Fiquei fora por um tempo para me "desinvenenar"...

Fiquei fora por um tempo para me “desenvenenar”…

Estive parado porque estava desanimado. Ver triunfar as nulidades não é nada fácil. Mas as águas do rio da vida não podem ser sustadas. Orozimbo chegou, ontem, com a mão cheia de notas de um, dois e cinco reais. Junto com elas, algumas moedas. Colocou o pequeno rolo de notas em minhas mãos, juntamente com as moedas. Fiquei com aquilo nas mãos olhando para ele sem entender nada.

— É do Arthurzim. Ele feiz uma coleta pro’cê, home.

— Por que Arthurzinho coletou dinheiro para mim?! — Perguntei, confuso.

— Ué! Vancê num pidiu ajuda pra sua fia? Ele correu a sacolinha junto dos cumpãeiros dele na iscola e arrecadô isto aí. Véio veio trazê o dinhêro pruqui ele tá todo atrapaiado com os istudo, num sabe?

Olhei para as notas enroladas em minhas mãos e para as moedas que iam de um real a cinco centavos.

Meu melhor amigo é um preto velho honrado, pobre e feliz.

Meu melhor amigo é um preto velho honrado, pobre e feliz.

— Quanto tem aqui?! — Perguntei, curioso.

— Véi num sabe, home. O dinhêro é pr’ocê. Entonce, véi num mexeu nele, ora.

O senso de responsabilidade de Orozimbo ainda é do século XIX. Suspirei e convidei-o a se sentar. Ele aceitou, satisfeito. Fui buscar sua xícara de café amargo, colocando o dinheiro dentro de uma sacola e trazendo tudo de volta para ele. Orozimbo me olhou interrogadoramente.

— Tome. Leve o dinheiro de volta para seu netinho. Acho que ele não entendeu o que escrevi. Na verdade, meu velho, eu teria ficado embasbacado se ao menos um, apenas um, dos que me lêem tivesse-se prontificado a ajudar minha filha. A solidariedade de nosso povo não se volta para os desconhecidos. Sabe, no passado, quando eu ainda vivia no Rio de Janeiro e o Rio ainda era o Velho Rio boêmio e de gente unida e gozadora, sem bandidos, sem crime organizado, sem mortes gratuitas, sem medo generalizado e sem polícia sofrida, houve um músico famoso, Juca Chaves, que colocou uma grande garrafa de vidro sobre a calçada, em Copacabana, e nele colou um cartaz que dizia: “Ajudem o Juquinha a comprar seu Mercedes”. E angariou muito dinheiro. Era gozação. Se não me falha a memória, ele fez isto exprobando a boa vontade do nosso povo que, quando espertalhões espalharam caixas e mais caixas pelas esquinas das cidades brasileiras pedindo que o povo desse ouro para o Brasil, quase toda a nação atendeu inocentemente e teve gente que doou até suas alianças de ouro. A fortuna foi recolhida, mas a dívida com o FMI e os bancos estrangeiros continuaram maiores que nunca e, é claro, a coleta sumiu como por encanto e jamais alguém disse para onde foi toda aquela fortuna. Mas brasileiro adora gozação. Pelo menos adorava. Quando a coisa se torna séria… Bom, aí o brasileiro dá as costas e ignora. A não ser que a coisa séria lhe aperte fortemente os calos. Nossos calos, atualmente, meu amigo, não estão convenientemente apertados. E quando começam a fazer isto… Bom, a Dilma e o Lula podem falar de cadeira sobre o resultado.

Orozimbo ficou-me olhando com o cenho franzido. Então, com um suspiro, perguntou:

— O qui é esse negóço de ixprobá? Véi se alembra do Juca, sim sinhô. Mas essa palavrinha aí, véi num sabe o qui é, nhor não.

— Exprobar, meu velho, quer dizer censurar com azedume; lançar ao rosto de alguém uma censura acre, uma reprimenda por alguma coisa que aquele alguém fez e que foi tida como tolice por quem exproba. Entendeu?

— Hummm… — Fez ele, encolhendo os ombros. — Mais ou menos… Argo cuma uma chamada de atenção munto raivosa, né?

— É… Isso aí — concordei para não ter de ficar explicando e me enrolando cada vez mais.

— Mas véi num vai levá o dinhero de vorta, nhor não. Cuma é qui Arthurzim vai ficá perante seus colega? Cuma é que vai ixpricá qui vancê quiria, mas num era de verdade?

Canário da Terra Verdadeiro. Lindo, principalmente quando, livre, solta seu trinado alegre.

Canário da Terra Verdadeiro. Lindo, principalmente quando, livre, solta seu trinado alegre.

Pensei um pouco e decidi ficar com a doação. Afinal, tinha sido um esforço sincero e de bom coração e me trouxera uma lição. As crianças são mais perceptivas atualmente que seus pais, estupidificadas pela violência nossa de cada dia. Ninguém mais acredita senão nas mentiras que lhe pregam sobre vantagens imediatas e pessoais.  De certo modo, o PT intensificou esta dependência ao lucro fácil, à vantagem sem esforço. Quer uma casa e é pobre? Entre para o Minha Casa Minha Vida e ganhe de graça o que outros têm de batalhar duro para obter. Quer ajuda financeira porque não tem especialização, é pobre, não estudou e está na Classe D da Sociedade? Entre para o Bolsa Família. Tem filhos e não pode pagar os seus estudos? Entre para o Bolsa Escola… Nossa gente, que antes era malandra e se virava bem com sua “pobretude”, agora, graças ao PT, não mais sabe se virar e ser feliz. Tem-se tornado como canário preso em gaiola. O canário criado em gaiola desaprende a voar para caçar seu alimento e só tem direito a esperar que o homem lhe coloque os grãos no cochinho. Se aquele que se diz seu dono se esquecer disto, ele morre porque não tem como alcançar o alimento no campo, como era de sua natureza natural. Preso, ele não canta de alegria, mas de saudade… 

O PT aprisionou a liberdade de ser do brasileiro pobre, mas livre. Tornou-o dependente de suas bolsas-esmolas. Não com fins humanitários, mas com fins eleitoreiros. Um crime imperdoável. 

— Vancê tá pensando em quê?

A pergunta de Orozimbo me trouxe de volta à realidade. Sentei-me a seu lado e lhe bati carinhosamente na coxa grossa.

— Pensava em como as crianças são mais sensíveis do que seus pais, atualmente. Os adultos, meu velho, quando envelhecem não endurecem somente as juntas do corpo, na atualidade. Com elas, também endurecem seus corações. E os que aprenderam a ser “espertos” não ajudam a ninguém que pense no País. É como diz o ditado: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

— Vancê se refere à sua fia?

— Sim. A ela também. Ela tem um ideal: entrar para a Política para combater a polititica. Tem planos bons, mas naquela seara nenhuma semente boa viceja. É como a semente da metáfora de Jesus, que, caindo sobre a pedra não germina.

— É, mas a semente de sua fia pode germiná. Vancê num vê qui ela, sem nenhum recurso gordo, contando só com seu minguado salário, já conquistô uma porção de gente?

— Miragem, Orozimbo. As pessoas que a ela se chegam são da classe D e E. Ou seja, são pobres ou quase miseráveis. Aprenderam a viver dependuradas em favores de Políticos a troco de seus pobres votos. Ouvem o que minha filha lhes diz e até compreendem, assombradas, o que ela explica sobre os erros mantidos propositadamente pelos polititicas a fim de perpetuar a escravatura do brasileiro classe média-baixa e baixa. Mas no íntimo, o que desejam é que ela, se vier a ser eleita, lhes consiga um contratinho no Serviço Público. Um cabidinho cairá bem. Desde que dê para comprar o feijão com arroz tá muito bom. E não é isto que ela fará. E o diz com todas as palavras, mas, viciados nos favores de polititicas, o povo pobre pensa que ela apenas deita falação para fugir ao compromisso comum.

— Entonce… Ela num é burra, nhor não. Entonce, se percebe isto, pru qui é qui ainda inseste?

— Porque como todos os jovens adultos de sua idade, percebe que não há saída. Ou fica vegetando e morrendo sem esperança nenhuma, reduzida à vida limítrofe da miséria, ou tem de lutar pelos filhos que deseja colocar no mundo. Ela quer ser mãe, mas não quer que seus filhos tenham uma vida miserável. Ela mesma jamais soube o que é miséria, na sua infância, na sua meninice e na sua adolescência. Sempre foi feliz, muito feliz. O seu mundo sempre foi cor-de-rosa e cheio de alegria. Quer a mesma situação para sua prole. Mas percebe que a realidade em que foi criada mudou drasticamente. E para pior. Então, estudada e formada na Ciência que mais lida com a sujidade humana em todas as suas facetas, tomou a decisão de lutar por melhorar o país. Só para ter para seus filhos e para as crianças que deles serão coleguinhas, dias iguais ou melhores do que ela mesma teve. Entende isto?

— Hum-hum… Mas num era mais faci, ela apenas tentá trabaiá no qui é formada?

— Como advogada? Ora, quase todos os seus ex-colegas de faculdade estão amargando uma dureza dos diabos, meu velho. O povo não tem dinheiro nem para se alimentar direito, quanto mais para pagar os honorários de um advogado. Além do mais, ela não gosta do lodo em que os advogados têm de trabalhar. E, atualmente, só há duas opções na profissão: ou se torna advogada de porta de cadeia e se especializa na defesa de bandido, de preferência integrante do Crime Organizado, ou fica dando um duro danado para ganhar mal e porcamente o pão-nosso-de-cada-dia. E isto vale para qualquer profissão autônoma, meu velho.

— Mas era ansim mermo no tempo em que vancê se formô, home. Num mudô nada?

— Houve uma ameaça de mudança, Orozimbo. Mas o PT da Dilma estragou tudo e o país andou de marcha-a-ré.

Ele parou de falar e ficou quieto, baforando seu pito em silêncio. Eu lhe respeitei o momento de meditação. Então, quando o fumo acabou de queimar e só restou cinzas, ele o limpou, guardou-o num saquinho de cor indefinida, pôs-se de pé e me cumprimentando com um aceno de cabeça, sem dizer nada foi embora.

Doei o dinheiro para um Centro Espírita.