Issa ou Yehoshua era incansável em ensinar a quantos estivessem a seu alcance sobre a Verdadeira Lei do Pai.

Issa ou Yehoshua era incansável em ensinar a quantos estivessem a seu alcance sobre a Verdadeira Lei do Pai.

Era manhãzinha. Fazia frio. Estavam em Yabné, a aproximadamente vinte e cinco quilômetros de Azoto. A pequena vila era muito agitada. Sendo à beira-mar, havia intenso comércio de pescado e ali havia muitos dos que eram chamados gentios pelos hebreus. Yehoshua escolheu um local bem junto a uma praça bastante freqüentada pelos que vinham comprar os peixes. O comércio era intenso desde a manhã cedinho. Os discípulos buscaram alimento junto aos pescadores e demais vendeiros que espalhavam suas bancas por todos os lados. Frutas, verduras, tubérculos cozidos ou assados, maçãs e muitas outras frutas foram trazidas por eles. Muitos curiosos se aproximaram e logo havia um círculo ao redor do grupo. Os apóstolos, para obter a doação de alimentos, haviam contado os milagres que o Mestre vinha fazendo. Cada qual contava uma maravilha pintada com as cores do exagero. Mas funcionou. Yehoshua, alimentando-se com tranqüilidade, parecia não notar o volume de curiosos ao redor dele e de seus apóstolos. Quando o repasto terminou, ele se ergueu e fez menção de se afastar. Mas um dos homens presentes no grupo, falou.

— Teus seguidores disseram que tu és um milagreiro. Isto é verdade?

— Não — foi a resposta desconcertante de Yehoshua.

— Como?! Tu não fazes milagres? — Gritou uma mulher que tinha uma criança nos braços. Era uma menina e parecia desacordada. — Eu fui buscada em casa, por meu esposo, e corri com minha filha na esperança de que tu a pudesses curar. Como é que nos dizes que não fazes milagres?

Do que Ele mais gostava era de falar às multidões. Não fazia distinção entre as pessoas, desde que não fossem egoístas e más de coração.

Do que Ele mais gostava era de falar às multidões. Não fazia distinção entre as pessoas, desde que não fossem egoístas e más de coração.

— Por que necessitais tanto de milagres? Onde quer que eu passe, vós vindes a mim em busca de milagres. No entanto, eu vos pergunto: o que ofereceis ao Pai Celestial que vos criou em troca do muito que Ele vos dá?

Yodchevah exige muito de nós — gritou um dos pescadores. — Não temos condições de Lhe ofertar melhores ovelhas e carneiros do que os ricos que vão ao Templo. Só dispomos de peixes, verduras, frutas e raízes. Os rabis do Templo não querem mais estas oferendas. Segundo eles, são vulgares perante os olhos de Deus. Exceto os peixes, mas exigem tamanhos e tipos específicos. Há ainda os cobradores de impostos. Se damos nosso pescado aos rabis do Templo, eles ficam sem o quinhão que nos exigem. E se não sabes, a punição é horrível. Estamos entre dois fogos. Se tu és um enviado de Yodchevah, então, socorre-nos. Se não és, paga pelo que te demos pois teus discípulos nos enganaram contando mentiras sobre ti.

Yehoshua permaneceu de pé, passeando o olhar pelos rostos barbudos, cansados e irritados que o encaravam. Suspirou, fechou os olhos e orou ao Criador, em silêncio. Então, caminhou até a criança nos braços da mãe desesperada e debruçou-se sobre ela. Estava morta. Exalara o último suspiro fazia poucos minutos. Yehoshua estendeu a mão sobre a cabeça da menina e orou mais uma vez. Poucos viram uma luz azul fluir da palma de sua mão e desaparecer na cabeça da criança. Após um tempo que pareceu eterno à mãe aflita, Yehoshua recolheu a mão e falou.

— Tua filha não tem nada grave. Volta para tua casa e deixa que repouse. Quando despertar, ela correrá, sorrirá e brincará como qualquer outra.

A mulher olhou a face da filha. Estava rosada, em pleno contraste com a cor macerada que a morte impõe nos rostos sem vida.

— Mestre — falou a mulher, entre lágrimas. — Minha filha sofre de um mal que não tem cura. Ela tem dificuldade de respiração e sufoca, piando muito como se fosse uma ave de mau agouro. disseram-me os rabis que isto é devido aos pecados que eu cometi,pois está escrito que Yodchevah é um Deus poderoso que pune nos filhos os erros dos pais até a terceira e quarta gerações.  Eu…

— Eu te disse: — Cortou Yehoshua olhando firme dentro dos olhos da mulher — tua filha não tem nada. Tudo já passou.

— A doença… Ela não vai voltar?

— Se tiveres fé em nosso Pai Celestial, não. Não voltará. Crê e tu te salvarás e a ela também.

A mulher permaneceu olhando atarantada para o belo homem diante de si. Seu coração pulsava com força.

— Falas de Yodchevah? 

— Não. Falo de meu Pai, Aquele que não tem nome porque é Único. Agora, vai.

— Como posso eu orar a esse Pai a que tu te referes? Como é Ele? Como posso imaginá-lo? 

— Como costumas orar?

— Eu… Eu…

— Não oras, não é verdade?

A mulher abaixou a cabeça, envergonhada.

Yehoshua voltou-se e se encaminhou até a beira do poço. Ali, subiu na amurada para que pudesse ser visto por todos e falou.

— Esta mulher me trouxe a filha para que eu a curasse. No entanto, irmãos meus, eu não curo ninguém. O Poder é todo de nosso Pai Celestial, Aquele que a tudo criou; Aquele que a tudo dá vida e a toma quando julga necessário.

— Mas tu curaste a garota — gritou um dos pescadores que tinha vindo examinar a garotinha que, agora, sorria para todos, agitada nos braços da mãe exultante de alegria. — Como explicas isto?

"Eu não sou mais deus que vós mesmos". Esta sempre foi sua mensagem, mas até hoje os homens não o entenderam e muitos continuam buscando "milagres" que supostamente são realizados por "milagreiros" que têm mais valor diante dos olhos do Pai do que os demais. Todos esquecem do que Ele verdadeiramente disse: "sois deuses e podeis fazer o que faço e muito mais até, se tiverdes fé".

“Eu não sou mais deus que vós mesmos”. Esta sempre foi sua mensagem, mas até hoje os homens não o entenderam e muitos continuam buscando “milagres” que supostamente são realizados por “milagreiros” que, supõem, têm mais valor diante dos olhos do Pai do que os demais. Todos estes homens esquecem do que Ele verdadeiramente disse: “sois deuses e podeis fazer o que faço e muito mais até, se tiverdes fé”.

— Eu sou o Filho do Pai entre vós, homens. Eu trago comigo Sua Santa palavra. A palavra da Fé e da Verdade. Quem me ouve não morre. Quem me ouve, não sofre. Quem me ouve conhece a alegria e a felicidade. Andais perdidos e enganados por homens cegos para a Verdade. O Pai Celestial não necessita de cabritos, nem de carneiros, nem de peixes, nem de aves, nem de qualquer oferenda que os rabis afirmam que se deve fazer a Ele, pois não foi Ele mesmo que a tudo criou, deu forma e Vida? Então, como o homem pode achar que suprimir a Vida de Deus na forma do corpo de qualquer ser Lhe agrada, a Ele que é dono de tudo? Se desejais honrar vosso Pai Celestial, fazei o bem a todos sem exceção; falai a verdade, mesmo que isto vos traga sofrimento; agi com lisura e honestidade até nas mais mínimas coisas, pois aos olhos de nosso Pai o que vos parece mínimo é, na verdade, grande e tem significado. Não o adoreis em Templos luxuosos, pois o que puderdes construir como luxo para Ele é insignificante. Quem pode agradar Aquele que fez a Terra, o Sol, as Estrelas e o Céu? Quem é senhor destas maravilhas, pode ser agradado por alguma coisa retirada disto que Ele criou? Eu vos digo que não. Vós só podeis agradar ao Pai de todos nós dando de vós mesmos em vossas palavras, em vossas ações, em vossos sentimentos e em vossos pensamentos. Agi reto. Senti reto. Falai reto. Pensai reto e tereis dado ao Criador o que de melhor tendes em vós, pois em verdade em verdade eu vos digo: sois iguais a mim; também sois filhos diletos do Pai Criador de todas as coisas e de todos os homens e mulheres e crianças. Mas errais quando vos deixais iludir pelo que vossos olhos mortais enxergam. Em verdade, em verdade eu vos digo: os olhos da carne nada vêem da Verdade e da Vida, senão a carne e só. Para que possais chegar ao Amor, tendes de vos recolher a vossos corações; tendes de fechar olhos e ouvidos e bocas e narizes e entregar-vos todos, de coração e mente, ao Pai Celestial. Abdicai do vão que vos parece poderoso e vos recolhais a vós mesmos, pois eu vos garanto, com a autoridade que me deu Meu Pai Celestial, que só dentro de vós podeis encontrá-lo e com Ele conversar francamente, abertamente, diretamente. Não necessitais de templos ou de guias de cegos, fanáticos que se julgam os enviados de vosso Pai. Não há tais homens. Nunca os haverão. O Pai não quer intermediários entre Ele e seus filhos. Ele está o tempo todo em vós e vos aguardando para ouvir vossos pedidos. Se forem feitos com fé verdadeira e se tiverdes agido reto, de modo a fazer jus ao que rogardes em vossos íntimos, então estejais certos de que obtereis o que julgais ser um milagre. Mas não peçais nada que prejudique ao vosso irmão. Não peçais, os homens, a mulher de vosso próximo, nem as mulheres o homem de outra. Luxúria não é o caminho certo para vossa iluminação. Aqui, entre vós, vejo que há muitos em que tais desejos fervilham no silêncio de seus corações. Livrai-vos disto e credes que se alguém passou por vossas vidas e vos deu algo bom, tal pessoa não o fez por si mesma, mas pela Vontade d’Aquele que tudo sabe e tudo conhece. Se tiverdes recebido tal ajuda, agradecei primeiro ao vosso Pai Celestial, depois ao vosso irmão ou à vossa irmã. E aceitai o que vos vier depois, pois vossa caminhada não termina quando vossos olhos se fecham para este mundo. Em verdade, em verdade eu vos digo: ninguém recebe a ajuda de que necessita se não tiver merecimento diante d’Aquele que tudo pode. E Meu Pai não premia o mau, mas o faz ao bom.

— Rabi — gritou o homem que tinha estudado a criança cuidadosamente. — Eu tenho algum conhecimento dos males que atacam as pessoas. Esta criança estava morta quando chegaste a ela. Como pudeste devolver-lhe a vida?

— Ó raça de tolos! — Gritou Yehoshua, irritado. — Não ouvistes nada do que eu vos disse? Não fui eu que fiz o que chamais de milagre, mas o amor intenso dessa mãe por sua filha. Seus rogos, em coração, foram muito mais fortes que os gritos que soltava em desespero buscando em mim a cura da filha. Fui somente o instrumento de nosso Pai Celestial, nada mais. E te digo que, em verdade, em verdade, a criança não estava morta. Não ainda. Por isto é que a Vida lhe foi novamente insuflada pelo Criador de todas as coisas. Agora, ide e contemplai o que de mim ouvistes. Mudai vossos modos rudes e cheios de preconceitos para com vossos irmãos. Não há diferença aos olhos do Pai entre hebreus e romanos ou quaisquer outros povos, pois todos, eu torno a afirmar isto, fostes criados pelo único Pai. E tendo sido assim, sois irmãos, queirais ou não, aceiteis ou não. Se vos dividirdes em castas ou em raças, disseminais entre vós a dor e sois os responsáveis por ela. O Pai vos dá, a todos vós, o direito de escolher como quereis viver. Se desejais provar da dor, então, que assim seja. Mas se desejais ver o Amor em tudo e em toda parte, então, não vos aparteis de vossos semelhantes, pois que estes são vossos irmãos. Guardai os tesouros verdadeiros em vossos íntimos e estes tesouros são os presentes invisíveis que meu Pai vos concede de conformidade com vossos merecimentos. Não alardeeis o que tendes recebido, pois se vos foi dado em silêncio, em silêncio deve ser guardado. E tu, mãe, não mais peques em tua vida, pensando o Mal, agindo Mal e sentindo Mal. Vi e vejo ainda que o único bem que te aconteceu foi teres tido essa criança. Ela te foi mandada pelo meu Pai para que, assim, tu tivesses teu coração aberto para o Amor sem mácula, pois só o Amor de mãe é puro, quando é verdadeiro. Vai. Leva tua criança e te esforça ao máximo de que fores capaz e até mesmo além deste limite, para fazeres o bem e praticares a verdade, pois será assim que obterás a remissão de teus erros infantis diante de Meu Pai. Agora, ide aos vossos afazeres que tenho de prosseguir em minha viagem.

— Rabi — soou forte a voz de um homem que se adiantou de dentro da multidão e se deixou ver. Era um rabi itinerante. — Rogo-te que fiques ao menos um dia em minha casa. Eu te ouvi e de teus lábios ouvi coisas maravilhosas, que caíram como gotas d’água em meu coração. Eu busco algo que nem mesmo sei definir o que seja. Tu tens as respostas que desejo para minhas dúvidas. Sou aquele que tem o dever de ensinar ao povo os caminhos de Yodchevah. Mas tenho dúvidas em mim e isto me aflige. Vem, aceita meu convite e me faz feliz.

Yehoshua permaneceu um tempo, olhando nos olhos do homem. Então, com um leve aceno de cabeça dirigiu-se a ele e o seguiu, sendo, por sua vez, seguido por seus discípulos.