Nesta outra figura-e-fundo, o que você vê?

Nesta figura-e-fundo, o que você enxerga?

E lá vamos nós. Se você fez os experimentos que lhe recomendei terá comprovado que seus sentidos sensoriais são iludidos facilmente. As “figura-e-fundo” que lhe mostrei também terão, com certeza, fornecido a você percepções íntimas que o devem ter intrigado. Veja, na figura ao lado, já mostrada no artigo anterior, há clientes de psicologia clínica que enxergam um genital masculino entre os cabelos das faces que se antagonizam. Vêm isto nos claros que há nos cabelos e na base do topo do candelabro onde está a vela. Os testículos são enxergados nos dois claros nos cabelos das cabeças antagônicas; e o pênis é enxergado no claro que há na parte superior do candelabro e que termina na base de sustentação da vela. Outros, vêm nestes claros um “fantasma”; outros vêem uma coruja estilizada; outros a cara de um tamanduá… Há ainda os que olham atrás da figura-e-fundo e enxergam ali a pele de um crocodilo e ainda há os que enxergam um pião girando vertiginosamente entre os lábios inferiores e os queixos das duas faces. E há os que vêm nas duas faces, duas lésbicas que tentam se beijar. Você se espanta? Não sabe o que nós, psicólogos clínicos, ouvimos durante nosso trabalho.

O mundo maravilhoso da Psicologia é como o país das maravilhas, de Alice.

O mundo maravilhoso da Psicologia é como o país das maravilhas, de Alice.

Mas, falando sério, por que as pessoas enxergam tantas coisas diferentes em um simples desenho ambíguo? Isto não lhe desperta a curiosidade? Se você é estudante e pretende fazer a faculdade de Psicologia creio que estes artigos estão incendiando sua imaginação. Acertei? Pois é. A Psicologia fascina mesmo.

Bom, nós estamos lidando com a primeira manifestação real da Vida na forma humana e esta manifestação acontece através dos sentidos sensoriais. A Sensação é primitiva do ponto de vista da Psicologia. Ela se restringe ao corpo e ao seu sistema neuronal. Você tem alguma informação sobre como se constitui o sistema neuronal humano? Possivelmente sim, visto que é só ligar o computador, ir ao “papai Google” e fazer a pergunta que nos intriga e… Zás! Eis a informação que se deseja obter. Mágico esse Google. Ah se no meu tempo ele existisse…

Não vou saltar a parte que diz respeito ao estudo do sistema nervoso central ou SNC. Embora você tenha mais de dez mil publicações no Google sobre o assunto, estudar este sistema, ainda que não com a profundidade com que seria estudado na lamentavelmente extinta Universidade Gama Filho, é necessário. Como você que me lê certamente tem aptidão para as Ciências Humanas, então, esta seqüência é básica. Principalmente se você não tem informação alguma sobre como funciona seu corpo, seu sistema nervoso central ou SNC. Quando eu fazia a Faculdade de Psicologia na Universidade Gama Filho, o estudo do SNC era fascinante. Nós estudávamos juntamente com os alunos de neurologia. Abríamos cadáveres para retirar o cérebro e a coluna vertebral do falecido. Eram as partes que nos interessavam. Tínhamos a “peça” nas mãos e pode acreditar: ter a peça em mãos é absolutamente diferente de vê-la desenhada bonitinha e toda esquematizada e colorida em um livro ou na tela do computador. Ao vivo, identificar determinados pontos assinalados com alfinetes de cabeça colorida espetados no encéfalo, em regiões minúsculas que, às vezes, necessitava de uma lupa para melhor visualizar onde estava a ponta da agulha em uma massa cinzenta sem diferenciação colorida nas provas ou GQ’s trimestrais e, então, com base naquele minúsculo ponto encefálico dizer não somente suas funções neuronais normais como também as doenças infectológicas ou traumáticas ou degenerativas que podem se desenvolver ali e discorrer sobre os sintomas físicos disto resultantes, que alteram o comportamento manifesto em função de tais enfermidades e, a seguir, dizer aqueles mesmos sintomas cuja etiologia é de origem psíquica por disfunções traumáticas psicoemocionais e que podem induzir o médico em erro é um trabalho para Hércules. Quando os sintomas apresentados não tinham fundamentos neuronais específicos, como a cegueira histérica ou a acusia (=redução da audição, podendo chegar à surdez) de mesma origem, os estudantes de medicina os consideravam, do ponto de vista médico, como uma doença fantasma”. Que pena que atualmente os alunos de Psicologia não mais tenham aulas com professores de Neurologia em laboratórios com cadáveres à disposição dos alunos nas faculdades desta especialidade. A Ciência em que me formei perdeu muito em qualidade, pode crer. A U.G.F. faz uma falta enorme para a Ciência da Psicologia no Brasil.

 Vamos, então, iniciar pelo mais básico dos sistemas psicológicos que é a sensação.

Vejamos como funciona este sistema sensorial. Sua unidade básica é o neurônio.

TIPOS ESPECÍFICOS OU BÁSICOS DE NEURÔNIOS EM NOSSO SISTEMA NERVOSO.

TIPOS ESPECÍFICOS OU BÁSICOS DE NEURÔNIOS EM NOSSO SISTEMA NERVOSO.

Estas estranhas “aranhas” são as unidades fundamentais do nosso Sistema Nervoso e sem elas não poderíamos existir como seres vivos responsivos e capazes de realizar maravilhas, como construir espaçonaves para viajar à Lua; ou mergulhar fundo no estudo do gene através de microscópios super-poderosos. Então, para nós, estas “aranhas” são muito importantes. Cientificamente são chamadas de “neurônios”.

Sem os neurônios nenhuma das funções sensoriais – nossos cinco sentidos – poderia funcionar a contento. Então, sem ir demasiadamente fundo no assunto, você pode ver, nos esquemas acima, que temos três tipos fundamentais de neurônios. O primeiro – colocado no centro da figura mostrada – é chamado de Neurônio Unipolar. É um neurônio sensorial propriamente dito e é mais presente no feto; o segundo, o Neurônio Bipolar, com um corpo neuronal de onde parte um axônio de um lado e, do outro, sai novo axônio (os fios neuronais que, na figura, saem do “lago” desenhado entre eles). Este neurônio é muito encontrado no epitélio nasal ou olfativo e na retina do aparelho óptico (= olho); NOTA: ótico = auditivo. O terceiro tipo de Neurônio é o denominado multipolar, pois como se vê na figura, ele possui muitos polos axônicos no seu corpo.

Vamos-nos aprofundar um pouco mais no conhecimento da estrutura do neurônio.

Um neurônio e sua estrutura.

Um neurônio e sua estrutura.

No esquema acima, tomado de empréstimo à apostila do sistema nervoso (http://www.sogab.com.br/), você pode ver o corpo do neurônio, a parte “estrelada” que encima o desenho. Dentro do corpo celular do neurônio estão o núcleo, o citoplasma e todos os corpúsculos que toda célula contém. O corpo do neurônio emite uma porção de ramificações, como gavinhas de uma planta trepadeira. Estas “gavinhas” são conhecidas como dendritos.

A sinapse neuronal.

A sinapse neuronal.

Os dendritos são muito sensíveis e fazem a tradução dos impulsos elétricos que recebem de outros dendritos, como veremos a seguir. Para compreender o que vou falar, olhe a figura acima que parece a pata de um elefante. Bom, não é. Trata-se da representação de uma sinapse, ou seja, a região de contato entre dois axônios, ou entre  um axônio e o corpo de uma célula neural, ou entre um axônio e uma fibra muscular. Agora, veja que no pedúnculo do axônio, o qual se abre lembrando a pata de um elefante, encontra-se uma grande quantidade de vesículas (as bolhinhas dentro da pata do elefante). Dentro destas bolhinhas há um elemento químico que chamamos de neurotransmissor químico. Bom, para que você não fique dando tratos à bola tentando adivinhar o que é o tal neurotransmissor, esclareço que eles são de seu conhecimento de muito tempo e estão em quase todas as bulas de remédios receitados para o sistema nervoso. São eles: a acetilcolina, a norepinefrina, a epinefrina, a histamina, o ácido gama-aminobutírico, a glicina, a serotonina e o glutamato. Não vou discorrer sobre as qualidades e funções destes neurotransmissores porque, embora fosse matéria de estudo da Psicologia quando a U.G.F. existia, você pode encontrar uma verdadeira enciclopédia a respeito deste assunto no “papai Google”. Mais adiante é muito provável que tenha de abordar as funções de alguns deles, quando falar sobre as nossas reações emocionais e o nosso Sistema Hormonal. Mas até lá, fico por aqui. 

Esfinge

Tá difícil? Isto não é nada. Vem mais bala por aí…

Quando um impulso elétrico é disparado em qualquer região de nosso corpo pela excitação de um neurônio, como a picada de um inseto, por exemplo, imediatamente aquela excitação é “traduzida” em impulso elétrico pelo neurônio atingido (ou por seu dendrito, não importa). Este impulso elétrico aciona a “pata de elefante” e esta se abre no espaço que há entre ela e a membrana de outro dendrito ou de outro axônio. Entre estes dois elementos neuronais há um pequeno espaço (as membranas dos dois não se tocam). É neste espaço, conhecido como fenda sináptica, que a “pata de elefante” do neurônio excitado pela picada do mosquito lança o seu neurotransmissor. E este neurotransmissor é que faz a condução do impulso elétrico de um dendrito ou de um axônio para outro dendrito ou axônio de outro neurônio. E é assim que o impulso elétrico “caminha” até o Sistema Nervoso Central, em nosso Encéfalo (Cérebro).

Todo o “quaisquaisquais” acima foi para chegar ao como ocorre a transmissão do impulso nervoso da periferia de nosso corpo até o sistema nervoso central, o nosso cérebro. É claro que fiz um resumo do resumo do resumo, mas está bem claro e nele se contém o que é fundamental para que um leigo entenda como é que seus sentidos sensoriais agem para levar a informação da periferia do corpo até o cérebro, onde estas informações são traduzidas em conhecimento que, por sua vez, vai disparar uma seqüência de impulsos elétricos que vão fazer mover a parte do corpo excitada para livrá-la do fator irritante.

Assim terminou o maior lutador de wushu de todos os tempos. Como qualquer um...

Assim terminou o maior lutador de wushu de todos os tempos. Como qualquer um…

Logicamente que este intrincado e maravilhoso sistema de comunicação de nosso corpo, que é de mão dupla, havendo um sistema aferente (que leva a informação eletro-química da periferia para o SNC) e um sistema eferente (que traz a resposta do SNC para a periferia do corpo) acontece para todos os nossos cinco sentidos. Agora, fixe isto: tudo o que nós percebemos sensorialmente (pelo gosto, pela visão, pelo tato, pelo olfato e pela audição) se traduz em impulsos neuroquímicos. Tanto no sistema eferente quanto no sistema aferente.

Somos, então, um ser que vive pela eletricidade. Não é interessante? De suas vísceras seguem informações constantes sobre como está o funcionamento peristáltico, enterocinético, de cada órgão visceral em seu abdômen. Nada, absolutamente NADA no nosso corpo escapa ao controle do Grande Irmão, o Sistema Nervoso Central ou Encéfalo ou, ainda, Cérebro.

Bruce foi o maior expoente em Arte Marcial até hoje. Mas perguntou eu: para quê tanta dedicação à arte de bater e matar?

Bruce foi o maior expoente em Arte Marcial até hoje. Mas perguntou eu: para quê tanta dedicação à arte de bater e matar?

Resumindo: tudo o que acontece em nosso organismo fisiológico contém-se no sistema neural aferente e eferente. E a velocidade com que o impulso nervoso viaja do ponto de excitação até o SNC é de 720 km/h ou 200 metros por segundo. Veloz, não? Por isto é que o lutador de arte marcial consegue mover seus braços e seus punhos numa velocidade quase não perceptível para o olhar comum, de alguém não treinado. Veja, no link abaixo, Bruce Lee jogando pingue-pongue com nunchaku. Você que é leigo em arte marcial ficará assombrado, mas quem é praticante sabe que a capacidade reativa de um lutador do calibre de Bruce pode fazer aquilo “naturalmente”.

Assim como fui fascinado pela Psicologia, também o fui pela Arte Marcial. Aprendi muito sobre a filosofia do TAO através da Arte Marcial, mas até hoje eu me pergunto: por que aprender a bater, maltratar, matar o semelhante numa Arte que requer muito esforço, muita dor, muito machucado? O que o lutador ganha com isto? Eu, sinceramente, não compreendo. Aquele fascínio que me empolgou por muitos anos desapareceu.  E quando olho o corpo morto de Bruce dentro de seu esquife fico-me perguntando? De que valeu? Para que valeu? Por que valeu?

sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwj194T4scvNAhVBg5AKHdkdBokQ3ywIHTAA&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3Dv9ACl0K1jWI&usg=AFQjCNFOfDKBo4QMmbFusqbygpWyttcr3A&sig2=zN_cB-PZeFmy_IIsaanVHg&bvm=bv.125596728,d.Y2I.

Bom, vamos ficar por aqui. Estou muito longo, mas não tinha como ser mais reduzido que isto. 

NAMASTÊ!