Ele dava início à sua caminhada em direção ao calvário sem hesitar.

Ele dava início à sua caminhada em direção ao calvário sem hesitar.

Há uma semana Ele havia deixado seus discípulos às voltas com os estudos a partir do que tinham vivido e ouvido do Mestre. Agora, todos já o aceitavam como Mestre e, não, como um rabi andarilho revoltado. Havia um Poder estranho naquele homem brincalhão, risonho, mas que, quando necessário, se impunha com uma autoridade inquestionável. Judas Iscariotes não falava nada. Apenas ouvia e meditava no que ouvia. Estava agastado porque não vira os tais mundos celestiais de que os outros falavam com entusiasmo. Ele vira, sim, e vira-o bem, um mundo ruim, escuro, fétido, sem luz clara, apenas penumbroso. E nele, fantasmas de mortos. Muitos egressos dos campos de batalha e outros vindos dos vales dos leprosos. Muitos eram loucos, que tinham sido considerados como endemoniados, mas que, agora, ele podia entender, tinham sido apenas vítimas de doenças desconhecidas, talvez punições enviadas por Yaveh para confundir seus familiares e amigos e, assim, castigarem os ímpios, levando-os à morte sob sofrimentos e torturas. Mas não vira nada bonito. Nenhum lugar nem de longe parecido com os que eram descritos pelos seus companheiros e isto começava a incomodá-lo, a inquietá-lo. Se quem morria em pecado ia parar naquele lugar em que estivera, temia por si mesmo, visto ter feito tanta maldade e desconsiderado tanto os ensinamentos religiosos. E por pensar nisto, vira dezenas de rabis em prantos, cegos, estendendo as mãos à frente dos corpos em busca de algo em que se segurar para evitar cair de cara na lama pútrida do chão fétido. Em vão. Não havia nada em que pudessem se segurar. Sempre terminavam caindo de cara no chão horrível. Por isto, guardava silêncio e se mantinha afastado do grupo, atento ao que seus companheiros diziam entre si, registrando tudo para questionar o Mestre, quando se dignasse a retornar a eles.

Quando o Senhor teu Deus tiver exterminado os povos, cuja terra ele te há-de dar, e a possuíres, e habitares nas suas cidades e casas; destinarás para ti três cidades no meio da terra que o Senhor teu Deus te há-de dar em possessão”.

Aplainarás com cuidado o caminho e dividirás em três porções iguais todo o distrito de tua terra; para que o que está fugitivo por homicídio tenha um lugar vizinho a que se acolher. Esta será a lei do homicida fugitivo, cuja vida se deve conservar;

O que ferir a seu próximo sem o cuidar e não se provar que tivesse inimizade com ele nem ontem nem ante-ontem, senão que indo com ele simplesmente fazer lenha a uma mata e ao tempo que cortava a lenha escapou o machado da mão e, saindo o ferro fora do cabo, feriu a seu amigo e o matou: ele se acolherá a uma das sobreditas cidades e viverá;

Por não suceder que algum parente daquele cujo sangue foi derramado, estimulado da sua dor, o siga e o prenda, se o caminho for muito comprido, e mate a um homem que não merece a morte, visto não se provar que tivesse antes tido inimizade com o que foi morto, mando-te que ponhas estas três cidades em igual distância uma da outra.

E quando o Senhor teu Deus tiver alargado os teus limites, segundo Ele o assegurou a teus pais, e te tiver dado toda a terra, que lhes prometeu;

Se, contudo, guardares os seus mandamentos, e cumprires o que eu hoje prescrevo, que é que ames o Senhor teu Deus e andes em todo o tempo pelos Seus caminhos, ajuntarás outras três cidades e dobrarás assim o seu número: para que se não derrame o sangue inocente no meio da terra, que o Senhor teu Deus te fará possuir e tu fiques réu de homicídio.

Mas se algum tendo inimizade com seu próximo, armar traições à sua vida, e atacando-o o ferir, e matar, se acolher a uma das sobreditas cidades, os anciãos daquela cidade mandarão buscá-lo e o tirarão do lugar do refúgio, e o entregarão nas mãos dos parentes daquele cujo sangue foi derramado e ele morrerá.

Não terás misericórdia com ele, mas far-lhe-ás pagar vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”.

Yehoshua parou a leitura do Tanakh e passeou o olhar por sobre a multidão que se comprimia para ouvi-lo. O grande salão interno do Templo de Jerusalém, destinado exclusivamente a hebreus e rabis, estava cheio e entre seus ouvintes, separados do povo e protegidos em alto auditório só a eles reservados, estavam Anás e Caifás, cercados por mais doze outros rabinos dirigentes do Templo. Todos eles da casta dos saduceus. Yehoshua demorou um tempo olhando para eles, o que fez que as cabeças dos que ali estavam, se voltassem para também os olhar. Aquilo incomodou os sacerdotes, que se agitaram inquietos. Anás fez um aceno de mão, ordenando ao orador que prosseguisse em sua fala. Assim, afastaria de sobre eles os olhares curiosos.

Os saduceus eram a casta rica e poderosa do Sinédrio. Não acreditavam na reencarnação ou transmigração das almas. Os fariseus, ao contrário, defendiam esta tese. Por isto alguns dizem que Yehoshua era fariseu. Não era.

Os saduceus eram a casta rica e poderosa do Sinédrio. Não acreditavam na reencarnação ou transmigração das almas. Os fariseus, ao contrário, defendiam esta tese. Por isto alguns dizem que Yehoshua era fariseu. Não era.

Os Saduceus eram menos numerosos do que os Fariseus e exerciam o poder político como o grupo dirigente absoluto da vida civil dos judeus. Subordinavam-se totalmente ao domínio dos Herodianos. Sendo uma seita judaica, os Saduceus pregavam e seguiam estritamente a interpretação literal do Tanakh, que afirmavam sem questionamento ser o único Poder Canônico; a única Verdade, tendo maior autoridade do que os Profetas e as Escrituras. Era contra eles que Yehoshua se batia destemidamente. Estar ali, o jovem homem sabia-o bem, era colocar-se sem armas diante de um touro enraivecido.

— Propositadamente saltei alguns trechos da Torah — disse Yehoshua com voz alta e clara, referindo-se ao Pentateuco. Era e é a este livro que os hebreus denominam Torah. — Os saduceus pregam os livros sagrados segundo o estrito significado de suas letras. No entanto o fazem de modo maldoso, pois ao pé da letra, vossos livros se tornam absurdos e desconexos. É necessário que suas verdadeiras mensagens sejam reveladas, para que a Lei se compreenda em toda a sua simplicidade e toda a sua beleza.

Um murmúrio de raiva se fez ouvir do grupo de saduceus que assistiam à fala de Yehoshua. Ele os provocava, mas tinha toda aquela gente presa às suas palavras e, sabiam eles, seria uma ação mais que imprudente agir contra seu desafeto, naquele momento. Entre a gente ali presente, mais de dois terços admirava o milagreiro e reagiria com violência, talvez até obrigando a que o Procurador Pôncio Pilatos interviesse na luta, o que não era nada recomendável para os interesses deles, senhores do Templo.  

— Então, eu vos direi o que de oculto há no que me ouvistes ler — disse Yehoshua com voz tonitruante. — No primeiro trecho de minha leitura é dito: “Quando o Senhor teu Deus tiver exterminado os povos, cuja terra ele te há-de dar, e a possuíres, e habitares nas suas cidades e casas, destinarás para ti três cidades no meio da terra que o Senhor teu Deus te há-de dar em possessão”. Chamo-vos a atenção para um detalhe importante: é dito os povosmas é feita referência a uma única terra. Por que, se são vários os povos? Há saduceus que vos dirão que esta referência a uma única terra deve-se a que meu Pai queria afirmar, com isto, que todo o mundo, todo o Reino da Terra será dado ao vosso povo como prêmio por vossa obediência às Suas Leis. Mas em verdade em verdade eu vos digo que este não deve ser o entendimento do que consta na Torah. A terra a que se refere a Torah diz respeito ao vosso Espírito Imortal. Através de inúmeras vivências, ele se enche de sujidades e imundícies que devem ser limpadas antes que a terra espiritual possa novamente ser ocupada pelo seu legítimo dono, o Espirito Humano, filho dileto de meu Pai, e por ele semeada com sementes novas e puras. As sujidades e imundícies são os povos a que se refere a Torah. Eles vos advieram de vícios, aprendizagens e crenças colhidas ao longo das transmigrações porque passam todos os Espíritos humanos na sua caminhada para uma das casas de meu Pai.

Os vícios físicos são povos indignos, que tornam estéreis a terra espiritual. Enchem a caminhada do homem entre seus semelhantes de escolhos afiados, lamaçal, galhos espinhosos, pedregulhos pontiagudos e muitos outros acidentes, que são os erros que os que abrigam tais povos em si, cometem em seu caminho. Por isto é dito que “Aplainarás com cuidado o caminho”, ou seja, lutarás para retirar de teu caminho na vida os escolhos e as armadilhas com que os vícios físicos enchem os caminhos de cada um de vós.  São, pois, os vícios, as aprendizagens e as crenças, eu repito, os povos a que se refere a Torah. Notai que é dito: quando o Senhor Teu Deus. Não é dito: “Quando o Senhor Nosso Deus”. Aqui, explicitamente, a referência é feita ao Deus que habita em cada um de vós, homens; e em cada uma de vossas companheiras, vossas mulheres e vossas filhas. Lembrai-vos que meu Pai deu seu sopro imortal a Adão e Eva e é este sopro Sua Presença em cada um de nós, inclusive em mim. Por isto tenho afirmado e aqui reafirmo que somos todos filhos do Altíssimo e não cometo blasfêmia quando me intitulo filho do Pai Celestial, ainda que isto contrarie e enfureça os saduceus que me espreitam como ratos escondidos nas frinchas escuras das paredes. 

Todas as cabeças se voltaram para o nicho que continha o auditório de onde as palavras de Yehoshua eram ouvidas atentamente pelos saduceus. Eles sentiram a rancorosidade dos homens ali presentes e se encolheram, temerosos, para o fundo do nicho.

— Voltando à interpretação correta da Torah na passagem que vos li — disse Yehoshua em voz muito alta, para chamar de volta a atenção dos homens ali presentes, que estavam começando a murmurar contra os rabis lá no auditório especial — ali está escrito: destinarás três cidades para ti no meio da terra que o Senhor teu Deus te há-de dar em possessão”. Uma vez que temos entre nós Caifás e Anás, lá no auditório alto, eu peço aos dois superiores deste Templo que nos expliquem o que representam estes símbolos que há no texto da Torah.

Novamente todas as cabeças se voltaram para o nicho. Pesado silêncio caiu no recinto. Caifás e Anás se entreolharam e o último se levantou, após um longo tempo em silêncio, e adiantou-se até apoiar as mãos sobre a amurada. Então, melifluamente falou.

— A pregação de Yehoshua, o filho do construtor Yoseph e descendente da linhagem de David, é interessante e até nós desejamos ouvir o que sua mente tem engendrado para nos apresentar como sua versão da Torah. Então, pedimos que ele não se incomode nem perca tempo com nossa presença, mas prossiga, pois todos temos absoluto interesse em ouvir sua fala por demais interessante. O que interpretamos neste livro é o que está ali, ao pé da letra. Então, seria perda de tempo repetirmos o que já tendes ouvido da boca do pregador.

E o ancião voltou as costas para a platéia e voltou a se sentar, sem permitir que os que os miravam atentamente lhe vissem a raiva que lhe retorcia a face.

— Sim, certamente tendes interesse em saber o que significam estas palavras que parecem obscuras aos não iniciados — prosseguiu Yehoshua com um leve sorriso de satisfação. — Então, eu vô-las decifrarei.

— Embora não o aceitem os saduceus e seus seguidores, o próprio Tanakh reconhece o retorno do Espírito humano à vida, depois de se ter depurado dos povos que lhe invadiram e lhe tomaram a terra que a ele pertence. Não existimos em um só corpo mortal. Assim como nosso Pai Celestial é Trino, e vós o reconheceis em vossos livros sagrados, eis que é dito que Ele é a Fé, A Justiça e a Sabedoria supremas, também temos nossos espíritos habitando três cidades distintas.

— A primeira, a Fé, está no corpo que podemos ver, tocar, cheirar e sentir. O corpo com que nossos espíritos se nos apresentam neste mundo inferior. Viver neste mundo é viver em Fé, pois nenhum homem pode saber o que lhe acontecerá ao final de sua última expiração e ao início da próxima inspiração. Então, cada momento da vida de qualquer homem só é possível porque acredita, tem fé, em que estará vivo e assim continuará por muitos dias e meses e anos, sem que nada exista que lhe possa assegurar tal certeza.

— Se o Espirito descuida desta cidade, seu corpo, este se assenhoreia de si e se deixa invadir por vícios e desregramentos, os povos que o levarão à derrota e, com isto, à derrota do próprio Espirito.

— A segunda cidade, a Justiça, corresponde aos Sentimentos e Desejos que nos inundam e que se apresentam como os exércitos poderosos que nos ajudam em nossas guerras íntimas ou de oposição ao nosso irmão, quando há confrontos de opiniões entre nós. Se os vícios da cidade chamada corpo põem em perigo nosso Espírito, com muito mais força os povos que invadem a Cidade Espiritual dos Sentimentos e dos Desejos, que são os povos espúrios para nosso Pai Celestial, vingança, ódio, mentira, inveja, falsidade, traição, covardia, falso testemunho, usura, avareza e outras e outras pessoas deste povo, causam o envenenamento da terra que Ele destina ao seu Filho, o homem, e esta terra é seu Espírito Divino. Contra este povo só o aplainamento da terra espiritual e a construção e desenvolvimento da cidade Justiça pode sustar os danos que Sentimentos e Desejos espúrios causam à Terra Espiritual. 

— Um povo composto de tal gente não produz nada que agrade ao Senhor Deus que habita o coração de cada homem, seja o coração dos que aqui estão presentes, inclusive o dos saduceus que me escutam atentamente, não porque me admirem, mas porque me odeiam e não o confessam abertamente porque são covardes diante dos que deles discordam; seja o coração daqueles a quem chamais de gentios e pelos quais alimentais este mesmo povo venenoso que vos habita na pessoa indigna da separatividade e do racismo condenável.

— Ninguém é superior a ninguém, diante de nosso Pai, nosso Criador. Somos todos seus filhos, logo, somos todos irmãos. A todos Ele concede Sua Presença divina, independentemente do julgamento e dos preconceitos alimentados nos semelhantes por aqueles que se auto-intitulam Seus intérpretes. Em verdade em verdade eu vos digo: Nosso Pai não precisa de ninguém intermediando Seu diálogo com qualquer de seus filhos. Ele lhes fala diretamente, no silêncio de suas almas mortais. E o faz pelo que chamais de Consciência. Atentai para vossas consciências e ouvireis a voz que fala no silêncio, e ela jamais erra. Não necessitais de rabis, por mais luxuosas que sejam suas vestes ou por mais que sejam pomposos seus gestos, seus templos de pedra e mármore e seus rituais. O Pai lê no Espírito e não ouve os povos indignos d’Ele nem dá importância à aparência externa. 

— O Pai que vos habita batalha sem tréguas contra estes povos que vos revelei. Acreditai em mim, que vim para consertar a Lei e esclarecê-la para vós. Não há meios de alguém chegar ao Pai senão recolhendo-se a si mesmo e sufocando estes povos incréus, exterminando-os batalhando lado a lado com nosso Pai que nos habita e vive e sofre e ri conosco, em nosso íntimo. Quando esta terra espiritual estiver realmente limpa destes povos renegados pelo nosso Criador, nosso Pai, então, dará esta terra ao Homem e este Homem deverá construir as três cidades para si.

E eu vos li que: “Aplainarás com cuidado o caminho e dividirás em três porções iguais todo o distrito de tua terra; para que o que está fugitivo por homicídio tenha um lugar vizinho a que se acolher. Esta será a lei do homicida fugitivo, cuja vida se deve conservar;” Já está claro a que porções iguais cada um de vós devereis repartir o distrito de vossas terras. Estas porções correspondem às três cidades que aqui e agora eu vos revelei: a cidade do corpo denso e a cidade dos sentimentos e desejos. Mas onde se encontra a terceira cidade?

Yehoshua fez uma pausa estudada e os presentes se entreolharam, curiosos e desorientados.

— É dito que a primeira cidade deve abrigar o homicida fugitivo, cuja vida se deve conservar. Como compreender isto fora da rigidez da letra da lei? E é dito também que na segunda cidade se dê abrigo ao assassino que matou por acidente, para evitar que um seu parente o siga pela longa estrada e o prenda e o mate por vingança. Mas o que é dito sobre a terceira cidade?

— Antes de vos esclarecer sobre a terceira cidade, quero explicar-vos os significados dos assassinos abrigados nas duas primeiras cidades. A primeira cidade, o corpo, pode ser vítima de um ataque homicida. Não que esta cidade seja exterminada, mas sim que tenha sido ferida de morte. Ainda assim, o fugitivo deve ser acolhido porque sua vida deve ser conservada. Não é um contra-senso o que na Torah se escreve. Os assassinos da cidade CORPO são seus vícios, seus apegos a hábitos que lhe são prejudiciais e o conduzem à morte, seu apego à fornicação sem freios e à luxúria desbragada. Este povo liquida o senso de Moral, de Honra, de Honestidade e de Verdade. A gula, o apego ao álcool e ao prazer carnal são três assassinos que estão soltos na cidade corpo, quando o homem não os controla, não os prende. Não podeis matar estes assassinos, pois ainda que não querendo, fá-lo-eis também ao vosso corpo. Por isto, tais assassinos devem ser contidos, mas suas vidas mantidas, pois que elas e a vida da cidade corpo estão intimamente ligadas. Isto custará a esta cidade grandes sofrimentos? Sim, os vícios são assassinos inveterados e renitentes e lutarão com denodo para se libertar e terminar o trabalho que lhes cabe levar a cabo. Mas vós, vossos Espíritos, deveis ser fortes e vencer a batalha, ou a cidade perecerá. Para esta guerra íntima, vós tereis de apelar para vosso Pai interior e dele receber e exercer toda a Força e todo o Poder da Vontade Divina. Sem esta Vontade em ação, não vencereis este povo que é vosso primeiro inimigo mortal.

— Os segundos assassinos são males que nascem e crescem e se tornam dominantes na cidade Sentimento e Desejos. Mas tais assassinos não vêm senão de fora, da boca dos que pregam a mentira e disseminam o erro entre seus irmãos, dourando-o com palavras falsas para que sejam aceitos como bons, ou lhes incrementando o medo a fim de lhes curvar as cabeças e enfraquecer seus Espíritos aos interesses dos falsos e mentirosos. Também estes assassinos devem ser mantidos vivos, ainda que cerceados em sua liberdade de fazer o mal. Eles ensinam e enriquecem o Espírito do Homem e este não mais os temerá nem a eles se curvará durante seu progresso espiritual. Eliminá-los e eliminar da Cidade Sentimento e Desejos as razões que justificam a opção pelo Bom e pelo Belo e só estes dois caminhos levam à fértil terra espiritual que meu Pai vos deseja dar.

— E a Terceira Cidade? Onde está ela? Por que as três devem ser construídas igualmente distantes em relação a um ponto central na terra espiritual?

— A terceira cidade, meus irmãos, compreende a cidade do povo Pensamento. É este povo o mais perigoso dos três que vós deveis enfrentar, dominar e prender. É um povo arisco, rápido em movimento e forte em ataques. Vossa batalha contra este povo não será jamais fácil. Ele domina a cidade que deveis conquistar, a cidade chamada Mente. Mas por mais dura que seja esta guerra, tereis de enfrentá-la para serdes dignos de receber das mãos do Deus que vos habita, o direito a ser o Senhor de vossas cidades. Eu vos li: ” Mas se algum tendo inimizade com seu próximo, armar traições à sua vida, e atacando-o o ferir, e matar, se acolher a uma das sobreditas cidades, os anciãos daquela cidade mandarão buscá-lo e o tirarão do lugar do refúgio, e o entregarão nas mãos dos parentes daquele cujo sangue foi derramado e ele morrerá.

— Os anciãos aqui dizem respeito aos sentimentos de Arrependimento e Culpa que acicatam a consciência daquele que erra em Sentimentos e  Desejos e, por isto, também erra em palavras e obras. E se tais erros levam prejuízo e ruína à vida de vosso próximo, então, estes anciãos buscarão tais criminosos em vossa cidade Pensamento e dela os desencravarão  e os entregarão à imagem de dor e sofrimento que trareis em vossos íntimos, para que eles sejam punidos. E a Torah diz que: “Não terás misericórdia com eles, mas far-lhes-ás pagar vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”. Isto significa que vós vos empenhareis até vossos limites físicos, emocionais e psicológicos, para se retratar diante do vosso irmão ferido por aquele povo mau que habitava vossa cidade Pensamento. E vos asseguro que este é o campo de batalha onde quase todos os homens fracassam. Mas quem vos disse que os tesouros de nosso Pai são fáceis de conquistar? Vencer estes últimos inimigos é despregar-se absolutamente da prisão física, terrena, e ganhar a Vida Eterna Divina e Bela. É voltar, finalmente ao paraíso. Eis, meus irmãos, o que está oculto no trecho que vos li. Buscai meditar nisto que vos revelei e procurai corrigir vossos erros em vícios, sentimentos e pensamentos, pois só conquistando e prendendo estes povos, podereis ganhar o Terreno Espiritual que meu Pai vos deseja dar.

Yehoshua enrolou o papiro e desceu do parlatório. Cruzou entre os homens que murmuravam sobre o que tinham ouvido, e rápido como uma sombra desceu à porta de saída sul do Templo. Dali, com passos leves e rápidos, dirigiu-se de volta ao local onde havia deixado seus discípulos.

Atrás de si deixou um punhado de rabis furiosos com ele.