Assim o cinema representa Yohanan, ou João Baptista, como é mais conhecido entre os cristãos.

Assim o cinema representa Yohanan, ou João Baptista, como é mais conhecido entre os cristãos.

O sol esquentou. O povo se impacientava com a demora do pregador do deserto. Os soldados de Herodes armaram um toldo sobre a cabeça de Salomé e lhe deram uma bilha contendo água fria. Ela bebeu um pouco e pousou o vaso sobre uma pedra a seu lado. Era a décima hora quando finalmente Yohanan surgiu, vindo do lado de um dos muitos riachos que desembocavam no Jordão, naqueles idos um rio largo e caudaloso. O homem tinha um porte impressionante, apesar de sua vida reclusa e sua estranha dieta. Além de gafanhotos, comia muitas frutas naturais, verduras à vontade e tubérculos diversos. Não só de gafanhotos Yohanan vivia. Mas não ingeria nem uma gota de vinho ou de qualquer outra bebida. Só bebia água e de uma bica específica, na fronteira entre as terras férteis da Palestina e o deserto que a ela se seguia a perder de vista.

O pregador entrou na água até à cintura e, ali, subiu numa pedra de onde se voltou para olhar o povo que se comprimia nas margens. Alguns até se haviam arriscado a entrar na água, ávidos para receberem o batismo das mãos do santo profeta.  Yohanan os fez recuar com um olhar severo para eles.

— Falar-vos-ei, hoje, do pecado da concupiscência, que é o que mais se pratica no reino desta terra. Não é à-toa que as filhas de Eva constituem o testemunho vivo de que elas são a perdição da alma dos homens. Suas belezas, suas vozes maviosas e seus ares de inocentes e maliciosas, testemunham o Mal que nos seus belos atrativos físicos se escondem como a víbora da perdição.

O olhar do pregador caiu como um raio de fogo sobre a bela jovem que o olhava atentamente. Ela sentiu que todas as cabeças se voltavam para onde estava sentada e enrubesceu até a raiz dos cabelos.

— Olhai! — Gritou Yohanan apontando um dedo acusador para Salomé. — Ali está a prova do que vos digo. Vêde como aquela mulher se deixa mostrar impudicamente para vos tentar. Olhai para seus ombros desnudos, suas vestimentas provocativas e suas pernas estendidas ao tempo e à luz, como um convite ao pecado. Ela é filha da prostituta que, abandonada pelo marido, conubia-se com Herodes, o rei espúrio desta nação.

A raiva assomou ao peito de Salomé e pondo-se de pé ela caminhou até a alta margem do rio, de onde estendeu a mão para o pregador.

— Como ousas insultar-me, pregador? O que te fiz para que me odeies tanto? Não estou aqui como os demais apenas para te ouvir e te honrar com minha presença, assim como eles também o fazem? Não fossem nossos ouvidos a te ouvir, tuas palavas se perderiam nas areais do deserto e seus ecos não iriam além das margens deste rio. Eu não tenho culpa de ser bonita. Eu sou cria d’Aquele a quem adoras e tu mesmo o tens dito quase todos os dias de tua pregação. E se ele nos fez, a nós, mulheres, belas, não o fez à-toa. O que seria da raça humana se as mulheres não fossem belas para seus homens? Acaso já viste um homem olhar com desejo para uma mulher desgrenhada, fedorenta a suor e sebo, desdentada, coxa e caolha?

Um coro de gargalhadas explodiu do povo e algumas palmas se ouviram, o que incentivou mais ainda a fala de Salomé.

— Cala-te, víbora! Cala-te ou clamo sobre ti a desgraça como teu cajado para toda a vida. Eu te amaldiçoarei e teu ventre secará como a uva passa. Dele não sairá fruto que seja, bom ou mau. Eu sou o que veio para aplainar o caminho d’Aquele que é o verdadeiro Rei dos Judeus. Teu padrasto é um usurpador. Um homem imoral, dado a bacanais e abusos carnais condenáveis…

— Por acaso, Pregador, já te deitaste com uma mulher como eu? — Gritou bem alto a jovem ninfeta, estimulada pelos aplausos e risos dos que a ouviam. — Uma mulher bonita e jovem, que te tivesse levado às alturas das delícias que só o corpo de uma mulher bela pode levar a um homem? Eu creio que não! Tu te contentas em te masturbar deitado nas areias mortas dessas terras mortas, porque morto está teu espírito. Sou bela porque assim o quis o Criador, conforme tu O chamas. Eu não me importo com quem me fez como sou, pois estou satisfeita comigo assim como sou. Mas compreendo que tu estejas revoltado com o que és. Só discordo de que desejes levar nossos homens a se igualarem a ti na secura de teu coração e na pobreza de tuas posses. Não creio que uma única prostituta da Palestina se deite contigo, visto que tu fedes a deserto!

— Imunda! Perjura! — Urrou o pregador sacudindo furiosamente seu cajado ao vento. — Tu te igualas à tua mãe no pecado. E eu, com o poder que me concede Aquele que me enviou, amaldiçôo a ti e à tua maldita mãe. Ela sofrerá de um mal sem cura, que lhe emporcalhará o hálito e afastará de si o maldito Herodes. E tu, imunda, tu serás aquela que trairá tua mãe e te deitarás com teu padrasto. Quem viver verá que não roguei esta praga em ti à-toa, pois por minha boca saem as sentenças do Senhor. Agora, desaparece de minha frente, pois és indigna de ouvir minhas palavras.

Fez-se um silêncio pesado diante da praga rogada por Yohanan. Talvez tenha sido aquele silêncio súbito, talvez a brusca parada da brisa que fez o calor do sol se tornar mais quente de modo repentino, talvez tudo isto junto, o certo é que Salomé se sentiu mal. Cambaleou por um momento e com os braços estendidos buscando segurar-se em alguma coisa, deu dois passos, escorregou e caiu sentada na pedra. Um dos guardas correu a lhe amparar e sustentada por ele, a jovem foi retirada dali. O pregador continuou suas invectivas contra o Rei Herodes e sua concubina até o meio-dia, quando deu por encerrada sua pregação e se retirou de modo súbito, deixando muitos de seus admiradores frustrados por não terem sido batizados.

No palácio de seu padrasto, já refeita do mal súbito, a jovem, ainda sob o efeito da raiva que tinha sentido contra o pregador do deserto, convidou sua mãe e Herodes para uma corrida de biga. Herodíades não aceitou. Não se sentia bem disposta e seu humor estava ruim. Preferia não estragar o dia dos dois. Ela queria partir para o palácio às margens do Mar da Galiléia, mas Herodes não concordava. Ele alegava compromissos urgentes na cidade, embora nada indicasse que tais compromissos existissem. Na verdade, Herodes não gostava muito das areias escaldantes das praias, o que era o oposto no que dizia respeito à sua amante. Ficar queimado pelo sol, pele ardendo e incomodando não despertava seu ânimo. E por isto os dois tinham terminado discutindo acremente.

Salomé corria à toda, a biga saltando perigosamente sobre as pedras. Maldosamente dirigiu-se para o lugar onde Yohanan fazia suas pregações. O local estava quase totalmente vazio. Ela passou ao longe, perseguida de perto pelo padrasto, numa carreira perigosa. Os dois desceram em direção ao vale e passaram a correr na estrada romana que oferecia maior segurança, mas também o perigo de atropelar pedestres e animais que transitavam por ali. Herodes começava a ficar apreensivo. Não gostava de se arriscar sem uma boa guarda tão longe do palácio. Tentou aproximar-se da jovem, mas sua biga era mais pesada e isto atrasava seus cavalos. E chamar por ela não lhe passava pela cabeça. Era demasiadamente plebeu gritar por alguém de dentro de uma biga. Então, restava-lhe chicotear como podia e com quantas forças tinha os pobres cavalos, que já resfolegavam pelo esforço despendido.

Uma biga romana. Era puxada por dois cavalos e em combate levava dois soldados.

Uma biga romana. Era puxada por dois cavalos e em combate levava dois soldados.

Salomé se sentia poderosa e aquela sensação compensava-lhe a frustração da raiva que lhe despertara o maldito comedor de gafanhotos. Estava tão embevecida com seu sentir que se distraiu e num solavanco mais duro da biga perdeu o equilíbrio e para se segurar soltou as rédeas dos cavalos. Desembestados e livres do bridão as alimárias esticavam o pescoço num galope furioso. A cada momento ela se distanciava mais de seu padrasto e o medo tomou conta de si. Gritou com quantas forças tinha pelo homem que se esforçava ao máximo para se aproximar da jovem, sem sucesso. Ele percebera o desastre iminente. A biga viraria com certeza e a moça se estatelaria contra as pedras da estrada. A morte seria imediata. Com a boca seca, Herodes perdeu a pose e se pôs a gritar pela enteada. As duas bigas passaram ao lado de uma patrulha romana, cujo decurião logo percebeu o perigo. Esporeando o cavalo ele o fez dar um salto para a frente e disparar como uma flecha atrás dos dois carros de guerra. Reconheceu o carro do Rei Herodes, mas passou por ele como uma flecha e emparelhou com a biga de Salomé. Tentou várias vezes apanhar as rédeas soltas, sem sucesso. Elas eram arrastadas perigosamente sob o carro de guerra. Se uma das rodas prendesse o freio o desastre seria inevitável. Então, com uma demonstração de mestria inigualável, o decurião jogou-se sobre os animais e usando de sua força hercúlea obrigou os animais a parar. A curva mais fechada daquele trecho estava a cinco metros, quando a biga foi sustada em sua carreira.

Ambos, o soldado romano e o rei Herodes se aproximaram ansiosos da jovem ninfeta. Foi o decurião quem a segurou, quando seu corpo amoleceu num quase desmaio de medo. Ele a levantou como se ela fosse uma pluma e a carregou até a borda da estrada. Desceu com a jovem nos braços, seguido por Herodes que se sentiu tomado de uma crise de ciúmes. O decurião colocou a jovem sobre as pedras que bordeavam um tanque com água e apanhando um pouco borrifou-o no rosto pálido de Salomé. Herodes, de pé, assistia a tudo com uma cara de contrariado e demonstrando grande irritação na expressão de seu olhar.

Salomé aos poucos recuperou-se e ainda trêmula abraçou com força seu salvador. Herodes intrometeu-se entre a jovem e o soldado romano.

— Pode deixar. Agora eu cuido dela — disse, contendo a ira que lhe assomava ao peito. Estava tomado de grande ciúme, mas ainda não tinha consciência disto.

O decurião afastou-se e cumprimentou o rei com o gesto distintivo dos soldados romanos. Então, curvando a cabeça rodou nos calcanhares e se afastou firme, montando em seu cavalo e retornando para sua decúria. Salomé aninhou-se no forte peito de Herodes e fechou os olhos, como uma pomba no ninho. O calor morno de seu corpo e o perfume de sândalo que ela exalava perturbaram o homem. Ele apertou-a com carinho e beijou-lhe várias vezes os cabelos. Então, a jovem percebeu o que acontecia ao mesmo tempo em que recordou-se de súbito das palavas de Yohanan: “E tu, imunda, tu serás aquela que trairá tua mãe e te deitarás com teu padrasto.” A moça teve um tremor de medo e empurrou Herodes com cuidado. 

— Eu estou bem, agora. Vamos voltar. Chega de bigas, por hoje — disse, procurando não tremer a voz e abaixando a cabeça para evitar que o homem lhe notasse o rubor nas faces. Mas ele notou, sim. E gostou. Tentou retornar à estrada de mãos dadas com a jovem, mas ela se esquivou do contato e apressando o passo chegou à biga antes que ele. Aquilo irritou o rei, mas ele se conteve.

Quando estavam fazendo as bigas darem a volta, a decúria se emparelhou com eles. Herodes olhou para o decurião e lhe disse:

— Nós te devemos uma ajuda que não tem preço. Por isto, peço-te que vás ao meu palácio. Procurarei recompensar-te pelo que nos fizeste.

O decurião acenou levemente com a cabeça e sustou o passo aos seus soldados até que as bigas retomassem o caminho de volta. Ele permaneceu olhando para os carros. A figura da jovem não lhe saía da mente…

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