Simão Barjonas e seu irmão André.

Simão Barjonas e seu irmão André.

Simão Barjonas, apelidado Cefas (Pedra) pelo Mestre, estava meditativo. Recordava-se de quando aquele jovem imponente, de roupas alvas e pisar macio, se aproximara da praia arrastando uma multidão atrás de si e ali permanecera de pé, olhando para o barco onde ele e seu irmão, André, estavam na faina da pesca. Esta, fôra um fracasso. Tinham tentado a noite toda, mas haviam apanhado poucos peixes. Até hoje não saberia explicar o súbito impulso de levar o barco para a praia, mas sem hesitação, assim o fez. André o olhara de soslaio, mas dando de ombros, já também ele desanimado com o resultado pífio daquele dia, ajudou-o a manobrar o barco e logo estavam descendo na praia. Estavam lavando as redes de pesca quando o jovem se aproximou e lhes pediu permissão para subir na embarcação. Acederam com um aceno de cabeça. Simão Barjonas sentiu alguma coisa em seu íntimo. Como se algo se revolvesse, despertasse… Jamais saberia dizer o que fôra aquilo. Seu coração disparara e uma súbita alegria havia substituído aquela irritação pelo fracasso da pesca. O jovem lhes pediu que afastassem o barco um pouco, para que pudesse dirigir-se à multidão e eles assim fizeram. E o jovem falou. E disse coisas que eles não entenderam. Falava de um Pai Celestial que a tudo havia criado e que não morava em lugar nenhum, mas em todos os lugares. Dizia que este Pai estava dentro de cada um de nós, homens e mulheres, crianças, animais e plantas e só por Ele é que se vivia. Sem Sua Presença Poderosa nada teria vida, nem mesmo a Terra. E muito mais ele disse. E suas palavras faziam que Simão Barjonas sentisse um frêmito dentro de si. Olhou para o irmão, André e, surpreso, viu-o extasiado, olhar brilhante, corpo curvado sobre os braços cruzados sobre uma das pernas. Tinha uma expressão de enlevo. “O que está acontecendo conosco?” perguntou-se.

Quando se deu conta, já quase não havia ninguém mais na praia. O jovem lhe tocou o ombro e, sorrindo, comentou:

— Dia ruim, hoje, não?

— Péssimo — respondeu André, por ele. — Não pescamos quase nada. Vamos ter dificuldade se amanhã também os peixes estiverem ariscos como hoje.

— Por que? — Perguntou o jovem, olhos caramelados parecendo sorrir naquele rosto bonito e sereno.

— Ora, tu és judeu como nós. Sabemos disto pelas roupas que vestes e porque falas o hebraico muito bem. Se não tivermos pescado, como vamos pagar os impostos?

— Mas só estou falando em nossa língua com vocês dois. Ao povo, falei em koiné — disse Yehoshua parecendo não haver notado a explicação dada por Cefas.

— É a língua vulgar e mais fácil de ser compreendida. É falada por todos nós — adiantou-se André.

— É verdade. Mas é pobre para expressar o que tenho para vos ensinar. Agora, façamo-nos ao mar.

— Como?! — Espantou-se Simão Barjonas. — Mas acabamos de vir de lá. Por que queres que voltemos?

Yehoshua e seus futuros apóstolos Simão Barjonas e André.

Yehoshua e seus futuros apóstolos Simão Barjonas e André.

— Vamos pescar.

— Não há peixe, meu jovem — rebateu Simão Barjonas, meneando a cabeça negativamente. — Além do mais, precisamos fazer alguma coisa para ganhar dinheiro. Os cobradores de impostos não aceitam desculpas.

— Por isto mesmo, vamos ao mar — disse o jovem, sério e com um olhar que não aceitava contestação. Surpresos e descrentes, os dois irmãos manobraram o barco e retornaram ao local onde, antes, já estiveram sem resultado. Yehoshua, na proa, mantinha-se de pé olhando o mar e se equilibrando com mestria no jogo do barco.

— Muito bom — gritou para seus companheiros. — Agora, por favor, lancem suas redes. Mas um de cada lado para que o barco não vire com a colheita que fareis.

Os irmãos se entreolharam e, sem qualquer fé em que pudessem pescar algo que prestasse, lançaram as redes. Quando as puxaram elas estavam tão pesadas que era difícil fazê-las subir das águas. O jovem, alegremente, se pôs a ajudá-los. Primeiro, a André. Depois a Simão Barjonas ou Cefas. E o barco quase foi a pique de tantos peixes. As redes se rasgaram quando, na terceira vez atirada às águas, encheu-se de tanto pescado que o peso fê-las rasgarem. Gritaram por outros barcos que estavam por perto e eles vieram ajudar. Todos se fartaram de pescado. A faina era ansiosa e mais e mais barcos vinham juntar-se a eles e todas as redes se enchiam de peixes. Nunca, antes, haviam pescado tanto. Com muito cuidado e com os corações aos pulos de alegria, eles chegaram à praia. A algazarra era grande. A satisfação de todos expressava-se nos risos e na alegria dos amigos pescadores como os dois irmãos. Simão Barjonas, André e o jovem e misterioso Yehoshua saltaram e se puseram a descarregar os peixes afanosamente. O jovem maravilhoso ria com eles e os ajudava sem descanso. Ao final, estava com as vestes brancas irreconhecíveis e fedendo a peixe a quilômetros. Mas ele parecia não se incomodar com isto. Ajudou-os a transportar os peixes para o galpão onde eram guardados. A venda se daria pela manhã cedinho. Depois de tudo arrumado, Yehoshua juntou-se aos dois irmãos para beber vinho e cantar junto com os outros enquanto a noite se fazia densa. Finalmente, quando o entusiasmo arrefeceu e o cansaço de um dia estafante se fez pesado, Simão Barjonas perguntou ao jovem.

— Como te chamas? Estiveste conosco e nos ajudaste e não sabemos sequer teu nome. E fizeste coisas maravilhosas, aqui. Memorável. Uma história que certamente passará de geração a geração entre nosso povo. De onde vem este teu poder tão grande?

Yehoshua conversando com seus apóstolos.

Yehoshua, sentado na praia, conversando com seus apóstolos.

— Meu nome terreno é Yehoshua. Meu nome no reino de nosso Pai é Mikael. Mas também me chamam de Yoshua. Não importa. Quanto ao Poder que dizes que tenho, ele vem de nosso Pai que está no céu e em mim também. D’ Ele é todo Poder e Glória.

— E de onde vens, Yehoshua? —  Perguntou, intrigado, André.

— Vim da Galiléia.

— És galileu?

— Hum-hum.

— E o que fazes por estas bandas? És um rabi itinerante do Templo?

— Vim buscar-vos.

— Buscar-nos? Como assim?! — Espantou-se André.

— De agora em diante, sereis meus discípulos. Eu vos farei pescadores de homens.

Os irmãos se entreolharam. Tiago e João, filhos de Zebedeu, também pescadores, companheiros de Simão Barjonas e André, e que estavam por perto observando e ouvindo curiosos o estranho jovem de sorriso cativante falar, aproximaram-se para ouvir melhor o que Yehoshua dizia.

— Vós também vireis comigo. Aprontai-vos. Amanhã, irei à casa de cada um buscar-vos.

— Yehoshua — disse André — somos casados. Temos famílias e temos responsabilidades para com elas. Como queres que abandonemos tudo para te seguir? E nossa gente, como fica?

Yehoshua sorriu e respondeu.

— Por que te preocupas com eles? Quando o Pai chama o homem, este deve abandonar pais e filhos terrenos e tudo o mais que pensa que tem e atender ao chamado.

— Mas não há nenhum Pai nos chamando — contestou João, cujo irmão concordava com ele acenando afirmativamente a cabeça.

— E não me vês aqui? Do que mais precisas? Quem vos poderia encher as redes de peixes, quando um dia e uma noite de trabalho duro não vos tinham feito isto? Mas eu o fiz. E o fiz porque posso. E posso muito mais porque o Pai está em mim. Tendes uma missão muito árdua a cumprir e eu vos quero para vos preparar para ela.

Os pescadores se entreolharam, desconcertados e surpresos.

— Bom, meu jovem rapaz — disse Simão Barjonas, após pigarrear para limpar a garganta. — Tu realmente fizeste um verdadeiro milagre aqui, hoje. Mas isto não te faz superior a outros milagreiros que andam por estas terras. Já vi outros fazerem coisas assombrosas e…

— Eles não são eu, nem perto de mim se encontram. Acredita, jovem Simão, não há homem na Terra, nem haverá um tão cedo, que chegue às sandálias que eu calço. E quanto às vossas famílias terrenas, a elas caberá o quinhão que meu Pai queira que assim seja, pois Sua Vontade e Seus desígnios são de Seu conhecimento somente. No entanto, eu vos asseguro, a todos vós, que a elas não faltarão pão, abrigo e proteção. Ide descansar e vos despedir de vossos parentes terrenos. De agora em diante só tereis uma família: Eu.

E sem esperar contestação Yehoshua se retirou, deixando os quatro homens atordoados com o que tinham ouvido…

Simão Barjonas sentiu uma mão pousar suavemente em seu ombro direito, interrompendo suas recordações. Olhou para cima, embora já tivesse intuído de quem se tratava.

— Sim?

— Vem comigo, Simão Barjonas. Precisamos conversar. Tu e eu. A sós.

Simão Barjonas seguiu seu Mestre em silêncio. Estava curioso com o chamado, mas esperava para ver o que resultaria dele. Geralmente, Yehoshua não dava explicações a ninguém do que fazia ou intentava fazer. Caminharam até perto de uma gruta, sob grande arvoredo. Ali era fresco e não havia ninguém por perto. Yehoshua convidou seu discípulo a tomar assento diante de si esperou que ele assim o fizesse.

— És um homem de convicções fortes, Simão Barjonas — começou Yehoshua. — Tenho-te observado atentamente durante este tempo em que andas comigo e os outros. De todos, és aquele que mais fé tem demonstrado em mim. Tu não me questionas, mesmo quando minhas falas e atitudes te desorientam. E não te mostras preocupado com tua família carnal, à qual novamente abandonaste para atender ao meu chamado. Mas tens uma fraqueza muito humana, que precisas combater. És medroso.

— Eu?! — Espantou-se Simão Barjonas, cuja fama de valente corria de boca em boca entre sua gente.

— Sim, tu. Não há outro aqui conosco… Ou tu vês alguém que eu não vejo?

— Não, não vejo. Mas não entendo que me chames medroso, Mestre. Minha fama de destemido corre entre todos os que me conhecem.

— Nenhum homem, exceto eu, é totalmente destemido, Simão Barjonas. Cada homem, cada mulher, cada animal, enfim, cada ser que vive neste mundo guarda dentro de si um lugar para as coisas que os amedrontam. Tu não foges a isto. Tens de vencer este medo oculto. Tens de te livrar do mundo terreno. Aqui, ninguém tem qualquer poder. Nem César, Nem Pilatos, Nem Caifás nem ninguém. O Poder que pensam que têm eles mesmos construíram para si e só é reconhecido por aqueles a quem atemorizam através de roupas pomposas, rituais que eles sacramentam tolamente e supostos feitos heróicos de guerra. Feitos que só enegrecem suas almas diante de nosso Pai Celestial. Se se virem sozinhos, no deserto, por exemplo, logo descobrirão que não passam de um miserável homem à mercê da Natureza inclemente. Contra Ela, não há força de qualquer poder que eles pensavam ter. E morrerão de sede e em desesperado por isto. No entanto, eu te digo, cada um de vós, homem ou mulher, tem o Poder incomensurável e verdadeiro em seu Espírito. O Poder de fazer o que quiser, como quiser e quando quiser.  Este Poder Verdadeiro dorme naqueles que vivem para a ilusão mundana. Mas desperta naquele que fecha seus olhos aos chamados do Vazio de Valor. A Força deste Poder de que falo tu e todos a conhecem como Vontade. Tu estás perto de tomar segurança sobre este Poder de que te falo, pois tens Vontade forte. Mas deves combater em ti a tendência às recordações e às fantasias que elas suscitam. As vivências vividas estão petrificadas e virarão pó quando não mais as trouxeres à memória presente. Vive o Presente. Só ele importa. As memórias, Simão Barjonas, não mais podes alterá-las. Então, aproveita de cada uma o que de bom te deram e regula teu viver por isto e tu serás mais feliz. E, feliz, poderás ser o senhor de ti mesmo. Medita em minhas palavras, agora, e não voltes ao grupo antes que delas tires a exata compreensão do que deves compreender.

O Mestre se afastou e Simão Barjonas permaneceu quieto, mergulhado em seus pensamentos. Eles lhe turbilhonavam na Mente e o discípulo compreendeu que aquele dia e os seguintes seriam terríveis para ele.

Sua luta era sozinha. Era somente dele. E não podia desertar para não sentir vergonha de si mesmo.