Judas observava sempre muito atento tudo o que seu Mestre fazia. Havia nele algo que o intrigava.

Judas observava sempre muito atento tudo o que seu Mestre fazia. Havia nele algo que o intrigava.

Judas caminhava calado e assim chegaram à casa do construtor Jeremias. Ele era idoso, cabelos brancos e tinha sido companheiro do pai de Yehoshua em trabalhos de construção, quando aquele era vivo. Os dois, discípulo e mestre, foram recebidos com alegria pelo homem e sua esposa. Agora, eram somente eles em casa. Seus oito filhos haviam casado e alguns até haviam ido morar em Jerusalém. Os dois tiveram os pés lavados, de conformidade com os costumes hebraicos, e logo estavam sentados conversando alegremente sobre as viagens de Yehoshua, motivo pelo qual não mais estivera por ali. O Mestre explicou que, agora, pretendia ficar mais tempo na agitada cidade de Cafarnaum. Iscariotes mantinha-se monossilábico e buscando sempre não ser notado pelas alegres filhas de Jeremias. Sua fama também era conhecida por aquelas paragens. Tinha certeza de que aquelas pessoas o tinham reconhecido, embora, educadamente, nenhuma tivesse dito nada a respeito.

Era a quarta hora daquele dia quando Jeremias convidou Yehoshua e Iscariotes para irem à feira. Precisava comprar mantimentos e teria a maior alegria de ser acompanhado pelo seu amigo e o companheiro deste. Com alegria os dois, Jeremias e Yehoshua, se puseram a caminho. Judas ia com eles, mas em silêncio. Parecia até que não era notado pelos dois tagarelas que conversavam e riam desinibidamente.

Naquele dia Yehoshua decidiu que era chegado o momento de se revelar.

Naquele dia Yehoshua decidiu que era chegado o momento de se revelar.

Na feira havia gente de todas as partes do mundo. Chineses, turcos, árabes, gregos, indianos, sírios, egípcios e muitos mais. A babel de línguas falada era grande, mas a mais ouvida era o koiné, o grego vulgar. Jeremias já era freguês de alguns vendedores e eles o recebiam e a seus acompanhantes com muita festa. Yehoshua ia enchendo seu cesto com muitas frutas e tubérculos. Judas, por sua vez, enchia a sua com verduras diversas. Em dado momento, Judas e Jeremias se afastaram de Yehoshua e este continuou seu caminho por entre a multidão sem se incomodar com o ter-se afastado de seus dois companheiros. Estava muito alegre. Gostava da barulheira que as pessoas faziam. Dos gritos dos donos de tendas e barracas apregoando seus artigos e buscando chamar a atenção dos passantes. Ia muito absorto, olhando atentamente para as bancas de ofertas, quando alguém lhe tocou a perna. Parou e olhou para baixo.

— Senhor, por piedade, não se afaste de mim sem me ajudar. Tenho fome. Tenho três filhos que também passam fome. Estou fraca e sofro com muitas dores de cabeça. Minhas mãos tremem. Meu estômago dói… Por piedade, senhor, ajude-me!

Não é raro encontrar mulheres que, usadas pelos homens, sofrem deles injustiças e acusações cruéis.

Não é raro encontrar mulheres que, usadas pelos homens, sofrem deles injustiças e acusações cruéis.

Yehoshua permaneceu um longo tempo olhando para aquele resto de ser humano, cuja mão trêmula se estendia em sua direção demonstrando claramente medo da recusa ou de algo pior. Então, Yehoshua abaixou-se e segurou a mão da mulher, olhando-a intensamente nos olhos. Seu coração estava confrangido com o que via. Permaneceu assim um longo tempo e seu olhar aqueceu de modo indescritível o coração e o corpo da mulher. Sua fome cessou. A dor de cabeça, também. A fraqueza foi sumindo e a força voltava também devagar ao seu corpo sujo, coberto de andrajos.

— Como te chamas, minha irmã? — Perguntou Yehoshua, pondo-se de pé e puxando a mulher pela mão para que também se levantasse.

— Eu… Meu nome é Matilde… Já fui a mais bela mulher desta região e…

— E erraste muito contigo mesma — completou Yehoshua, meneando tristemente a cabeça. — Quem não pensa no amanhã, Matilde, nunca chega a porto seguro na velhice. E tu nem mesmo chegaste a ser velha…

— Eu me prostituí, senhor. Quando bela…

— Os homens abusaram de ti. Mas vi em teu coração e senti teu arrependimento sincero. Já pagaste à Vida o que a Ela fizeste. Então, eu te ordeno que fiques curada e aos teus filhos, também. E quando eu me for, Matilde, segue em frente e nunca mais erres contigo novamente, pois não é certo que possas ter uma terceira chance.

E numa velocidade que desnorteou a mendiga Matilde ele desapareceu por entre a turba. De pé, coração aos pulos, Matilde permaneceu com os olhos fitos na direção onde aquele estranho havia desaparecido. Então, lentamente, olhou suas mãos e arregalou os olhos. A verdade parecia não ser possível de acreditar: suas mãos, mesmo sujas, estavam jovens e eram belas como antes. A artrite deformante sumira. Ela passou as mãos pelo corpo e sentiu que tinha rejuvenescido de modo assombroso. Olhou seus pés e eles eram novamente mimosos. E melhor que tudo: não doíam! Segurou uma porção de cabeços e os colocou diante dos olhos. Não estavam quebradiços nem envelhecidos. Eram cabelos lisos, avermelhados como sempre tinham sido em sua mocidade. Aos poucos a consciência se lhe fez e ela saltou de alegria.

— Eu voltei! Eu sou a Matilde de novo! Bendito seja Yavé! Bendito seja seu nome! Bendito seja o milagreiro que me deu a vida de volta!

Como alucinada a mulher se lançou por entre as gentes à procura frenética do estranho que lhe tinha rejuvenescido de modo inexplicável. Quase uma hora depois ela o viu. Estava em companhia de outros dois e escutava atentamente o que um vendedor dizia. Aos gritos de “Foi ele! Foi o milagreiro que me devolveu minha juventude e minha saúde!” a mulher correu para onde estava Yehoshua e se atirou aos seus pés, abraçando as pernas fortes de seu salvador. Yehoshua não teve tempo de dizer nada e já Iscariotes erguia a mulher bruscamente, puxando-a pelos cabelos.

— O que é isto, mulher? — Rugiu Judas. — O que pensas que estás fazendo?

— Deixa-a, Judas — e o som da voz de Yehoshua fez que seu discípulo soltasse Matilde e abaixasse a cabeça.

— Mulher, segue teu caminho! — A ordem foi secundada por uma expressão de dureza na face e no olhar. Isto intimidou Matilde, que trêmula de emoção, recuou devagarinho até não mais enxergar seu salvador. Mas ia murmurando baixinho: “foi ele… Foi ele que me devolveu minha vida… Minha juventude… Minha beleza!”.

Jeremias acompanhou tudo e permaneceu olhando para o local por onde a mulher tinha sumido.

— Vamos. Estou cansado — disse Yehoshua, puxando seu anfitrião pelo braço.

— Espera, amigo. Aquela mulher… Eu posso jurar pela minha felicidade que era ela… Matilde…

— E quem é essa daí? — Perguntou Judas, curioso.

— Matilde foi a mais bela hebréia desta cidade, Judas. Não há palavas para descrevê-la. E sua beleza também foi sua perdição. Ela aprendeu a profissão mais pecaminosa do mundo: a de prostituta. E lucrou muito com isto. Mas com o dinheiro também lhe vieram as doenças… E ela perdeu seus admiradores. Os daqui e os que vinham de longe só para ter seus prazeres caros…. Pegou uma doença estranha… Enfim, terminou sendo a mendiga mais feia e mais repudiada de Cafarnaum. Agora… Não posso acreditar no que acabo de ver, mas quase posso assegura que era ela, a bela Matilde que veio da sarjeta… Será que isto é possível?

— Deixemos que a mulher cuide de si — disse Yehoshua, dando o braço ao seu amigo. — Estou cansado. O sol está quente e a feira já não mais tem o que nos oferecer. Compraste tudo o que querias comprar e até um pouco mais por nossa causa. Por favor, vamos embora. Deixemos a mulher com sua vida.

Os três retornaram à casa de Jeremias, onde a esposa e as filhas do amigo de Yehoshua já esperavam para lavar-lhes os pés e lhes oferecer alimento. O Sol do meio-dia anunciava o nascer da tarde com um brilho ofuscante e um calor incômodo.

Observando que não era notado no alarido que se fazia, Judas esquivou-se e sorrateiramente afastou-se da casa de Jeremias. Morria de curiosidade de saber o que tinha havido com a tal Matilde. Não era possível que seu Mestre houvesse realmente feito o que ela dizia, mas intimamente pedia aos céus que fosse verdade.

Não foi difícil encontrar Matilde. Ela continuava na feira, cercada por uma centena de curiosos que se acotovelavam para ver a mulher do milagre. Rompendo passagem quase à força, Judas chegou finalmente ao lado de Matilde e puxou-a com força pelo braço.

— Aquele que te curou manda que me sigas — murmurou ao ouvido da mulher. — E não deves fazer alarido. Vem comigo. Vou guiar-te para que saiamos daqui sem que nos perturbem.

Iscariotes era o único discípulo que não escondia o que sentia. Olhava diretamente nos olhos de Yehoshua e não tremia diante daqueles olhos de olhar profundo.

Iscariotes era o único discípulo que não escondia o que sentia. Olhava direto nos olhos de Yehoshua e não tremia diante daqueles olhos de olhar profundo.

Judas retornou à casa de Jeremias uma hora depois de se ter retirado. Todos o esperavam, embora não fizessem a menor idéia de seu desaparecimento. Conversavam baixinho ao redor de uma mesa rústica onde os pratos de alimentos cozidos esfriavam. Havia muitas saladas convidativas, mas Jeremias delicadamente aguardava o retornou do discípulo de Yehoshua.

Iscariotes parou na entrada da porta e pediu licença para entrar. Jeremias veio sorrindo buscá-lo, mas estacou de chofre mirando, incrédulo, a mulher que Judas segurava pela mão.

— Matilde…? És tu mesma? — Balbuciou, olhos arregalados de espanto.

— Sim, Jeremias, sou eu. E quem fez isto a mim está em tua casa, pelo que me disse este homem.

Jeremias passeou o olhar de um a outro rosto dos dois visitantes. O que fazer? Como receber uma impura em sua residência? E como recusar a gentileza que a Lei lhe ordenava praticar com todos? Então, percebendo que seu silêncio já incomodava, murmurou baixando o olhar para fugir à escrutinação que lhe fazia da face, Judas Iscariotes. 

 — Entrem… Entrem… — Tartamudeou Jeremias, atrapalhado.

Havia hesitação na voz do hospedeiro de Yehoshua. Afinal, ainda que sob a magia de um milagre inexplicável, a mulher diante de si era uma prostituta. E a Lei não permitia que um hebreu puro recebesse em seu lar tal gente. Os três adentraram a sala de refeições, Jeremias demonstrando estar muito atrapalhado com aquilo. Yehoshua, tão-logo viu Matilde, pôs-se de pé e, sorrindo, estendeu-lhe a mão, convidando-a a se sentar à mesa para almoçar na companhia de todos. Um grande mal-estar se fez, principalmente entre as mulheres. Yehoshua, então, falou.

— O nosso Pai, ao nos criar, deu-nos Seu divino sopro de vida. E ao fazer isto, não se agastou porque soubesse que muitos de seus filhos cometeriam erros no mundo. Era para isto mesmo que Ele lhes dava a Vida: para errar e aprender com seus erros. Matilde errou, sim. Mas pagou caro seus erros diante do mundo incompreensível e mau criado pelos filhos de Deus. Depois de se saciarem com sua beleza e com os prazeres de seu corpo, seus irmãos lhe viraram as costas e passaram a expulsá-la de perto de si. Eu vos pergunto, pois, quem mais errou neste drama: Matilde, a bela irresponsável consigo mesma, ou os que dela se aproveitaram e, quando ela precisou deles, lhe viraram as costas? O homem, está escrito, foi feito à semelhança de Seu Criador. Mas o Criador jamais vira as costas para qualquer de seus filhos. Recebe a todos, ricos ou pobres, bonitos ou feios, sadios ou doentes, hebreus ou não, com o mesmo Amor. Então, por que estes filhos, em vez de imitarem o Pai, se viram contra o que errou e se tornou mais fraco? Não foi dito por Hilel que a Lei manda não fazer ao próximo o que não se deseja que se faça conosco? Gostaríeis de estar no lugar de Matilde, neste momento? Ela quer compartilhar sua felicidade conosco, mas vós vos constrangeis por isto. Como vos sentiríeis se estivésseis neste momento em seu lugar?

O silêncio foi muito constrangedor. Yehoshua deu a volta à mesa e se encaminhou até a mulher, que, agastada, curvara a cabeça sobre o peito sem saber o que fazer.

— Vamos — disse o Mestre e sua voz soou muito forte. — Parece que nesta casa não temos irmãos.

Como se saindo subitamente de um estado de hipnose, Afra, a esposa de Jeremias, gritou:

— NÃO! Em nossa casa todos são bem-vindos! Retornai, por favor, Yehoshua. Sentai-vos. E tu, Matilde, és convidada de Iscariotes, amigo e nosso amigo. Então, és bem-vinda. Ceia conosco, por favor.

No início meio constrangidos, todos se sentaram. Só Yehoshua parecia sorrir na face. Em breve, entregues à alimentação depois de uma bereka de agradecimento, eles já não mais se incomodavam com a presença da prostituta.

Findo o repasto e lavadas as mãos, os homens se retiraram para conversar fora de casa e sob uma grande figueira. Yehoshua segurava a mão de Matilde e levou-a consigo para o pequeno grupo formado por ele mesmo, seu hospedeiro e seu discípulo. Quando estavam sob a árvore, o Mestre se voltou para a mulher e lhe disse.

— És de novo uma judia livre e pronta para recomeçar tua vida. Abandona esta cidade e leva contigo teus filhos. Vai em companhia de Judas até onde ele deve-se encontrar com o resto de meus discípulos. De lá, segue para Jerusalém. Mas de modo algum voltes à vida que já viveste. A beleza, tu já viste, é um peso que toda mulher tem de carregar. Então, não te deixes enganar pelas palavras fáceis das víboras humanas. Tu poderás encontrar um homem digno com quem casar. E que não te cerceiem os preconceitos hebreus, pois meu Pai celeste não discriminou seus filhos por suas nacionalidades. Ele, contudo o faz, segundo o comportamento desses filhos. Cuida para não caíres novamente onde te encontrei, pois certamente não me terás por perto para te retirar da lama.

— Senhor… Quem… Quem sois vós? — Balbuciou Matilde, olhos úmidos de lágrimas.

— Eu Sou Aquele que há de vir. Já estou entre os homens, mas estes não me verão, e quando me virem, não me compreenderão. Por isto hão de chorar lágrimas de muitas dores e muitos sofrimentos pelos séculos vindouros. Agora, vai, mulher. Vai cuidar de tua nova vida. Judas te acompanhará até aonde o esperam seus outros irmãos. Quanto a ti, Jeremias, agradeço-te de coração o teres-me dado a oportunidade de me revelar. Que isto tenha acontecido em tua casa foi uma honra para mim, que te retribuirei quando o tempo seja chegado. E se me permites, também eu vou-me retirar. Terei muito quê fazer nesta cidade.

E deixando os outros boquiabertos, Yehoshua, com passos rápidos, sumiu dobrando a esquina da próxima rua…