Vestiam-se assim os Tribunos Romanos. E eram muito arrogantes.

Vestiam-se assim os Tribunos Romanos. E eram muito arrogantes.

Pulvius Quintus não conseguira solucionar a contento a querela entre Egito e Roma. Esta, não cedia nada a Roma na cessão que tinha recebido de Marco Antônio através de Cleópatra. Resolveu, então, dar um prazo maior ao governador do Egito. A Celessíria compreendia a Síria e a Palestina, o que envolvia na querela o protetorado de Pôncio Pilatos. Por isto, Pulvius Quintus dirigiu-se até Jerusalém para conversar com o Prefeito. Chegava à cidade justo quando Yehoshua chegava à casa de Lázaro, em visita. Como tribuno, Pulvius Quintus se fazia acompanhar de um contingente de soldados que impressionava e era justamente esta a idéia. Ele entrou em Jerusalém com toda a pompa e de surpresa. Não havia mandado avisar o Prefeito Pôncio Pilatos que, pegado de surpresa, se viu às voltas com a preparação do seu palácio para colocá-lo à altura de uma recepção a tão distinto visitante. Sua chegada obnubilou todas as atenções sobre o pregador revoltoso. Até o Templo tremeu de medo. Afinal, quem era a autoridade que se apresentava com um verdadeiro exército na cidade? A que vinha? Os hebreus tremeram de medo. A imponência da coorte romana, com cerca de trezentos legionários fortes e muito bem armados colocava angustiosa dúvida nos corações dos hebreus. Os rabis do Templo se reuniram às pressas para chegar a uma conclusão sobre como agir no caso de uma presença mais acintosa romana na cidade. Como proteger o Templo?

Parte de uma coorte romana saindo do acampamento.

Parte de uma coorte romana saindo do acampamento.

Pôncio Pilatos deu um salto em sua cadeira quando, esbaforido, um de seus legionários lhe veio comunicar da presença da coorte romana, composta de três centúrias. Correu para a sacada de seu palácio e viu os soldados armando acampamento no grande paço diante dele. Conteve o ímpeto de descer às pressas para receber quem quer que fosse e fervendo de curiosidade e temor, aguardou que o enviado de Tibério viesse ter com ele. Viu-o sair da tenda e olhar para cima, para a sacada, mas Pilatos se recolhera atrás de uma cortina para não ser enxergado. O tribuno confabulou com os três centuriões e, cercado por um pequeno destacamento, comandado por um dos centuriões, encaminhou-se para o portão principal do palácio. Esgueirando-se para não ser visto, Pilatos desceu a escadaria e foi direto para o portão, coração aos pulos. De Roma podia-se esperar qualquer coisa e a maioria nunca era boa.

Com um gesto de mão mandou que se abrissem os grandes portões, justo no momento em que o pequeno grupo do tribuno chegava a ele. Pulvius Quintus apeou-se de sua montaria e caminhou direto para Pilatos a quem cumprimentou militarmente. Era mais alto que este e bem mais forte.

— Por que não me avisou que vinha? — Disse Pilatos, controlando sua ansiedade. — Poderia ter preparado uma recepção melhor…

— Na verdade não tinha a intenção de vir ter contigo — disse Pulvius Quintus, altivo. — Vim a mando de Tibério tratar de um assunto de interesse do imperador no Egito. Mas as expectativas de nosso Imperador não saiu a contento e tenho de permanecer uns dias aqui, contigo.

— Trazes uma coorte — comentou Pilatos, preocupado. — Isto requer muita alimentação da qual não disponho.

— Manda que os hebreus nô-la forneçam.

Os dois chegaram ao grande salão de recepção, onde se sentaram nas cadeiras ricamente ornamentadas. Quatro moças jovens, todas judias, estavam a postos para servir vinho às duas autoridades. Após beber, Pulvius Quintus olhou para a face de Pilatos, onde uma ruga de preocupação vincava a fronte.

— O que te preocupa? — Perguntou, incisivo.

— Teus soldados. Se não têm alimento em estoque de viagem, tu me trazes um grande problema. Os hebreus não costumam gostar de nós e não nos cederão alimento sem resistência.

Pulvius Quintus permaneceu quieto, olhando nos olhos de seu anfitrião. Então, pondo-se de pé foi até a grande varanda de onde permaneceu quieto, olhando o acampamento e estendendo a vista para mais longe, para o grande Templo de Jerusalém. Viu a fumaça que dele subia, escura, aos céus. 

— É verdade que os hebreus passam os dias da semana matando animais e queimando suas carcaças em holocausto ao seu deus? — Perguntou, quando Pôncio Pilatos veio postar-se ao seu lado.

— Sim. Aliás, quando o vento muda de direção, o odor da carne queimada causa náusea.

— Então — disse Pulvius Quintus —, está resolvido nosso problema. Enquanto eu estiver aqui, contigo, o Templo de Jerusalém nos fornecerá alimento. 

Assim é mostrado, no cinema, Pôncio Pilatos. Mas ele era mais alto, mais forte e tinha basta cabeleira grisalha.

Assim é mostrado, no cinema, Pôncio Pilatos. Mas ele era mais alto, mais forte e tinha basta cabeleira grisalha.

— O quê? — Espantou-se Pôncio Pilatos. — Estás falando sério? Quintus, tenho ordem expressa de Tibério para não provocar conflito com esse povo. Tu não os conheces como eu. São rebeldes, não nos aceitam, são assassinos perigosos e mexer com o templo deles é o mesmo que pisar numa formigueiro de formigas carnívoras. Tu não só vais irritá-los e provocar um grave conflito, como também vais despertar a ira de Tibério. Eu não aconselho a que leves avante esta idéia. Melhor será comprar, no mercado, a comida de que tuas centúrias precisam.

— Com certeza eles não terão tanto assim. Mas sossega. Temos alimento. Colhemos nos campos do Egito, onde não somos recebidos com hostilidade. Conheço bem a ordem de Tibério, tanto que ele mesmo me disse para evitar, se possível, vir até aqui. Mas como tenho de repensar em como tratar com os egípcios, creio que a melhor paragem para isto é teu castelo. Aliás, bem acanhadinho, não?

A ironia provocativa do outro fez Pôncio Pilatos engolir em seco.

— Mas suficientemente confortante para que tu te resolvesses vir aqui, buscar abrigo — rosnou Pilatos encarando seu superior de modo agressivo.

—Não busco abrigo, mas um local de descanso para pensar. E não quero querelar contigo. Ao contrário, gostaria de tomar um banho. Depois, quero andar por esta cidade estranha. Sabias que Jerusalém é muito falada em Roma? Dizem que tem alguns atrativos.

— Eu não vejo nada de bom, aqui. Gente revoltada e sempre disposta a matar. Se se anda por suas ruas sem proteção, à noite e se é romano, vai visitar Júpiter com passagem só de ida. Seus “sicários” são temíveis.

— Estás covarde demais para um romano — censurou Pulvius, rodando nos calcanhares e se afastando do anfitrião que, sabia-o bem, o fuzilava pelas costas. Mas não se dignou a olhá-lo. Eram vigiados atentamente pelos guardas que o tinham acompanhado até ali.

Nenhuma atriz possui a beleza suave da romana Cláudia Prócula. Ela era suave no trato e belíssima no corpo e nas maneiras de se comportar.

Nenhuma atriz possui a beleza suave da romana Cláudia Prócula. Ela era suave no trato e belíssima no corpo e nas maneiras de se comportar.

Controlando-se a custo, Pilatos convidou o tribuno a entrar no palácio. Apresentou-o a sua esposa, Cláudia Prócula, uma jovem romana de pele alva, olhos amendoados, azuis, corpo curvilíneo, muito bem educada e neta do Imperador Augusto. De sorriso cativante, a mulher tinha altivez natural na postura do corpo e sua delicadeza abrandava os corações mais duros, como o do tribuno diante de si, principalmente quando sorria, como o fazia agora. Seu sorriso lhe iluminava a face e lhe punha à amostra dentes alvíssimos, coisa muito rara naqueles tempos. A cárie comia os dentes de romanos e judeus indistintamente e tanto os legionários quanto os revoltosos hebraicos sofriam muito com este mal. O próprio Pôncio Pilatos já perdera dois de seus malares para este mal desconhecido na época. 

— Sinto-me lisonjeado em conhecer a neta de César Augusto. É mais bela pessoalmente do que o que dela falam, em Roma — galanteou o Tribuno, para irritação de Pilatos.

Sorrindo e delicadamente se esquivando das mãos maliciosas do arrogante comandante romano, Cláudia levou-o até o grande salão de banhos onde, mais uma vez esquivando-se dele, deixou-o aos cuidados das escravas para que o lavassem do pó das estradas.

Banhado e alimentado, Quintus mostrou-se interessado em fazer uma visita ao famoso Templo de Jerusalém e por mais que Pilatos tentasse demovê-lo, não arredou pé de seu intento. Então, às pressas, mandou um enviado avisar aos rabis Anás e Caifás da visita importante que estavam prestes a receber. E avisou que era bom que não provocassem a ira do envidado de Roma, a fim de evitar um banho de sangue. Anás empalideceu de raiva, quando ouviu o soldado de Pilatos, mas se conteve e sorriu, curvando a cabeça e murmurando:

— Volta e diz ao teu senhor que seu visitante será bem recebido entre nós.

Mais sossegado, ainda que tenso, Pilatos acompanhou o arrogante Quintus que se fazia acompanhar de um pequeno destacamento de homens gigantescos, cuja musculatura parecia ser feita de pedra. Eram centuriões acostumados aos campos de batalha e seria loucura alguém desafiá-los. As cicatrizes nos rostos braços e pernas bem diziam de quanto já haviam matado nas guerras de que certamente tinham participado.

Estavam a pé. Quintus dispensara toda e qualquer montaria. Era um modo de dizer aos judeus que não os temia como Pilatos. E para irritar seu anfitrião, tinha imposto a presença de Cláudia Prócula a seu lado, braço dado a ele, que a exibia como um troféu. Mas a augusta mulher sabia caminhar e se portar de modo a sobrepujar a arrogância do Tribuno. Sua beleza e seu sorriso cativante obscureciam a empáfia de seu condutor.

— Lá — apontou Cláudia — é o Getsêmani. Um lugar agradável pela manhã. É coberto de oliveiras e seu perfume é bem agradável, ao mesmo tempo em que oferece uma bela visão de Jerusalém. Eu te garanto que é bem melhor de se visitar do que o Templo dos judeus. Não gostarias de ir até lá? É uma boa caminhada, mas és forte, não?

O sorriso brejeiro da jovem e seu desafio pareceram um galanteio ao arrogante Tribuno, mas na verdade o que Cláudia Prócula desejava era afastá-lo o mais possível do Templo. A arrogância do homem poderia fazer que desrespeitasse os ritos dos judeus e isto seria um desastre para seu marido, que teria de agüentar o ódio despertado pelo incauto e arrogante enviado de Tibério.

—Pezinhos como os teus, Cláudia, não devem se sujar com o pó desta terra — falou Quintus, olhando rapidamente para seu anfitrião que, estoicamente, olhava para outro lado, aparentemente distraído com qualquer coisa algures. Batendo palmas três vezes o arrogante Tribuno ordenou que um de seus legionários fosse buscar montarias para todos. E assim, quando o soldado voltou com os cavalos, todos montaram e a trote se encaminharam para o Jardim das Oliveiras. A subida já se mostrou difícil, pois além de muitas pedras, o solo era arenoso e solto. Os cavalos escorregavam muito e era necessário ser bom cavaleiro para se manter sobre a sela. Mas quando chegaram em cima a vista era realmente muito bonita. Entusiasmado com o panorama e querendo exibir-se para Cláudia, o Tribuno Pulvius Quintus fez sua montaria chegar até o limite da borda íngreme do morro. A esposa de Pilatos chamou-lhe a atenção para o perigo, mas ele riu e se jactou de já ter estado em situações bem mais perigosas e em combate. E nunca havia acontecido nada devido a que era exímio cavaleiro. Mas quando tentou dar a volta o animal escorregou e ambos, ele e o cavalo, caíram rolando barranco abaixo. Bateu com o pescoço num pedregulho e quebrou uma das vértebras cervicais, perdendo imediatamente os movimentos do corpo. Tetraplegia.

O alvoroço era muito grande no Palácio de Pôncio Pilatos. Os médicos foram chamados, mas não sabiam o que fazer diante da imobilidade total do Tribuno e de sua dificuldade em respirar. Tinham-no ajeitado o mais confortavelmente possível, mas todos sabiam que ele não duraria muito. Não podia deglutir nada que sufocava. Perdera o controle esfincteriano e se defecava e urinava descontroladamente. A situação era desesperadora.

Cláudia Prócula puxou Pôncio Pilatos pelo braço e, temerosa, mas disposta a salvar seu marido de uma situação perigosa diante do Imperador, falou-lhe sobre o milagreiro judeu. Soubera por uma de suas servas que ele se encontrava bem perto dali, em Betânia. Sua sugestão era que se fosse buscá-lo para que ele curasse o Tribuno. A discussão entre os dois durou mais de duas horas, mas finalmente os argumentos da mulher convenceram Pilatos de que era sua última esperança. Então, chamando dois legionários mandou que eles fossem atrás do curandeiro judeu que se sabia estar em Betânia. Era já o entardecer quando eles partiram.

Os legionários chegaram à modesta casa de Lázaro com o lusco-fusco do anoitecer. Encontraram Yehoshua sentado no teto da casa tomando um suco de uva e comendo pão com manteiga de leite de cabra. O decurião comandante do grupo pediu licença para falar com ele. Lázaro conduziu o militar até onde estava o Mestre, que não se levantou quando este se postou diante de si.

— Estou aqui em nome do Procurador — disse o militar, empertigado. — Vim buscar-te para que cures um enviado de Roma. Ele sofreu um acidente grave e está imobilizado, cremos que com o pescoço quebrado. Pôncio Pilatos o tem em seu palácio, mas os médicos não conseguiram fazer nada. Respira muito mal e se não o atenderes, morrerá sem dúvida nenhuma.

— E quem te enviou? Pilatos ou sua esposa?

— Cláudia Prócula. Ela foi quem fez o apelo que te apresento, agora.

Yehoshua pôs-se de pé e olhou nos olhos do centurião. Viu o medo naqueles olhos. Medo de que ele se recusasse a ir ter com o doente. O militar tinha recebido de Pilatos ordem de arrastar o curandeiro à força, se necessário, mas em seu íntimo sabia que este não era o melhor modo de se lidar com os judeus. Além disto, aquele olhar direto parecia ter fisgado todos os males e pecados de sua alma e isto o fazia sentir-se horrivelmente incomodado diante do estranho homem. Mesmo sendo musculoso e valoroso nos campos de batalha, o centurião sentiu-se ínfimo e sem saber a razão disto, teve forte vontade de chorar. Controlou-se a custo.

— Volta e diz à minha irmã Cláudia que não tema. Amanhã o Tribuno estará são e salvo.

— Mas… Mas tu não vais comigo? — Atrapalhou-se o centurião, fugindo ao olhar de fogo que o mirava diretamente nos olhos.

— Não há necessidade. A fé de Cláudia em nosso Pai Celestial salvou o Tribuno. E para que saibas que falo a verdade, tu estás curado da tua dificuldade urinária. Tinhas um mal mortal que, neste momento, eu curei. Agora, vai e sossega o coração de minha irmã Cláudia.

O centurião hesitou um pouco, mas se perguntava atrapalhado como é que aquele judeu sabia de seu sofrimento se ele não o contara senão para sua própria esposa? Ainda titubeante, ele cumprimentou tolamente o judeu com a saudação militar romana, mas não se foi. Permaneceu ali, preso aos olhos chamejantes do Cristo.

— O que esperas? Vai! — a ordem quase gritada fez o Centurião quase saltar. Rodando nos calcanhares, desorientado, ele desceu do teto, subiu na sela de sua montaria e ordenou, seco, o regresso ao Palácio.

Pôncio Pilatos estapeou o centurião e urrou, furioso:

— Eu te ordenei que o trouxesses a rastro, se fosse necessário. Por que não me obedeceste?

— Espera, Pôncio! — E Cláudia se intrometeu entre o assustado Centurião e seu furioso marido. — Se o curandeiro diz que o Tribuno estará bom amanhã, então é porque estará. Ele deve necessitar de algum tempo para realizar o milagre. Nenhum de nós sabemos como é que ele trabalha. Talvez precise isolar-se para realizar seus ritos de magia e, possivelmente, o palácio não deve ser adequado para isto. Então, esperemos. É somente uma noite.

— Que seja, então. Mas se o Tribuno continuar na mesma situação, mando prender o teu curandeiro e chicoteá-lo até à morte. E depois entrego seus restos às hienas. Ninguém me desobedece assim, como ele fez. E tu — disse, fuzilando o pobre centurião com o olhar cheio de raiva — terás o mesmo destino que ele. Então, roga a Júpiter que o desgraçado cumpra com a palavra.

A noite foi um martírio para todos no Palácio, menos para Cláudia Prócula, que se recolheu a seus aposentos e orou silenciosamente a Yehoshua, pedindo de todo coração que ele salvasse a vida do Tribuno. Pela manhã cedinho, antes mesmo de o sofar anunciar o início do dia no Templo de Jerusalém, Pulvius Quintus sentou-se na cama e sacudiu a cabeça. Parecia que alguma coisa tinha-se apagado de sua memória. Parecia que saía de um pesadelo do qual não se lembrava. Parecia que estava saindo de um grande porre. Enfim, parecia muita coisa e não parecia nada. Levantou-se e lavou a boca e a face na bacia de prata colocada ao lado de sua cama. Urinou na vasilha a isto destinada, vestiu-se e saiu de seu aposento, indo até a amurada da grande varanda interna do palácio. Só os guardas estavam lá em baixo. Mirou-os sem qualquer interesse. Devagar desceu as escadas e foi ter no grande salão de refeição. Encontrou várias frutas sobre a mesa, mas o desjejum ainda não tinha sido feito. Comeu duas maçãs e tomou nas mãos um cacho de uvas rubis. Saboreando-as uma a uma, dirigiu-se para o parlatório, local onde o Procurador decidia as querelas e ajuizava questões de interesse da Procuradoria Romana na Palestina. Sentou-se na cadeira do Procurador, esticou as pernas e fechou os olhos. Tentava recompor suas memórias e retomar o controle de seus pensamentos. 

Cláudia Prócula foi a primeira pessoa a chegar até ele. Parou e ficou a olhá-lo maravilhada. O milagre se fizera. Em silêncio agradeceu ao Pai Celestial a quem aprendera a respeitar e admirar intimamente. Pigarreou e o Tribuno abriu os olhos.

— E então, como se sente? — Perguntou a mulher, ocupando a cadeira que lhe era destinada ao lado daquela do seu marido.

— Estou… Estou esquisito. Parece que tomei uma grande bebedeira, mas não me lembro de ter bebido nada, desde quando cheguei aqui…

— Não se lembra de ter ido conosco, Pôncio e eu, passar no Getsêmani?

— Onde?!

— Getsêmani, um local onde se extrai o azeite das oliveiras, no Monte das Oliveiras. Fomos lá, ontem…

Pulvius Quintus franziu a testa, buscando lembranças do que tinha ouvido. Mas não se recordava de nada e o disse, preocupado, a Cláudia. Esta, então, resolveu narrar tudo o que tinha acontecido. Era seu desejo que o enviado do Imperador conhecesse o homem enviado de Deus para consertar a Lei dos Judeus. Talvez, um dia, esta Lei também fosse aceita em Roma. Era mais justa e muito melhor que as que vigiam entre os patrícios. Pulvius ouviu em silêncio a narrativa de sua anfitriã. Depois que ela silenciou, permaneceu calado, olhando à frente com o olhar perdido algures, num esforço íntimo para se lembrar de alguma coisa. E, então, a recordação lhe chegou devagar. Como se uma nuvem se desfizesse dentro de sua mente. E se viu caindo. E se recordou da dor aguda antes de ficar totalmente insensível do pescoço para baixo. Sim, agora se recordava, tinha quebrado o pescoço. Mas estava ali, andando e se alimentando naturalmente. Então, o tal curandeiro tinha realmente operado um milagre nele. Pôs-se de pé quase num salto e se voltando para Cláudia perguntou por Pôncio Pilatos. Foi informado de que ainda dormia. Pediu que ela o despertasse, enquanto ele mandaria que de seu contingente uma escolta se apresentasse para os acompanhar até o milagreiro. Queria conhecer o homem. Queria agradecer-lhe pessoalmente o que havia feito. Nem Júpiter faria o que ele fizera. Era premente que o conhecesse e o convencesse a acompanhá-lo até Roma. O Imperador precisava conhecer tal maravilha. Como médico na corte, quanto não poderia fazer pelos nobres e, até mesmo, pelos soldados feridos em batalha?

Cláudia Prócula estava com seu coração confrangido. De repente não lhe parecia ter sido uma boa idéia haver apelado para o Cristo. Talvez só tivesse complicado sua vida. Com o coração aos pulos subiu as escadas e foi despertar seu mal-humorado esposo. Este, porém, tão logo soube da cura milagrosa saltou do leito quase tropeçando em tudo e não demorou a descer até o pátio, onde encontrou o Tribuno em verdadeira azáfama. Diante dele, uma decúria já estava a postos, com os decuriões sonolentos e ainda trôpegos.

— Esperem aqui! — Ordenou o Tribuno. — Tão logo Pôncio Pilatos e sua esposa estejam…

— Eu acabo de despertar. Ainda não fiz meu desjejum. Então, que tal tu também subires para comermos? — Disse o Procurador, irritando-se com a impaciência de seu hóspede.

— Vamos com isto! — Falou, ríspido, Pulvius Quintus. — Sei que esses homens não permanecem muito tempo em algum lugar. Já tentei encontrar pelo menos uns cinco entre eles e sempre cheguei atrasado. Mas a este não quero perder.

Enquanto isto, Yehoshua aprestou seus discípulos para saírem rapidamente de onde estavam. Ele deu a direção: ir para Cafarnaum, muito distante dali. Mas o Mestre avisou que seus discípulos deviam ir para Jericó e Arimatéia, em grupos pequenos e por caminhos diferentes. Isto dificultaria serem rastreados. Ele seguiria sozinho para Cafarnaum e lá os esperaria. E esclareceu a razão da pressa: “Um romano quer-me encontrar e não devo permitir isto”. Às pressas e cheios de temores, os discípulos partiram com urgência. 

Yehoshua se pôs a caminho de Cafarnaum., Teria de andar muitos dias, pois a distância era enorme partindo-se de Betânia, perto de Jerusalém, até lá…