O mapa da Galiléia nos tempos de Yehoshua.

O mapa da Galiléia nos tempos em que Yehoshua andava por lá.

A Galiléia dos tempos de Yehoshua tinha um território pequeno. Cerca de 60 Km de Norte a Sul e 40 Km de Leste a Oeste. Nos tempos do Rei dos Reis a Galiléia era muito povoado e a vida local muito movimentada. Não havia somente hebreus, mas também muitos estrangeiros: fenícios, sírios, líbios, turcos, gregos, romanos e outros vindo de territórios longínquos como a Índia e a China, por exemplo. Por isto, em função desta miscigenação, a questão religiosa era algo que se perdia entre os hebreus galileus. Até porque os membros de outros povos traziam seus cultos e seus deuses e os disseminavam no território galileu. Cultos que até mesmo eram totalmente contrários aos ensinamentos de Yehoshua.

Próximo ao Mar da Galiléia cultivava-se uma intensa indústria da pesca. O peixe era abundante e muito comercializado. A tecelagem, a cantaria — o ofício de canteiro, aquele que trabalha a pedra in natura, aparelhando-a para a construção civil — e a indústria naval, com a construção de barcos de pesca. Além disto, havia muitas olarias no território galileu que possuía muitas cidades, a menor com cerca de quatorze ou quinze mil habitantes, aproximadamente. Ao todo, vivia na Galiléia algo em torno de seiscentas mil almas na época de Yehoshua. Considerando o tamanho de seu território, a vida ali era intensa e, logicamente, sendo um local de comércio frenético, a vida política também era borbulhante.

Naquele tempo a Galiléia contava com fartura de fontes naturais e seu solo era fértil, prestando-se à maravilha para a agricultura. Ali se explorava o trigo, a cevada, o figo, o painço, as oliveiras, o arroz e  o damasco,  entre outros produtos naturais. A Galiléia também era farta em árvores de grande porte. Entre elas estavam o cedro, o cipreste, o abeto, o carvalho, o oleandro, a tamareira, o pinheiro, o sicômoro e a nogueira. Mas não eram somente estas. Havia grande quantidade de árvores que se prestavam muito bem à construção de barcos e casas.

Foi para aquele território menos dominado pela tirania do Templo que Yehoshua buscou levar sua palavra. Embora estivesse determinado a chocar-se com a rigidez das crenças e normas absurdas criadas pelos rabis de Jerusalém, ele não viera para pregar a Verdade apenas para judeus. Como dizia sempre, ele era cidadão do mundo.

A Galiléia de Yehoshua. A geografia mudou muito pouco. Foi uma paisagem quase igual a esta que Ele viu e na qual viveu por um tempo.

A Galiléia de Yehoshua. A geografia mudou muito pouco. Foi uma paisagem quase igual a esta que Ele viu e na qual viveu por um tempo.

Os hebreus que habitavam a Galiléia eram bem diferentes em costumes, daqueles que viviam na Judéia. Os galileus valorizavam muito a reputação própria e a familiar, o que já não faziam os judeus. Estes, enfatizavam mais as posses, o dinheiro. Isto vinha em primeiro lugar. A reputação própria e o zelo pelo nome de família estava em segundo lugar. E eram negligentes com os preceitos religiosos, por isto eram muito recriminados e acusados de hereges. Os fariseus e escribas hierosolimitanos eram os que ofereciam mais resistência e produziam críticas mais acerbas contra discípulos de Yehoshua porque eles não observavam o ritual da lavagem das mãos. Em todas as cidades e aldeias da Galiléia havia instrutores da Lei, assim como  muitas sinagogas; e os costumes mais arraigados na tradição dos hebreus ali não eram descurados. Yehoshua sabia perfeitamente que suas palavras correriam o mundo devido mesmo aos ouvidos que as ouviam.

As questões religiosas no território palestino eram muito delicadas, visto que todo o Estado era governado por uma teocracia, mais poderosa até do que o poder venal de Herodes e seu irmão, Filipe. A Bíblia não traz estas informações geográficas nem esclarece bem a questão da religiosidade em função das localizações geográficas e comerciais e, por isto, torna-se muito seca, fazendo a mesma coisa com a História de Yehoshua ou Jesus. As narrativas dos apóstolos parece que tinham um único objetivo: sacralizar ao máximo o enviado de Deus e Sua palavra. Mas o terreno seco da narrativa das coisas e gentes  que compunham o quadro ambiental geográfico, emocional, cultural e religioso em que Ele viveu e pregou é desprezado. Isto empresta uma aura de inverdade às narrativas bíblicas e torna cansativa a leitura dos ditos Evangelhos.

Havia, portanto, um claro objetivo de Yehoshua ao escolher a Galiléia para morar. Ali, a ênfase nos bens materiais e no lucro incrementava a perda da religiosidade e o endeusamento do venal e passageiro; intensificava uma tendência materialista com a qual o Filho do Homem não concordava. A espiritualidade se perdia no interesse pelas posses materiais e pelo lucro comercial. Com isto, os piores defeitos humanos afloravam e até eram tolerados de modo perigoso pelos galileus. A corrupção de valores era comum, mais do que Yehoshua poderia tolerar. E ele se batia justamente contra estes vícios, além daquele da Mentira, a orientadora dos rabis de Jerusalém. Na Galiléia também havia muitos templos hebraicos e com instrutores altamente versados nos livros sagrados. Todos eles compareciam mensalmente ao Templo de Jerusalém para informar sobre o estado da Religião naquele território. E o que o Sinédrio ouvia não lhes trazia calma. Os vícios morais, segundo seu modo de compreender o comportamento de outros membros de nações diferentes, os preocupava. Principalmente os modos devassos trazidos pelos gregos e aceitos por Herodes. As bacanais eram visceralmente repudiadas pelos rabis, quaisquer que fossem eles. Os circos de luta de escravos também eram odiados pelos rabis, até porque muitos hebreus eram levados como prisioneiros para serem vendidos às casas dedicadas ao treinamento deles.

Yehoshua veio sentar-se ao lado de seu amigo árabe, na tenda onde este comia frutas secas e bebia chá amargo. Aceitou o convite para também alimentar-se e durante o tempo em que estavam fazendo isto, os dois conversavam animadamente. O árabe deu-se por satisfeito e acompanhado por Yehoshua foi sentar-se diante da tenda, sob um grande sicômoro. Ali, por um tempo, ninguém falou. Então, com o olhar perdido algures à sua frente, Allifah murmurou com voz embargada.

O Guerreiro Tuaregue era feroz e em guerra seguiam à risca os preceitos de seu grupo e de seu líder.

O Guerreiro Tuaregue era feroz e em guerra seguia à risca os preceitos de seu grupo e de seu líder.

— Yehoshua — disse —, nasci no deserto, em uma tribo de guerreiros. Cresci com a cimitarra nas mãos. E fui treinado para lutar e matar. E como orgulhoso tuaregue eu matei. E matei muitos homens e mulheres. Mas o que mais me magoa, atualmente, quando conto com mais de cinqüenta anos, é a lembrança do prazer que eu sentia ao ver a vida se esvaindo nos olhos daqueles aos quais tinha como inimigos. Sou pio muçulmano e na Albácara, 2ª Surata, em 62, é dito que “Os fiéis, todos os que crêem em Allah, no Dia do Juízo Final, e praticam o bem, receberão a sua recompensa do seu Senhor e não serão presas do temor, nem se atribularão”. Em 85 é dito: “No entanto, vede o que fazeis: estais-vos matando; expulsais das vossas casas alguns de vós, contra quem demonstrais injustiça e transgressão; e quando os fazeis prisioneiros, pedis resgate por eles, apesar de saberdes que vos era proibido bani-los. Credes, acaso, em uma parte do Livro e negais a outra? Aqueles que, dentre vós, tal cometem, não receberão, em troca, senão aviltamento, na vida terrena e, no Dia da Ressurreição, serão submetidos ao mais severo dos castigo. E Deus não está desatento em relação a tudo quanto fazeis”.  Minha tribo e eu fizemos muitos prisioneiros também árabes, mas inimigos de nossa tribo. E os vendemos como escravos ou os matamos degolando-lhes as cabeças. Agora, que a velhice desce sobre meus cabelos e branqueja minhas barbas; agora, quando o ímpeto guerreiro arrefeceu e feneceu dentro de mim, olho para meu passado e me angustio. Leio com contrição o Alcorão, em 163, onde é dito que “Vosso Deus é Um só. Não há mais divindade além d’Ele, o Clemente, o Misericordiosíssimo”. Mas vejo ao redor de mim dezenas de religiões, todas ou quase todas, diferentes daquela que nós, muçulmanos, pregamos. Em muito nosso Livro é igual ao dos Hebreus, pois contam as mesmas histórias do passado dos grandes reveladores. E nele, na segunda surata, em 218 é dito: “Aqueles que creram, migraram e combateram pela causa de Deus poderão esperar de Deus a misericórdia, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo”.  Eu lutei lutas pelo que me diziam ser a causa de Allah. No entanto, o último olhar dos que matei ainda queima em minha memória e não compreendo isto. Sinto grande agrura pelas vidas que tirei. Tens, tu, que és um rabi hebreu, algo a dizer que minore minhas dores de alma?

Yehoshua mirou algures e falou com voz mansa.

"Sede mansos como mansa é esta ovelha, pois a coragem não está no aço, mas no coração."

“Sede mansos como mansa é esta ovelha, pois a coragem não está no aço, mas no coração.”

— Allifah, quem vive pela ilusão comete enganos terríveis. Tu e a maioria esmagadora das gentes de nosso tempo vivem em ilusão. E a maior ilusão é a Religião, principalmente quando esta se mistura com a Política. Os rabis hebreus cometem os maiores erros de suas vidas ao deixaram a adoração ao Pai Nosso e enveredarem pelo desejo fútil de dominar e gerir as vidas de milhares de seu povo. Sim, tens razão. Os livros hebreus são quase idênticos aos livros árabes. Mas compreende uma coisa: ao nascer nenhum homem é dono de si. Ao contrário, depende de todos, principalmente da vontade daquele que foi escolhido para guiar os destinos da nação em que nasceu. E é moldado em sua alma segundo as leis e os entendimentos do líder. Quando tu mataste, não o fizeste por tua livre vontade, mas sim porque estavas sob o domínio de um líder que levava teu povo a crer que o fazias em nome d’Aquele a quem chamas Allah. Eu te digo, meu amigo, que não deves andar de costas para o futuro e olhando e se recriminando pelo que fizeste e julgas errado ou criminoso. Mataste, sim. Mas tu e teu suposto inimigo estavam sob o jugo de alguém que vos conduziu ao crime. Tinhas como evitar o assassinato? Na situação específica em que te encontravas, podias tu romper com os grilhões sociais em que te encontravas e agir de modo contrário? Vê, nosso Pai celestial não olha nem pesa os supostos crimes que os homens cometem em seus desatinos. Quando alguém como tu se dedica a julgar seus erros segundo a Lei, já faz seu próprio sacrifício, pois diante da Consciência, ninguém é poderoso, mas servo. Em verdade, em verdade eu te digo: se vivesses esta vida momento a momento mil vezes, por mil vezes cometerias os mesmos atos que julgas criminosos. Nenhum homem pode vencer o Mâyâ se vive mergulhado nele desde quando nasceu. Para sair de seu domínio é necessário que faça o que tu, agora, fazes: olhe a história de sua vida e se determine a não mais fazer o que fizera antes de ter sua Consciência desperta. Para o Pai Celestial, Allifah, isto é o bastante, pois Ele é o senhor do Presente, do Passado e do Futuro do homem e conhece tudo a seu respeito. Mesmo que não conheças a razão pela qual vieste para cumprir esta missão, com toda a certeza há uma razão para isto e eu te digo em verdade: nenhum homem é totalmente mau nem totalmente bom. Nenhum homem vive sozinho neste mundo de ilusão. Vós vos aglomerais como fazem as formigas e as abelhas. Sozinha, uma formiga não tem força nenhuma. Nem uma abelha. Mas em grupo, são fortes e uma reforça na outra esta fortaleza. Quando tu lanças teu olhar ao passado e te colocas como juiz de ti mesmo, tornas-te o pior carrasco de teu ser. Não te recrimines pelo que quer que tenhas feito. Mas olha o que fizeste com plena consciência de que foi mal feito e te determines a não mais cometer os mesmos atos, no presente. Compensa em outros irmãos teus, independente de serem ou não, árabes, o que fizeste com os que abateste em campos de batalha. Faze o bem a quantos te procurarem e não te apegues a nada na terra, pois o que é da terra na terra continuará até o fim dos tempos. E eu te digo: nem Allah nem Jeovah nem outro Deus de Bondade e Caridade estabelece para seus filhos que lutem entre si; que se matem em guerras levadas a efeito em Seu nome, pois o Pai nosso, meu irmão, detesta a desunião de seus filhos.  E compreende que a Sabedoria nunca está ao alcance dos jovens, mas sim daqueles que muito viveram e muito erraram. Só pelo erro é que o homem chega à Sabedoria. Não há outro caminho. Tu erraste, mas fazes, agora, daqueles erros, degraus para uma nova postura na tua vida. Se lançares fora tua cimitarra e em seu lugar colocares nas mãos o pão e o vinho para distribuir por teus irmãos, então, tudo te foi perdoado.

Allifah permaneceu quieto e duas lágrimas rolaram pelos fios de sua densa barba grisalha. Então, pondo-se de pé, estendeu os braços para Yehoshua, que se levantou e aceitou o abraço do seu amigo.

Foi assim, abraçados, que Judas Iscariotes os encontrou…

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