Decidido a incendiar o mundo hebraico, Yehoshua aproveitava qualquer oportunidade para mostrar sua nova doutrina e incentivar a Fé no Deus íntimo de cada pessoa.

Decidido a incendiar o mundo hebraico, Yehoshua aproveitava qualquer oportunidade para mostrar sua nova doutrina e incentivar a Fé no Deus íntimo de cada pessoa.

Belém era uma vilazinha sem muito destaque àquela época. Muito boa para quem desejava permanecer na Palestina sem ser incomodado pelos guardas do Templo ou, pior, pela guarda pretoriana de Pilatos. Yehoshua dirigiu-se à casa de Manassés, um amigo de seu pai, quando este vivia. Manassés estava entrado em idade e já não andava. Não mais tinha dentes e, por isto, sofria muito na hora da alimentação. Também sofria de excesso de gordura no fígado e isto lhe trazia grandes dissabores digestivos. Tinha prisão de ventre e passava várias noites acordados, gritando, cheio de dores devido aos gases intestinais e estomacais. O Mestre se condoeu do amigo de seu pai.

Esperou que o ritual do lava-pés terminasse e todos pudessem finalmente se sentar para descansar. A tarde findava. O céu já escurecia e milhares de estrelas piscavam com alegria na abóbada celeste. Os discípulos, já acostumados a isto, puseram-se a ajudar as mulheres na faina de preparar a alimentação para eles. Isto causou estranheza nos homens da casa e nos que tinham vindo para conhecer, curiosos, aquele que, dizia-se, fazia milagres por onde quer que passasse. Mas agradou em cheio as mulheres, já sobrecarregadas com suas tarefas diárias.

A fogueira acesa e as explicações dadas por Yehoshua sobre sua mãe, sua esposa e seus irmãos, que tinham ficado na Caxemira, todos se sentaram ansiosos por assistir a algum feito extraordinário do milagreiro. Por ali passavam muitos, mas poucos realmente tinham feito alguma coisa verdadeiramente digna de nota. A maioria se restringia a misturar barro com saliva ou outro líquido estranho que traziam consigo e esfregar a pequena lama obtida assim, nas feridas e nos locais inflamados dos que os procuravam. Alguns lhes davam beberagens a beber garantindo a cura em dois ou três dias. Iam-se antes do prazo findo e as melhoras não eram nem duradouras nem notáveis. Mas o que se dizia sobre aquele homem bonito, sorridente e suave no trato com as mulheres era bem diferente. Então, os belemitas estavam realmente curiosos sobre seus famosos feitos de cura.

Yehoshua cantou e sua voz maviosa foi acompanhada pelo coro das mulheres da casa. Logo, todos estavam acompanhando a canção. Era um hino de louvor a Yaveh. E à primeira canção seguiu-se outra e mais outra. Alguém decidiu trazer uma bilha de vinho e todos beberam com satisfação. A alegria tomou conta daquela gente simples. Em dado momento, Manassés curvou-se sobre si mesmo, mãos ao ventre, soltando eructações altas e violentas. O ancião chorou. Um pesado silêncio se fez no grupo e todos os olhos se voltaram para Yehoshua. Se havia um momento certo para que fizesse um milagre, este era ele.

Yehoshua pôs-se de pé e tomou de um copo com vinho. Colocou-o no meio do grupo e dirigiu-se à platéia expectante.

— Sinto que esperais de mim um milagre para Manassés. No entanto, se eu passasse minha vida fazendo milagres para vos curar de vossas dores, uma vida apenas não seria suficiente. Então, que todos vós o façais. Pareceis condoídos do sofrimento do ancião. Mas, pergunto eu, este sentimento é profundo e verdadeiro? Ou assim pareceis apenas porque tendes vergonha de expor às claras a indiferença e a acomodação de vossos corações diante do sofrimento de vosso irmão?

Um pesado e incômodo silêncio desceu sobre todos. Alguns abaixaram as cabeças, as mulheres com as faces afogueadas. Yehoshua esperou, dando um tempo, de propósito, para que suas palavras calassem fundo nas mentes dos que, inda agorinha mesmo, pareciam muito felizes com sua presença.

— Vamos ao teste. Estendei vossas mãos direitas, espalmadas, em direção ao copo de vinho. Fechai vossos olhos e orai,  em silêncio, ao Vosso Pai interior, pedindo a ele misericórdia e cura para nosso ancião em tão grande sofrimento. Se alguém aqui orar com contrição verdadeira, com amor ao próximo verdadeiro, então, o milagre se fará.

Constrangidos, homens e mulheres obedeceram à ordem dada. Ninguém sabia como orar a um Pai Interior, logo, todos oraram uma bereka de agradecimento pelo milagre que se fizesse em Manassés, caso ele fosse merecedor das graças de Yavé. Já os discípulos do Mestre tentaram verdadeiramente um contato com aquele misterioso Deus que, segundo lhes garantira o Mestre, permanecia pronto a atender aos rogos de seu filho. A concentração durou menos de três minutos. Então, um a um todos foram abrindo seus olhos e entreolhando-se claramente tensos e constrangidos. Os discípulos, contudo, estavam, ao contrário, exultantes e expectantes. Tinham, em menou ou maior, grau, conseguido uma harmonia íntima que lhes trouxera bem-estar e uma reação de piedade sincera para com Manassés. Ninguém notou, mas nas faces de Judas Iscariotes duas lágrimas rolaram. Envergonhado, ele tentou disfarçá-las e esfregou as costas das mãos nas barbas, com um leve pigarro.

Yehoshua tomou a taça com o vinho e elevou-a ao alto, orando em voz clara e sonora.

Pai que nos habita, a todos nós, e a todos os nossos rogos ouve com atenção. Muitos corações foram aqui transformados em instrumento de vibração emocional sobre este vinho, com rogos sinceros, ou não, para que tu o transformasses em remédio de cura para nosso Irmão Manassés. Agora, tudo depende do quanto de fé colocaram aqui os que rogaram com sinceridade pelo milagre tão esperado. Que Manassés beba este vinho e nele se faça, se os que rogaram o fizeram de coração e com amor, a cura que todos esperamos.

Yehoshua estendeu a taça a Manassés que o olhou demoradamente, em dúvida sobre se devia ou não, beber o vinho. E se a bebida lhe trouxesse mais dores e sofrimentos?

Yehoshua ajoelhou-se diante do ancião e falou.

— Manassés, tens de confiar nos teus amigos e nos que aqui estão movidos pela curiosidade sobre mim. Tua confiança é que fortalecerá a fé com que eles rogaram, cada qual a seu Deus Interior, pelo milagre de tua cura. Ora tu também, com contrição e, depois, bebe o vinho.

— A que Deus tu te referes, Yehoshua? Só conheço um e seu nome, bendito seja ele, é Yavé.

— Não. Não se deve orar a Yaveh. Deves ter fé no sopro do Criador que te faz viver. Aquele sopro que ele nos deu através de Adão, quando lhe soprou nas narinas a Sua Vida. Este é o Deus que habita em todos nós, inclusive em ti também. Ou vais contradizer o Tanakh, que ensina que foi assim que o Criador nos legou seu sopro de vida eterno e divino?

Manassés permaneceu um momento olhando dentro dos olhos de Yehoshua, intensamente. Então, com um meneio de cabeça, fechou os olhos e também ele orou. E o fez com ardor. Com a convicção de que seria curado tão logo tomasse o vinho daquela taça. Então, abriu os olhos e pegando decidido a taça bebeu o vinho até a última gota. Permaneceu com os olhos abertos, mirando as estrelas. Então, sua face foi-se transformando em grande alegria. De repente, pôs-se de pé e dando saltos e  gritos de Aleluia!, bradou até ficar rouco: Estou curado! O Deus que me habita me curou! Bendito seja Yaveh em sua infinita bondade!”

Os dentes do ancião estavam perfeitos e ele os mostrava aos risos e às lágrimas a todos os que estavam ali. A algazarra era enorme e todos gritavam que queriam ver a nova dentadura de Manassés.

Iscariotes foio único que chorou emocionado com a alegria de Manassés. E também fôra o único que dele se condoeu até às lágrimas, quando o viu em sofrimento.

Iscariotes foio único que chorou emocionado com a alegria de Manassés. E também fôra o único que dele se condoeu até às lágrimas, quando o viu em sofrimento.

A alegria foi geral e todos cantaram salmos em agradecimento a Yaveh. Mas quando eles se acalmaram, o que não foi fácil, Yehoshua pregou sobre o nosso Deus Interior. Repetiu quase tudo o que já havia dito aos seus discípulos e terminou afirmando que não tinha sido Yaveh quem fizera o milagre por todos desejado, mas sim o Deus interior de todos eles. Não era possível atribuir a tal ou qual Deus Interior o milagre que ali fôra feito, pois eles eram tão iguais entre si como chamas de velas. Mas o que interessava é que o milagre acontecera. E não fôra por ele, Yehoshua. Fôra efeito da oração de todos em conjunto. E chamou a atenção para o fato de que estavam ao relento, longe de qualquer templo. No entanto, tinham sido atendidos prontamente quando haviam rogado com fé. E reafirmou que nosso Deus interior está onde estivermos, pois ele nunca nos abandona. “Ele é nosso Espírito Imortal que veio do Criador através de seu sopro de vida nas narinas do primeiro homem sobre a terra” — Repetia o Mestre sem cessar.

Yehoshua gostava de pregar sob árvores e à margem de rios ou de poços. Mas ia às sinagogas com uma única intenção: provocar os rabis e colocá-los em confronto com sua Verdade.

Yehoshua gostava de pregar sob árvores e à margem de rios ou de poços. Mas ia às sinagogas com uma única intenção: provocar os rabis e colocá-los em confronto com sua Verdade.

Yehoshua ficou até á meia-noite, entusiasmado, respondendo à enorme quantidade de perguntas que lhe eram dirigidas sobre o Deus Interior de cada um. Todos acreditavam, agora, que fôra seu Deus Interior e, não, o dos outros, o que obrara o milagre. E estavam loucos de vontade de sair apregoando aos quatro cantos do mundo o que seu Deus Interior fizera. Vendo isto nas mentes deles, Yehoshua os desencorajou.

— Irmãos meus — disse, pondo-se de pé para se impor sobre a bulha — ouvi-me com atenção. Nosso Deus Interior não aprova de modo algum a fanfarra sobre o que Ele faz em silêncio. Se quisesse barulho ele mesmo se manifestaria para gritar bem alto: “Vede o que fiz! Eu sou o maior! Eu sou o mais poderoso!” Seria ridículo que se manifestasse deste modo tão vulgar. Vulgaridade não faz parte de seus atributos. Ele opera em silêncio e atende estritamente aos que sente que merecem ser atendidos. É vossa fé que O leva a agir. Além do mais, desejais chamar sobre vós a ira do Templo? Eles já me odeiam porque falo a verdade. Quereis o ódio deles também sobre vós?

À lembrança dos rabis, principalmente dos dois maiorais dentre eles, Caifás e Anás, todos se aquietaram. Yehoshua, então, recitou de cor o trecho da Torah que fazia referência às três cidades. E àquela platéia também deu sua interpretação sobre estas cidades. Mas propositadamente nada disse sobre o Caminho a ser seguido nem o que significavam as outras três que poderiam ser acrescidas às demais, aumentando assim o poder de seu possuidor. Quando parou de pregar, passava da hora quinta. O frio da noite descia pesado e todos se enroscavam sobre si e se aproximavam mais da fogueira para se esquentar. Mas ninguém queria arredar o pé daquele lugar, fascinados com o que tinham visto acontecer em nome de um Deus que desconheciam e com o que tinham ouvido dos lábidos de Yehoshua. Mas este pôs fim ao entusiasmo de todos. Declarou-se cansado e necessitado de sono. Despediram-se todos os que não eram da casa e retornaram às suas, em pequenos grupos, discutindo acaloradamente sobre o revelado Deus Interior que dispensava templos e rabis.

Deitado em sua esteira, olhos fitos no teto, Iscariotes se perguntava o que era que lhe tinha assomado ao peito e feito que chorasse de dó daquele ancião. Logo ele, que jamais sentira dó de ninguém? Que já cortara uma centena de gargantas olhando dentro dos olhos de suas vítimas para ter a satisfação de ver a vida ali se extinguir?

Ele passou a noite em claro, em franca inquietação consigo mesmo…