Eu, o recruta do 3º R.I.

Eu, o recruta do 3º R.I. Ao meu lado, minha irmã Tetê.

Era o ano de 1976. Noitinha. Bem defronte ao Colégio Militar do Rio de Janeiro havia um restaurante. Era recém-inaugurado. Parei o fusca junto ao meio-fio, desci acompanhado de uma mocinha branca, pequena, nada além de 1,55 m, de andar faceiro e belo rosto. Ela me era enigmática. Uma colega de faculdade. Entramos. Escolhemos uma mesa lá no fundo do restaurante. Não queríamos ser vistos. Seus irmãos não gostavam de mim e por pouco tinha havido o perigo de eu me bater contra dois deles. Um, lutador de luta livre, rude, como todo nordestino, achava que os irmãos tinham de ser os guardiães das irmãs, mesmo quando elas já fossem de maior idade e cursassem a Universidade, o que lhes dava, segundo a Lei, direito livre de se dirigir na vida. Outro, praticante de karatê-dô, era independente e a imagem que me passaram dele não condizia com sua independência e sua altivez. De todos, alguns anos depois, foi a quem mais me apeguei. Até hoje eu o tenho como meu irmão verdadeiro.

Música ao vivo. E eis que o mulato idoso dedilha o violão e canta a música de Cartola. Num ímpeto que até hoje não compreendi, eu disse: “Esta é sua música. A nossa música”. 

Aquela não era a primeira jovem com quem eu saía. Nem sei qual seria sua posição na lista. Mas com toda a certeza era a mais enigmática para mim. Era tenaz, determinada, corajosa a ponto de enfrentar toda a família para ficar comigo. E eles eram muitos. No entanto, havia algo em seu modo de ser que me incomodava. O que era? Eu não sabia. E se tivesse descoberto a tempo, a história de minha vida teria mudado radicalmente e talvez eu jamais tivesse vindo conhecer o Centro-Oeste.

Pratiquei esgrima no quartel e fui campeão nos jogos militares internos.

Pratiquei esgrima no quartel e fui campeão nos jogos militares internos.

Eu passava pelos anos mais terríveis de minha vida. Era casado. Tinha três filhos lindos, mas a mãe aloprara e passara a me odiar de um modo avassalador, assustador. Maritalmente deixáramos de existir. Ela tinha outro e eu ainda não sabia disto. No trabalho, oito coronéis e um general se empenhavam em me armar ciladas para me lançar no DOPS, de onde não sairia vivo. Eu os contrariava sistematicamente e perigosamente. Eram corruptos e estavam desmanchando tudo de bom que se tinha feito na EMBRATEL, uma empresa que eu ajudara a crescer e se estruturar. Eu não podia admitir aquilo e decidira enfrentar o tremendo perigo. Eu acreditava no Brasil que os bons militares tentavam reeditar – ou, talvez, editar, pois era a primeira vez que eu via meu país se impor ao estrangeiro e entrar nos eixos. A única coisa que perturbava nossa vida, a de brasileiros (NOTA: naqueles tempos não se era obrigado a dizer “e brasileiras” logo a seguir ao substantivo masculino, pois todos éramos um; o nome do pai era importante na certidão de nascimento de uma criança e muitos outros modos unificadores de vida eram praticados. Não havia racismo declarado e chamar um preto de “meu negão”  e a uma preta de “minha nega” não era ofensivo nem tinha tal intenção. Ninguém pensava no horrível modelo de Governo que se baseia no “nós contra eles”. E os brasileiros eram felizes, mesmo com uma inflação ameaçadora nos rondando e o comunismo enrustido rastejando pelas sombras como um réptil venenoso). Mas, eu dizia, a única coisa que perturbava nossa vida  era a inflação e a guerra fria entre EUA e URSS. Por causa disto, nosso país era a maçã do Éden. Os dois beligerantes desmiolados o queriam para si. Por isto, o Comunismo mais vil e burro estava instalado na mente dos “campesinos e dos operários” e dali não mais sairia, dando nesta desgraça chamada PT.

Pratiquei o boxe e detestei ter a cara e o nariz quebrados por quem era melhor que eu.

Pratiquei o boxe e detestei ter a cara e o nariz quebrados por quem era melhor que eu.

Não era a primeira vez que, olhando para aquele rostinho bonito, eu me perguntava: “Por que estou com ela? O que verdadeiramente sinto por ela? Há algo que não percebi, ainda, nos familiares de todas as mulheres que, anteriores a esta, se opuseram a mim? Em nenhum daqueles relacionamentos eu me dei bem. Sempre saí perdendo. Será que o aviso está aí, diante de meus olhos, e não sei ver?” Não se estranhe isto, pois o sofrimento ininterrupto a que sempre estive submetido desde quando meus pais se separaram, quando eu contava 13 anos, sepultara em mim o sentimento positivo do amor. Amor entre homem e mulher era um tabu fechado, estranho, incompreensível para mim. Eu não me tornara um sujeito odioso, desestruturado, não. Mas não podia sentir aquele “amor” tão cantado entre homens e mulheres. Eu era frio com todas as minhas parceiras. A companheira atual (daquela época), com quem tinha tido 3 filhos e com quem já estava enrolado há 6 anos (desde março de 1971), também passara pelo mesmo caminho que as outras, antes dela. Eu não conseguia amar intensamente a ninguém. Era muito fácil para mim, quando ferido por uma mulher, virar-lhe as costas e ir embora sem lhe dar qualquer explicação. Simples assim. Eu já deixara mulheres ricas, que me davam uma vida de rei. Deixara-as para ir dormir em banco de jardim, na praça do Passeio Público, bem diante do bonito prédio da MESBLA, no Rio de Janeiro, e ser acordado pela guarda chamada na época de “Cosme e Damião”. Minha vida “amorosa” era um eterno recomeçar. Ferido, eu ia embora e não mais retornava. Costumava dizer que quando eu jogava a chave da porta fora, era definitivo. E sempre avisava às namoradas que se pretendiam sérias, deste meu modo de agir. Acho que não acreditavam. Algumas tentaram o retorno, choraram, se descabelaram, em vão. Eu me tornara mais frio que gelo ártico para com elas. A atual, daquela época, viria a passar por isto. Coitada… 

Pratiquei o tomiki-aikidô, com Mestre Yrofume Tada e amei a arte japonesa.

Pratiquei o tomiki-aikidô, com o Mestre Yrofume Tada, Samurai tradicional, no Rio de Janeiro, e amei a arte japonesa.

A música terminou e nós nos retiramos. Até hoje, quando ouço a música do Cartola, aquele restaurante me vem à lembrança e eu me faço a pergunta que me fiz naquela noite: “Por que estou com ela?”  No meu íntimo eu não sentia aquele “amor avassalador” pela garota. Quando eu decidira aceitar sua “caçada” – já havia percebido que ela, sutilmente, afastava as outas pretendentes, sem bater de frente com elas, mas me isolando intrometendo-se entre mim e a outra, de modo a afastá-la de mim. Então, tomava conta do momento dando as costas à “concorrente”, sempre com uma conversa interessante ou um convite, quase sempre parecendo uma ordem, o que terminava por descoroçoar a “pretendente” que se ia sem nem mesmo ser notada. até porque eu sempre me comportava como se a recém-chegada fosse mais importante para mim. Fazia isto conscientemente, para aproveitar a situação e me livrar da “periguete”.  Eu achava aquele modo sutil de dominar a situação bem interessante. Ela nunca batia de frente com as outras, mas nenhuma ganhava no embate sutil que ela sabia armar como ninguém. Por outro lado, minha introversividade ajudava um bocado. Eu não era de me aproximar de outros colegas de faculdade. Não conversava com ninguém, exceto com meus companheiros de grupo – ela e mais dois: Jessé e Sônia. Eu era avesso aos “namoricos” da faculdade; às caçadas que sempre terminavam em quartos de motéis. Eu ia ali para estudar. Ia buscar um conhecimento financeiramente caro, muito difícil de se obter intelectualmente e a faculdade era duríssima. Na época, considerada a mais dura e a mais parecida com as melhores dos EUA. Tanto que havia norte-americanos estudando nela. Eu não tinha tempo a perder com flertes que não me trariam nada de útil. Além disto, meu casamento estava em mar tempestuoso e no trabalho a procela ia até os píncaros do perigo mais denso. Eu andava sobre um fio de navalha, mas teimosamente não abria mão de meus princípios. E a guerra nestes dois campos tão diversos e tão dependentes um do outro me deixava desorientado, confuso, angustiado. Se eu fosse solteiro a história da EMBRATEL teria sido outra. Andei muito perto de dinamitar as pilastras mestras do edifício e derrubá-lo sobre quantos ali dentro estivesse, inclusive eu. Tinha colocado as bananas de dinamite nos locais adequados. Tudo estava pronto, no dia anterior. Mas o Coronel Carlos Alberto Goulart Pereira descobriu o perigo e, como era o único a me defender, me convenceu a desistir da idéia. Porém ele sabia que eu apenas adiava o desfecho. Nunca, de modo algum, eu ia sair perdendo no confronto. Eles  tinham as estrelinhas nos ombros e a arrogância cega dos que se julgam superiores; e eu, o treinamento que a corporação a que tinham pertencido me dera.Um treinamento no qual eu havia sido o melhor. Em meu dossiê, top secret, havia um alerta a meu respeito. Depois que dei baixa, durante cinco anos era obrigado a informar ao Exército onde estava e o que fazia. Ai de mim se desse informação errada…

Pratiquei tai-chi-tcuen com o monge Shao-lin, Mestre Wu-chao Ksiang, a mais bela e suave arte marcial que conheci.

Pratiquei tai-chi-tchuen com o monge Shao-lin, Mestre Wu-Chao hsiang, a mais bela, suave e mortal arte marcial que conheci.

Fiz análise jungueana e tentei a psicanálise. Nenhuma me agradou. Anos depois, cursei psicologia, na U.G.F. E foi ali que esta longa história de minha vida teve início. Fui escolhido o melhor aluno de Psicologia da Universidade, parabenizado pelo reitor e por todos os meus professores, e isto não me abalou nem um fio de cabelo (sempre fui frio com elogios e bajulações). E ainda assim, ainda que sendo eleito o melhor aluno da Universidade, em Psicologia, eu não tinha conseguido abrir aquele baú de frieza dentro de mim. Passei a crer no que disse Jung: em nosso ser há portas que não devem ser abertas. Talvez aquela frieza para com as mulheres em mim fosse uma daquelas portas.

Hoje, 40 anos depois daquele jantar, continuo com aquela porta fechada. E continuo o homem que toma as rédeas da vida nas mãos, vira as costas e sai porta-a-fora sem dar o endereço de para onde vai. Fiz isto quatro vezes. Deixei tudo, casa e bens, para as distintas e nunca mais soube do que fizeram. Para mim, elas tinham morrido assim que ultrapassei a porta de saída da casa onde vivêramos.

É gozado. Nunca tive nada, senão a roupa de meu corpo. Devia, creio eu, ter uma tendência muito forte a ser apegado a bens materiais. Mas não sou. Casa, terrenos, carros, tudo o que se diz que são bens dos quais não se pode abrir a mão sem sofrimento, não funcionam comigo. Gosto do que tenho enquanto eu os tenho. Mas se os perco, esqueço-os rapidamente. Fecho a porta daquele momento de derrota e parto para outra tentativa. E, mesmo que não me creiam, sempre desejo ficar sozinho, nas tais ocasiões. Mas jamais consigo meu intento, pois sempre, nos momentos cruciais, surge um rabo de saias me caçando, me enrolando e me prendendo em mais uma aventura que não vai dar certo. Com o mesmo ânimo de antes e com a mesma fé em mim eu me enrolo, me atrapalho, assumo a cangalha e, quando o caldo azeda, vou-me embora de consciência limpa. Durante aqueles períodos eu fui o melhor que elas podiam ter tido. E não uma somente disse isto, depois, a amigos nossos, com olhos marejados.

É gozado, mas nunca tive uma mulher que eu mesmo tivesse tomado a iniciativa de ir atrás dela. Desatento, egocentrado, quando me dava conta estava enrolado numa teia de emoções e jogos possessivos que eu não provocara intencionalmente, mas deles não conseguia escapar. Conceitos fortemente condicionados em mim, como dignidade, honra, responsabilidade e coisas assim, a par com uma intriga familiar qualquer de parte da família das garotas que me envolviam em seus desejos (quase sempre as famílias daquelas garotas com quem estive envolvido não gostavam de mim. Houve uma exceção, em Niterói, com minha primeira namorada. Depois disto, nunca mais) terminavam por me fazer aceitar enfrentar a situação para defendê-las das duras punições que poderiam sofrer de seus pais e irmãos por minha causa. 

Apesar de tudo, em jamais fui um guerreiro. Não nasci com este espírito. Sou avesso à pancadaria, embora, algumas vezes, tenha sido forçado a usar do que sabia para me safar de encrencas sérias.

Apesar de tudo, em jamais fui um guerreiro. Não nasci com este espírito. Sou avesso à pancadaria, embora, algumas vezes, tenha sido forçado a usar do que sabia para me safar de encrencas sérias.

Os tempos eram outros. As famílias eram ciosas de suas crias femininas e desejavam para elas “o homem ideal”. E eu geralmente não parecia ser isto. As mães e os pais das jovens alegavam que eu era um “João Ninguém”. Um “sem eira nem beira”. Um “desquitado sem-vergonha”. E vai por aí a fora. E eu era realmente tudo isto, do ponto de vista estrito do julgamento social. Eu não me importava com os títulos angariados no costurar de minha história. Vivia cada dia pelo dia em si, não em função do passado nem em função de estereótipos. Até hoje sou assim. O que passou, passou. Vou em frente. Vou abrindo caminho no cipoal que é a Vida, sem olhar para trás.

E deixei a outra e me enrolei com a atual. E o tempo passou e fomos vivendo aos trambolhões nossos 40 anos. Envelhecemos juntos, embora tão distantes psicologicamente um do outro quanto a Lua da Terra. E tivemos inúmeras aventuras juntos. E o perigo, que sempre foi meu companheiro, também nos rondou; veio conosco porque sempre esteve comigo, sempre arreganhando os dentes. E o enfrentamos juntos. Ela mostrou uma fibra espetacular. Uma coragem acima do comum, muito, muito acima. E criou nosso dois filhos com total perfeição. Ela foi a mãe mais perfeita que eu já vi uma mulher ser. Mas não conseguiu ser a esposa ideal para mim. Não para mim. Ficou muito aquém disto… Sua intransigente tendência ao controlismo, ao mando tirano, à dominação intransigente não se coadunavam com minha Identidade sempre independente e nunca, jamais, amansada. Nunca serei “montado, cavalgado” por mulher nenhuma. Eu lhe disse isto inúmeras vezes, mas ela sempre foi mouca para o que não lhe interessava ou não se coadunava com seu modo de ver e querer a vida. E foi assim que chegamos à velhice. Nós nos toleramos; nós nos acostumamos um com o outro. Nós temos necessidade um do outro, pois os filhos se foram e ficamos sozinhos. Mas continuamos divergindo profundamente em nosso estar junto. 

Quantos casais têm histórias semelhantes? Não sei. Ninguém sabe. Mas que os há, há sim. Enfim, o tempo chega para todos. E o ímpeto, a energia da impulsividade se esvai através da neve do tempo que branqueja nossas cabeças. A gente passa a viver apenas porque não tem em si o impulso ao suicídio. Vive-se esperando… nada.

Mas ainda sinto no meu íntimo o impulso de um dia, sem mais explicações, lançar fora a cangalha do matrimônio e sair por aí sem lenço nem documentos…