Olhe para esta figura e diga o que vê. Nela você tem exemplo do que é cognição, pois tudo o que vir é fruto de sua aprendizagem e experiência passada.

Olhe para esta figura e diga o que vê. Nela você tem exemplo do que é cognição, pois tudo o que vir é fruto de sua aprendizagem e experiência passada.

Estamos discorrendo sobre o fenômeno da Cognição. Dos três processos já comentados — sensação, percepção e cognição, este último é, de longe, o mais complexo e o mais importante, não importando que você seja psicólogo ou não. Então, é interessante para todos nós ter um bom conhecimento sobre este complexo processo psicológico.

Digamos que você se tenha perguntado: o que é conhecer? Assim, de surpresa, você poderá titubear para se definir este verbo, não é mesmo? Não se agaste. Isto pode ocorrer com muitas pessoas. E entre estas deve haver algumas que não se conformando em ficar devendo a resposta a si mesmas, vão ao dicionário e lá encontram que: “conhecer é ter alguma informação sobre algo; é ter uma idéia a respeito de algo; possuir noção ou informação sobre algo”.  Você até pode se dar por satisfeito com estas sugestões de definição. No entanto, o dicionário não definiu verdadeiramente o que é conhecer. Ter alguma informação sobe algo não é conhecer este algo. Do mesmo modo, ter idéia sobre algo ou possuir noção de algo não é conhecer este algo.

Digamos que você é rigoroso e defina conhecer como ter consciência das propriedades de algo; ter consciência do emprego daquele algo e dos resultados que isto pode acarretar. Mas será que isto é conhecimento de verdade? Vejamos o seguinte exemplo.

O verdadeiro brasileiro.

O verdadeiro brasileiro.

Você anda pela Amazônia e dá de cara com um silvícola que jamais esteve diante de um homem branco. Não conhece nada das invenções dos civilizados. Sua vida é primitiva e simples. Tentando agradá-lo, você lhe dá uma lapiseira. Viu que o objeto tinha atraído a atenção do homem e decidiu conquistá-lo presenteando-o com a lapiseira. O silvícola, que não entende sua fala tanto quanto você não entende a dele, toma o objeto e o leva à altura dos olhos. Gira-o nas mãos. Cheira-o, Coloca-o contra a luz do sol e observa o reflexo da luz em seu corpo. Durante alguns minutos ele faz tudo o que sabe fazer para conhecer aquilo. Cheira, prova, aperta, rola entre os dedos, bate nele com a unha para lhe ouvir o som… Enfim, durante estes experimentos ele incidentalmente espeta a ponta do dedo com a ponta da lapiseira. E para ele a luz se fez. Conclui muito contente que tem nas mãos uma ponta de flecha. Bem diferente daquelas rústicas que ele mesmo e todo o seu povo constrói. Corre a tomar de uma haste de madeira pequena com plumas em uma de suas extremidades. Amarra a lapiseira na outra extremidade e corre para a beira do rio. Coloca a flecha, que fabricou com a lapiseira, no arco e mira em um peixe. Dispara a flecha e retira da água, todo contente, o peixe que acabou de pescar. Pronto! O silvícola encontrou um emprego lógico para a lapiseira dentro do mundo que conhece. 

Mas fazendo isto, o silvícola não conheceu a lapiseira. Apenas deu-lhe um emprego útil para si. Entendeu?

O fenômeno da cognição não existe por si mesmo. Não é como o fenômeno da sensação, que se explica pela excitação e pelo disparo de um impulso elétrico de alarma através do sistema neuronal. Também não é como a percepção que ocorre num átimo, independentemente de ilações de experiências anteriores. A cognição necessita da Aprendizagem. E o processo da aprendizagem é lento, demorado e dependente de muitos fatores, como necessidade, motivação, curiosidade, interesse, desejo etc… que são fatores intra-indivíduo; ou como família, escola, modelagem, condicionamento, pensamento criativo dedutivo ou indutivo etc… que são fatores externos, sociais.

O Deus Janu ou o Deus Bifronte representa bem o fenômeno da Cognição.

O Deus Janu ou o Deus Bifronte representa bem o fenômeno da Cognição.

A Aprendizagem cria a Memória Objetiva, Lógica. A Cognição recorre a esta memória para conhecer coisas, processos e fatos do presente. E quanto maior fica a Memória fruto da Aprendizagem, maior é a dependência da Cognição para com ela. Ou seja: se você é separado ou separada de um envolvimento infeliz e doloroso, tenderá cada vez mais a conhecer os relacionamentos novos em função de sua experiência relacional fracassada. Sua cognição, como a de todos nós, é recorrente, ou seja, embasa-se nas experiências passadas, nas aprendizagens passadas. Enfim, ela sempre recorre ao passado para definir o presente e isto requer tempo, por mínimo que seja. Na mitologia grega há um Deus que serve bem para simbolizar o processo Cognitivo. Trata-se do Deus Janu, o deus de duas faces ou bifronte. Ele olha para a frente sempre mirando o passado. 

Outra produção da cognição é o pensamento. O pensamento pode ser fantasioso ou objetivo. Em qualquer dos casos, há sempre um motivo, um estímulo que, com muita freqüência, encontra-se subliminar.

O pensamento ocorre num encadeamento de recordações e recordações implicam memória, aprendizagem, experiência e vivência ativa. A este encadeamento de lembranças chama-se associação de idéias. Ninguém pensa sem símbolos mnêmicos. E aqui a coisa complica mais ainda, pois toda e qualquer vivência que uma pessoa tenha; toda e qualquer experiência pela qual passe; toda interação interpessoal que realize, é internalizada energizada por uma carga emocional. 

As cagas emocionais são positivas (eufóricas) ou negativas (disfóricas). Exemplo de reação emocional eufórica: a notícia de se ter ganhado um prêmio cobiçado. Exemplo de uma reação emocional disfórica: a notícia de que uma pessoa da família foi internada às pressas e inspira cuidados. A primeira reação emocional é de alegria; a segunda, é de ansiedade apreensiva.

Outro detalhe de grande importância: todos os objetos que vemos ou com que interagimos, mesmo que este objeto seja uma pessoa, uma parenta, a imagem desta pessoa é internalizada energizada pela emoção daquele momento. Assim, por exemplo, se seu marido interage com você dez vezes durante o dia e em cada vez vpcê estava sob uma qualidade emocional diferente, a imagem dele será introjetada dez vezes, cada vez com a carga emocional do momento em que houve a interação, pois nossas reações emocionais estão mudando constantemente e para nosso sistema cognitivo, uma mínima mudança que seja no objeto ou no ambiente altera o modelo, que se torna novo.

A motivação, fator de grande importância na aprendizagem, é um fenômeno intra-indivíduo, intrapsíquico. Muita gente fala que vai “motivar” o empregado a realizar tal ou qual trabalho de modo eficiente. Errado. Quem se motiva é a pessoa. Ninguém pode fazer isto por ela. O máximo que se pode fazer é estimular a atenção da pessoa, oferecendo-lhe coisas que lhe despertem o interesse. Por exemplo: se um gerente quer obter um maior incremento de seus empregados na execução de determinado trabalho, crie um quadro de premiação, onde medalhas sejam concedidas precedidas de uma pequena solenidade, com algum reforço na premiação, como, por exemplo, a dispensa de um dia ou dois dias de trabalho à escolha do premiado. Isto se chama incentivação. A partir desta incentivação o empregado se motiva para obter a consecução das metas estabelecidas e ganhar o prêmio oferecido.  

Necessidade é outro fator intrapsíquico do indivíduo que pode ser explorado para se obter dele motivação. A necessidade é individual, mas pode se tornar grupal quando um líder sabe manipular a situação social-trabalhista de modo a criar necessidades reclamadas por todos. Geralmente, do ponto de vista psicológico, as necessidades são artificiais, como quando são criadas para se obter motivação da pessoa; ou intrínseca ao indivíduo, como no caso da necessidade de alimento, de água, de sexo (prazer, não somente coito) etc…

Curiosidade, interesse e desejo são, também, fatores psicológicos intrínsecos ao indivíduo. A curiosidade é nata em todos nós. Sem ela, ou já estaríamos extintos ou nunca teríamos atingido o grau de desenvolvimento social e tecnológico que conseguimos. O interesse também é intrínseco ao indivíduo, mas é mais seletivo que a curiosidade. O interesse move o indivíduo para um objetivo certo, determinado por uma necessidade qualquer e que visa satisfazer uma curiosidade, um desejo ou uma motivação.

Desejo é a mais primitiva forma de emoção. A mais “rude”, podemos dizer assim. É primitivo, impulsivo e quando se volta para o prazer, pode ser perigoso para o próprio indivíduo.

Todos estes atributos psicológicos são manipuláveis pelo Mercado e isto faz o indivíduo uma mercadoria toda especial chamada “consumidor”. No devido tempo a gente vai estudar este ramo da exploração psicológica.

O conjunto de atributos sucintamente descrito acima integram a Cognição e muito falaremos disto, nos nosso encontros futuros.

Ah, sim. Meus computadores bicharam. Mesmo o laptop anda bebum, de modo que vou ficar por uma semana sem poder vir aqui. Tempo em que eles serão recetados e endireitados. Até lá, leia e medite no que lhe ensino.

NAMASTÊ!