Era chegado o tempo das maravilhas. E ele sabia bem a quê isto iria levá-lo.

Era chegado o tempo das maravilhas. E ele sabia bem a quê isto iria levá-lo.

Yehoshua caminhava sem pressa pelo meio das gentes que transitavam afanosamente pelas ruas de Cafarnaum. Ninguém parecia notá-lo e os que o notavam não pareciam reconhecer nele algo especial. Então, o Mestre dos Mestres encaminhou-se para o poço central da cidade, onde muitas mulheres vinham encher suas bilhas e conversar um pouco sobre os acontecimentos de que tinham sabido. Ele se aproximou e com um sorriso pediu a uma das presentes que lhe desse um pouco de água. A mulher olhou-o com olhar cansado. Era uma das poucas que não falavam. Apenas prestavam atenção ao papaguear das outras. Yehoshua insistiu no seu pedido, já que a mulher não se movia. Ela, sem dizer nada, estendeu-lhe uma concha de madeira para que ele apanhasse a água de que necessitava. Yehoshua mergulhou a concha na água do poço e levou-a aos lábios. Bebeu toda ela e devolveu à mulher a concha, com um agradecimento murmurado. Então, pediu licença para se sentar entre elas, o que causou de imediato um silêncio de curiosidade. Não era comum homens se sentarem com as mulheres em praça pública.

Ele deu início à sua revelação como Filho de Deus ainda longe de seus discípulos.

Ele deu início à sua revelação como Filho de Deus ainda longe de seus discípulos.

— Por que me olhais como se eu fosse de outro mundo? — O sorriso na face belíssima daquele homem de olhos caramelados cativava as mulheres e as ia fazendo descontrair e lançarem olhares cúmplices entre si. Em algumas o sorriso era francamente malicioso e cheio de convites silenciosos.

  — És casado? — Perguntou a mais novas das que ali estavam. Era loura e de olhos esverdeados. Em sua face rosada bailava um sorriso malicioso.

— Sim, eu o sou — respondeu Yehoshua com naturalidade. As mulheres se entreolharam com claras expressões de decepção.

— E.. Onde está tua esposa? — Tornou a perguntar a jovem de olhar brejeiro.

— Longe. Muito longe daqui. Por que tu te interessas por ela? Tu a conheces e a mim?

— Não! — Exclamou a jovem, corando até à raiz dos cabelos. — É que… Bom… Tu tens… quero dizer…

Yehoshua explodiu numa divertida gargalhada que terminou por contagiar a todas as mulheres. Algumas, o jovem notou, tinham péssimos dentes e duas até mostravam inchaços na lateral das faces, indicando abcessos. Ele mirou por um momento aquelas inflamações e voltou a olhar a todas elas, sempre rindo.

— Como te chamas, estranho? — A pergunta veio da mais velha de todas, cujos cabelos já apresentavam fios esbranquecidos e o rosto vincado de rugas, com um ar de cansaço e decepção.

— Yehoshua — foi a resposta simples.

— E de que família tu és? — Indagou outra mulher, cabelos pretos, face endurecida pela vida e olhar penetrante. Não era bela e seus dentes estavam bastante estragados pelas cáries.

— Sou de todas as famílias e de nenhuma — Respondeu Yehoshua, baixando a cabeça e mergulhando a mão esquerda na água límpida do poço.

— Como assim?! Tu és de todas as famílias sem ser de nenhuma?! — O espanto viera da jovem loura e de olhar malicioso.

"Eu pertenço a todos e não pertenço a ninguém. Sou irmão de todos e não sou de ninguém. Eu sou quem sou".

“Eu pertenço a todos e não pertenço a ninguém. Sou irmão de todos e não sou de ninguém. Eu sou quem sou”.

— É como eu disse: pertenço a todas as famílias, mas não pertenço a nenhuma. Quero dizer que sou de todas as famílias que me aceitem como amigo e rabino. E não sou daquelas famílias que me repudiem e não me aceitem como seu Mestre.

As mulheres ficaram sérias e olhavam curiosas e confusas para a bela face do homem que, agora, não sorria. Havia um misto de tristeza e alegria naquela face cujo olhar se prendia na mão que brincava dentro d’água.

— O que fazes para viver, meu jovem? — A pergunta foi feita pela mulher maltratada pela vida e de dentes cariados.

— Faço coisas. Aqui, ali… Quando acho que devo, obro milagres…

— Ah! Mais um bruxo por estas bandas — disse uma das que se tinham mantido silenciosas até ali. Era jovem, mas calada e muito observadora. Estava grávida e seu ventre já podia ser notado de longe.

— Sim… Talvez eu seja um bruxo. Mas juro que sou do Bem. Não faço maldades.

— Droga! Exclamou outra, também jovem, cabelos castanhos escuros, olhar penetrante e um rictus de revolta a lhe prender as comissuras dos lábios.

— Por que “droga”? — Perguntou Yehoshua olhando-a dentro dos olhos.

— Porque preciso de um que dê fim ao desgraçado de meu marido — disse entredentes e raivosa, a mulher.

— Tu o odeias?!

— E como!

— Então, por que te casaste com ele?

— És hebreu?

— Sim, claro.

— Então sabes que nós, mulheres hebreias, não temos o direito de escolher nossos maridos. Somos dadas a eles quando nossas famílias assim querem. Não somos ninguém, se queres saber. Muitas, como aconteceu comigo, são defloradas por seus noivos ainda quando contamos 13 anos. Nem sabemos o que seja o sexo e já temos de abrir nossas pernas para os machos grosseiros de nossa gente… Tens irmãs?

— Três.

— Casadas?

— Não.

— Sorte delas — e a mulher cuspiu no chão. Um pesado silêncio desceu sobre o grupo. Então, Yehoshua falou e sua voz mudara de tom e timbre. Era mais intensa e mais profunda. 

— É contra isso que nos contas e contra muito mais que vim a este mundo — disse Yehoshua, cuja voz adquiriu novo tom e chamou a atenção de todas as mulheres. — É preciso combater a discriminação entre os filhos do meu Pai. Vós nasceis pelo Seu Excelso Amor e Ele, que dá a vida a todos indiscriminadamente, não privilegia ninguém por seu sexo, mas sim por suas ações, suas palavras, seus pensamentos e seus sentimentos. Pois meu Pai está presente em cada ser vivente; a vida de cada um destes seres, inclusive as vossas vidas, vem d’Ele, de Seu Sopro Imortal. 

As mulheres silenciaram e se entreolharam, confusas. O que estava acontecendo ali? O que o jovem estranho queria dizer com aquela fala esquisita?

— Yehoshua! — Chamou uma mulher grisalha, magra e de corpo rijo. Tinha altivez na sua postura, embora a vida já lhe houvesse marcado com crueza. Seus dentes estavam todos estragados; suas pernas, cheias de varizes. Seus cabelos, ressequidos e quebradiços e suas roupas velhas e desbotadas emprestavam-lhe um aspecto desagradável. — O que estás falando que nós não compreendemos? Quem é esse Pai a que tu te referes? Certamente não é Yodcheva, bendito seja seu nome. Ele não tem filhos e não se sabe que algum homem, por mais belo e cativante que seja, como é teu caso, tenha permissão para se dizer Seu filho…

— Não, tens razão. Não sou filho de Yodcheva, como tu O chamas. Sou filho do Altíssimo e inalcançável pelas mais aprimoradas fantasias dos homens. Assim como todas vós e todos os homens que vivem sobre este mundo. Sou filho do Criador do Paraíso. Filho do Construtor dos céus e das estrelas; sou filho d’Aquele cujo nome ninguém sabe qual seja.

— E de que mulher tu nasceste? — A pergunta tinha um tom de ironia.

— De Miriam, esposa de Yoseph, o construtor. Minha mãe neste momento está muito longe daqui, em companhia de minhas irmãs e de meus irmãos. Meu pai morreu trabalhando para Herodes. Caiu de uma parede e quebrou a cabeça nas pedras do solo.

As mulheres se entreolhavam inquietas e demonstravam suas dúvidas tanto no franzir de seus cenhos, quanto no olhar de desconfiança que, agora, lançavam sobre o estranho. Yoseph se pôs de pé e falou.

— Minhas irmãs, sois tão valiosas diante dos olhos de meu Pai quanto os filhos homens, que ele gerou para povoar este mundo. Se os hebreus vos colocam sob condição de inferioridade é porque uma tradição arcaica ainda é mantida de pé pelos que deviam mudar as velhas Leis e pregar a Boa Nova.

— E que Boa Nova é essa de que tu falas? — Perguntou a mulher que se afigurava a mais pobre e desamparada do grupo.

— A que anuncia que Aquele que há de vir já se encontra entre vós. E este, sou eu.

Um pesado silêncio se fez. Alguns passantes, que tinham vindo se dessedentar, ouviam, agora, de braços cruzados sobre os troncos, o estranho jovem de face serena e postura nobre. Entre eles, um hebreu de barbas longas e vestes finas diziam que era um rabi. Provavelmente pregava na sinagoga de Cafarnaum. Ele pigarreou e deu dois passos adiante, afastando os curiosos com mãos firmes.

— Ouvi o que disseste, jovem. E advirto-te de que cometes um crime que te pode levar à lapidação. Como ousas te intitular filho do Altíssimo? Quem és para ousar tanto?

Yehoshua olhou-o sério e sua expressão impressionou muito os presentes. Era uma expressão de autoridade que não admitia refutação. Muitos se sentiram pequenos, insignificantes diante daquele homem forte, alto e imponente.

— O que eu digo, confirmo. Aqui e agora. Vêde — e ele se levantou e andou à volta do insultado rabi — este homem diz ser representante de meu Pai. No entanto, ele nem mesmo pode curar uma unha encravada. Se realmente fosse filho de meu Pai, faria isto e muito mais.

Uma agitação tomou conta dos presentes e alguns hebreus deram alguns passos à frente, colocando-se ao lado do rabi que, com isto, encheu-se de coragem e desafiou, altivo, a que Yehoshua demonstrasse ser quem dizia que era. O jovem filho de Míriam parou e olhou para as mulheres. Então, com voz tonitruante, disse:

— Em nome de meu Pai eu ordeno que estas mulheres, sofridas, humilhadas pelos homens que não sabem respeitá-las não somente como suas irmãs, mas também como suas companheiras, voltem a possuir o frescor da juventude perdida.

Todos os olhos se voltaram para as mulheres, inclusive o olhar carregado de ira do velho rabi. Nada aconteceu com elas. Suas aparências eram as mesmas. Então, todos os olhos se voltaram para buscar o homem altivo, mas curiosamente este havia desaparecido. Saíra dali sem ser notado por ninguém. Houve um momento de perplexidade, que o rabi aproveitou para dizer que o perjuro tinha fugido porque era um covarde e sabia muito bem de sua ignomínia. Mas seria encontrado e seria…

Um grito de espanto e alegria ecoou de uma das mulheres perto do poço. Ela rodopiava e saltitava de alegria. Estava novamente linda. Seus cabelos não eram mais grisalhos. Seus dentes estavam perfeitos e os dois abcessos tinham desaparecido de sua boca. As outras também se olharam e também soltaram exclamações de susto e júbilo. Todas eram jovens e muito bonitas. O frescor da adolescência retornara a todas. Com imensa alegria e chorando, elas se atiraram freneticamente à busca do mago que as havia curado. Em vão.

Yehoshua já estava longe dali.