Ele começara e já não mais tinha como ser parado.

Ele começara e já não mais tinha como ser parado.

O rebuliço causado em Cafarnaum pelo milagre coletivo que o jovem do poço havia realizado durou três dias. Após isto, a notícia esfriou. As pessoas que tinham assistido a tudo, na maioria, eram viajores que transitavam pela cidade em demanda de outros destinos, e as mulheres logo foram silenciadas por seus maridos ciumentos, os quais não receberam de bom grado o rejuvenescimento de suas esposas enquanto eles continuavam estragados e envelhecidos. O ciúme e o zelo pela sua posse exacerbou-se entre alguns, a ponto de as companheiras terem sido proibidas de comentar qualquer coisa a respeito do milagre. Agora, a quase totalidade das que tinham sido privilegiadas pela cura não saía de casa e os raros curiosos que tentavam aproximação, se não fossem parentes, eram corridos a pauladas. E os parentes estavam prevenidos para não tocarem no assunto sob pena de apanharem e serem corridos da casa.  No entanto, na cidade havia muita expectativa e muita curiosidade a  respeito do jovem filho do construtor Yoseph. Quem soube da filiação de Yehoshua lembrou-se dele e de seu pai. Embora recordassem de um rapaz calmo, sempre alegre e participativo, não acreditavam que ele tivesse adquiro poderes sobrenaturais nem, muito menos, que realmente fosse o enviado de Yeveh para a libertação de Israel. Tinha de ser alguém militar, conhecedor das artes da guerra e disposto a convencer o povo hebreu a se alistar para a batalha. Ela seria naturalmente sangrenta e com toda a certeza, se não contasse com a ajuda do Todo Poderoso Yaveh, o resultado da refrega seria desastrosa. Roma era uma potência incalculavelmente poderosa. Seus exércitos contavam-se aos milhares de milhares. E eram de homens afeitos a combates, muito bem treinados e sempre mantidos no treinamento ininterrupto. Não se vencia um legionário facilmente. Mesmo os poderosos celtas e os aguerridos germanos, sírios, persas, egípcios e outros povos não davam conta de ganhar uma batalha contra uma centúria romana, ainda que com a vantagem de dez homens contra um. O enviado de Yeveh tinha de ser alguém especial, diferente. Ninguém sabia dizer que tipo de diferença ele deveria ter, mas todos esperavam um ser amedrontador, fisicamente poderoso como o mitológico Sansão.

Yehoshua saiu de Cafarnaum e se dirigiu para Nazaré, costeando o mar. Chegou à vila sem encontrar percalços e foi direto para a casa onde havia morado com sua família antes de partir para a Caxemira. Ela estava bem cuidada, mas vazia quando chegou. Entrou, lavou-se e esperou a chegada de quem tomava conta da moradia sentado diante da casa, sob uma frondosa árvore cuja sombra fresca era muito boa. Não demorou muito e o rabi Ezequiel chegou. Vinha apressado, pois tinha tido conhecimento de que o dono daquela casa havia retornado, depois de um longo tempo desaparecido. Os dois se abraçaram carinhosamente, o rabi espelhando felicidade pelo retorno do seu amigo.

Ezequiel tinha muita preocupação com o filho de seu grande amigo, Yoseph, o construtor.

Ezequiel tinha muita preocupação com o filho de seu grande amigo, Yoseph, o construtor.

Ezequiel informou a Yehoshua que havia providenciado uma mulher, sua nora, para cuidar da casa de Míriam até que todos regressassem. Yehoshua agradeceu profundamente tocado pelo cuidado daquele homem para com sua família. E lhe contou o que lhe era possível contar, sobre por onde tinha andado e aonde havia deixado mãe, irmã, irmãos e esposa. Então, quando a efusividade do encontro esfriou e a nora de Ezequiel chegou com suas duas filhas para fazer a limpeza semanal na casa de Yehoshua, os homens se sentaram para conversar. O Mestre havia notado os olhares de profunda admiração e ansiedade que as mulheres apresentavam. Sentia que as três desejavam falar-lhe, mas absteve-se de lhes dar mais espaço e se sujeitou a seguir os preceitos do povo: as mulheres só podiam-se manifestar quando os homens lhes dessem espaço. E este não havia ali, naquele momento.

— Diz-me, Yehoshua, é verdade o que se conta sobre tu teres feito um milagre em mulheres, quando estavas em Cafarnaum? A boataria se espalhou como fogo em palha e isto tem repercutido em nossas sinagogas, aqui e em Cafarnaum. Sabes que o boato terminará por chegar a Jerusalém e isto é perigoso. Parece que tu andas apregoando por aí que és o Filho de Deus…

 E eu o sou — foi a resposta desconcertante dita com voz firme e olhar perscrutador fixo na face do espantado fariseu. Ezequiel franziu o sobrecenho, pigarreou e desviou o olhar da face de seu amigo. Então, tomando-lhe a mão direita entre as suas, falou.

— Eu nunca te entendi bem, meu jovem. Tenho sessenta e cinco anos e gozo de boa saúde. Tenho, portanto, boa memória e até onde me recordo, sempre foste um menino comum, como qualquer outro. Trabalhavas e ajudavas teu pai como todo bom filho faz entre nosso povo. Não tinhas nada que predissesse que serias O Messias. Então, não enveredes por esta senda porque ela te levará fatalmente a um término nada agradável de tua vida…

— Eu o sei, Ezequiel, eu o sei bem. Mas é necessário que assim seja — Disse Yehoshua, desconcertando de vez seu amigo. — Quanto aos milagres a que tu te referes, sim, é verdade que eu os realizei. Era preciso.

— Era preciso…? — E a testa de Ezequiel se franziu, expressando sua incompreensão diante do que ouvia.

— Sim. Chegou o tempo de eu me revelar.

Fez-se silêncio. Agora, o rabi mirava com preocupação e censura o belo rosto másculo do homem que, naquele momento, se tornara muito enigmático para si.

— Ezequiel, os hebreus são um povo de tremenda resistência mental e física. Mais ainda: são um povo que preserva sua História e sua Cultura, embora, por orgulho e inveja, tenham-se apropriado da História de outros povos e com ela, tecido contos que não condizem com a realidade que viveram. Ainda assim, são merecedores da atenção de Meu Pai e se aqui nasci tive um propósito. E o tenho ainda. E o terei até meu final no meio dos homens…

— Tua fala me confunde — cortou o rabi, com o senho franzido. — Aonde queres chegar com tudo isto? A que Pai tu te referes?

— Àquele que é tanto meu quanto teu e de todos os seres viventes. Ele criou o céu e a  terra e tudo o que está acima e abaixo do firmamento. Ele permite que os hebreus vivam sua História, ainda que este povo, como já disse, seja pouco honesto no que diz respeito à apropriação da vida de outros povos para si.

— Tu nos insulta e, no entanto, tu és um de nós — e a voz do rabi, agora, deixava transparecer raiva. Uma raiva contida, mas presente.

— Não. Tu és quem me insulta, Ezequiel. Então, queres negar o que eu tenho dito? Não é verdade que nosso Pai Celestial é o Supremo Criador dos céus e da Terra? Não é verdade que foi Ele quem criou o primeiro homem e lhe soprou nas narinas a Vida? Sua Vida Imortal? Não é Seu sopro o nosso Espírito, meu e teu? Não é verdade que Ele nos fez a todos nós irmãos uns dos outros, visto que somos todos seus filhos? Ou, por acaso, os livros sagrados pelos quais tu e teus iguais pautam as vidas, contêm mentiras? Não vais negar que pensas, como todos os demais rabis, que só porque te aparamentas com roupas que te diferenciam dos demais homens és diferente deles e maior merecedor dos favores do Altíssimo. No entanto, despidos, todos somos iguais. O que verdadeiramente nos diferencia uns dos outros, meu irmão, são nossos sentimentos, nossos pensamentos, nossas palavras e nossas ações. 

O rabi permaneceu calado, testa franzida e olhando, agora, perscrutadoramente a face do homem estranho que se revelava de modo tão chocante diante de si.

— Tu tens a língua afiada, Yehoshua. Consegues falar de modo a calar teus opositores e eu te parabenizo por isto. No entanto, palavras são apenas palavras. O que vale mesmo são os ritos sagrados e estes, tu estás insultando. Mesmo sendo amigo de tua família e de ti, não poderei defender-te se o Templo decidir que tu mereces lapidação por tua língua afiada.

Yehoshua olhou sério por um longo tempo nos olhos de seu amigo. Sim, ele estava convicto do que diz. Era cego de Espírito. Então, com um suspiro, murmurou:

— Eu entendo que tu és escravo da Mentira e que ainda não tens força para te libertares dela. No entanto, se te posso aconselhar e se estás disposto a me ouvir, é melhor que em lugar de subires ao parlatório para dar prosseguimento ao véu da ilusão que antolha teus irmãos, silencia tua língua, joga fora esses paramentos e te retires para um lugar de meditação e recolhimento. Busca o Pai que vive em ti e quando Ele se revelar, verás quão distante estarás deste mundo de ilusões. Crê em mim, Ezequiel, quando te assevero que só no silêncio de tua mente poderás ouvir a Voz do Silêncio, que é a mesma da Sabedoria.

Ezequiel permaneceu em silêncio por um longo tempo, olhar perdido em algum lugar no espaço entre seu jovem amigo e ele mesmo. Então, com um profundo suspiro retornou àquele momento e seu olhar voltou a focar o exterior. Mirou a face de Yehoshua e, meneando a cabeça desanimadamente, pôs-se de pé.

— Falas com língua afiada, Yehoshua. Até mesmo com enorme sabedoria. Mas mesmo que eu quisesse, não poderia jogar fora minha vida assim, de um momento para outro. Teria de dar muitas explicações ao Templo e a seus vigilantes. Não, não posso me lançar numa aventura tão perigosa. Prefiro continuar como estou.

— Que pena… — disse Yehoshua com olhar triste. — Tua caminhada pelo vale de lágrimas será longa, meu amigo. Desejo-te muita fé e muita resistência, porque esse vale é triste, sofrido, escuro e cheio de armadilhas realmente mortais.

Ezequiel levantou-se e perguntou:

— Ainda pretendes te ausentar por longo tempo?

— Não. Permanecerei por aqui até meu fim. E durante este tempo, estarei sempre retornando a esta vila.

Ezequiel hesitou um pouco, como se desejasse perguntar alguma coisa, mas dando de ombros, assentiu com um leve aceno de cabeça e se retirou. Yehoshua via, em sua aura, que ele ia confuso e contrariado. Também ele ficou triste. Seu amigo continuava cego, surdo e mudo. Como lamentaria, depois, ter estado tão próximo d’Ele e não lhe ter dado ouvidos.

Naquela tarde, na hora nona (15 h no nosso horário) o Rei dos Reis deu entrada no local destinado aos rabis, no pequeno templo de Nazaré. Lavou mãos, pés e rosto e encaminhou-se para o parlatório. Silencioso, aguardou o término da pregação feita por um rabino idoso, cabelos brancos, pele enrugada e muito sectário. Ele dizia, inflamado:

— Os ímpios serão punidos com rigor pelo Santo dos Santos; o pecador não terá perdão, se não pagar os dízimos devidos ao templo, pois é ordenado por nossos livros que tal óbulo seja entregue por todos, não se eximindo desta obrigação nem o mercador, nem o camponês, nem o pastor nem o caravaneiro. Todos devem o dízimo e não será aceito que alguém use de desculpas para não pagar o que ao Santo dos Santos é devido. O Deus de Israel é terrível e devemos temê-lo acima de tudo, pois só nosso temor purifica nossa iniqüidade…

Quando Yehoshua subia ao parlatório, a sinagoga se enchia de admiradores à espera de milagres.

Quando Yehoshua subia ao parlatório, a sinagoga se enchia de admiradores e os rabis se enchiam de temor de suas palavras.

Yehoshua escutava de olhos fechados e sem qualquer expressão na face. Toda a pregação do idoso rabi era no sentido de impor a cobrança do dízimo através das ameaças que o Santo dos Santos faria cair sobre a vida dos infelizes que se recusasse a contribuir com o Templo. Quando, finalmente, ele deu por encerrada a sua peroração, Yehoshua subiu ao parlatório. Não desenrolou o papiro de nenhum dos livros. Em silêncio observou a assistência, a maioria composta de gente humilde, contrita, coartada pelo medo ao Deus Terrível de Israel. Esperou um longo tempo até que todas as faces estivessem voltadas para ele, expectantes. Então, de cor, citou Job. E sua voz altissonante fez sustar o passo do idoso rabi, que se voltou para o olhar com atenção. Ele já se retirava do templo certo de que havia cumprido com sua obrigação, mas o som daquela voz tonitruante o tocou. Parou e ficou escutando atentamente a citação que também conhecia.

Ao Todo-Poderoso os tempos não são ocultos; mas os que O conhecem, a Ele, ignoram os seus dias. Uns passaram além dos limites e roubaram rebanhos e os apascentaram. Levaram o jumento dos pupilos, e tomaram em penhor o boi da viúva. Transtornaram o caminho dos pobres e oprimiram juntamente os mansos da terra. Outros, como asnos monteses no deserto, saem à sua obra, madrugando para roubar, aprontam o pão para seus filhos. Ceifam o campo que não é seu, e vindimam a vinha daquele a quem oprimiram com violência. Deixaram nus aos homens; tirando vestidos aos que não têm com que se cobrir no frio. A quem as chuvas dos montes repassam, e que não tendo com que se cubram, se abraçam com os rochedos. Fizeram violência roubando aos pupilos e ao povo pobre despojaram; aos nus e que iam sem vestido; e aos famintos tiraram as espigas. Eles repousam ao meio-dia entre os montões daqueles daqueles que, depois de terem pisado a uva nos lagares, padecem de sede. Fizeram gemer os homens nas cidades; e a alma dos feridos gritou, e o Altíssimo não deixa tais cousas sem castigo. O homicida levanta-se ao amanhecer; mata o mendigo e o pobre; e de noite será como ladrão. O olho do adúltero observa a escuridade dizendo: “Ninguém me verá”. E cobrirá seu rosto. E arrombam nas trevas as casas, como de dia havia ajustado, e não adverte que é dia. E eis que de súbito aparece a aurora, mas eles crêem que é a Sombra da Morte. E fugindo à luz andam pelas trevas como pela luz”.

Todos os olhos estavam fixados no jovem altivo, ombros largos e de bela face. Era raro que um rabi falasse do livro de Job. E as citações, ditas quase pausadamente para que as palavras chegassem bem claras aos ouvidos da assistência, mexeram com aquelas mentes tacanhas e temerosas. Havia alguma coisa nelas que contradiziam e até afrontavam o rabi idoso que acabara de fazer sua pregação. Algo que ia contra a cobrança ácida e ameaçadora que ele havia feito. Os fiéis não eram capazes de apreender o que realmente perturbava suas mentes, mas sentiam a perturbação e isto os fazia aguçar os ouvidos para a interpretação que o rabi faria do que tinha lido ou citado, como era o caso agora.

Amados irmãos — trovejou Yehoshua — Job falou com a boca da Verdade. Sim, ao nosso Pai Celeste os tempos não são ocultos. Não os tempos que podeis contar através dos dias que se sucedem uns aos outros. Mas os tempos que vós marcais com o deixar correr vossas palavas enganosas, traiçoeiras, que picam não o corpo, mas o Espírito. Por isto é que Job diz que aqueles que conhecem O Pai ignoram os dias comuns, onde a luz do Sol brilha para todos, bons e maus, salvos e condenados. Aos que conhecem o Pai a Luz que brilha não se apaga nunca, portanto, para estes, não há escuridão. E estes são os Verdadeiros, os que não enganam, não mentem, não roubam, não vendem mentiras para colher vantagens. Estes, passaram além dos limites da tolerância divina e agiram de conformidade com o Mal que abrigavam em seus corações. Muitos ainda isto fazem hoje. Roubaram ou tentam roubar os rebanhos do Altíssimo servindo-se de palavras enganosas; e transformaram os rebanhos de nosso Pai em rebanhos seus, onde cada ovelha é tosquiada segundo a gula e a necessidade de posses materiais e gozos passageiros. E entre estes estão rabis que mentem e lançam mão de ameaças estúpidas para tomar das ovelhas do Pai o pouco de lã que ainda possuem para se aquecer quando seja chegado o tempo do inverno a lhes branquear os cabelos e lhes minar as forças. Tais líderes levam o jumento, que é a juventude do homem, cujo trabalho dá alimento ao filho do Pai Celeste; E não saciados com tomar do jovem a sua força e a sua juventude, também tomam da viúva, da alma que fez por merecer uma velhice em paz, a paciência e o repouso que são seu boi e o qual obteve por seus dias de produtividade. Não há piedade no coração dos que transtornam o caminho dos pobres e das viúvas, e oprimem os mansos da Terra. Muitos destes maus filhos de nosso Pai Celestial saem pela noite da ignorância de seus irmãos para roubá-los do que de melhor o homem pode ter na vida: sua Fé; sua Crença. E agem à sombra da mentira bem urdida e ocultos pela falsa capa do Conhecimento daquilo que absolutamente desconhecem: a Verdade. Sim, são como asnos do deserto que, aqui, é o desamor. Tais homens ceifam o campo que não é seu e este campo é o sagrado campo da Fé de seus irmãos. Eles o exploram em proveito próprio para alimentar seus filhos com o pão da Mentira e das palavras falsas, em que transformam a Verdade que deveria alimentar a alegria e a Fé verdadeira no Pai Celestial. Eles vindimam as vinhas que não são suas e estas vinhas são a inocência e a mansidão dos que são como crianças que tudo aceitam porque acreditam sem separar o joio do trigo. Deixam nus aos crentes e lhes roubam a capacidade de acreditar, retirando-lhes, assim, as roupas da coragem pela Fé Verdadeira. E eis que por onde tais ladrões passam resta somente a descrença e a revolta. Mas estes que, agora, se vêem obrigados a se abraçar com os rochedos da frustração, do desespero e da descrença para se proteger da chuva dos milhares de olhos que choram a traição dos que enganam e roubam e tomam o que não lhes pertence, no amanhã de um novo dia serão premiados e reconfortados de tudo o que lhes foi tomado. Mas ai dos que roubaram dos pobres e os deixaram nus e famintos, pois estes experimentarão fome mil vezes mais atroz e mil vezes mais duradoura, pois o que a um irmão se faz ter-se-á de experimentar da mesma coisa. Se alguém pratica a caridade com um necessitado, na sua vez de precisar do caridoso encontrará dez em vez de um. Os que aos famintos do Altíssimo roubou o alívio da Caridade e do Companheirismo, sentirão mil vezes mais o aguilhão do abandono e do desprezo, pois quem ofende a um Filho de Deus será ofendido por suas próprias ações. Ai dos que retiram a espiga ao faminto e olha seu irmão com o olho do adultério dos bons princípios, pois a estes também será retirado o pão da Verdade e eles amargarão uma fome insaciável por muito e muito tempo sem encontrar quem lhes estenda uma migalha sequer. Seus dias serão um braseiro e para onde olhar não encontrará a água da fraternidade a lhes saciar a sede.  Ai dos que arrombam os Espíritos Inocentes como ladrões que arrombam as casas durante a noite, pois a eles sobrevirá a escuridão da dor sem trégua. E mesmo que a Luz de nosso Pai Celestial brilhe para os puros de coração e inocentes de pecados e mentiras, para eles o que sobrará será sempre a escuridão, por onde perambularão perdidos até o final dos tempos.

Yehoshua silenciou e centenas de cabeças se voltaram para o velho rabi que, boquiaberto, não conseguia apartar seus olhos daquela face avermelhada de justa ira. Murmúrios começaram a surgir entre a assistência e mãos se crispavam demonstrando que seus donos tinham entendido a mensagem de Yehoshua e se voltavam contra o pregador que lhe antecedera. Sem se incomodar com o que poderia acontecer depois de sua pregação, o Rei dos Reis desceu lépido os degraus que levavam ao interior do cômodo reservado aos rabinos e dali partiu célere. Um grande alarido crescia mais e mais, enquanto as pessoas discutiam entre si os dois sermões que tinham acabado de ouvir. Apavorado, o velho rabi se escafedeu o mais depressa que pôde, orando a Yaveh para que o livrasse da fúria do povo e maldizendo o homem que lançara todos contra ele. 

Era a terceira hora da noite (21 h no nosso horário) quando Ezequiel chegou. Encontrou Yoshua sentado diante da casa, entretido em conversa animada com Sephora, a nora do rabi. Junto com eles estavam o filho de Ezequiel e duas outras mulheres. A conversa cessou quando a figura do venerando rabi surgiu caminhando para o grupo. Ele cumprimentou a todos e pediu licença para se sentar. E mal o fez, já foi-se dirigindo com preocupação na voz, a Yehoshua.

— Soube de tua pregação, hoje. Ficaste doido?! Tu colocaste todos os homens contra o rabi Abimael. Ele é muito querido em Jerusalém e podes ter certeza de que irá queixar-se de ti junto a Caifás. Isto não é bom, Yehoshua. Não é bom provocar a ira dos grandes do Templo. Se te posso dar um conselho, segura a língua. Ela pode trazer-te muitas dores e até mesmo a morte.

Yehoshua sorriu descontraído e rebateu.

— Isso a que temes tanto, meu amigo, não existe.

— O que não existe? — Perguntou a Sephora, curiosa e interessada.

— Morte. Na realidade este é um conceito vazio de significado, se consideramos que o Espírito humano é imortal. Foi criado pelo Incriado que é imortal e nada mortal pode vir d’Ele, compreendes?

— Então, o que morre? — Perguntou Yoseph, o filho de Ezequiel.

— Nada. Tudo o que vêdes ao vosso redor, inclusive vosso corpo mesmo, não morre. Apenas sofre transformações. Ele se dissolve, mas sua substância vai de retorno à terra, ao pó, de onde realmente veio. E no pó, toma novos caminhos.

Todos se entreolharam sem entender bem o que Yehohsua queria dizer.

— Deixemos de filosofias superficiais — disse Ezequiel impaciente. — Meu jovem amigo, de quem gosto muito, está provocando o Leão com as mãos vazias. Será comido mais cedo ou mais tarde. Sua língua comprida precisa encontrar freios. Nem tão cedo lhe permitirão pregar de novo na Sinagoga daqui.

— Queres apostar que amanhã mesmo estarei lá e ninguém vai-me impedir a palavra? — E Yehoshua ria divertido, o que contagiou todos os demais, menos o rabi Ezequiel.

A noite avançou até o frio se tornar incômodo, quando, então, todos foram deitar-se…