho e todos os vícios que o homem aprende a cultuar em si, em sua alma mortal. A prata significa a mensagem que vós transmitis através de vossas palavras. Uma mensagem pode envenenar uma alma mortal, como a mensagem de uma mulher para outra sobre o homem que esta possui e ela, não. O ciúme, sinal de forte possessividade, logo torna turva a alma mortal daquela que ouve e valoriza a mensagem maldosa e aquela emoção deletéria levará a mulher que ouviu a prata azinhavrada emitida pela boca da intrigante a causar perturbação em seu lar. O ouro simboliza a palavra dosada, calma, estimulante e apassivadora. Também representa as emoções do Amor, do Perdão, da Alegria e todas as demais que estimulam alegria e felicidade. Um coração humano aparta-se de Deus quando valoriza o pau, a pedra e a prata e falsifica o ouro. Mas d’Ele se aproxima quando valoriza e vive e age segundo o ouro de seu Espírito. As nações que cultuam estes falsos deuses, não são as nações de outros homens que têm costumes diferentes dos dos hebreus. Todos os homens são filhos do Altíssimo, logo, todos os homens são irmãos. Não interessa seus costumes, nem suas leis, nem seus idiomas, nem suas crenças. Todos são filhos de um mesmo Pai, logo, todos somos irmãos. A Criação não é obra de vários deuses, mas de um único e isto está bem claro no Gênesis. As nações a que o trecho do Deuteronômio se refere diz respeito ao conjunto de homens que cultuam ou o pau, ou a pedra, ou a prata, independente de onde tenha nascido. Mas porque vossos líderes não vos esclarecem sobre as mensagens ocultas contidas no vosso Pentateuco, vós enveredais pela adoração dos deuses Pau e Pedra e Prata e Ouro falsificado e, com isto, afundais vossos espíritos imortais em um mar de sofrimento.      

Grande murmurinho subiu dos que o ouviam. Yehoshua calou-se e permaneceu ouvindo os murmúrios e as discussões que, aos poucos, iam ficando acaloradas. Então, em silêncio, levantou-se e rapidamente se afastou do grupo. Judas Iscariotes seguiu-o.