Yehoshua ensinou os seus discípulos a evoluírem e a compreenderem além do mundo em que viviam, mas por seus próprios esforços.

Yehoshua ensinou os seus discípulos a evoluírem e a compreenderem além do mundo em que viviam, mas por seus próprios esforços.

Yehoshua estava sentado diante da casa de Mohamed, seu amigo de muito tempo. Comerciante árabe. Os dois conversavam animadamente. Era o anoitecer e as primeiras estrelas já surgiam no céu azul do anoitecer. Tomavam chá e o árabe fumava seu narguilé sem que isto incomodasse o Mestre. De repente o árabe mudou o assunto da conversa e foi direto ao que o incomodava desde quando soubera das andanças e dos “milagres” realizados por seu amigo.

— Soube que tu andas tentando o suicídio. Podes-me dizer por quê? — Os olhos escuros do árabe de pele também escura se fixaram no rosto do hebreu. Este suspirou e olhou para cima. 

Maktub”  — Respondeu Yehoshua, depois de um prolongado silêncio. Seu olhar perdia-se no céu, onde as estrelas surgiam cada vez mais forte à medida que a noite se adensava.

 Mohamed permaneceu olhando escrutinadoramente a face de seu amigo. Como comerciante, era um homem acostumado a analisar cuidadosamente o estado de espírito de seus prováveis compradores, assim, sentiu a tristeza que havia na face de Yehoshua.

— Hum-hum… Tem de acontecer”… Mas podes-me explicar a razão disto? Por que tem de acontecer? Afianço-te que conheço bem o rei Herodes e melhor ainda o Prefeito Romano. Ambos são… cruéis. O primeiro gosta de mandar apedrejar seus desafetos. O segundo, em nome de seu senhor, o Imperador de Roma, gosta de matar os que considera inimigos, geralmente a chibatadas e, depois, dependura seus cadáveres no Gólgota para que sirva de lição a outros possíveis candidatos à morte. Tu não fazes nada de mal nem tentas levantes contra qualquer um deles. Então, por que escolhes o caminho da provocação religiosa? O Templo dos hebreus é intocável. Mexer com seus rabinos é se colocar disponível para o apedrejamento. Como a eles não é permitido a condenação à morte… Irás parar nas mãos de Pôncio Pilatos. E é uma alternativa nada agradável…

"Eu vim consertar a Lei". Poucos compreendem esta Sua afirmação.

“Eu vim consertar a Lei”. Poucos compreendem esta Sua afirmação.

— Vim consertar a Lei entre este povo que tu julgas ser o meu. Nasci entre eles para isto, pois sei que dele partirá a semente de muitas religiões futuras. Suas crenças, suas fábulas, os acontecimentos copiados e inseridos na Tanakh serão tomados como verdades e base para o desenvolvimento de uma fé doentia e desviada da Verdade.

— E intentas fazer isto sozinho? Sei que arrebanhaste um punhado de pescadores e alguns poucos letrados para serem teus seguidores e, possivelmente, os semeadores de teus ensinamentos. Tais homens não têm a condição de que necessitas. Entre minha gente há homens letrados e muito sábios que bem poderiam…

— Teu povo, meu amigo, espalhará sobre a Terra um tipo de religião doentia, fanática, assassina. Tanto quanto a que este ao qual me deixei pertencer o fará. A diferença é que entre teu povo minhas palavras nunca ressoariam além de meus lábios. Já entre os hebreus, elas causarão polêmica e da polêmica algo sairá que será bom e terá a direção e o sentido que precisam ter. Não será a perfeição que tanto anseio que os homens encontrem, mas ao menos apontará na direção que desejo que aponte.

Mohamed acenou com a cabeça, mas não disse nada. Discordava totalmente de Yehoshua. Para ele, a religião que professava era superior a qualquer outra, mas preferia não polemizar com aquele hebreu estranho, mas cativante. Sem que ele pudesse ver, Gabriel se aproximou e acenou com a cabeça para Yehoshua. Este se pôs de pé, cumprimentou o árabe à moda árabe e pediu licença para se retirar, pois tinha algo muito importante a resolver com algumas pessoas a quem deixara esperando. Mohamed sorriu e retribuiu o cumprimento, pensado que Yehoshua buscava fugir ao diálogo difícil que ameaçava surgir entre eles.

Distante da casa do amigo e em meio à solidão da estrada que a noite escondia, Yehoshua parou e se voltou para Gabriel.

— Eles estão prontos?

— Sim. E muito fracos, depois de 20 dias praticamente só bebendo água.

— Todos eles? Inclusive Judas Iscariotes?

— Inclusive ele, embora não tenha alcançado o que os demais alcançaram.

Yehoshua nada mais perguntou. Continuou andando até a casa de Jafa, outro amigo seu, de quem obteve pães, leite de cabra, tubérculos diversos cozidos e uvas passas que colocou em seu saco de alimentos. 

Uma hora depois Yehoshua chegava ao bosque onde encontrou seus discípulos sentados em padmasambva tal como ele os havia ensinado. Sem fazer bulha, colocou pedaços de pão e tubérculos cozidos diante deles e doze copos contendo leite de cabra. Então, pigarreou para lhes chamar a atenção. Quando todos o olhavam, sem se mover, ele falou.

— Sei que estão fracos e sei que vossos estômagos estão sensíveis. Então, comei lentamente o pão e bebei também a pequenos goles o leite. Dai intervalo entre um gole e outro. Quando todos tiverem comido, eu vos falarei.

Seu esforço sempre foi no sentido de fazer que os homens compreendessem que não deviam depender nem dele nem do Pai celestial, mas d'Aquele que habita no íntimo de cada um.

Seu esforço sempre foi no sentido de fazer que os homens compreendessem que não deviam depender nem dele nem do Pai Celestial, mas d’Aquele que habita no íntimo de cada um.

O tempo escorreu lentamente. Os discípulos tinham dificuldade de engolir o alimento, mesmo quando o pão era molhado no leite. Mesmo assim, eles o conseguiram. Todos sentiram o calor que lhes invadiu os corpos combalidos. Yehoshua veio a cada um e colocou sua mão espalmada sobre suas cabeças. E assim que a retirava, após uma bereka murmurada inaudivelmente, os homens foram sentindo que suas forças retornavam plenamente. Alguns, como Pedro e Tiago Menor, abriram um grande sorriso e olharam maravilhados para Yehoshua. Os demais davam graças a Jeovah em silêncio.

Yehoshua sentou-se entre eles e falou.

— Cada um de vós teve a oportunidade de ir, ainda em vida carnal, a locais onde só os que já deixaram este mundo vão. Então, quero ouvir dos que lá estiveram o relato do que viram.

O primeiro a falar foi Pedro. Ele narrou que em dado dia, não saberia precisar qual, subitamente sentiu que a noite se fazia em torno de seu corpo, embora soubesse que o sol nem atingira o meio-dia. Então, ele caiu e caiu e caiu num lugar sombrio, terminando por firmar os pés num solo preto, lamacento. Uma névoa espessa e fétida estava por todo lado e se enrolava em volutas como corpos de serpentes flutuantes. De dentro dela vinham choros e lamentos em línguas diversas. De mistura com tais lamúrias, ele também disse ter ouvido pragas e xingamentos, mas só alguns em hebraico ou koiné. Ele procurou andar pelo meio daquela névoa fedorenta, mas seus pés afundavam no solo lamacento, de onde se desprendia gases que se assemelhavam aos flátulos que os homens soltavam após comerem carne. Era muito feio aquele lugar escuro. Sentiu medo. Muito medo. E quando se viu avassalado por aquele medo, eis que de dentro da névoa incomodativa surgiram faces encovadas, com cabeças com tufos de cabelos no meio de calvas escuras e órbitas sem olhos. Eram assustadores. Aqueles fantasmas sem olhos e muito magros estendiam os braços à frente, buscando segurar-se em alguma coisa ou, talvez, alcançá-lo e ele se sentiu tomado de infinita compaixão pelos desgraçados. Sentiu os olhos marejarem com um pranto que lhe assomou com força do fundo de seu ser. Com esforço conseguiu orar a Jeovah e lhe pedir ajuda para aqueles infelizes. E foi só quando ele sentiu profundamente a dor e o desespero daqueles mortos que uma luz azul brilhante desceu sobre o local e ele se viu elevado dali em direção a um lugar totalmente diferente. Um jardim maravilhoso, perfumoso e cheio de aves canoras e muitas flores de cores tão vivas como não as houvera visto na terra. E viu um homem esplendoroso que, rindo, estendeu-lhe a mão e assim que a sua tocou a do estranho houve uma como que explosão de luz e ele se viu transportado para um ambiente que não sabia como descrever. Então, ouviu uma voz maviosa falar: “Pedro, esta é a morada dos que aceitam O que foi enviado ao mundo inferior. Tu virás para cá, quando deixares aquele mundo”. 

Cada qual, dos demais, contou algo parecido, variando na descrição dos ambientes maus, fétidos e escuros. Só Iscariotes não teve muito o que contar. Sim, ele vira o ambiente negro e vira muitos dos que matara vagando por lá. Tinham expressão de ódio nas faces cadavéricas e sentiu que todo aquele ódio se voltava contra ele. Mas não se intimidou e até quis chegar perto dos infelizes para os matar de novo, mas alguma coisa o impediu. Depois disto, mergulhou numa espécie de sono torporoso, onde sombras pareciam mover-se ao redor dele. Despertou com o pigarro de Yehoshua e estava imensamente fraco. Só depois da alimentação é que sentiu suas forças voltando com todo o vigor.

Yehoshua ouviu a todos, em silêncio. Então, esperou um tempo com o olhar perdido à frente, parecendo estar ouvindo algo ou alguém que seus discípulos não podiam enxergar. Então, com um suspiro, falou.

— Os lugares que visitastes existem de verdade. Não sofreram alucinação em função da fraqueza de que foram acometidos. O estado de fraqueza conscientemente imposta ao corpo físico por um grande esforço de Vontade Força enfraqueceu a escuridão da matéria em que vossos espíritos encarnados estão mergulhados. Também retirou-lhes a consciência das aprendizagens e das crenças que tendes aprendido e admitido como a verdade. Não é qualquer um que consegue tal façanha. Todos vós passastes neste teste duríssimo que eu lhes pedi que realizassem. Não houve qualquer interferência minha ou de alguém além-vida, como algum de vós poderá supor. O mérito pelo que descobristes é todo de vós mesmos, de cada um por si mesmo. É assim que chegam aos outros mundos os que deixam a matéria de modo natural, quando a ancianidade lhes esgota as forças do corpo denso ou quando uma doença prolongada lhes rouba todas elas. Sem estas forças, a consciência do mundo material vai-se apagando e tudo o que, antes, era valorizado, passa a ser ignorado e perde qualquer valor para o enfermo. Seu espírito começa a dominar a Consciência Real e a inibir a Consciência Sombra, a que conheceis como vosso ser verdadeiro, mas que não passa de uma grande ilusão formada no cadinho da vida carnal. Esta perda de interesse pelo mundo dos mortos, que é este em que estais vós e todos os que crêem que esta é a verdadeira vida, acontece naturalmente no homem e na mulher ao longo do envelhecimento e da concomitante aproximação do desprendimento final. É uma transição natural, normal, aceita sem qualquer resistência pela pessoa. Um processo de partida que é de conformidade com o que nosso Pai determina para seus filhos diletos. O que parecia ser de suma e indispensável importância vai-se apagando no interesse íntimo do ser que se prepara para retornar à Casa do Pai. E este ser, esta pessoa, centra-se na história de sua vida. Uma história da qual só restam as lembranças do que viu, do que viveu e das pessoas com que manteve intenso relacionamento, seja prazeroso, seja desprazeroso. Mas tanto os momentos de prazer quanto os de desprazer não têm mais qualquer importância e a pessoa, homem ou mulher, os vê mentalmente como algo terno, valioso para si e só para si. Alguma saudade pode ocorrer, mas não é desesperadora e, sim, doce, quente ao coração. Tudo perde o valor negativo e adquire valor positivo, pois tudo é compreendido como uma grande aprendizagem, uma grande lição de vida. E se a pessoa, homem ou mulher, viveu a vida centrado em se libertar de dores e sofrimentos emocionais; se lutou por melhorar a mesma dor em seus semelhantes, seus irmãos, então, a doçura de suas recordações são absolutamente valiosas e ela não as trocaria nem por uma montanha de ouro. Mas há uma parcela destas recordações que não são tão doces e todos vós, humanos naturais, delas vos lembrareis com certa nostalgia, certa tristeza. É que nelas, naquelas vivências, certamente tereis sido fracos e cometido erros em função de uma reação de covardia diante de situações que se vos assemelharam ameaçadoras, insuportáveis para vossas forças psíquicas e emocionais. Em tais situações, muitos homens e muitas mulheres têm um impulso a pensar: “Ah, se eu pudesse voltar no tempo faria tudo diferente”. Se este desejo cheio de arrependimento for muito forte, naquele instante mesmo tereis determinado vosso retorno a este mundo. Vós vireis por vossa própria vontade, para, ainda que em num mundo totalmente diferente deste de agora, quando partis em arrependimento, buscardes reeditar aquela reação psicoemocional  a partir de situações que engendrareis inconscientemente para obter um desafio com a mesma carga de medo que vos fez sentir culpado, anteriormente. Estareis buscando resgatar-vos da emoção de arrependimento e censura que tivestes levado para o outro lado da vida, quando vivestes antes, aqui. As Emoções não se destroem. Elas perduram mesmo séculos depois de vossa partida da vida de agora. Elas desagradam aos vossos Espíritos e, por isto, ele se determina retornar para corrigir aquele momento de fraqueza. A isto chamais Karma. 

Os mundos inferiores são povoados dos que partiram após terem tido o fio de suas vidas rompidos abruptamente, antes do tempo determinado para suas idas em tranqüilidade e paz. Chegam do outro lado cheios de vívidas lembranças que não se desgastaram naturalmente no findamento natural da existência terrena. Se vão prenhe de ódio, como os que foram vistos por Iscariotes, manter-se-ão prenhes desta qualidade emocional negra, má. Após um pequeno momento de perda da consciência física, como que ressuscitam para o outro lado carregados de desejos baixos, todos eles voltados intensamente para esta realidade, à qual não mais pertencem. E seus pensamentos, assim como suas recordações, se voltam fortemente contra todos os seus irmãos que, por eles, são vistos como inimigos que devem ser destruídos. O mundo em que se encontram, então, é bem próximo da crosta da Terra, deste mundo em que vós só enxergais guerras, mortes violentas e injustiças e crueldades diversas. Aqui em baixo, o mundo paralelo que vive cheio das energias emocionais e de pensamentos negros, maus, é tão denso que a Luz Superior nele pouco penetra, quando penetra. E o que vistes foram sombras, lugares tenebrosos ou escuros, frios, feios e fétidos. O mau cheiro é devido à proximidade dos locais de morte e desintegração dos corpos físicos. Os cemitérios e os campos de batalha são os que mais atraem os infelizes espíritos que foram obrigados a partir antes do tempo. Os que Iscariotes matou estão em tal situação lamentável e caberá apenas ao nosso irmão retirá-los de lá, um trabalho hercúleo, posso garantir-vos. Lembrai-vos de que a cada um conforme seu merecimento.  Se fizerdes por merecer aquela batalha, então tereis de vivê-la, leve o tempo que levar. Por isto é que vos aconselho insistentemente a que não mateis, não odieis e perdoai os que vos ofenderem. Com isto, não vos vereis envolvidos no que chamais de karma, ou seja, no retorno voluntário e obrigado por si mesmo, a fim de resgatar os estragos que tiverdes feito nas vidas de muitos. Lembrai-vos que sois criação do nosso Pai Celestial e que por isto, sois Ele mesmo em vós, na forma de vossos espíritos. Então, tudo o que fazeis, fazei-lo pela Sua Vontade celestial. Nada acontece sem que seja pela Sua vontade, visto que Ele vos habita profundamente. Se, por fraqueza ou relaxamento, semeais sementes más em uma vida, retornareis pela Sua Excelsa vontade para vos corrigirdes de tal semeadura. Não há um Pai fora de vós que vos obrigue a nada. O Pai que vos obriga à correção de vossos erros está em vós mesmos. Ele não admite que volteis à Sua Casa portando vícios que só devem existir aqui em baixo. Mesmo que os tenhais vivido intensamente, se, antes de partirdes, vos tiverdes corrigido deles, não tereis, depois, o desejo de retornar para vos limpardes. Não tereis de vos submeter ao que chamam de Karma, uma Lei que é íntima a cada Filho do Pai Celestial. Ele só impõe a correção a cada um, embora, situações específicas terminem por serem criadas por vós, em conjunto, depois de vossos retornos, para viverdes novamente aquelas emoções deletérias e vencê-las por vossos próprios esforços. 

Yehoshua levantou-se e recomendando que seus discípulos discutissem entre si o que tivessem entendido do que ele lhes dissera, retirou-se de volta à casa do árabe. Seus discípulos não deviam afastar-se do local de aprendizagem antes que Ele julgasse que podiam fazê-lo.