Ele não abriu jamais seu sonho de transformar Yehoshua num guerreiro libertador.

Ele não abriu mão jamais de seu sonho de transformar Yehoshua num guerreiro libertador.

Iscariotes parou e olhou aquela cena inusitada. Seu Mestre abraçado a um gentio. Se alguém do  templo de Jerusalém o visse assim, certamente que o insultaria com fúria. Afinal, ele era um rabi e tinha a obrigação de obedecer os ditamos da Torah. Yehoshua apartou-se de Allifah e se voltou, sorrindo, para seu discípulo aguerrido.

— Por que tu nos contempla como se estivesses vendo um fantasma, Judas? Por acaso um irmão não pode abraçar outro?

Pigarreando, Judas deu mais uma meia-dúzia de passadas e se colocou face a face com Yehoshua.

— Sim, mas ele é um árabe. Um “goy” (não judeu). Tu, como rabi de Jerusalém, não devias abraçá-lo. Nem mesmo tê-lo por irmão. Nosso povo é goy cadoshy (nação santa) e o dele não é. Eles são impuros perante Jeovah!

A língua de Judas não tinha freios, quando ele acreditava estar defendendo a boa causa. E disto não escapava nem seu Mestre. Mas a rispidez com que a última frase foi pronunciada fez morrer o sorriso nos lábios de Yehoshua e sua expressão facial endureceu.

O homem calmo e pacífico, sempre sorridente e amoroso, também sabia bater quando necessário.

O homem calmo e pacífico, sempre sorridente e amoroso, também sabia bater quando necessário.

— Judas — falou o Mestre e sua voz era áspera — aquele que é inimigo de meu irmão é meu inimigo. Allifah é nosso irmão, teu e meu, mesmo que o que te ensinaram afirme o contrário. Todos somos filhos do Altíssimo! E quantas vezes terei de te repetir esta verdade antes que finalmente ela se faça luz em tua mente endurecida pela pregação errada dos que se dizem rabis? 

— Eu não aceito um árabe como meu irmão! — Rugiu Judas dando um passo atrás e encarando com cenho carregado seu Mestre. — Se tu o tens neste conceito, não sou mais teu discípulo!

Judas rodou nos calcanhares para se retirar, mas a forte mão de Yehoshua segurou-o com força pelo forte bíceps, obrigando-o a se voltar para ele.

— Ordeno que peças desculpas a Allifah. AGORA!

Mesmo o trovejar da voz de Yehoshua não fez o Iscariotes abaixar a cabeça. Ao contrário, ele fuzilou seu Mestre com um olhar assassino e rugiu, entredentes:

— Larga-me! LARGA-ME OU EU NÃO ME RESPONSABILIZO POR MEUS ATOS!

Allifah fez menção de se aproximar, mas o olhar assassino do discípulo de Yehoshua fez que sustasse o passo. Sentiu que entre aquele homem e ele, só o aço faria parar a animosidade.

— DESCULPAS! AGORA! — Gritou Yehoshua avermelhando-se de ira. — Eu não te permito fazer o que queres. Farás o que eu quero que tu faças. E não adianta desejares resistir a mim!

— Nunca! — Urrou Iscariotes, dando um safanão violento no peito de Yehoshua, fazendo que ele desse três passos atrás para não cair. O discípulo saltou sobre ele com sua sica brilhando ao alto. Tinha certeza de que acertaria o peito de seu agora adversário, mas foi surpreendido por um movimento giratório de Yehoshua, ao mesmo tempo que sentiu um murro explodir em suas costas com tal violência que soltou o ar do pulmão com força. Simultaneamente uma dor aguda se espalhou por toda a sua costa e se concentrou na boca do estômago. Sua vista se turvou e ele caiu ao solo abraçado sobre si mesmo, gemendo com a tremenda dor que lhe retesava os músculos intercostais e o obrigava a tentar se levantar em desespero. Precisava respirar, mas quando o fazia a dor dentro de seu tórax era martirizante. Porém mal ficou de pé e um ponta-pé atingiu-o no baixo ventre, fazendo que se curvasse com um rugido de dor. Lágrimas lhe saíram pelos olhos esbugalhados e ele foi jogado a quase cinco metros de distância de onde estava seu espantoso mestre. Estatelou-se no solo, olhos embaçados de lágrimas e imobilizado pela dor lancinante que tomava conta de todo o interior de seu tórax, impedindo-o de respirar.

Yehoshua avançou até ele e o segurou pelos cabelos, obrigando-o a se pôr de pé quase dependurado da mão que o sujigava. Olhos nos olhos, o Mestre falou.

— Eu sou teu Senhor e teu Mestre. Não me insultarás nunca mais. Não me desobedecerás nunca mais. E nunca mais sacarás da arma contra mim nem me tocarás o corpo com tua violência. Tu tens uma missão ao meu lado e a cumprirás, queiras ou não. Estás compreendendo?

Com dificuldade Iscariotes acenou levemente com a cabeça. De seus olhos lágrimas de dor escorriam por sobre a barba espessa. Yehoshua soltou-lhe a cabeleira e com um safanão brusco fez que ele girasse como um boneco desconjuntado. Então, com a ponta dos dedos indicador, médio e polegar da mão esquerda tocou com força três pontos nas costas do discípulo rebelde. Como por encanto as dores nas costas e no tórax do discípulo sumiram. O alívio por poder respirar de novo foi gratificante e Iscariotes se voltou para Yehoshua totalmente espantado.

Ele tentou por todos os meios mostrar que o milagre é um só: Crer no Pai Celestial com toda a fé do Espirito. Crer que somos Seus filhos e por isto somos os senhores de tudo na Terra.

Ele tentou por todos os meios mostrar que o milagre é um só: Crer no Pai Celestial com toda a fé do Espirito. Crer que somos Seus filhos e por isto somos os senhores de tudo na Terra.

— Como… Como fizeste isto? Tu me tiraste a dor com o só tocar minhas costas…

— Não sejas estúpido! — Exclamou Yehoshua,  para quem os pensamentos dos homens eram como livro aberto. — Não se trata de nenhum milagre. Por que é que tu e todos os hebreus julgam que tudo o que não entendem é milagre ou coisa do demônio? Isto é exasperante!

Allifah aproximou-se com um copo de vinho na mão esquerda. Com a direita fez o cumprimento árabe, tocando o coração, os lábios e a testa, murmurando Que o teu cortação exulte com bons sentimentos; que de teus lábios só saiam palavras de amor; que de tua mente fluam apenas bons pensamentos”. Ato contínuo, estendeu o copo para o Iscariotes. Na face, um sorriso misterioso.

— Que este vinho seja a união de nossos espíritos como irmãos, Judas — disse ele. Judas olhou-o e ao seu Mestre. Então, sem hesitar tomou do copo de vinho e bebeu seu conteúdo em três goles. Yehoshua sorriu. Esta qualidade de Judas o agradava muito. Sabia quando perdia e não guardava rancor. Tinha apanhado. Pronto, acabou. Tinha sido dobrado em sua vontade de ferro. Pronto, acabou. O árabe não mais era seu inimigo, já que seu vencedor assim o determinava. Ponto final.

Quando o discípulo entregou o copo ao árabe e lhe devolveu o cumprimento com o mesmo gesto e com as mesmas palavras, Yehoshua encaminhou-se de volta à tenda acompanhado pelos dois que, agora, andavam lado a lado.

— O que fazes aqui? Onde estão os outros? — Perguntou Yehoshua, sentando-se, no que foi acompanhado pelos seus dois amigos.

— Estive no Templo — disse Judas, que já sabia que suas escapadas para o Templo não eram desconhecidas do Mestre. — Eles estão muito agitados com o que vens fazendo. Aquela história com o Tribuno ficou muito mal-contada para Caifás e Anás. Tu lhes frustraste os planos, que era aproveitar de tua fama entre o povo e te apresentar como um servo do Templo. Fugindo a eles, tu lhes compraste o ódio e isto não é bom. Além do mais, eles pretendiam ficar com a glória do milagre que tu realizaste no romano…

— Milagre?! — Espantou-se Allifah. — Com que então tu  fazes milagres? És um milagreiro, Yehoshua?! Por que…

— Eu não obro milagres, Allifah. Quem os faz é nosso Pai Celestial. Eu somente oro a ele e peço por aqueles que vejo que merecem outra oportunidade. És um homem de fé?

— Sim, eu o sou. Por que perguntas?

Yehoshua olhou ao redor e apontando para uma pedra, disse.

— Se tua fé for verdadeira, ordena que aquele escolho gire sobre si mesmo e rode até aquele montículo de areia, lá, a duas braças de distância dele.

— Quê?! — Espantou-se o árabe. — Como aquele escolho sem vida me obedeceria, Yehoshua? Ficaste doido?

O Mestre permaneceu olhando para seu amigo com um sorriso de censura nos lábios e nos olhos. Então, virando-se para o escolho falou, baixo, mas audível o bastante para que os dois homens, que o observavam com curiosidade e atenção, ouvissem.

— Escolho, em nome de meu Pai Celestial, eu te ordeno que te movas de onde estás até o montículo de areia para onde aponto.

Os olhares dos dois homens se voltaram num só movimento para o escolho e com total assombro suas bocas se entreabriram quando a pedra rolou até o montículo de areia e ali, parou.

— Allah é grande! — Gritou o árabe prostrando-se de testa no solo.

— Por Moisés! Como fizeste isto?! — Disse Judas, voltando a olhar espantado para a face de Yehoshua.

— Somos todos filhos do Altíssimo. Se eu fiz o que fiz é porque eu tenho a certeza absoluta do que digo, ao contrário de vós que o dizeis apenas por repetição do que ouviram alguém falar, mas não estais convencidos em vossos Espíritos mesmos, desta Verdade. Somos filhos daquele que tudo pode e cujo nome, uma vez invocado, não pode ser desrespeitado. Nem mesmo por uma pedra, que pensais que não tem vida. Mas em verdade, em verdade eu vos digo: tudo sobre a Terra e dentro dela tem vida. Se assim não fosse, não teriam existência material. Isto é tão óbvio quanto óbvio é o vosso conhecimento de que um cadáver, porque a vida se lhe foi, deixará de existir e virará pó. Então, por que o espanto? Podeis fazer isto que fiz e muito mais até.

O silêncio se fez entre os três. Yehoshua sentiu-se incomodado pelo olhar de admiração, respeito e temor que observou nos dois homens diante de si. Então, com um suspiro, falou.

— Allifah, sei que viajas para muito longe daqui. Talvez quando voltares não mais nos encontremos. Talvez eu esteja em lugar por onde tu não costumas passar. Então, despeço-me de ti com um último conselho: aprende que não é prostrando-se no solo que o homem mostra ao Pai Nosso que o venera e respeita e ama. Mas sim, guardando em tudo o que faça e diga a Fé e a Verdade sem hesitação. E a Verdade é uma só: cada homem e cada mulher sobre a Terra é o próprio Pai em manifestação. Vós obrais milagres a todo momento e, no entanto, não o notais. Por que? Buscai a resposta em vós mesmos. Agora, despeço-me de ti e nós, Judas e eu, vamos para a casa de Jeremias, o pescador. Ali pretendo ficar uns dias até que todos os meus discípulos estejam comigo.

Allifah ainda permanecia de pé, olhando para o local onde os dois haviam desaparecido atrás das dunas.Nunca mais ele seria o mesmo homem nem o mesmo crente…

.