Ele não veio para redimir os pecados dos homens, mas sim para lhes ensinar o Caminho e como andar neles através da Verdade para obter a verdadeira Vida.

Ele não veio para redimir os pecados dos homens, mas sim para lhes ensinar o Caminho e como andar nele através da Verdade para obter a Vida.

Havia doze dias que Yehoshua estava em Nazaré, sempre em silêncio e pouco visto, quando seus discípulos chegaram. Judas não vinha com eles. Yehoshua os recebeu com alegria e a todos beijou na face e a todos pediu notícias sobre o que tinham feito. Ouviu-os em silêncio e sério, mas não recriminou a ninguém. Quando, finalmente, todos silenciaram, o Mestre se voltou para Tomé e lhe ordenou que fosse a Caxemira, ao mosteiro de Hemi, buscar sua família, assim que se cumprisse um rito sagrado que ele pretendia fazer com todos naquele dia. Tomé apenas assentiu com um aceno de cabeça. A viagem de ida e de volta demorava, mas o discípulo não questionou seu Mestre. Este, então, saiu em companhia de todos eles e se afastou para a periferia de Nazaré, para um local arborizado e cheio de córregos de águas cristalinas. Ali, Yehoshua os fez sentar ao seu redor e lhes dirigiu a palavra.

— Eis que meu tempo começa a ser contado a partir de agora — disse, despertando curiosidade e inquietação entre todos. — A partir deste dia darei início à minha pregação oficial, pois que tenho pregado desde há algum tempo, mas o que tenho dito e feito não será lembrado pelas gerações futuras. Até mesmo esconderão muito do que fiz, tudo em função da Ganância, da Mentira e da Usura dos que se dirão pastores em meu nome. Mas a Falsidade de que se servirão e através da qual escravizarão mentes e Almas incultas cairá sobre eles como uma montanha, quando o tempo seja chegado para cada um. Tenho-vos dito e repetido que não sou senão um Filho do Nosso Pai Celestial e que, por isto, não desejo que se faça de mim um Deus, visto que todos o somos como irmãos e há um único Deus, do Qual ninguém sabe o nome senão eu. Contudo, também vos tenho dito que o Pai reside em cada um de vós e não necessitais de templos de pedra para com Ele falar. No entanto, igrejas serão erguidas em meu nome e nelas serei adorado como o Salvador do Mundo. Sim, vim para mostrar aos homens o verdadeiro Caminho, a prática da Verdade, mas eles não me darão ouvidos. Não vim para remir os pecados de ninguém, pois esta não é nem nunca será minha missão. Além disto, o pecado sempre é cometido pelo homem com a plena consciência de que o faz, portanto, é uma afronta ao Pai que reside em cada um e não merece remissão por Seu Filho, senão pelo próprio pecador. Para isto a ele foi dada a Consciência e ela lhe cobrará o mal-feito. Farei milagres verdadeiros aos olhos deste tempo, mas meus milagres serão replicados por milhares de vezes e não serão tidos por tal, pelos homens no futuro. Eles serão relativizados e vistos apenas como um feito da Ciência humana, nada mais. Rebelar-se-ão as gentes contra mim, mas não permitirei que minha estada aqui, entre vós e eles, seja esquecida e apagada da História da Humanidade na Terra. Pois no devido tempo, cobrarei, dos que me negarão, seus deveres não cumpridos e suas palavras enganosas. E ai deles que tempo desperdiçaram olhando para o barro do solo e, não, para as estrelas do firmamento. Compreenderão tarde demais que desperdiçaram o pouco tempo que lhes foi dado, em ganâncias por riquezas ilusórias. Os homens não aprenderão que o que aqui encontraram quando chegaram, aqui deixarão quando partirem. E que todo o poder que conseguirem entre os seus semelhantes é somente fumaça sutil perante o verdadeiro Poder que eu, entre os da atualidade, demonstrarei e não será compreendido.

As palavras mais importantes que Ele pronunciou foram desaparecidas de Sua História. Pobre humanidade...

As palavras mais importantes que Ele pronunciou foram desaparecidas de Sua História. Pobre humanidade…

Não farei nada que fira a Criação e a Vontade de Meu Pai, pois que sou filho obediente, mas o que vou fazer causará deslumbramento nos homens. Entretanto, o que permanecerá através dos tempos serão minhas palavras. Não todas, mas as que não permitirei que apaguem da História do Homem. Vós sois simples mortais. Fostes assim até hoje. Mas quando nos levantarmos daqui, eis que não mais sereis o que sempre tendes sido. Vossa saúde vos será devolvida e sereis perfeitos até vossa partida deste mundo de ingratos. E eu vos prodigalizarei com uma memória excepcional e podereis ler e interpretar as escrituras tão bem quanto eu mesmo o faço. E aqui e agora farei descer a Luz da Verdade sobre vossas cabeças e a tereis como o Espírito Santo. Vossas mentes se abrirão e compreendereis o que os homens destes tempos não podem compreender. Entretanto, ainda assim um de vós tenderá a alterar meu desejo e buscará preservar minha memória como a de um Deus que vos veio visitar. Permitirei que assim faça para que a força da fé infantil dos homens se firme através do temor, embora isto me entristeça, pois este mesmo temor que agora é necessário para que se plante a fé, será, no futuro, um instrumento de dor e sofrimento e tortura e morte. Muitos virão a mim confusos e desorientados, mas eu os confortarei e os redimirei para que se tornem verdadeiramente ovelhas de meu rebanho. No entanto, ai dos que os fizerem sofrer em meu nome, pois para estes as dores serão multiplicadas por mil.

O pior negócio que pode acontecer a alguém é ser entronado como um "anjo salvador".

Os Arcanjos não possuíam asas, mas a luz que emitiam de seus corpos sutis, a partir do “triângulo prânico” nas suas costas, dava esta impressão aos que tinham a capacidade de os ver.

Enquanto Yehoshua falava, invisíveis, onze entidades brilhantes se postavam atrás de cada um dos homens ali reunidos. Das mãos luminosas dos seres brilhantes fluíam luzes coloridas que sumiam dentro dos crânios daqueles homens simplórios, causando-lhes uma leve tontura, o que os forçava a tentar acurar a visão e a audição para melhor ouvir o que lhes era dito. Sentiam-se como embriagados e por mais que se esforçassem, não lhes parecia que compreendiam o que o Mestre lhes falava. No entanto, no dia seguinte, depois de uma noite de sono, tudo lhes estaria claro como água e muito vívido em suas memórias. Nunca, em vida terrena, compreenderiam o que lhes tinha acontecido ali, naquele momento sagrado. Nunca, em livro algum ficou registrado o que ali acontecera. 

Yehoshua parou de falar e fechou os olhos, agradecendo em silêncio a ajuda que tinha recebido das entidades luminosas. Elas se tornaram cada vez mais diáfanas e desapareceram, deixando no ar um levíssimo perfume de sândalo.

— Vamos, queridos amigos. Eis que meu nome já voa para o covil dos que em pouco me moverão guerra sem tréguas. Vamos, pois, dar-lhes mais forças para pelejar contra mim. Pobres almas perdidas, que escurecem as consciências espirituais de seus donos. Elas os premiarão com dores e sofrimentos perfeitamente evitáveis, se espiritualmente eles possuíssem forças para enxergar além do Mâyâ que os domina. Vamos!

Era um sábado, o dia sagrado dos hebreus. A sinagoga estava cheia e ao menos três rabis haviam pregado ali. O última estava-se retirando quando Yehoshua e seu grupo de seguidores entraram no templo simples. O Mestre se dirigiu diretamente para o local destinado aos pregadores e ali estendeu a mão ao rabi encarregado de escolher o tema a ser apresentado à multidão de fiéis. Recebeu o rolo referente ao profeta Isaías, sobre o qual outros rabis já haviam discorrido. Yehoshua desenrolou o livro e leu em silêncio: “O Espirito do Senhor repousou sobre mim, pelo que ele me consagrou com a sua unção, e enviou-me a pregar o evangelho aos pobres, a sarar aos quebrantados de coração. A anunciar aos cativos redenção e aos cegos a vista; a pôr em liberdade os quebrantados para seu resgate, a publicar o ano favorável do Senhor, e o dia da retribuição”.

Yehoshua enrolou o livro e passeou os olhos sobre a multidão expectante. Todos queriam ouvir o que ele tinha a dizer sobre aquele trecho de Isaías, já debatido e explicado pelos três rabinos que se lhe tinham precedido. Muitos ali o reconheciam como o milagreiro que fizera um milagre coletivo com as mulheres em Cafarnaum. Uns, de ouvir. Outros, de terem presenciado o acontecimento fantástico. Mas nenhum deles teve ânimo de falar qualquer coisa, pois a figura do homem que os olhava lá do alto do parlatório os inibia e amedrontava. Yehoshua apoiou as mãos na mesa diante de si e passeou o olhar sobre as faces expectantes. Podia ouvir cada mente; podia escutar cada pensamento. Podia sentir cada expectativa.

Hoje se cumpriu esta escritura nos vossos ouvidos — e sua voz fez tremer de susto alguns dos que estavam muito expectantes pelo que diria sobre o trecho de Isaías. Alguns, mais velhos, se entreolharam espantados e murmurando entre si: “Não é esse que nos fala o filho de Yoseph, o construtor que morreu trabalhando para Herodes? O que diz, agora? Que é ele aquele que foi ungido pelo Espírito Santo de Yaveh, bendito seja seu nome?” O murmúrio de incredulidade crescia na medida em que as palavras de Yehoshua iam-se fazendo compreendidas naquelas mentes simplórias. Então, um homem de cabelos negros, barbas desgrenhadas e corpo musculoso, pôs-se de pé e falou.

— Por acaso, tu não és o filho do construtor Yoseph? Não és aquele que tens andado por aí dizendo coisas insultuosas e fazendo milagres por forças demoníacas?

O olhar gelado de Yehoshua caiu sobre o homem como se fosse feito de aço acerado e este se arrependeu imediatamente de ter dito o que dissera. Lentamente sentou-se, engolindo em seco. E a voz estentórea do Mestre fez encolher os que tinham maus pensamentos a seu respeito e selou seus lábios maliciosos.

Sem dúvida que me aplicareis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Todas aquelas grandes coisas que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, faze-as também aqui, na tua pátria. Mas em verdade em verdade vos digo que nenhum profeta é bem aceito em sua pátria. E também vos digo para vos recordardes que está escrito que muitas viúvas havia em Israel nos dias de Elias, quando foi fechado o céu por três anos e seis meses e durante este tempo houve uma grande fome por toda a terra. Mas a nenhuma dentre elas foi mandado Elias, senão a uma viúva de Sarepta, de Sidônia. E muitos leprosos havia em Israel no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão Naaman, da Síria. Nos tempos de Elias o povo de Israel passou por uma provação onde a fome e a miséria atingia a quase todos. A exceção era os que, à custa do dízimo e das oferendas do povo sacrificado, viviam em apostasia e corrupção. Naquele tempo o povo hebreu passou por uma enorme crise Moral, Ética e de Fé, o que redundou em desorganização da sociedade hebraica. Tudo parecia perdido. No entanto, um homem Yaveh encontrou entre os pecadores que era limpo de coração, de pensamento, de palavras e de ações. E a ele escolheu para ser seu porta-voz. E seu nome era Elias. E Elias desafiou o povo em pecado a escolher entre seguir ao Pai ou a Baal, o deus da ilusão, da mentira e da materialidade mesquinha. O deus que só vive no coração impuro dos que, como muitos aqui presentes, vivem pelo fingimento e pelas sombras da boa ação, acreditando que assim podem escapar aos olhos vigilantes d’Aquele que a tudo deu Vida e fez existência. O povo de Israel tinha o coração dividido. Suas consciências lhes ditavam a obediência ao Senhor de todas as cousas, mas suas almas conspurcadas, que queriam tanto as cousas divinas quanto as ilusões materiais, os confundiam e os enfraqueciam na Fé e na obediência ao único e verdadeiro mandamento: Amar ao Pai sobre todas as coisas e ao próximo com todo seu coração, pois o que fizerdes a este vos será feito por outro. Fugindo de Acabe, Elias foi acudido por uma pobre viúva que o alimentou e escondeu para que escapasse à fúria de seu perseguidor. E ela foi achada em graça pelo Criador, nosso Pai Celestial que a escolheu para proteger o seu profeta maior. No entanto, Israel não aprendeu a lição. O que vemos hoje? Como se encontra o Templo de Jerusalém? Ali impera a corrupção da verdadeira Religião; ali se acoitam os que mais traem ao nosso Criador e assim escondidos tratam de reviver os tempos de Elias e cobram impostos escorchantes dos que quase nada têm a dar senão seu suor e seu sangue; e por suas ações más e más palavras tornam este povo revoltado, odioso, e trazem sobre Israel e seu povo a pesada mão dos romanos e de outros povos violentos e apóstatas a quem os hebreus serão sujeitados até que aprendam que a Verdade e a Vida está entre eles, mas não a reconhecem.”

Um murmúrio de revolta começou a ser ouvido entre os da assistência. Um murmúrio que, insuflado à sorrelfa pelos pregadores que tinham subido ao parlatório antes de Yehoshua, transformou-se em gritos de ira. Quatro homens fortes, de má catadura, subiram ao parlatório e seguraram Yehoshua pelos braços. Sem oferecer resistência ele se deixou levar pelos seus seqüestradores aos gritos de “Mata! Mata! Mata” da turba enfurecida e sempre açulada pelos rabinos que, por sua vez, sentiam-se fortes com a multidão. Agora, sim, pensavam eles, o traidor vai ser punido. E o Templo certamente os olharia, a eles, rabinos de periferia, com mais respeito. Afinal, eles tinham conseguido eliminar aquele espinho sempre cravado nos calcanhares de Caifás e Anás.

Yehoshua passou por seus discípulos que se encolhiam amedrontados com o que viam. O olhar do Mestre cruzou com os deles e estes sentiram uma grande vergonha porque não tinham coragem de o defender da turba que crescia mais e mais, sempre incentivada pelos velhos rabis que, agora, sentindo-se garantidos pelos selvagens a serviço do Templo, eram os da frente do grupo de ensandecidos. E instigavam o povo a gritar bem alto: “Quem pensa que é este filho de um reles carpinteiro? Como ousa dizer insultos ao Templo onde se guarda a Aliança de Yaveh com os homens?” 

A turba levou Yehoshua, quase aos trambolhões, para um morro alto, de onde, no Yon Kipur, eram lançados bodes para se esfacelar lá embaixo. O Yon Kipur era o dia da espiação dos pecados dos hebreus. Geralmente, em Jerusalém, o “bode expiatório” era levado para o campo e ali solto, após os rabis do Templo terem colocado sobre eles suas mãos e a eles transferidos os pecados do povo hebreu. O destino do bode, acreditavam eles, era ser levado pelo Arcanjo Caído, Azazel. Mas isto acontecia em Jerusalém. Em algumas vilas do território o bode expiatório era lançado de algum despenhadeiro. Se por acaso sobrevivesse à queda, então, sim, Azazel tê-lo-ia para si.

Yehoshua foi quase arrastado morro acima, mas quando a turbamulta chegou ao alto teve uma grande surpresa. Diante deles, armados com punhais afiados, fundas e bastões, mais de trinta homens mal-encarados e ameaçadores os aguardavam. O povo parou atrapalhado e o silêncio fez-se a pouco e pouco. Os homens mal-encarados eram sicários e o líder deu alguns passos para a frente. Era Judas Iscariotes.

— O que pensais estar fazendo com o Meu Senhor? — E a voz de Judas Iscariotes fez gelar o sangue nas veias daqueles homens simplórios. Todos conheciam a fama do discípulo do Cristo e ela não era nada boa. Os que o prendiam pelos braços soltaram-no e Yehoshua avançou em direção a Judas sobre o ombro do qual pousou a mão.

— Judas, sejas bem-vindo ao meu rebanho. Agradeço teu zelo por mim, mas não era necessário que te desses a todo este trabalho.

Voltando-se para a turba que a tudo assistia muda e confusa, falou.

— Vede, ingratos de nosso Pai! Um homem condenado por vossas leis trouxe um grupo de outros, também assim discriminados, para me defender. Homens a quem nada fiz de bom. Homens que nem mesmo me conhecem a não ser por ouvir dizer. No entanto, vieram empenhar suas vidas em prol de mim. Em verdade em verdade vos digo que estes homens têm mais apreço diante de meu Pai do que todos vós, que me tendes a vos dirigir palavras de verdade e não as ouvis. Um dia, para minha tristeza, vós estareis mergulhados na maior escuridão com que o Mâyâ vos premiará. E naqueles tempos que virão, chorareis por muitas e muitas vidas, até que a Luz vos volte a visitar.

Então, altivamente, Yehoshua encaminhou-se com determinação para o grupo que o tinha trazido até ali sob grande alarido e, agora, em silêncio, apartava-se para lhe dar passagem. E ele se foi e permaneceu sem ser visto por ninguém por três dias e três noites.