Pilatos era mal-humorado. Andava magoado com a esposa contra a qual pesava a desconfiança de tê-lo traído no leito.

Pilatos era mal-humorado. Andava magoado com a esposa contra a qual pesava a desconfiança de tê-lo traído no leito.

O aviso dado por Pilatos deixou os sacerdotes do Templo de Jerusalém em polvorosa. Os membros do Sinédrio foram convocado às pressas. A pergunta angustiante era: O que quer o representante de Tibério com os rabis de Jerusalém? Quando reunidos e cessada a balbúrdia, um dos rabis se pôs de pé e pediu a palavra.

— É realmente preocupante o interesse do Tribuno romano em nós. Sabemos que eles não vêm aqui senão quando há má notícias para nosso povo e se este veio é porque se trata de algum assunto muito, muito sério. Só me passa pela cabeça um: o milagreiro filho do construtor Yoseph. Ele vem conclamando o povo à rebelião contra nós. Comete crimes contra nossas Leis, desobedecendo-as acintosamente. É manifestamente contrário às nossas práticas ritualísticas e influi danosamente na crença de nossa gente. Pior: diz-se filho do Altíssimo. Uma blasfêmia que não devíamos suportar de modo algum. E há muitos que acreditam que ele seja aquele que virá para nos salvar e nos tornar os senhores da Terra, como nos foi prometido. Ao menos já há murmúrios a este respeito entre o povo. Eu critico a leniência deste Sinédrio para com o rebelde, que para mim é estarrecedora. Resultado disto? Roma nos envia uma de suas mais altas autoridades e esta mal chega deseja um encontro conosco. Não é claro? A agitação do rebelde já deve haver chegado aos ouvidos do Imperador romano…

Uma grande bulha explodiu entre os sinedritas, todos concordando com as idéias do homem de barbas brancas e longas, olhar de mirada cortante e expressão de ira contida na face vincada pelo tempo. Arimatéia esperou que a bulha cessasse e, antes que o orador continuasse sua peroração, pôs-se de pé e pediu licença para contraditar o orador. Este voltou-se para ele, empertigado.

José de Arimatéia seguia Yehoshua em segredo. Era um alto membro do sinédrio e não podia declarar-se discípulo do homem que despertava a fúria dos rabis.

José de Arimatéia seguia Yehoshua em segredo. Era um alto membro do sinédrio e não podia declarar-se discípulo do homem que despertava a fúria dos rabis.

— Não creio — falou Arimatéia com voz gritada de propósito — que se deva colocar sobre os ombros de Yehoshua o peso de tudo o que nos amedronta, Natanael. Creio, antes, que esta reunião devia servir para esclarecermos entre nós, porque tememos tanto os romanos. Não será que os estamos colocando como anteparo às nossas consciências porque não agüentamos o que nela carregamos? Nunca ouvi o acusado inocente dizer qualquer coisa que fosse ofensiva à Torah. Quando fala, ele o faz dentro dos princípios que se encontram em nosso Tanakh. Apenas não interpreta as narrativas ao pé da letra, como nós o fazemos. E não mente a ninguém. Aqui mesmo, no Templo, ele pregou e deu as interpretações corretas às parábolas que ali se encontram.

Um pesado silêncio se fez e todas as cabeças se voltaram para Arimatéia. E nas faces dos presentes não havia expressão de apreço por ele.

Natanael fez um gesto de desprezo com a mão em direção de seu companheiro.

— Vejam! Yehoshua conseguiu até perturbar a mente de um dos nossos mais brilhantes membros. Yoseph Arimatéia está sob o jugo do revoltoso. Eu, particularmente, condeno o mau hábito que Arimatéia cultiva de ir ouvir as pregações do agitador.

— E eu posso garantir e repetir — respondeu irônico, Arimatéia —, que ele não diz nada que não esteja dentro de nossos livros sagrados. Ele os sabe de cor e deu provas disto ainda quando tinha dez anos, época em que humilhou Natanael. Creio que o ódio do membro deste Sinédrio por Yehoshua vem daqueles idos, o que nos põe a claro que Natanael não age de conformidade com os ensinamentos do sábio Hillel, que resumiu todo a Torah numa única Lei: “Não faças ao teu irmão o que não queres que te façam a ti”. Segundo nosso sábio, plenamente reconhecido por este Sinédrio, tudo o mais que está escrito na Torah são somente comentários. Ora, ninguém aqui se rebela contra o ensinamento e o pensamento de Hillel, que, a rigor, recusa tudo o mais que nossos livros contêm, senão como mitos, lendas e parábolas. 

— Não podemos recusar a Hillel — gritou outro sinedrita que se pusera de pé e se aproximara dos dois. — Ele, acima de tudo, é judeu. Sua descendência chega a David. Sua linhagem é pura.

Arimatéia voltou-se para Manassés, o recém-chegado à contenda e retrucou.

— À mesma linhagem pertence Yehoshua, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. Ele tem legitimidade, portanto. Tanto a tem que é livre para dirigir a palavra seja aos judeus, seja aos gentios, seja às mulheres, aqui no Templo. Desconhecer isto entre nós quem há de, visto que somos os detentores das linhagens de todos os membros importantes de nossa gente?

— Não lhe negamos o direito de pregar no Templo. Combatemos, sim, seu modo como interpreta e inova nos seus ensinamentos; o que nele não aceitamos é o modo como interpreta e inova a nossa Torah — retrucou Manassés. Ele era jovem, não mais que trinta e cinco anos, mas era um dos mais arraigados sinedritas do grupo.

— Então, dizei-nos, vós ambos, onde está a ligação entre as pregações de Yehoshua e Roma, a ponto de que aquele império envie-nos um tribuno para tratar de nosso ilustre conterrâneo? — Falou com voz tonitruante o esperto Arimatéia. — Em que parte das pregações de Yehoshua ele insultou Roma? Temos espiões o tempo todo vigiando suas andanças e suas falas, na busca por um deslize dele para o prender. Desde quando Herodes tentou matá-lo ainda criança, que nós o vigiamos. Mas até agora não ouvi de nenhum desses homens abjetos a denúncia sobre tal crime. Onde e quando Yehoshua nos colocou, ao nosso povo, em perigo diante de Roma?

Ele pregava falando leve e livremente, mas tinha o cuidado de nunca fugir ao que o Tanakh pregava. No entanto, dava nova interpretação ao que ali se continha e isto enfurecia o Sinédrio.

Ele pregava falando leve e livremente, mas tinha o cuidado de nunca fugir ao que o Tanakh pregava. No entanto, dava nova interpretação ao que ali se continha e isto enfurecia o Sinédrio.

O silêncio que se fez pesou como chumbo sobre os membros do Sinédrio. Eles emudeceram e se entreolharam, confusos. Sim, seus espiões não haviam dito uma única palavra sobre incitações de Yehoshua ao povo contra Roma. Ao contrário, em suas pregações ele aceitava plenamente todos os gentios como irmãos. Fazia-os filhos do Altíssimo tanto quanto eles, judeus. Todos ali sabiam que este era o maior insulto de Yehoshua ao Templo e à Torah. Yehoshua comungava com todos os gentios: romanos, celtas, germanos, árabes, chineses, nihondins, indianos… Ele não os distinguia por nacionalidades. E era muito bem aceito e respeitado e admirado por todos os goins.

 — Nosso irmão Yehoshua — voltou à carga José de Arimatéia —, é espionado para o Templo por um dos mais temidos assassinos com que contamos nós, saduceus, a cuja casta também pertencem os dois irmãos aqui ao meu lado. Este espião é Judas Iscariotes, um membro dos zelotes que também é o mais temido sicário a nosso serviço. Yehoshua sabe bem do sectarismo de Judas, ainda assim, aceitou-o entre seus doze escolhidos para dar o exemplo de que não devemos ver o que o homem faz, mas sim como ele pensa e sente. Não sei se ele tem conhecimento de que Judas é um perigoso traidor, mas sei que ele conhece os assassinatos e o fanatismo de Iscariotes. No entanto, não o repele nem o julga e o trata em igualdade de condições com os demais. Até o defende diante dos outros discípulos dele. Pois bem, Iscariotes, que tem intimidade com Yehoshua, mas não deixa de ser fiel zelote e não menos fiel sicário, nunca nos trouxe qualquer informação sobre a mínima traição dele ao nosso Tanakh nem à Torah. Muito menos nos trouxe qualquer palavra que ele tenha proferido de incitação à rebelião contra os romanos ou contra nosso Templo. Então, não vejo a razão de nesta nossa reunião trazermos para dentro deste Sinédrio sua figura, quando nosso suposto perigo iminente é um romano. Também não entendi a razão desta conclamação às pressas para deliberarmos sobre um fantasma — nosso pavor às autoridades romanas. Vivemos, gostando ou não, sob o jugo de uma, no entanto, justiça seja feita, esta autoridade, Pôncio Pilatos, embora não nos tolere, não se intromete conosco. Até por ordem do imperador deles. Então, o que nos autoriza desconfiar de que o tal Tribuno tenha vindo para nos atingir de algum modo? Todos aqui sabemos que Tibério deixou bem claro a Pôncio Pilatos que não deseja querela conosco. Deu-nos total liberdade quanto à nossa recusa de servir em seus exércitos.

Arimatéia fez uma pausa para que suas palavras calassem fundo nas mentes dos seus colegas sinedritas e, então, retomou a palavra, quando viu, satisfeito, que todos os rostos o ouviam atentamente, inclusive seus dois companheiros de seita que tinham se levantado contra Yehoshua.

— Eu voto por esperar para tomarmos conhecimento das verdadeiras intenções e das verdadeiras razões que tem o tribuno para desejar vir ter conosco. E creio firmemente que ele não busca nenhum insulto, nenhuma ação prejudicial ao nosso povo.

— Mas e se ele quiser impor-nos mais tributos? — Perguntou um dos que até ali se tinham mantido calados.

— O que podemos fazer, senão dialogar com ele e tentar mostrar-lhe que nosso povo já está sobrecarregado com as taxas?

Um murmúrio de inquietação subiu de entre os presentes. Aquela hipótese passou a assombrar todos eles, pois aumento de tributo prejudicava diretamente os lucros do Templo.  

Cada acontecimento "sobrenatural" que Ele causava tinha um propósito. Com Ele, nada acontecia por acaso.

Cada acontecimento “sobrenatural” que Ele causava tinha um propósito. Com Ele, nada acontecia por acaso.

Os debates se inflamaram e Yehoshua foi esquecido. Estavam já há mais de três horas na discussão acalorada sobre com que meios dialogativos enfrentar qualquer ameaça de novos impostos exigidos por Roma quando entrou no salão um dos vigilantes. Ele foi direto a Caifás e lhe cochichou ao ouvido. Este, ouviu atentamente o que o homem lhe contava e quando ele terminou, pôs-se de pé e bateu palmas acaloradamente. Fez-se silêncio entre os sinedritas que se voltaram curiosos para o superior.

— Acabo de saber que o Tribuno vinha ter conosco para pedir a carne de nossos sacrifícios para dela se servir como alimento e à sua coorte, visto que, ao que parece, o palácio de Pôncio Pilatos não tem comida suficiente para toda a soldadesca romana. Mas o homem foi castigado por Jeovah, bendito seja seu nome. Neste momento, está sendo levado às pressas de volta para o Palácio de Pilatos com o pescoço quebrado. Caiu do monte das oliveiras quando, ao que parece, pretendia passear por lá. Estamos livres do Tribuno.

Uma grande algazarra se elevou do grupo. “Hosanas ao Senhor” foi o grito que mais se ouviu ali dentro. A euforia pelo acidente, tomado como uma ação punitiva de Jeovah contra o Tribuno por sua arrogância, levou o Sinédrio a decretar festa em Jerusalém, o que preocupou Arimatéia. Era uma grande imprudência festejar o acidente do Tribuno. Preocupado, ele retomou a palavra e a muito custo se fez ouvir.

— Irmãos meus! Ouvi-me! Não devemos dar a conhecer aos romanos a nossa alegria pelo castigo que se supõe Jeovah aplicou ao arrogante Tribuno. Isto, sim, pode enfurecer tanto a Pôncio Pilatos quanto a Tibério e isto, com certeza, não será alvissareiro para nós e para nosso povo. Deixemos que Jeovah, bendito seja seu nome, tome conta de nós conforme seja Sua vontade. Somos seu povo eleito e nestes momentos é que devemos ter Fé em suas decisões. A festividade deve acontecer, se assim o quiserem os membros deste Sinédrio, mas depois que a coorte romana partir. O perigo será menor e mais ainda se não dermos a entender à população que ela é feita por nossa alegria com a desgraça do romano. 

Uma discussão tomou conta do ambiente, mas ao final de meia-hora estavam acordados com a sugestão de Arimatéia. A reunião se desfez e os rabis voltaram aos seus afazeres, mas agora, todo atentos ao que estava acontecendo no Palácio de Pôncio Pilatos. O dia transcorreu sem grandes novidades, exceto que a cada hora um espião do templo trazia informações sobre as condições gravíssimas em que se encontrava o Tribuno. E foi ao anoitecer que uma notícia preocupante chegou até eles. Pilatos pretendia mandar buscar Yehoshua para curar o militar romano. E se realmente o curandeiro rebelde fizesse o milagre? Novamente o Sinédrio se reuniu e a discussão virou a noite toda. Alguns desejavam mandar prender Yehosua para impedir que ele agisse em favor dos romanos. Outros, porém, discordavam da idéia, pois certamente Pilatos ficaria sabendo da prisão do rebelde e tendo interesse nele, mandaria buscá-lo à força. Talvez até se irritasse com os sinedritas e tomasse medidas nada agradáveis contra o Templo.

Os romanos eram odiados tanto quanto temidos no Templo de Jerusalém.

Os romanos eram odiados tanto quanto temidos no Templo de Jerusalém.

O dia clareou e o Sinédrio não tinha chegado a nenhum acordo sobre o como agir. Mas à segunda hora (oito horas da manhã, em nosso horário) um espião chegou esbaforido ao Templo e foi levado às pressas ao salão de reunião dos sinedritas. Lá, deu a notícia bombástica: o Tribuno estava totalmente curado. Andando pelo palácio, alimentando-se e se aprestando para ir ao encontro de Yehoshua que o tinha curado milagrosamente.

Impossível descrever a balbúrdia e o alvoroço que a notícia trouxe aos rabis. Incredulidade com ódio era o ambiente emocional reinante. Maldições explodiam entre aqueles homens aparentemente respeitáveis. Estavam furiosos com Yehoshua que tinha cometido a maior traição possível ao Templo, curando o Tribuno romano e insultando o próprio Yaveh em Sua Excelsa Vontade. Novamente Arimatéia tomou, a custo, da palavra.

— Meus irmãos, pensemos com a cabeça e não com o coração — disse ele, em voz quase gritada. — Se Yehoshua obrou o tal milagre foi por Vontade de nosso Deus e nós não podemos ir contra seus desígnios. Pensai bem: a ação de Yehoshua com toda a certeza terá abrandado o coração do Tribuno para com nossa gente, se é que trazia alguma péssima notícia para nós. Se o homem for até Yehoshua este o receberá bem, pois não é de seu feitio agredir os romanos. Isto tem tudo para colocar um pouco de consideração por nós no coração de Tibério. Creio que o melhor seria conseguirmos chegar ao milagreiro primeiro que o Tribuno. Nós o traríamos para cá e daríamos à autoridade romana a idéia de que ele só fizera o que fizera graças a nós, que oramos a Yaveh pelo milagre.

— E como faremos isto, se não temos idéia de onde o encontrar? — Gritou Manassés, erguendo a mão para ser visto.

— Mandaremos chamar Judas Iscariotes. Os zelotes tratarão de descobrir onde o grupo se encontra. Que Iscariotes venha aqui e nos diga onde podemos encontrar Yehoshua, pois com toda a certeza ele, como é de seu costume, já se afastou para longe. Ele sempre age assim quando realiza uma… suposta cura milagrosa. Mas Iscariotes goza de sua companhia e de sua afeição. Então, devemos buscar nosso espia para conseguir fazer que convença Yehoshua a vir ter conosco. E isto é urgente, visto que o Tribuno, pelo que nos informou nosso espião, já está a postos para ir atrás do homem.

Iscariotes era um homem importante para o Sinédrio, pois vigiava Yehoshua para os rabis.

Iscariotes era um homem importante para o Sinédrio, pois vigiava Yehoshua para os rabis.

Correria. Gritos. Ordens. Finalmente, concluíram um plano. Caifás e Anás iram até o palácio e tentariam trazer o tribuno para o Templo. Aqui, na companhia dos rabis e sendo por estes bajulados com o que de melhor lhe pudessem oferecer, aguardariam a chegada de Yehoshua. Enquanto isto, Judas deveria encontrar seu Mestre  e o convencer a vir ao Templo para ser homenageado pelo Sinédrio e pelo Tribuno.

A dupla de rabis se aprestou a ir cumprir o plano, mas os dois encontraram o palácio de Pilatos em ebulição. O Tribuno punha a todos agitados com sua pressa em partir em busca do milagreiro. Estava determinado a conduzi-lo a Roma e a apresentá-lo ao imperador em pessoa. Com certeza ele faria do milagreiro o médico chefe da corte. E ele, Pulvius Quintus, ganharia muita admiração e grandes favores dos quais se aproveitaria com toda a certeza.

Os rabis viram que ia ser trabalhoso convencer os palacianos de roma a aceitar o plano deles. Mesmo assim, não desistiram e conseguiram que Pôncio Pilatos os recebesse, mas forçado pelo Tribuno, que estava curioso por conhecer os chefes do Templo. Caifás e Anás foram levados até o homem que, imponente e arrogante, os olhou de cima, como cabia a uma autoridade romana perante homens que desprezava. 

Os rabis viram que ia ser difícil convencer aquele homem a ir com eles ao Templo esperar por Yehoshua…