Ruina de Ashdod, às margens do Mar Morto. Aqui, diz a História, viveram os filisteus, famosos na história de de Sansão.

Ruína de Ashdod, às margens do Mar Morto. Aqui, diz a História, viveram os filisteus, famosos na história de de Sansão.

Judas Iscariotes, Filipe, Tomé e Tiago Menor iam em direção à vila de Ashdod, ou mais conhecida atualmente pelo nome de Azoto, às margens do Mar Morto, naquele tempo chamado de YAM. Os discípulos iam buscar apoio financeiro para o trabalho de pregação de Yehoshua. O grupo sobrevivia de donativos. Nenhum dos apóstolos tinha dinheiro suficiente para sustentar suas famílias e ainda suprir as necessidades do próprio grupo. Eram poucas, mas existiam. Eles tinham doadores certos, ex-empregadores de Yehoshua que, quando mais jovem, havia trabalhado para alguns comerciantes de fortuna mediana. Estes amigos eram fiéis e sempre doavam alimentos e algum dinheiro. Yehoshua pregava nos templos menores e até mesmo em Jerusalém. Em tais ocasiões recebia parte do que os fiéis doavam àquele templo. Não era grande coisa, mas suficiente para ajudar na manutenção do pequeno grupo. De tudo o que recolhiam, parte era destinada às famílias dos que eram casados. O Mestre era o que menos dava despesa. Ela consistia basicamente de frutas frescas, algum pescado e vez por outra um par de sandálias, visto que ele andava muito. Suas roupas não passavam de duas mudas. Uma, ele trajava. A outra, guardava para quando tivesse de trocar de roupa a fim de que a que trajava fosse lavada. Geralmente ele mesmo fazia esta tarefa. Raramente uma mulher de algum admirador solicitava o direito a lhe prestar tal serviço. Sua mãe, contudo, estava sempre atenta a este detalhe, pois as roupas do Mestre logo se desgastavam de tanto serem lavadas. Era ela que costurava suas roupas e devido a serem apenas duas mudas, estava permanentemente costurando para o filho andarilho. Míriam de Magdala, sua esposa, estava longe, em Hemi. Ao menos nos dois primeiros anos oficiais de sua pregação. Naquele momento, Yehoshua apenas iniciava sua tarefa hercúlea: ensinar aos homens a verdadeira Lei. Mas já pisava nos calos de gente perigosa…

Os quatro discípulos caminhavam apressados e tagarelando muito. A exceção era Judas Iscariotes, que ia calado. Ele sempre fôra arredio, distante dos demais e conhecedor de que os outros não lhe votavam simpatia. Era ladrão confesso. Era assassino confesso. Era adepto da seita dos sicários. Era violento, arrogante, teimoso e por qualquer aborrecimento descia o braço no oponente. Tudo isto bastava para que os demais lhe votassem uma desconfiança muito grande.

No dia anterior, em reunião com todos os discípulos, Yehoshua tinha surpreendido a todos ao escolher justamente ele, Judas Iscariotes, para ser o tesoureiro do grupo. Houve grande revolta e muitos questionaram irritados a decisão de Yehoshua. Como colocar um ladrão para tomar conta do dinheiro do grupo? Era um absurdo! Mas o Mestre permanecera inabalável e obrigara, mesmo, o discípulo mal-querido a aceitar a tarefa.

Yehoshua pregava próximo do Yam e ao seu redor as mulheres eram muito numerosas.

Yehoshua pregava próximo do Yam, o Mar Morto, e ao seu redor as mulheres eram muito numerosas, ao contrário do que está representado nesta pintura.

Os apóstolos queriam Mateus, o Publicano, que contava com trinta e um anos ao entrar para o grupo dos escolhidos. Como Coletor de Imposto e comerciante, Mateus entendia profundamente da lide com dinheiro. Tinha sido o sétimo apóstolo a se juntar ao grupo. André foi quem o defendeu ardorosamente, naquela noite, para o cargo, diante de Yehoshua, mas sem sucesso. Mateus vinha de uma família de coletores de impostos – chamados de publicanos, muito detestados pelos hebreus. Sua profissão mesma era a de coletor alfandegário em Cafarnaum, onde vivia com sua esposa e quatro filhos, aos trinta e um anos. Era um apóstolo que tinha alguma posse e o único que possuía algum capital entre os apóstolos. Sempre se demonstrara um hábil homem de negócios e se adaptava  bem a qualquer meio social.  Tinha habilidade para fazer amigos nas mais diversas camadas sociais se dava muito bem com uma grande variedade de pessoas. Sua facilidade de comunicação também fazia dele o propagandista-mor do grupo e de Yehoshua, como “Aquele que Há de Vir” e que já havia chegado. Mesmo com tantos predicados, Mateus não conseguiu ser o escolhido para o delicado trabalho de lidar com o dinheiro do grupo.

Ele era fiel a Yehoshua, e não desconfiava do que lhe seria pedido pelo Mestre.

Ele era fiel a Yehoshua, e não desconfiava do que lhe seria pedido pelo Mestre.

Judas Iscariotes, contando trinta anos ao tempo em que conhecera Yehoshua, era o décimo segundo apóstolo e foi escolhido por Natanael par se juntar aos demais. Ele nascera em Queriot, uma pequena aldeia no sul da Judéia. Quando era criança, os seus pais vieram morar em Jericó, onde o jovem vivia e fôra empregado nos vários negócios das empresas de pesca de sua família, até que, adolescente, se tornou interessado na pregação e na obra de João Batista. Os pais de Judas eram saduceus e, quando o filho deles juntou-se aos discípulos de João, repudiaram-no. A seita dos Saduceus era do mais alto escalão social e econômico da sociedade Judaica. Cumpria as mais nobres e variadas funções políticas, sociais e religiosas, dentre as quais ressaltava a função de mantenedores do Templo. Isto os distinguia dos demais judeus. Não foi por menos que tinham ódio ao Batista, pois este atacava-os sem dó nem piedade. Judas, sempre um rebelde e sempre atrevido, ao se juntar aos seguidores do Batista ofendera aos seus familiares e, por isto, havia sido repudiado por eles. O jovem discordava da Tanakh oral, cujos preceitos lhe pareciam estúpidos. No entanto, no Templo era considerado um bom aliado. Mesmo sendo rebelde e violento, tendia a ser fiel ao extremo à Tanakh, com destaque para aquela, escrita, tradicional – defendida e aceita pelos saduceus; já quanto àquela oral, estruturada pelos rabis de conformidade com as imposições político-sociais do momento histórico que vivessem – e recusada pelos saduceus, Judas se rebelava claramente. Político, contudo, Judas demonstrava publicamente aceitar esta nova modalidade da Tanakh, mas na verdade detestava-a e sempre quebrava seus preceitos por achá-los estúpidos. Judas tinha um predicado muito caro aos judeus em geral: odiava os “kittins” ou romanos e, embora repudiado por seus pais, Caifás e Anás não o tinham afastado de todo da intimidade com o Templo. Trabalhavam seu ódio pelos romanos para fazer dele um espião a serviço dos dois. E até o haviam incentivado a entrar para a seita dos sicários, no que acertaram, pois ali o jovem rebelde pôde dar vazão à sua raiva contra os romanos.

Era a undécima hora (dezessete horas, no nosso horário), quando decidiram ir para a casa de Saul, um amigo de Mateus. Queriam alimentar-se, beber, sentar e conversar um pouco com o homem, a fim de sondar a situação do grupo perante os esbirros do Templo e diante do Prefeito Pôncio Pilatos. Eles já haviam percebido que Yehoshua espicaçava de propósito os rabis e isto os inquietava e confundia. Se não queria a guerra; se se recusava a pegar na espada, por que, então, provocava a ira dos piores inimigos que se podia ter sobre a face da Terra? 

— Pretendeis passar a noite aqui, na casa de Saul? — Perguntou Judas a Filipe.

— Sim. Não vamos arriscar-nos pelas sendas à noite. Há muitos assaltantes por aqui. Além do mais, nem sabemos se, quando voltarmos, vamos encontrar Yehoshua e o resto de nós à nossa espera. Tu sabes bem que ele não se prende a nada e é um andarilho difícil de se acompanhar.

— Está bem. Saul não gosta muito de mim e não quero proporcionar a ele o desconforto de me ter entre seus hóspedes. Conheço bem estes arredores e os salteadores, portanto, não serei incomodado. Vou encontrar uma taverna para beber, uma prostituta para passar a noite e, pela manhã, lá pela oitava hora, estarei de volta.

— Vai, mas deixa a bolsa conosco. Se te embebedas, com certeza não a terás quando despertares amanhã, nos braços de tua concubina.

Judas estendeu a bolsa com o dinheiro que tinham arrecadado ao seu colega de grupo e sem falar com os demais, retirou-se. Tomé e Tiago Menor recriminaram seu comportamento, mas Filipe não concordou com eles. 

— Ele está desconfortável em nossa companhia. Noto isto há muito tempo. Mantém-se arredio, quando todos estamos reunidos e observa Yehoshua com face pesada de raiva… rancor…. sei lá! Nós temos de demonstrar que o aceitamos plenamente, senão ele nunca se aproximará de nós. Além disto, é o tesoureiro do grupo. Gostemos ou não, foi a ele que Yehoshua escolheu e não temos como desfazer esta sua escolha. Então, seguindo o que ele nos ensina, descubramos um modo de amar a esse irmão rebelde e… criminoso.

— Traidor — disse Tomé, entredentes. — Eu sinto aqui, em meu coração, que Judas vai aprontar alguma conosco. Ele ainda alimenta a esperança de Yehoshua ajuntar um grande exército de nosso povo para lutar contra Herodes e os Kittins. Tolo. Não parece perceber que seria uma tarefa digna de Sansão. E ando desconfiado que ele nos espiona para Caifás. Já o vi se encaminhando sorrateiramente em direção ao Templo, quando estamos nos arredores de Jerusalém.

— Sei que ele vai lá. Todos sabemos, Tomé. Sua família é da casta dos Saduceus. É gente muito importante. Não podemos censurá-lo porque vai ao Templo. Nem Yehoshua faz isto e, acredito, ele sabe perfeitamente das andanças de nosso irmão rebelde. Agora, vamos deixá-lo em paz com a prostituta a que foi caçar…

— Prostituta?! E com que dinheiro vai pagar os favores da mulher? — Questionou Tiago Menor, olhando para o caminho por onde Judas tinha sumido.

— Não é com nosso dinheiro. Ele me entregou a bolsa — rebateu Filipe, dando de ombros. — Vamos, não estraguemos nossa noite com preocupações tolas. Judas sabe se virar. Como ele me disse: conhece bem a região e os salteadores. Está em seu meio, irmão.

Eles não podiam saber que Judas se encaminhava diretamente para o templo da cidadezinha…