Escrever sobre a vida de Yehoshua mexeu profundamente comigo e me mudou radicalmente em meu modo de ver e sentir o mundo. Mais do que nunca estou convencido de que "meu Reino não é deste mundo".

Escrever sobre a vida de Yehoshua mexeu profundamente comigo e me mudou radicalmente em meu modo de ver e sentir a Vida. Mais do que nunca sou convencido de que “meu Reino não é deste mundo“.

Na varanda do Peristilo do grande palácio de Pôncio Pilatos, para onde os rabinos tinham sido levados, aconteceu o encontro entre Caifás e Anás com o Tribuno Pulvius Quintus. Arrogante e demonstrando total desprezo pelos hebreus, o militar romano os olhava do alto de seus quase dois metros, com expressão de desprezo na face. Os rabis, por sua vez, ainda que tremendo de raiva, não demonstravam senão subserviência e servilidade, embora se roessem de ódio contra o gigante romano.

— O que desejais comigo, rabis de Jerusalém? — A voz forte e rude do romano fez que Anás engolisse em seco. Bem gostaria de vê-lo morto, de pescoço quebrado, e não ali, arrogante, falando com eles como se se dirigisse a vermes. Mas engolindo o orgulho à custa de muito esforço, Anás pigarreou e falou o mais manso que podia emprestar à sua voz.

— Soubemos, ó grande Tribuno, que sofrestes um acidente em razão do qual tivestes vosso pescoço quebrado. Íeis ao nosso encontro e o não recebimento de vossa visita muito nos contrariou. Então, nosso Sinédrio se reuniu e orou intensamente por vossa recuperação e vemos, com alegria, que a bênção de nosso Deus vos privilegiou com a recuperação total de vossa saúde. Então…

— Por que mentis? — Cortou a voz trovejante de Pôncio Pilatos. — Vosso Deus nada teve com a recuperação do Tribuno, rabis. Quem o curou foi um dos muitos curandeiros que perambulam por entre vosso povo crédulo. Ao menos este não usa de truques para enganar-vos. O que viestes fazer aqui? Abreviai-vos que temos pressa em encontrar o homem que foi capaz de tamanho milagre.

Caifás e um centurião romano.

Caifás e um centurião romano.

— O homem que buscais — falou Caifás — é um dos nossos, senhores. Ele adora o mesmo Deus que nós e se fez o milagre em vós é justamente porque comunga de nossa fé. Viemos aqui convidar o distinto representante de Roma a que nos dê a honra de se encontrar com Yehoshua em nosso Templo…

— Ele está lá? — Cortou Pulvius, interessando-se pela primeira vez pelos rabinos.

— Não, ainda não. Mas…

— Se não se encontra entre vós, não tenho interesse em ir ao vosso Templo — cortou ríspido Pulvius Quintus.

— Mas já mandamos um de nossos emissários procurar por ele. Garanto-vos que o teremos entre nós em breve.

— Eu mesmo vou-me encarregar disto — Disse, ríspido, Pulvius Quintus.

— Senhor — falou Anás com tom de irritação na voz. — Não conheceis estas terras. São vastas. Mesmo que dividísseis vossos soldados em trinta decúrias, não teríeis quase nenhuma chance de encontrar Yehoshua. Não teríeis nenhuma boa-vontade da parte de nosso povo. Eles não vos dariam a direção de onde poderíeis encontrar o milagreiro que buscais. Além disto, pode haver complicações, pois temos entre nosso povo assassinos que ninguém controla e que têm predileção por matar romanos. E acreditai, eles não temem os legionários. 

— O quê? — Trovejou Pulvius Quintus, avermelhando-se de ira. — Ousais dizer-me que vós, judeus, vos negaríeis a colaborar comigo? Ousais ameaçar-me, a mim, um Tribuno de Roma? Quem…

— Esperai, Tribuno — cortou Pôncio Pilatus elevando a mão num gesto imperioso. — Os rabis têm razão. Não mentem. Os judeus nunca colaborarão convosco. Eu os conheço bem. E quanto aos assassinos conhecidos aqui por sicários, também é verdade o que dizem. Eles nos detestam e não se incomodam em nos criar embaraços perante nosso Imperador. São a ponta da lança que pode açular a ira do Imperador e provocar um conflito sangrento. Eles não vencerão, é claro, mas a guerra será de extremo prejuízo para Roma. É melhor aceitarmos o convite que gentilmente nos fazem Caifás e Anás. Eles são os chefes do povo judeu; são seus governadores, nomeados diretamente por Herodes, o rei deles. E posso garantir-vos que a recepção em casa de Anás não é de se desprezar. O convite deles vos poupará a decepção de andar o dia inteiro sem encontrar o milagreiro.

Pulvius permaneceu calado, olhando escrutinadoramente para Anás e Caifás. Não gostava dos dois homens, principalmente do ancião. Talvez suas roupagens espalhafatosas, com as quais não estava acostumado; talvez a arrogância altiva e o ódio que vislumbrava naqueles olhares falsamente servis. Algo despertava nele aversão e repulsa contra os dois dignitários do Templo. Então, voltando-se para Pilatos, falou.

— Sem querer desmerecer os dois homens aí — disse quase num sussurro —, prefiro eu mesmo ir atrás do milagreiro. Não sei a razão, mas esses dois não me inspiram confiança.

No mesmo tom confidencial, Pôncio Pilatos respondeu-lhe.

— Também não gosto deles. A traição está no olhar sempre pejado de ira contra nós. São radicalistas e o dizem ser em nome do povo que dirigem com mão de ferro. Mas na verdade, eu o sei bem, são corruptos, ladrões e mentirosos. No entanto, o que vos disseram é verdade. Podeis criar sérios problemas para Roma, se vossos soltados se envolverem em conflitos e mortes com esse povo desgraçado.

— Então, eu decido: vou, acompanhado do teu legionário, o que trouxe o recado do milagreiro para nós, ao encontro dele. Pelo visto, teu legionário conhece bem estas plagas.

— E o que dirás aos dois aí?

Pulvius Quintus voltou-se para os sacerdotes expectantes e falou.

— Agradeço, em nome de meu imperador, a vossa atenção e gentileza. Mas quero fazer o convite ao contrário. Vós vireis, hoje, ao meio-dia, cear conosco. E juntos aguardaremos notícias do milagreiro. Creio que até o nascer da noite vosso emissário vos terá trazido alguma notícia dele.

Caifás e Anás esperavam tudo, menos aquela inversão de seus planos. Entreolharam-se atrapalhados.

— E então, aceitais?

— Bom… Quer dizer… Temos de voltar ao Templo e decidir juntamente com nossos pares. Podeis dar-nos este tempo?

O Tribuno olhou demoradamente para Anás, antes de assentir levemente com a cabeça. Os dois rabis curvaram as cabeças em sinal de respeito e andando de costas, retiraram-se até à escada e desceram lépidos para a saída da grande área circular da enorme praça de reunião popular, quase sempre vazia.

Tão logo se viu só, Pulvius Quintus se voltou para Pilatos e falou.

—Manda vir ter comigo e teu legionário. Juntos, ele e eu, sem nossas indumentárias, mas vestindo-nos como os da terra, procuraremos chegar o mais depressa possível ao local onde ele encontrou o milagreiro.

— Não creio que seja uma boa idéia… — Rebateu Pilatos, preocupado. — Vosso porte, vosso modo de andar, marcial, vossa expressão de superioridade… Tudo isto e muito mais vos denunciarão aos judeus. E se descobrem que vos moveis sob disfarce…

— Homem, és militar tanto quanto eu. Sabes perfeitamente que um romano vale por cem judeus em combate. Se acontecer um desafortunado encontro conflituoso entre mim e eles, com certeza perderão. Mesmo que sejam cem, perderão. Sou um dos melhores combatentes do Exército de Roma. Anda, manda chamar o teu legionário e manda que nos providenciem roupas típicas desse povinho miserável.

Enquanto o Sinédrio se mantinha em reunião, deliberando sobre como declinar do convite do Tribuno sem ofender a Roma, Pulvius Quintus saía a pé em direção à residência de Lázaro e suas irmãs, Marta e Míriam. Chegaram lá à quarta hora (10 horas no nosso horário). Encontraram as mulheres atarefadas no trabalho de casa, enquanto os homens estavam fora. Miriam mirou demoradamente o estranho e concluiu que era um inimigo do seu povo. Porte, altivez, arrogância, tudo denotava claramente ser um romano fingindo ser o que não era. Mas não fez comentário. O porte gigantesco do romano intimidou-a. Questionada sobre onde os dois podiam encontrar o milagreiro que tinha curado um comandante romano, elas informaram a direção em que Yehoshua disse que ia. Pulvius Quintus decidiu ir, dali mesmo, direto para Cafarnaum. A cavalo tinha certeza de que encontraria o milagreiro Yehoshua ainda na estrada. Os dois regressaram ao acampamento dos legionários onde Pulvius Quintus e seu acompanhante logo estavam montados. E sem mais delongas os dois se puseram a galopar para Cafarnaum. O Tribuno não se deu ao trabalho de informar ao seu hospedeiro a viagem. Sua arrogância não tinha limites. 

Enquanto isto, Judas Iscariotes apartou-se de Thiago e João e sem lhes dar qualquer explicação dirigiu-se ao Templo de Jerusalém. Veio pelo Vale do Cedrom, do lado sul das muralhas do Templo. Era um vale profundo, com uma floresta densa e perigosa para os transeuntes até mesmo durante o dia. Salteadores ali “trabalhavam” dia e noite e para eles era fácil escapar da guarda armada do Templo. Os dois desconfiaram de que aquele era o destino do companheiro, mas não tinham como garantir. Ele dera a entender que preferia seguir sozinho para o destino indicado por Yehoshua e como tinha maus bofes e pior fama, nenhum dos outros discípulos o questionou.

Chegou ao Templo era a décima hora. Entrou pela porta sul e subiu até o pináculo do Templo e dali vislumbrou a agitação entre os legionários acampados fora da cidade. O Templo era alto e de suas muralhas vislumbrava-se bem os arredores de Jerusalém. Sem se intimidar, desceu de onde estava e se dirigiu para fora de Jerusalém intrometendo-se entre os militares que o olhavam desconfiados. Embora judeus e romanos não se tolerassem, os legionários tinham sido advertidos para de modo algum provocar briga com um cidadão judeu. Se tivesse de ter confronto que ficasse bem claro que fôra provocado pelo judeu. Judas tomou informações sobre o que acontecia, falando em coiné, língua conhecida por todos naquele tempo. Era o grego dos pobres, assim como a fala dos moradores de favelas do Brasil. Com má vontade, um legionário lhe disse do que se tratava, quando contou que conhecia o milagreiro que fizera a cura do comandante deles. Ao saber que o Tribuno pretendia ir ao encontro de Yehoshua, correu para o Templo. Era urgente que conversasse com os rabis. Não foi fácil para ele conseguir passar pelos truculentos e fortíssimos guardas celtas que sempre estavam de prontidão diante da porta do Pináculo do Templo. Mas conseguiu convencê-los com o argumento de que se o impedissem de ver imediatamente Caifás, eles seriam punidos duramente. A passagem lhe foi franqueada sob olhares desconfiados dos guardas e ele correu para dentro da Assembléia do Sinédrio. Ali encontrou os que procurava. Esbaforido postou-se diante dos dois preocupados líderes do Templo, que o olharam preocupados.

— Fiquei sabendo, agora mesmo, que o Tribuno romano, comandante dos soldados acampados fora da cidade, apresta-se a ir ao encontro de Yehoshua, que se dirige a Cafarnaum. Nem eu sei por onde nosso líder vai. Ele caminha sozinho e nos destinou cidades diferentes para ir, antes de nos movermos ao seu encontro. O Tribuno vai correr perigo de morte, pois passará por lugares muito perigosos para romanos.

Os sacerdotes entreolharam-se assustados.

 — Como soubeste disto, Judas? — Perguntou Caifás.

Judas narrou com palavras simples e descrição forte o que vira e lhe fora contado por um dos legionários.

— E quantos legionários o desgraçado pretende levar com ele? — Quis saber Anás.

— Nenhum. Vai apenas em companhia daquele que serve a Pilatos e que conhece bem a região. E a esta altura, Marta ou Míriam já devem ter dado a informação que ele busca – o destino de Yehoshua.

— Por Jeovah, bendito seja seu nome! — Gritou bem alto Anás, esmurrando o tampo da grande mesa diante de si. — Temos de impedir que ele seja assassinado. Judas, corre à toda e avisa ao teu pessoal que de modo algum deve tentar assaltar ou ferir o Tribuno. Diz que é ordem nossa. O homem não deve ser tocado, senão haverá uma guerra entre judeus e romanos. E todos devem saber que não temos condições de enfrentar os exércitos de Roma. Só Aquele que há de vir poderá realizar a proeza de os expulsar daqui. Corre!

Judas Iscariotes hesitou. Pela sua óptica a guerra era bem-venda, pois deste modo Yehoshua seria forçado a se decidir a comandar os hebreus contra os romanos. Era o que mais desejava em seu íntimo. No entanto, terminou por decidir-se a obedecer a ordem de Anás e, rodando nos calcanhares, encaminhou-se apressado para a saída. Tinha de conseguir uma montaria e não podia roubar nenhuma dos romanos.

Enquanto isto, Yehoshua seguia sua viagem confortavelmente aboletado na carroça de um comerciante árabe, seu amigo. Era a 6 hora quando dois cavaleiros se aproximaram da caravana. Esta, parada junto a um grupo de árvores frondosas e próxima a um poço, fazia a refeição do meio-dia. Yehoshua comia com seus amigos e não recusava a carne de carneiro que eles serviam abundantemente. A conversa ia animada, quando os dois homens desmontaram e se aproximaram, solicitando licença para se dessedentarem. Tomado-os por comerciantes hebreus, Allifah, o caravaneiro, assentiu com simpatia para com os recém-chegados. Eles se dessedentaram e aceitaram o convite para o almoço. Pulvius Quintus sentou-se ao lado de Yehoshua, sem saber que ele era aquele a quem procurava. Como ambos não falavam árabe, todos passaram a conversar em koiné, o grego vulgar.

— És romano — disse Yehoshua, surpreendendo a todos. — O que fazes andando pelas terras hebraicas fingindo ser um comerciante hebreu? Se te descobrem, não é certo que saias com vida desta tua empreitada.

— Como soubeste de minha origem? — Perguntou Pulvius Quintus com um pedaço de carneiro assado a meio-caminho da boca.

— Tu te esqueceste de trocar as sandálias de legionário — disse Yehoshua, apontando os pés do homem. Este lançou um olhar para os pés e sorriu um sorriso franco.

— És bem perspicaz. Sabes que já estive diante de mais de vinte conterrâneos teus e nenhum deles descobriu este meu descuido?

— Sorte tua — disse Yehoshua levando à boca um punhado de tâmaras secas e tomando um gole de vinho. — Agora, diz-nos porque andas assim, disfarçado?

Pulvius não se fez de rogado. Contou tudo o que lhe tinha acontecido e a razão de estar à procura do milagreiro que o tinha salvado de uma morte certa. Todos o ouviam atentamente e quando ele terminou sua narrativa, Yehoshua falou.

— Esses… curandeiros, como tu os chamas, não gostam de ser procurados pelos que eles curam. Geralmente procuram afastar-se dos locais onde operaram o que o povo acha que foi milagre. Eu faria a mesma coisa, se fosse um deles, pois dá para imaginar o quanto se veriam em apuros com uma multidão de doentes de todos os feitios, inclusive de alma, a cercá-los e a exigir milagres. As pessoas, romano, querem tudo o que possam conseguir de bom para si, mas quase nenhuma faz qualquer sacrifício sério por seu próximo, quando este o procura pedindo socorro. Egoísmo é o que mais mata o Espírito do homem.

O árabe sorriu um sorriso franco e aberto e concordou com seu amigo acenando intensamente com a cabeça.

— Eu socorro os que me pedem por isto — disse, enfático, Pulvius Quintus.

Yehoshua olhou-o dentro dos olhos e perguntou com voz profunda e palavras bem proferidas:

— É mesmo? Tu fazes o que acabas de dizer ou apenas pensas em fazer, mas no momento real de realizar a ação tu te esqueces da humildade?

Quintus Pulvius engoliu em seco e se sentiu totalmente atrapalhado. Os olhos daquele hebreu pareciam atravessar seu tronco e atingir em cheio seu coração. O silêncio fez-se incômodo e até o centurião que o acompanhava o mirava expectante.

— Bom… Se é um patrício meu…

— Fazes o que és obrigado a fazer pelas leis de Roma. Mas se não é um patrício teu? Se é um celta, um germano, um árabe ou um judeu, fazes por ele o que o tal curandeiro fez por ti? Quero dizer: presta-lhe o socorro que pede? Pelo que tu nos disseste, o curandeiro hebreu te curou e não precisou ir até onde estavas nem cobrou nada por isto, não foi?

Impetuosamente o centurião se intrometeu na conversa.

— Foi isto mesmo. Eu fui até o homem e tinha a missão de conduzi-lo até o palácio de Pilatos, para que realizasse o milagre de curar o pescoço quebrado do Tribuno. Mas ele… Ele…

O homem ficou calado, olhar perdido diante de si, como se não soubesse mais o que dizer.

— Ele…? — Instou o árabe, tocando o braço do centurião que se assustou. Seus olhos voltaram a focar no presente.

— O… O que foi? — Perguntou, passeando o olhar de um para o outro dos que se aglomeravam ao redor do pequeno grupo.

— O que o milagreiro te disse? Ele foi contigo até o palácio de Pôncio Pilatos? — Falou Allifah, todo ouvidos.

— Oh! Não, não. Ele apenas me mandou voltar e dizer que o Tribuno estaria bom quando o dia nascesse. E foi isto o que aconteceu.

Todos os olhares se voltaram para Pulvius Quintus, que confirmou o que o centurião tinha dito apenas com um aceno de cabeça.

— Se tu ficaste curado do mal que quase te matou, por que tentas perturbar o… “curandeiro” buscando-o, quando ele claramente não deseja ser encontrado? — O olhar de Yehoshua penetrou o do romano até o âmago de sua consciência e este não teve forças para não responder.

— Quero agradecer-lhe pelo que me fez. Acho que devo isto a ele. E é meu desejo levá-lo até Roma. Talvez que nosso Imperador Augustus o nomeie médico do Palácio. Será a maior honra que ele poderá receber no mundo.

— E a quê tu visas obter com esta… honraria ao curandeiro que te curou? — A pergunta de Yehoshua fez que o olhar do Tribuno se desviasse do seu e o homem se remexeu incomodado.

— Eu… Creio que faço por merecer uma cadeira no Senado romano — gaguejou o Tribuno, altamente inquieto e incomodado. Afinal, não é todo dia que um curandeiro com tamanhos poderes surge em Roma… Ou em outro lugar qualquer, creio eu. E também creio que se o curandeiro promover a cura de doenças nos nossos líderes… Bom, eu serei notado pelo Imperador e… 

— Então não tens como objetivo real prestar uma ajuda ao teu curador — disse Allifah, sério e mirando dentro dos olhos do Tribuno. — Isto não é digno de um homem.

O romano olhou de cenho franzido para o árabe, que, agora, também o olhava com olhar duro. Yehoshua, contudo, olhava firme para o legionário que acompanhava o representante de César Augusto. Sabia que tinha sido reconhecido por ele, mas o homem não falava nada. Guardava silêncio e o fazia por sua própria convicção. Yehoshua sorriu-lhe levemente e ele fez um quase imperceptível aceno de cabeça.

— Cuidado, árabe! Sou teu hóspede, mas se me provocas eu…

— Sacarás de teu gládio e virás contra mim? Achas mesmo que ameaças amedrontam um homem do deserto? — A expressão de Allifah era beligerante e seus olhos negros soltavam faíscas de raiva. A situação ficara muito tensa e estava por um fio de cabelo para se transformar em luta sangrenta. O romano, por sua vez, tinha uma expressão de fera acuada na face enrubescida de raiva. Uma palavra a mais, dita com intenção de ferir, desencadearia a fúria dos dois homens.

— Eu não estou armado. E não preciso de armas para…

— … mostrar o quanto és covarde — E a fala dura e dita com censura fez que todas as cabeças se voltassem para Yehoshua. — Escutai, amigos meus, não é pela violência que os homens devem-se impor — e a figura de Yehoshua adquiriu uma altura psicológica que paralisou os dois contendores. Era como se ele se tivesse tornado um gigante, mesmo sentado. — A violência é a característica primeira do animal que precisa dizer ao outro o quanto ele é forte e dono do território. Entre os homens a violência é sinal de atraso mental; atraso de alma. Nosso Pai Celestial nos deu o dom da fala exatamente para que não nos comunicássemos pelo ferro e pelo fogo. Agora, quanto ao homem ao qual tu, romano, chamas de milagreiro, ele não deseja acompanhar-vos a Roma para ser exibido como troféu. Ele é judeu e um judeu não aceita de bom grado ser exibido como uma conquista. Muito menos aceitará ser usado como degrau para que alguém consiga louros e vantagens às suas custas. Se me permites um conselho: volta a Roma em silêncio e impõe à tua soldadesca que também assim o faça, pois a língua tanto pode ser instrumento de salvação quanto de maldição.

— E por que eu deveria seguir teu conselho, hebreu? — Ripostou o Tribuno, olhar de raiva fixo na face de Yehoshua.

— Pensa, romano: e se o judeu que tu arrastares até Roma não se dispuser a fazer milagres, como tu esperas? E se ele não promover nenhuma cura diante de teu imperador? Como tu ficarás diante dele? Mesmo que todos os teus soldados digam que o milagre foi realmente feito, tu não tens qualquer marca que possa ser vista e ateste o fato perante os olhos dos incrédulos. Tens somente tua palavra, um judeu inútil e teimoso e uma legião de soldados que bem podem estar fazendo aquela afirmação por teu comando. E sabes bem que será isto o que teu imperador pensará de imediato. Em que entaladela te verás metido, não?

O tribuno permaneceu olhando nos olhos caramelados durante um longo tempo. Pensava no que tinha acabado de ouvir e concluía que  o judeu à sua frente estava certo. Devia ter pensado bem nas possibilidades negativas, mas não o fizera. Pôncio Pilatos e os rabis bem o haviam prevenido contra a teimosia daquele povo. Ele não tinha como forçar o milagreiro a fazer um milagre, a não ser ferindo-o gravemente para o obrigar a se curar diante de todos…

— Um homem como o milagreiro que procuras, romano, pode perfeitamente se deixar matar sem reagir à violência que contra ele cometas na tentativa de forçá-lo à ação. Não será assim que obterás dele o que pretendes. Mas se estás mesmo determinado a encontrar um milagreiro que te dê sustentação em tuas ambições tolas, então eu te aconselho a ir buscá-lo na Caxemira. Lá, há homens santos, que fazem curas tão boas quanto a que tu sofreste. Talvez um deles se deixe convencer por tua língua traiçoeira.

O tribuno mirou demoradamente aqueles olhos caramelados que o fitavam penetrantemente, como se desejassem ir ao fundo de sua alma. Então, suspirou, levantou-se, agradeceu a hospitalidade e com um aceno de cabeça, chamou seu ordenança para que o seguisse de volta ao palácio de Pôncio Pilatos. Sorrindo levemente para Yehoshua o legionário se despediu e também montou em seu cavalo. Logo sumiam na poeira de um galope à toda brida.

O árabe permaneceu calado por um longo tempo, mirando o pó que ia-se espalhando no ar por onde os dois cavaleiros tinham passado. Então, voltando-se para seu hóspede, disse, sério.

— Sabe, meu amigo, meu povo nada tem contra os romanos. Nós e eles não guerreamos, pois que não têm interesse nas areias do deserto nem nos que nela vivem. No entanto, sempre que os encontro em meu caminho, não há como evitar uma discussão entre nós. Não suporto arrogância. Não é assim que Allah nos manda agir. “Aqueles que urdiram as maldades estão, acaso, seguros de que Allah não fará com que os trague a terra ou lhes surpreenda o castigo quando menos o esperam?”.

— Ante Allah se prostra tudo o que há nos céus e na terra, bem como os anjos, que não se ensoberbecem!” — citou Yehoshua, mirando nos olhos de seu anfitrião. Este olhou-o surpreso e satisfeito.

— Conheces nosso livro, o Corão! — Exclamou surpreso o árabe. 

— Do começo  ao fim. E se queres saber, gosto muito do que ele contém. São ensinamentos nobres e sábios. Os melhores que há e se os homens pudessem ouvir suas palavras certamente não haveria guerras fratricidas nem crimes hediondos e as almas de todos eles seriam menos apenadas depois da morte.

— Mas és judeu, não?

— Sou-o. Mas também eu sou árabe, germano, celta, indiano, chinês, japonês… Sou todos os que pregam a não violência, a misericórdia e a fé no Pai de todas as coisas na terra e nos céus.

  Mas no Corão é dito:  “Não adoteis dois deuses, posto que somos um Único Deus! – Temei, pois, a Mim somente!”. E se tu obedeces ao teu Deus e ao nosso, estás cometendo pecado. Para que sejas um fiel seguidor de Allah, tens de abdicar de teu Deus, Jeovah, e adotar o verdadeiro, que é Allah.

— Nomes, meu amigo, nada significam para Aquele que criou céus e terras; que é imortal e sempiterno. Que conhece tudo e vive em tudo. Que vê onde o homem nem mesmo vislumbra. Ele, nosso criador, não tem nomes e tem todos eles, pois nele todos somos um. Do mesmo modo, religiões não significam absolutamente nada para Ele, pois que ele é a única e verdadeira religião. Quando o homem Lhe empresta um nome, fragmenta a crença que n’Ele se deve depositar. E há um erro no Corão. O mesmo erro que há nos livros hebreus. Não se deve temer a Deus, dê-se-lhe o nome que se der. O temor faz que o que teme se afaste do objeto ou ser temido. A Deus, deve-se amar de todo coração, de toda a alma, de todo o ser. Pois ele mesmo, independente do nome que se Lhe dê, é Amor na mais pura essência. Se assim não fôssemos, não estaríamos aqui, tu e eu, conversando.

O árabe sorriu e mirou o solo.

— Hebreu, tu és sábio. Eu te saúdo. Mas o temor que se deve ter a Allah ou Jeovah não vai além do respeito que todos devemos ter ao nosso Pai. Se entre nós, homens, é assim, quanto mais não seria em relação ao Todo Poderoso? O bom filho ama seu pai, mas nem por isto deixa de temê-lo em seu poder de castigá-lo pelos erros que possa cometer. Se assim não fosse, hebreu, os filhos cometeriam suicídio, pois todos eles são impulsivos por suas próprias naturezas. Discordas de mim?

— Não. Não discordo. Mas no que tange ao nosso Pai Celestial, do qual, quando infantes, não temos consciência; nós, homens adultos, não devemos temê-lo em momento algum. Se erramos é certo que receberemos o castigo merecido, mas não porque Ele se irrite contra nós e nos puna, mas sim porque as conseqüências  de nossos erros reverterão sobre nós inapelavelmente. Cedo ou tarde iremos sentir suas ressonâncias e elas farão vibrar cordas emocionais que até o momento do retorno nos eram desconhecidas. É a Lei do Pai. Dela nenhum homem foge.

O árabe permaneceu silencioso, olhar perdido algures entre ele e Yehoshua. Então, com um suspiro, falou.

— Sei que teu destino não é o mesmo que o meu, mas gostaria que fosses comigo até onde desse, pois tua conversa é por demais instrutiva e profunda. Desperta meditações que estuga nossos corações a pensar no mundo e na relação do mundo com o Criador de modo diferente, mais esclarecedor e mais gostoso. Podes seguir em nossa companhia por um tempo?

— Sim, claro. Segues para Cafarnaum e passarás por lá. E é para lá que vou. Então, até lá ficaremos juntos.

O árabe abriu aquele sorriso de contentamento.