A Consciência é um Deus que não perdoa...

A Consciência é um Deus que não perdoa…

Fiquei surpreso quando dei de cara com aquela cara negra, de olhos brilhantes numa cabeça redonda sobre ombros largos, fortes e musculosos, parado diante de meu portão esperando para entrar. Abracei meu amigo com alegria, mas ele não me retribuiu o abraço com a mesma euforia. Olhei-o nos olhos e notei uma nuvem de tristeza nublando-lhe a expressão. Em silêncio caminhamos para a escadinha de minha varanda, que ele subiu firme, mas devagar. Parecia trazer sobre os ombros um grande peso. Não perguntei nada. Sabia que ele falaria quando estivesse pronto para isto.

Orozimbo sentou-se no seu toco e pediu seu café amargo. Servi-o e me sentei ao seu lado, numa cadeira de madeira. Ficamos em silêncio, olhando o abacateiro que, com nove meses, já me ultrapassava em altura. Ele cachimbou um tempão, sempre silencioso, olhar perdido algures, numa dimensão que eu não enxergava. Então, com um suspiro profundo bateu sua mão calejada em minha coxa.

— Véi num gosta de perdê amigo, num sabe? E gosta menu ainda de num pudê ajudá…

Calou-se novamente. E novamente esperei. Então, depois de mais cinco ou seis baforadas, curvou-se, bateu o cachimbo na borda da calçada, tornou a enchê-lo e acendeu o fumo oloroso. Voltou-se para mim e perguntou:

Ele nunca anda sem suas guias. É um religioso de grande fé.

Ele nunca anda sem suas guias. É um religioso de grande fé.

— Vancê já perdeu arguém de quem gostava munto?

— Por morte…? Não. Nunca. Quando meus pais morreram eu estava a mais de mil quilômetros deles e já vivíamos separados há tanto tempo que eu nem mais me lembrava de seus rostos. Soube de suas mortes sem nenhuma emoção.

— É, véi sabe disso aí e num istranha. Mas véi num se arreferia a pais, nhor não. Véi se arreferia a amigo quirido…

— Bom, tive dois moradores daqui deste bairro dos quais senti as mortes muito mais do que esperava. Até hoje eu me recordo de seus rostos com carinho e… saudade. Mas nada que me doa muito. Afinal, meu velho, você e eu sabemos que o que chamamos de morte é somente uma passagem de um estado de vida para outro…

Ele pensou um momento e me olhou nos olhos com aquele seu olhar penetrante.

— Sim, a gente sabe disso aí. Mas vancê num vê o qui este véio vê. Véio se arrefere ao local para onde os qui deixam esta vida se vão. Arguns, pôcos, vão pruns lugá munto bunito. Mas são munto poucos, num sabe? A maioria vai pruns lugá ruim… Iscuro, fedorento, nebuloso e de chão escorregadio cum’a ispéce de catarro grudento onde eles afunda os pé até o meio das canela. Neste lugá há sempre uma neblina suja, qui arde nos óio e nas venta da gente. Pr’esse lugá ruim vão a maioria dos qui se danam aqui neste mundo, home. Véi gostaria de levá todos eles, quando ainda vivos aqui, pra vê a morada qu’istão construindo para quando tiverem de parti. Véi aquerdita qui eles num ia mais fazê as bestera qui faz…

Compreendi que meu amigo tinha perdido alguém muito querido e que este alguém tinha-se danado no lado de lá.

— Quem de seus amigos morreu? — Perguntei.

— Amiga. Uma velha amiga, qu’este véi cunheceu quando ela ainda era munto inocente e munto bunitinha… Agora, home, aquela amiga, qui foi grande entre os vivo daqui, tá no lugá ruim e chora desesperada chamando pur este véi. Pede socorro, mas véi num pode fazê nada pur ela…

“A casa de meu Pai tem muitas moradas…” — recitei balançando a cabeça. Eu sempre temi merecer ir para aquela morada… Minha consciência não me acusa de nada, pelo menos até agora, mas vai saber…

— Num se amofine, home. Vancê num corre este perigo. Vancê num feiz nem a décima parte dos erro qui minha amiga feiz. Véi sabe qui vancê, quando errô, num tinha intenção má. E quando tinha, vancê terminava transformando a má intenção numa ação meritóra. Seus erros cum más intenção forum poco, num sabe? Coisa de criança, se comparado com os erro de minha amiga qui, agora, comprende munto tarde o qui véi tentô munto lhe dizê. E o pió, home, é qui como minha falecida amiga, há milhares aqui nesta terra chamada Brasil. Tarveiz mais da metade deste povão… Ir prus templo cristão ou ir bater tambô nos terreiro num sarva ninguém. Tombém num sarva se dizê ATEU. Olorum num s’importa se o cabra crê ou não n’Ele. É inté burrice da grossa, dizê qui Ele num exéste. Há munto cabra qui enche a boca pra dizê esta bestêra. Normamente, home, gente ansim, quando parte desta pro outro lado, fica de queixo caído. Tudo o que ele pensava qui era certo discobre qui era erradim, erradim… E num tem vorta.

— A propósito disto — disse eu — tem uma reportagem na VEJA da semana passada que é no mínimo risível, senão tola. Um homem escreve protestando porque o Brasil é religioso e de seu ponto de vista devia ser laico, totalmente laico…

— E o qui diabo é isso aí?

— Sem religião. Um ateu se gaba de não ser religioso. Gaba-se de não acreditar na existência de Deus. E este homem que cito, parece que pertence a uma irmandade de ateus. Diz-se pertencente a uma minoria que “precisa sair do armário”. Como fizeram, segundo voz geral, os gays, as lésbicas e coisas assim.

— Entonce, que saiam do armário, do baú, de onde estiverem. Pra Olorum, home, num há lugá no Mundo onde um home se isconda d’Ele. Entonce, se o cabra aí tá iscundido num armáro, qui véi acha um lugá isquisito pra arguem se metê, qui saia. Deve ser ruim vivê ansim, né não?

Não expliquei nada. Orozimbo tinha entendido a metáfora ao pé da letra, mas isto não tinha importância no momento.

— Bom, deixando o armário dele de lado, de certa forma seu protesto tem certa razão de ser. O Poder brasileiro tinha a obrigação constitucional de ser laico, ser não religioso. No entanto, com a invasão evangélica das bancadas políticas, agora, até se reza exibicionistamente durante as sessões. E se invoca tanto Deus quanto se recrimina o Diabo. Como se estas duas potestades dessem ouvidos aos falsos profetas…

— Hum — fez Orozimbo dando de ombros para significar que o assunto não lhe interessava. — Home, se os tolos da pulítica pudesse vê o qui véio vê, agaranto que eles ia preferir ser mesmo ateu. Ao menos num fazia o qui faz. Eles teria pesadelo o ano inteiro durante todos os anos de suas vida. Véi agarante. E se vancê qué sabê, entre os que se diz ateu há munta gente qui age de conformidade cuns mandamento de Olorum. E ganham o que eles chama de sarvação. Já entre os qui se diz religioso… quantos vão pru lugá onde minha amiga istá… Vancê nem imagina!

— Na verdade, Orozimbo, não quero mesmo imaginar. Nem mesmo pensar em tal lugar. Sempre que procurei escrutar o outro lado, eu me enrolei. Um monte de pensamentos azucrinadores começaram a me surgir na mente e a me perturbar. Então, decidi que devo viver minha vida seguindo o que me dita minha consciência. A ninguém eu permito interferir com o que quero ou desejo. Se acerto, muito bem. Se erro, perdão pelo erro. Mas é o melhor modo de se viver: consigo mesmo. Claro que não obedecendo a todos os impulsos desejosos, senão a gente fica escravo de um senhor tirano…

— Qui sinhô?

— O Desejo, meu amigo, o Desejo. Para mim o Desejo é o mais perigoso senhor de nosso Ser.

— Ah, lá isto é mermo, eu agaranto. Se os povo da terra subesse disso aí, punha os desejo deles bem debaixo de uma lápide bem pesada. Adispois, deixava sair um a um para analisá o tipo de resurtado que satisfazer ele traz. Tarveiz, se os pulitico fizesse isto, minha amiga num stava onde istá.

— Você gostava muito da moça, não é?

Búzios africanos jogados dentro de um paneiro.

Búzios africanos jogados dentro de um paneiro.

— Tanto quanto gosto de vancê. Tanto quanto gosto de carqué um qui venha falá cum este véi, home. Num sô de disgostá de ninguém, ansim, à-toa. Mermo aqueles qui véi disancô no pé, véi gosta deles, num sabe? Apanharum pra aprendê o caminho da verdade, mas num são ruim, num são má. São apenas errado, num sabe?

Para mexer com ele, eu repliquei.

— É… Mas os Direitos Humanos não aprovam educar na base da pancada, da surra, do puxão de orelha. Menos ainda, no pé do capoeira, meu velho.

— Qui vão pro diabo qui os carregue, arre égua! — Explodiu meu velho amigo. — Véi num cunhece ninhum desses pestes aí, mas se argum se metê a besta a vir dizê cuma é qui véi insina o caminho da verdade, vai apanhá cuma fio de benção, ora se vai! Home, essa gente ou é viado, ou é fresco. Ou, intonce, é argum fresquim polititica, cuma vancê diz, qui se mete onde num é chamado…

— Ih, Orozimbo! — Provoquei. — Você está incorrendo em crime de racismo! Corre o perigo de ir pra cadeia!

— Quem? Veio??? E pru quê? — Ele arregalou os olhos como faz o Galvão, quando quer fazer que o telespectador valorize a besteria que ele fala.

— Bom, você se referiu com menoscabo à minoria mais espinhenta que há por estas terras brasilis…

Orozimbo franziu o cenho e me olhou interrogativamente.

— Qui diabo de históra é essa, home? Pru qui é qui vancê tá falando inrolado pra riba do véi?

— Desculpe, meu velho. Quero dizer que você se referiu com desprezo aos gays e lésbicas. Isto, agora, é crime, sabia?

— Num sabia, num quero sabê e tenho reiva de quem inventô essa frescura, num sabe? Pra mim fresco é fresco e num é home e ponto finá.

— Bom… Lá isto é verdade. Nem homem, nem mulher. Pensando bem, eles estão numa situação nebulosa  que não deve ser nada agradável.

— E num é não — confirmou Orozimbo, voltando a olhar a Atena correndo atrás de qualquer coisa, talvez uma lagartixa, no gramado abaixo de nós. — Véi inté tem dó deles, num sabe, home? Mas são arma qui errarum munto no passado. Vai daí, se danaram nesta vida. Mas cada quá com seu cada quá, né mermo? Eles não vão pr’onde os marvados vão, quando morre, intende? Arguns ganham um lugarzinho nada agradáve, do otro lado, é verdade. Mas é curpa da depravação qui num é só deles, não. Véi já visitô o lugá onde muntas dessas armas véve lá do otro lado. Inté qui num é dos piores, mas num deixa de sê uma prisão. Na verdade, essas armas, home, estão disviada do caminho certo e vão penar para retornar a ele. Mas…

Ele novamente encolheu os ombros e olhou para o céu.

— Tarde. Véi vai oló. Inté a vorta, home. Brigado pelo café e pela cumpanhia. Aliviô a arma deste véio catimbeiro.

Levantou-se, deu-me um abraço – o que nele é raro – e se foi lépido, parecendo aliviado de alguma coisa. Que bom. Não gosto de ver meu amigo agoniado… Aperriado, como ele costuma dizer.