Com paciência e determinação, o Mestre escrevia na História o que desejava que lhe acontecesse. E preparava os peões dos quais iria servir-se.

Com paciência e determinação, o Mestre escrevia na História o que desejava que lhe acontecesse. E preparava os peões dos quais iria servir-se.

Yehoshua parecia não notar que seu discípulo aguerrido o seguia mantendo respeitosa distância. Percebia que ele queria, na verdade, descobrir para onde ia seu Mestre, quando, de súbito, deixava as gentes confusas com suas palavras e se ia sem dar satisfação a ninguém. Não se incomodou, e se deixou seguir. Enveredou por uma senda estreita que levava para dentro da mata de densa folhagem. Andou por longo tempo, até subir um morro constituído mais de pedras que de arbustos. Já passava da quarta hora do dia e o sol incomodava. Yehoshua buscou uma pedra grande, que se projetava sobre as demais, e se sentou à sombra. Abriu um pequeno embornal que levava a tira-colo e dali retirou alguns cachos de uvas, três maçãs, cinco cenouras e um punhado de frutas secas. Então, elevou as frutas secas à frente, em direção do local onde o Iscariotes se escondia para o observar disfarçadamente, e fez o convite em voz alta.

— Por que te escondes de mim, como um criminoso? Eu não sou teu juiz nem te sou um perigo. Vem! Partilha comigo de meu alimento. Somos irmãos, afinal de contas.

O mais questionador discípulo de Yehoshua era, contudo, aquele a quem ele mais distinguia entre todos.

O mais questionador discípulo do Mestre era, contudo, aquele a quem ele mais distinguia entre todos.

Judas saiu de onde estava e encaminhou-se para junto de seu Mestre, meneando a cabeça, contrariado.

— Sabias que eu te seguia? — Perguntou, quando ficou de pé diante de Yehoshua.

— Claro. Tu respiras forte demais, meu irmão. Precisas controlar este mau hábito.

— Ora, tu andas como se fugisses do próprio Diabo e me obrigas a quase correr — resmungou Iscariotes, sentando-se irritado diante de seu Mestre. Este, gargalhou divertido.

— Acho que nunca me verás fugir dele, meu irmão. Ao contrário, ele haverá sempre de fugir ganindo de perto de mim, pois eu sou o seu senhor.

Judas pegou um galinho de capim seco e o ficou girando entre os dedos, pensativo. Olhava para aquilo, mas via-se em seu semblante que estava perdido em si mesmo, concentrado em algum pensamento.

— Então? Vais ou não, aceitar meu convite? — Insistiu Yehoshua, estendendo para Judas uma mão cheia de uvas, maçãs e passas secas. O discípulo olhou para a mão de seu Mestre e, depois, para as frutas que ele lhe ofertava.

— Por que hesitas? — Insistiu o Mestre.

— Vê, Yehoshua, tu sempre me confundes. Eu te seguia. Se fosse o contrário, certamente quem me seguisse estaria estendido no solo todo coberto de ferimentos. Mas tu… Tu me convidas a cear contigo. Como podes fazer isto? Tu dizes coisas que são difíceis de compreender. E ages de modo mais difícil, ainda. Eu não escondo que tu muitas vezes me irritas demais. No entanto…

Judas estendeu a mão e apanhou um pouco das frutas, levando o bocado à boca.

— No entanto…? — Encorajou-o o Mestre, também levando um bocado das frutas à boca e as mastigando com grande satisfação.

— Tu me fascinas — soltou o discípulo num sopro.

— E isto te perturba? Por acaso eu não fascino a tantos e tantos outros?

— Não te seguem. Não têm esperança em ti. Eu, ao contrário, tenho. E muita. Mas tu te restringes a dar nova interpretação ao que está escrito em nosso livro sagrado. E te confesso, isto me desespera.

— Apenas revelo o que não enxergam, Judas. Foi para isto que vim. Consertar a Lei e revelá-la, simplificando-a, pois ela não é complexa.

— Não?! Então, já que gostas tanto do Deuteronômio, me dizes o que está oculto por detrás do que vou-te citar.

— Tudo bem. Mas vais me prometer que o que eu te ensinar tu passarás adiante tal qual ouviste de mim.

— Seja. Vamos lá, então. Yevé ditou a Moisés as leis relativas aos sacrifícios no Templo. E foi dito, de modo bem claro, por nosso Deus: “Falarás aos filhos de Israel e lhes dirás:”

“Depois que vós tiverdes chegado à terra que eu vos hei-de dar; e comerdes dos pães daquela terra, separareis para o Senhor as primícias das eiras; assim também dareis ao Senhor as primícias de vossas massas. E se por ignorância deixardes de fazer alguma destas cousas, que o Senhor tem dito a Moisés, e que vos tem ordenado por ele, desde o primeiro dia em que começou a dar-vos os seus mandamentos até hoje; e se a multidão vier a cair em qualquer falta por esquecimento, oferecereis um bezerro da manada em holocausto de suavíssimo cheiro para o Senhor, com sua oferenda e libações, como o pede o cerimonial, e também um bode pelo pecado”.

Iscariotes era o único discípulo que não escondia o que sentia. Olhava diretamente nos olhos de Yehoshua e não tremia diante daqueles olhos de olhar profundo.

Iscariotes era o único discípulo que não escondia o que sentia em seu íntimo. Olhava diretamente nos olhos de Yehoshua e não tremia diante daqueles olhos de olhar profundo.

Fez-se silêncio. Yehoshua olhava além, sobre a copa das árvores, parecendo ter-se alheado dali. O Iscariotes esperou com apreensão. O que estaria planejando aquele homem misterioso? Ou será que ele o tinha encurralado?

— Judas — falou Yehoshua voltando a fitar seu discípulo nos olhos. — Como tu imaginas Yevé? Ele tem um corpo como o teu? Ou ele tem outra forma? Qual seria ela?

Judas franziu o cenho. Jamais tivera a curiosidade de pensar naquilo, mas agora, concentrando-se na pergunta, percebeu, espantado que imaginava Yevé tal qual um homem. Apenas mais poderoso… Talvez mais musculoso… E mais raivoso.

— E então? — Insistiu o Mestre.

— Vou-te ser franco. Pegaste-me de surpresa. Nunca, antes, O havia imaginado. E agora… Tudo o que penso que ele seja é inadequado perante mim mesmo. Por que?

— Porque Ele é imensamente vasto… E não tem forma nenhuma, logo, não tem corpo nenhum. Ele, no máximo que tua mente pode imaginá-lo, é Luz. Uma luz que tu não podes fitar. Ninguém pode. Está além da visão do corpo físico e, até mesmo, de teu espírito. E, no entanto, Yevé não é o Pai.

— Não?! — Espantou-se o discípulo.

— Não. O Pai, Judas, é absoluto. Não poderias imaginá-lo. Olha para o céu, à noite, e o que vês?

— Estrelas. Uma porção delas — respondeu o discípulo, todo interessado.

— E o que são aquelas estrelas?

— Pontos de luz que nosso Deus distribuiu pela abóbada celeste para iluminar e embelezar nossas noites…

— Sim, são pontos de luz porque tu as estás vendo a partir daqui, da superfície da Terra, mas têm outra função bem diferente desta que tu lhes atribuis. Lá em cima, Judas, há uma imensidão de sóis. E os há tão grande que o que ilumina o dia aqui, na Terra, não passa de uma faúlha diante deles. Pois bem, o Criador de tudo aquilo é imenso… Sem fim… E contém tudo dentro de si. Até nós dois, tu e eu. E, para nossa maravilha, ele está contido dentro de cada um de nós aqui na Terra. Assim como é imenso e incomensurável, também é ínfimo e não percebido. E está em cada animal. E está em cada árvore, em cada peixe, em cada verme… No ar, na água, na terra, no vento, no fogo, no trigo, na cevada, na tamareira, na oliveira, no musgo… Enfim, em tudo o que possa haver aqui neste mundo.  Ele criou tudo e está em tudo…

Judas se pegou olhando ao redor de si com certo temor.

— Estás aterrado com a compreensão que se faz em ti, não é?

— Hum-hum — fez Judas, acenando afirmativamente com a cabeça e olhando seu Mestre com a testa franzida.

— Se Ele é tão enorme… Se d’Ele é tudo o que tu podes enxergar e muito mais ainda, então, por que se preocuparia em cobrar dos sacerdotes do Templo comida para Si? Não está escrito que Sua Ordem a vós, homens, foi “Não Matarás?” Pois eu te lembro que ele não disse “Não matarás teu irmão hebreu, mas o farás com os outros irmãos teus”. Ele também não disse: “Não matarás somente os homens. Podes, contudo, matar os animais”. Ele simplesmente proibiu que o homem matasse. Não interessa a quem, somente não lhe foi permitido matar. Mas vós vos matais e matais a tudo em que vossos olhos recaem. Onde está a obediência ao Seu Mandamento? É mais importante um bocado de comida que nunca será devorada por Ele, pois a Ele tudo pertence desde o princípio, ou a vida que Ele plantou carinhosamente em todos vós e em tudo o que vos rodeia? A Vida que vos anima, Judas, é o Pai se manifestando através de cada coisa viva na Terra. O homem não tem direito de ceifá-la estupidamente, seja qual seja a justificativa que busque para seu impulso bestial.

— Então… O que aprendi e recitei para ti, é… é invenção de rabis mentirosos?

Rabis do tempo de Yehoshua. Fariseus que se julgavam os sábios dos sábios.

Rabis do tempo de Yehoshua. Fariseus que se julgavam os sábios dos sábios.

— Não mentirosos, mas espertos, gananciosos e preguiçosos. Por que irem eles mesmos plantar sua alimentação se, com uma lábia esperta, implantam o medo nos seus semelhantes e os fazem ceder pelo medo o que não cederiam pela força?

Judas permaneceu silencioso, mas sua testa fortemente enrugada e sua expressão de tensão na face dizia do quanto aquelas palavras calavam fundo em sua Mente.

— Yehoshua — falou finalmente o discípulo, mirando atentamente na face de seu Mestre. — Sabes muito bem o quanto tuas palavras mexeram comigo. Eu cria piamente na santidade e na veracidade do Pentateuco e jamais me passou pela cabeça questioná-lo. Como um preguiçoso, conforme tuas palavras sábias, eu me deixei guiar cegamente pelos rabis, dando-lhes o direito de me dizer o que deve ou não, ser a verdade que tenho de obedecer. Minhas convicções sobre os outros homens, de outras nações, começam a ficar abaladas em mim. Já não me parece certo detestá-los pelo simples fato de não terem nascidos hebreus. Afinal, compreendi claramente, ninguém escolhe onde nascer e, agora, parece-me estúpido achar que eles são inferiores porque não tiveram escolha a não ser nascer entre as gentes em que nasceram. E se o Pai Celestial a que tu te referes e que até hoje eu desconhecia, decidiu criar nações com características totalmente diferentes das que nós temos, é absurdo, acho isto agora, que nos voltemos contra eles. É voltar-nos contra a Vontade do Altíssimo. Isto está-me causando grande confusão. Perdoa-me, mas tenho de ficar sozinho para pensar, pois já tirei a vida a dezenas de homens que, aos poucos, começo a compreender que realmente são o que tu dizes insistentemente: meus irmãos. E matar um irmão é… é… Abominável. E ser abominável perante mim mesmo não é nada cômodo. Tu me entendes?

— Hum-hum — fez o Mestre, sem tirar os olhos dos olhos de seu discípulo. Quanto mais Judas falava, mais o coração de Yehoshua se enchia de carinho por ele.

— Mas, antes de me ir, tenho de te confessar um crime que cometo contra ti e que, agora, me pesa na mente.

— Eu sei qual é e te digo que não te deves culpar por isto. O homem não é responsável pelo erro que comete em função de sua ignorância.

— Sabes?! — Espantou-se Judas, inclinando-se para mirar bem dentro daqueles olhos serenos.

— Tu me observas em tudo o que faço para contar aos rabis do Templo. E fazes isto desde quando aceitaste vir comigo.

A boca do discípulo se entreabriu de espanto. Como é que, sabendo daquilo, Yehoshua nunca mudara seu comportamento para com ele, o discípulo? Como se explica que sempre tenha demonstrado gostar muito do seu traidor?

— Não me traías, Judas — falou Yehoshua, fazendo que o discípulo desse um salto de susto. — Apenas agias conforme tuas crenças infantis. Como reconheceste, eras iguais aos amórficos. Aos que não têm forma própria de pensar para criar forma própria de agir. Alegra-me que, agora, tu comeces a dar os primeiros passos na senda da liberdade, pois vou precisar muito que sejas livres para fazer o que precisarei que faças, em alguns anos.

Judas franziu a testa, mas seu Mestre se levantou e lhe deu as costas, retirando-se com aquele seu passo elástico e sumindo de vista rapidamente. O discípulo permaneceu quieto, meditativo…