A TÍTULO DE INTRODUÇÃO

Eis alguém de quem eu não queria ser vizinho nem pago.

Eis alguém de quem eu não queria ser vizinho nem pago.

Um vizinho com quem raramente falo – sou avesso a interação muito íntima com vizinhos – aproximou-se de mim e ficou quieto, observando eu aguar um tamarindeiro que teimei em fazer crescer e dar frutos, apesar do ataque impiedoso de gafanhotos. Os pestes comem até os galhos das folhinhas e matam a árvore. Como este é o período mais terrível do Centro-Oeste, quando o ar seco chega a espantosos 9% de umidade no ar e o frio só é sinal de que nossa pele vai ressecar e rachar de tanto coçar, as árvores se desfolham e a paisagem fica muito feia no cerrado. A matinha do morro que há perto de minha casa fica marrom, feia, dando a impressão de um cemitério de árvores.

Meu vizinho esperou um tempão e como viu que eu nem ao menos me dignava a lhe dirigir um olhar, falou.

— Ela é um contraste vivo com a paisagem desta pracinha… Aliás, todas as árvores que o senhor plantou, as jaqueiras, os abacateiros e a mangueira, sempre estão vivas e com folhas verdinhas, apesar deste tempo de morte para a maioria das plantas. Parece que sua atenção e seu carinho fazem bem a essas plantas… O senhor acredita que elas sentem o amor que alguém lhes dedique?

Olhei para sua face. Eu estava de cócoras e ele de pé. É um homem alto, ao menos comparativamente a mim, que meço 1,69 m. Ele tem uma cabeça a mais que eu em altura.

Eis alguém de quem eu gostaria de ser vizinho.

Eis alguém de quem eu gostaria de ser vizinho.

— Creio que sim. Ao menos li muitos artigos que afirmam isto.

Ele permaneceu calado um tempo. Quando me levantei e caminhei de volta para o portão de minha casa ele me acompanhou, mãos nos bolsos da calça e passadas elásticas.

— O senhor pensa na morte? — Perguntou, de chofre. Parei e o olhei com estranheza.

— Desculpe. É que este é um… isto é uma coisa que sempre me deixa inquieto…

— Por que?

— Não sei… Desde minha juventude a morte me inquieta.

— Quantos anos tem?

— Quarenta e dois.

— Não é idade para pensar em morte. Aliás, até onde sei, não há idade para se pensar na única coisa que é absolutamente certo na vida de qualquer ser vivente.

— O senhor pensa nela?

— Não.

— Verdade?

— Nunca tive tempo a perder pensando nisto. Quando vier e do modo como vier, está bem-venda. Chegou? Então, vamos lá.

— E a dor?

— Que dor?

— A da morte. Acho que ela deve doer…

A morte silencia totalmente a Vida...

A morte silencia totalmente a Vida…

— Depende do modo como se vai morrer. Se é a bala e esta se aloja no estômago, dói, dizem os especialistas. Como nunca levei bala na barriga, não sei qual é a dor. Mas em matéria de dor eu já estou acostumado com ela. Na velhice tudo dói. Então, eu me levanto com a dor, passo o dia com a dor e vou dormir com a dor. Já virou minha companhia. Agora, quando é intensa, incomoda. Mas se a morte vem com dor, posso garantir-lhe que esta é rápida. Não deve durar mais de cinco… talvez dez minutos.

— Não sei… Minha mãe morreu de câncer e sofreu dois anos. Horrível os gritos de dor que ela soltava…

— Bom, ninguém escolhe como vai morrer. Assim, não creio que você deva ficar pensando se vai morrer igual como sua mãe. Pode ser que você sofra uma batida violenta na estrada e, achatado nas ferragens, em cinco minutos se vai desta para melhor. Cinco minutos não é grande coisa… Não é mesmo?

— Seja qual seja a forma da morte que eu venha a ter, sempre tenho medo de morrer…

— Então, repense esta sua preocupação mórbida com base no seguinte raciocínio: por que perco tempo precioso pensando no inevitável? Quanta coisa boa eu podia  fazer em vez de perder tempo pensando no que é indecifrável. E vá em frente.

— Não se pode afastar um pensamento desses assim, com um estalar de dedos.

Quem não pratica boas ações e deixa pontas soltas, sempre tem uma expressão como esta: de medo e preocupação. Não vale a pena.

Quem não pratica boas ações e deixa pontas soltas, sempre tem uma expressão como esta: de medo e preocupação. Não vale a pena.

— Não. Mas pode-se sepultá-lo bem fundo em nossa mente, empregando nosso corpo em atividades produtivas e relaxantes. Por exemplo: eu. Eu nunca perdi tempo pensando no inevitável. A morte virá. Ponto final. Até lá, o que devo fazer para ganhar o máximo possível em cada hora de meu dia? Bom, plantar árvores e cuidar delas é uma atividade gratificante. É tempo que não se desperdiça. Elas crescem e nós vemos isto e acompanhamos isto. E passamos a gostar disto. Há quem escolha um cão. Há quem pegue uma barriga e passe a cuidar de um filho. Eu tive cinco. Cuidei efetivamente de dois. Estão aí, grudados em meu saco. Aconteça o que acontecer, eles não desgrudam de mim. Bom. É companhia e não é chata. Até que me divertem. Às vezes me dão preocupações, mas isto é bom. Não tenho tempo para perder pensando na morte. Sei que com minha idade ela está perto. Bem mais perto do que outros gostariam. Eu não ligo. quando chegar, chegou. Sabe, meu amigo, você deve ter passado muito de sua vida se deixando levar por ela. Isto só é bonito em samba. Na realidade, você é que tem a obrigação de ditar os caminhos de sua vida. Eu sempre despertei já a 100km/h e me deitei a 60km/h. Durante o dia eu chegava às vezes até a 300km/h. Nesta velocidade não se tem muito tempo a perder com devaneios e tolices. Se este tem sido seu caso, mude rapidamente seu estilo de vida. Trabalhe. Seja no que seja, faça algo que preste e lhe satisfaça. Cuidar de plantas, árvores de grande porte, é meu prazer. Ver filmes históricos, sobre as intrigas palacianas entre França e Inglaterra; ou ver filmes sobre o velho Egito e seus mistérios; ou sobre a velha China e Kublai-khan. Tudo isto me atrai e me distrai. Escrever também é meu passa-tempo predileto. Mas eu sou misantropo. Desde que me entendo por gente. Não gosto de pessoas me aporrinhando a paciência. Gosto de ficar sozinho e de pensar sozinho e de agir quando desejo, sem dar explicações a ninguém. Descubra como você gosta de estar no mundo. Parta do princípio de que a morte vai chegar apenas amanhã. Hoje, o dia é seu. E siga fazendo assim até quando ela realmente chegar. E quando chegar, receba-a de braços abertos. Afinal, ela é uma visita indispensável e única. Não acontece duas vezes.

Meu vizinho coçou a cabeça, pigarreou, acenou que “sim” e se afastou lentamente sem tecer comentários. Não sei se gostou ou não do que ouviu.

AGORA, AO QUE NÃO LHE INTERESSA.

Eu sorrindo

“Bom, cá está o chato outra vez”.

Vamos começar a falar, ou melhor, a estudar a classe gramatical mais importante de todas elas em qualquer língua: verbo. Quem não conhece os verbos de seu idioma não sabe nem mesmo pensar. Então, vamos ao que não lhe interessa.

O que é verbo? A resposta simples é: verbo é toda palavra que indica ação ou resultado de uma ação. Já se vê que o verbo implica sempre uma ação expressa ou suposta. Ex.: eu fiz esta casinha de cachorro. Eu imaginava como seria uma casinha de cachorro. Na primeira oração, eu executei a obra; na segunda, eu pensei em como seria fazer a obra. No primeiro exemplo, meu corpo se movimentou na terceira dimensão ou na dimensão tempo-espaço. No segundo exemplo, minha Mente é que se movimentou num universo imponderável – o Pensamento.

O verbo está em quase todas as construções oracionais que criamos. Então, que tal saber um pouco sobre ele? Afinal, gente, falar bonito não tem de ser apanágio apenas dos que cursam universidades. Mesmo tendo somente o primeiro grau, se você se dedicou com afinco ao estudo da Gramática certamente não fará feio, como fazem mais de dois milhões de brasileiros no FACE. Se quer dar gargalhadas da ignorância gramatical dos nossos atuais conterrâneos, leia as besteiras e vejam as cacetadas que dão em nosso idioma. É triste…

  Mas vamos lá. Todos sabemos que a toda causa corresponde uma ação, não é? Isto é uma Lei da Física. Pois bem, também é uma Lei da Gramática. Exemplo: tomemos o objeto lápis. Antes, nós o tínhamos visto sem ponta. Agora, nós o vemos apontado. Então, alguém agiu e fez a ponta do lápis. Tomemos uma garrafa de vidro. Antes, nós a tínhamos visto inteira. Agora, vemos a garrafa quebrada. Então, alguém a quebrou. Em ambas as situações, a causa foi Alguém e as ações foram apontar quebrar. O  alguém do primeiro exemplo só pode ter sido uma pessoa. Mas o alguém do segundo exemplo pode ter sido algo imaterial, como o vento, por exemplo. Podia ter sido um tremor de terra, também. Seja como seja, alguma coisa fez acontecer as transformações que nós observamos. 

Aquele que executa a ação do verbo é o sujeito verbal. Há três formas de nós identificarmos este sujeito e estas formas, em nosso idioma, são: EU, TU, ELE ou ELAHá variações para estes três sujeitos da ação verbal, como Vossa Senhoria, Vossa Mercê, Vossa Excelência etc…, mas todas estas formas pronominais dizem respeito à terceira pessoa verbal – ele ou ela. Note que o tratamento Vossa Mercê, muito usado nos idos de Dom Pedro I, II etc…, foi-se corrompendo com o linguajar popular e sofreu as transformações: Vossa Mercê → Vos’micê →Vancê ⇒ Você. E esta forma de tratamento, você, está sumindo. Em Minas Gerais já se diz apenas Cê. Assim: Cê pensa que fiz isso? Foi de formas evolutivas como esta que o Português derivou do Latim Vulgar. Antigamente, no meu tempo, no Curso Ginasial éramos obrigados a estudar a GRAMÁTICA EVOLUTIVA DA LÍNGUA PORTUGUESA. Puxa, como era bom! A gente descobria a raiz de muitas palavras de nosso idioma. Por exemplo: Cavalo. Este vocábulo não existia no Latim Clássico. Nele, havia apenas o vucábulo Equus para designar o animal. Mas nas colônias latinas o Latim Clássico se corrompeu e nele nasceu o termo Cabalus. Este Cabalus evoluiu para cavalo. Já o clássico equus quase em nada mudou, pois veio a dar o termo égua, que se adotou como o feminino para cavalo. Legal, não? Pena que hoje nem mais se vendam gramáticas evolutivas de nosso idioma.

O executor da ação verbal é chamado sujeito ou agente. Tudo bem até aqui? Ótimo.

Quando alguém diz: João construiu este muro” esse ‘alguém’ atribui a ação de construir a um sujeito, ao qual denomina de João. 

Vamos dar uma paradinha para observar atentamente a oração acima. Veja que há duas construções belíssimas, mas já não mais notadas pelos estudantes “modernos”. A primeira construção é o emprego do demonstrativo esse. Os pronomes demonstrativos têm funções muito claras, na Gramática. Quando digo este, esta, faço referência a algo que está ao alcance de minha mão. Quando digo esse, essa, isso, o algo a que me refiro está distante do alcance de minha mão, mas está ao alcance de sua mão. Quando digo aquele, aquela, aquilo indico algo que está longe do alcance de nossas mãos, sua e minha. Então, no exemplo acima, o demonstrativo esse não se refere a João nem a muro, mas remete o leitor ao termo “alguém” que funciona como SUJEITO do verbo DIZER. A outra construção é o emprego do verbo CONSTRUIR na terceira pessoa do tempo presente. Hoje, tem-se a tendência de se substituir este tempo verbal pelo composto está atribuindo, o que não é errado, mas é deselegante. Em nosso idioma deve-se SEMPRE evitar o emprego das construções gerundiais. 

Vá lá, você tem de concordar comigo que nosso idioma é lindo e não é difícil. Mas como estou longo demais, fico por aqui.

Por enquanto.