Os séculos passam, mas eles continuam sendo o meio de transporte mais usado no deserto.

Os séculos passam, mas eles continuam sendo o meio de transporte mais usado no deserto.

A marcha para a Galiléia cruzava o território da Samaria. Entre os montes Gerizim e Ebal estava a vila de Siquém. Nela, Allifah decidiu fazer uma parada. Precisava dessedentar os camelos e seus criados, antes de prosseguir para sua vila, no deserto. Era uma viagem longa, mais de 15 dias, a maioria dos quais em areias ferventes. Yehoshua aproveitou para banhar-se no riacho que descia de Ebal, de águas frias e cristalinas. Abaixo de onde estava havia um poço criado pelos moradores da vila e destinado a dessedentar os animais e servir água aos moradores do local. O riacho recebia água de outros e chegava ali bem volumoso. Enchia o tanque e descia coleando por entre pedras indo encher outro tanque, já quase na saída da vila. Yehoshua retornou à tenda de Allifah e se sentou para alimentar-se de frutas frescas e secas e tomar o vinho que o árabe não dispensava nos momentos de descanso.

— Tu me disseste, amigo, que Allah não deve receber nem este nome nem outro qualquer. Como, então, na tua visão, devemos nomear o Altíssimo? — O olhar perspicaz do árabe fixou-se no rosto de Yehoshua e havia um sorriso malicioso em sua expressão.

— Eu o chamo de Pai Nosso. Ele não é o criador de todos nós? Não é o criador de todas as formas de vida? Não vem d’Ele o alento que nos ilumina e não vem d’Ele a Vida que nos anima?

Allifah permaneceu meditando por um longo tempo.

Yehoshua gostava imensamente das crianças.

Yehoshua gostava imensamente das crianças.

— Tu me falaste do amor temeroso da criança para com seu pai terreno — continuou Yehoshua. — Eu te disse que não se deve temer ao Pai Nosso, pois que Ele não é ameaça a seus filhos, sejam eles quais forem. No Albacara, segunda surata do livro sagrado de vosso povo é dito: “Ó humanos, adorai o vosso Senhor que vos criou, bem como aos vossos antepassados, quiçá assim tornar-vos-eis virtuosos“. Adorar, meu irmão Allifah, não é prostrar-se no solo humilhando-se diante do Pai nosso. Também não é ir à Sinagoga ler os trechos da Torah. Estes rituais não elevam o homem diante do Pai nosso, meu irmão árabe.  

— Então, como tu crês que se deva adorar o Inefável? — Allifah estava muito interessado na discussão e isto agradou muito ao seu amigo hebreu.

— No íntimo, no coração, na mente e na ação. Onde menos o homem deve adorá-lo é na palavra. Só deve exercer este sublime atributo quando de fato esteja em seu íntimo todo entregue a Ele. Na segunda surata de vosso livro também é dito: “Entre os humanos há os que dizem: Cremos em Allah e no Dia do Juízo Final. Contudo, não são fiéis. Pretendem enganar a Allah e aos verdadeiros fiéis, quando só enganam a si mesmos, sem se aperceberem disso. Em seus corações há morbidez, e Allah os aumentou em suas morbidezas, e sofrerão um castigo doloroso por suas mentiras. Se lhes é dito: Não causeis corrupção na terra, afirmam: Ao contrário, somos conciliadores!” Eu te pergunto, irmão meu, o que entendes pela afirmativa de que Allah aumentou nos corações dos maus as morbidezas deles?

Allifah pensou durante um longo tempo, pois sentia que estava diante de alguém acima dos homens comuns. Estava realmente impressionado com o conhecimento de Yehoshua sobre o livro sagrado dos Muçulmanos. Finalmente, falou.

— Creio que a Surata nos adverte para o castigo que receberemos do Altíssimo por nossa fraqueza. Se cultivamos em nós o que é mórbido, então, esta morbidez aumentará e frutificará e o Altíssimo não cuidará para que assim não seja. É por isto que é dito que “Allah selou os seus corações e os seus ouvidos; seus olhos estão velados e sofrerão um severo castigo”.

— Sim, sim. Mas não foi Allah quem fez isto, meu caro Allifah. O próprio homem sela seus ouvidos e fecha seus olhos quando a cobiça e a fascinação pelas coisas mundanas e fúteis atraem a atenção de sua alma mortal.

— Alma mortal?! — Estranhou Allifah.

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Ele gostava imensamente de ensinar e não perdia oportunidade de fazer isto.

— Sim. Os homens criam uma alma que se volta para o mundo da ilusão. Esta alma é fruto da cultura em que o homem esteja inserido. Necessita de palavras para transmitir seus pensamentos aos outros. Necessita de aprender as coisas do mundo para poder conviver entre estas coisas e com elas. Esta alma não tem consciência do Espírito Imortal, o sopro divino que é o alento verdadeiro de todo ser humano. No entanto, alguma coisa jaz nela que a impulsiona a criar Leis mortais para colocar ordem na sua vida enquanto pessoas que necessitam de outras. Estas Leis são, na verdade, um impulso do Espírito que jaz no inconsciente humano. Um impulso que busca trazer para o caos da vida terrena a retidão das Leis Imutáveis d’Aquele a quem tu chamas de Inefável. Não é repetindo ao infinito as suratas do Alcorão ou permanecer orando por toda a vida dentro de sinagogas e templos outros, que o homem despertará em si a essência divina que jaz sob o peso da Matéria. O Espírito se revela na oração ativa. E a oração é ativa quando o homem age entre seus irmãos sem se macular com desejos tolos, com fascinação por coisas que não têm qualquer valor diante do Espírito Imortal. Vê, Allifah, o homem mais rico deste mundo, quando morre, deixa tudo aqui. Nada do que pensava ser seu lhe segue no pós-morte. Ele retorna à Casa do Pai tão destituído de bens quanto como aqui chegou para viver a vida de ilusões. O único tesouro que terá de colocar aos pés de Nosso Pai são os frutos benéficos de suas ações em prol de seus irmãos. Sejam frutos unitários, quando aquelas ações só alcançaram um irmão; sejam frutos plurais, quando aquelas ações atingiram um grande grupo de irmãos, como as boas ações de um Rei que ajudou imensamente os seus súditos, facilitando suas vidas e lhes proporcionando a alegria de viver em Justiça, Amor e Paz. Estes são os tesouros que se deve levar para ofertar Àquele que é Eterno e sem princípio nem fim.

— O Alcorão não fala dessa alma. Onde tu te informaste sobre ela?

— Em estudos longe daqui. Mais precisamente na Caxemira. Lá há muitos homens sábios que podem-nos ensinar coisas muito importantes. Conheces o lugar?

— Sim. E conheço os gurus deles. Mas não dei e não dou valor aos seus ensinamentos.

— Erras. Em todo lugar o Altíssimo se manifesta e por todos os meios de que os homens dispõem. Eles não conhecem nossos livros sagrados, mas têm o deles que é tão válido quanto os nossos aos olhos do Inefável. Lembra-te meu irmão que todos somos Seus Filhos. Lembra-te que todos somos Sua criação. Ele não é pai somente de quem pratica tal ou qual religião, pois na Criação da Raça Humana ele não determinou a Adão que religião devia ser praticada por sua criatura. As nações são livres para construir meios de chegar até ele, embora o mais direto e mais rápido seja buscando Sua presença em nosso íntimo. É aqui que Ele se revela em todo o seu esplendor.

Allifah permaneceu calado e meditativo por um longo tempo. Então, pondo-se de pé e saudando Yehoshua conforme o costume de seu povo, retirou-se sem dizer nada.

A viagem foi encetada, mas o árabe não veio postar-se ao lado de Yehoshua, que caminhava a pé. No final do dia, as estrelas já começando a brilhar no firmamento, a caravana adentrou o território da Galiléia, onde foram direto para a vila de Naim. Ali, Allifah veio ter com Yehoshua e pondo-se a seu lado, falou.

— Vim pensando muito no que me disseste. Ainda tenho minhas resistências ao teu modo de entender o Inefável. Mesmo assim, quero-te muito e desejo dar-te um dromedário de presente. Ele vai aliviar tuas viagens e permitir que descanses mais em tuas andanças. E te digo que continuo teu amigo. Onde quer que eu esteja e tu precises de um, procura-me. Estarei sempre à tua disposição.

Os dois se encaminharam até o local onde os dromedários estavam amarrados. Allifah escolheu o mais jovem e forte dentre eles e o trouxe pelas rédeas, estendendo-as a Yehoshua. Este sorriu e meneou negativamente a cabeça.

—  Como?! Tu te negas a aceitar meu presente?

Para um árabe aquele era um insulto imperdoável. Mas Yehoshua falou, sorrindo de modo cativante.

— Sou um homem livre. Durmo onde quero e vou aonde desejo, levando comigo somente o que me é estritamente necessário. Eu prezo muito minha liberdade. Tu me dizes que és meu amigo e me dás um jugo?

—  Jugo?! —  Espantou-se o árabe.

—  Sim. Se aceito esse animal ficarei preso a ele. Terei de dessedentá-lo, de alimentá-lo, de cuidar de seus cascos e de seus ferimentos. Terei de manter vigilância sobre ele para que ladrões não o roubem de mim. Deixarei, pois, de ser livre e me tornarei serviçal de um dromedário. Dia após dia; meses após meses; até que ele morra, pois não se vende nem se dá um presente que nos foi dado com toda a consideração por uma amizade sincera. Não, meu irmão, agradeço-te a boa intenção, mas ela mais me atrapalha do que me ajuda. Gosto de viver sem me prender a nada deste mundo de ilusão. O dromedário pode-me oferecer muito pouco, se considero o que vai requerer de mim por isto. De certo modo, Allifah, eu me tornarei servo do animal e não de meu Criador, o Pai nosso que está no céu e em mim, como em ti e em toda a Sua criação. Tu já me deste o maior, o mais belo e o melhor presente que um ser humano pode oferecer a outro: a amizade. Sinto que tua amizade por mim é sincera e ta retribuo na mesma medida e na mesma intensidade. Levar-te-ei no coração e quando chegar a hora, diante de nosso Pai intercederei por ti. Não precisas me mimar com o animal. Tu já me mimaste de sobra com tua gostosa atenção. Vou sair de tua companhai tal qual cheguei a ela: só comigo mesmo e com o mínimo necessário de que necessito para viver bem e… Livre. 

E Yehoshua abraçou demoradamente o árabe que, a princípio, estranhou aquele gesto, mas aos poucos também retribuiu o abraço de seu amigo misterioso e desconcertante.

—  Entendo o que queres me ensinar. Eu sou um prisioneiro de muita coisa inútil —  disse o árabe, muito sério. — Sou prisioneiro de uma grande quantidade de coisas que me entulham a vida de perturbações dispensáveis se não me tivesse apegado a elas. Terei de refletir muito sobre o que me ensinaste nestas tuas poucas palavras, Yehoshua. E terei de trabalhar arduamente para combater em mim esse apego indecente do qual, vejo agora, sou miserável escravo. Obrigado por isto e que o Inefável esteja sempre contigo.

Yehoshua fez a saudação árabe terminando com um “e contigo também”. Depois, rodou nos calcanhares e sumiu pela senda arenosa, deixando o árabe mergulhado em profundos pensamentos ansiogênicos a mirar sem ver o caminho que o separava daquele homem estranhamente rico e pobre ao mesmo tempo.