Iscariotes não gostava dos romanos, mas começa a a também não gostar dos rabis de Jerusalém.

Iscariotes não gostava dos romanos, mas começava a também não gostar dos rabis de Jerusalém.

Judas deixou Matilde com uma caravana que se dirigia a Jerusalém e foi-se encontrar com os outros discípulos do Mestre. Instruiu-os sobre onde encontrar Yehoshua e sem dizer para onde ia, apartou-se deles. Também de carona em uma caravana de sírios, foi para Jerusalém. Na cidade movimentada, onde todos os povos se encontravam, foi direto ao Templo onde se encontrou com Caifás. Mas este lhe ordenou que fosse à noite à sua casa. Precisavam de discrição. Afinal, a fama de Iscariotes não era nada edificante para um dignitário de Templo. Judas retirou-se do Templo e perambulou pelos arredores do palácio de Herodes, observando tudo e procurando ouvir o que se comentava. Falava-se muito de uma possível guerra entre romanos e os povos do Levante, mas Judas não viu grande agitação entre os soldados de roma. Talvez, como sempre acontecia, a boataria era somente isto: boato. O que lhe interessava não eram guerras entre estrangeiros, mas sim o que se podia falar sobre seu Mestre Yehoshua. Tinha presenciado os milagres dele e sabia que suas ações desagradariam profundamente os rabis do Templo de Jerusalém, visto que suas pregações iam frontalmente contra e até agrediam claramente as autoridades máximas do governo teocrata da cidade.

Judas buscara chegar a Jerusalém antes dos rabis que viriam com certeza de Cafarnaum e iriam direto envenenar os dignitários do Templo. Sabia que Yehoshua não era bem-quisto por eles porque toda vez que entrava numa sinagoga, até mesmo no Templo, para fazer pregação, não poupava ninguém e seus prediletos eram justamente os que mais tinham poder sobre todos: Caifás e Anás. O discípulo, a cada vez que presenciava um feito extraordinário de seu Mestre, mais convencido ficava de que ele poderia convocar milhares de arcanjos para lutar pelo povo de Israel. Era seu maior sonho. Era seu maior desejo: ver seu povo livre para sempre do poder romano.

Caifás regia uma religião que impunha o modelo teocrático no país e isto sempre foi perigoso em qualquer tempo.

Caifás regia uma religião que impunha o modelo teocrático no país e isto sempre foi perigoso em qualquer tempo.

Iscariotes parou diante do imponente prédio do Prefeito Pilatos. Ele não podia enxergar o Prefeito que o observava por entre as grandes colunas da sacada do prédio. Pilatos o reconheceu e com um aceno de mão chamou um soldado que estava de guarda ali perto.

— Vê aquele homem? Quero falar com ele. Vá buscá-lo.

Judas continuou sua caminhada observativa, sem saber que atrás de si vinha um romano troncudo e mal-encarado. Este, postou-se subitamente diante do distraído discípulo e o forçou a sustar o passo.

— Acompanha-me. O Prefeito quer falar contigo.

Judas encarou o soldado e hesitou. O que diabos quereria Pôncio Pilatus com ele? Um relance de olhos ao redor lhe informou que mais cinco pretorianos estavam ali, observando a cena. Seria imprudente demais resistir à ordem. Tenso, assentiu com a cabeça e seguiu à frente do soldado, a contragosto. Não gostava de ser visto daquele modo, como um prisioneiro, mas não tinha alternativa. Subiram a escadaria até o peristilo que cercava toda a imponente construção e encontraram Pôncio Pilatus sentado em sua cadeira de magistrado. Judas se postou diante do romano sem o cumprimentar com o curvar do corpo, como era o natural para os de sua terra. Irritado, o soldado bateu-lhe nas dobras dos joelhos, atrás das pernas, mas o discípulo rebelde não se curvou. No entanto, voltou-se e encarou o legionário com olhar assassino. Pilatos fez um aceno de mão dispensado o guarda e chamou Iscariotes com outro aceno. O discípulo do Cristo subiu os sete degraus com arrogância e olhando com olhar carregado para a face rubicunda do gigantesco romano. Pilatus devolveu o olhar agressivo e os dois se encararam em silêncio, quando Judas parou no penúltimo degrau antes de subir aquele onde estava a cadeira do Prefeito.

— Teu soldado me disse que desejavas falar comigo. Do que se trata?

— Um pouco de respeito seria bom para tua saúde — disse Pôncio Pilatus irritado com a postura arrogante daquele judeu. — És um criminoso e tens pendências com meus soldados e, por extensão, com Roma. Tua vida sempre estará por um fio. Então, cuidado como falas comigo e como te conduzes diante de mim. Gostes ou não, sou a autoridade máxima nesta terra de imprestáveis. Não me irrites ou te mando matar agora mesmo. E a chibatadas!

Embora nem de leve ele se parecesse com este ator, é o melhor que se tem para representá-lo.

Embora nem de leve ele se parecesse com este ator, é o melhor que se tem para representá-lo – Poncius Pilatus.

A última palavra foi dita com um grito de ira, ao mesmo tempo em que Pilatus se punha de pé. Iscariotes não se moveu. Apenas olhava duro para a face rubicunda do furioso e odiado romano. Sim, ele bem podia mandar matá-lo, mas seria sua última ordem, pois de onde estava Judas julgava poder saltar sobre o homem e estrangulá-lo, em que pese sua musculatura impressionante. Afinal, ele também não era fraco e o ataque de surpresa sempre lhe dava vantagem.

— Prefeito — disse Iscariotes contendo-se à força. — Mandou-me chamar para falar comigo. O que deseja saber? Se é sobre Yehoshua…

— Pouco se me dá esse sujeito de que falas — disse Pilatus agitando as mãos com irritação.Quero saber sobre os movimentos de revolta de que fui informado e que eu creio tu sabes bem do que se trata.

—Não estou a par de nada. Tenho andado por Cafarnaum, ultimamente. E por aquelas bandas o povo hebraico não se importa nem um pouco com os romanos. Por que tu te preocupas? Não és quem tem Roma ao lado? Quem tem tal poder não deve temer gente como os hebreus.

Pilatus considerou o homem diante de si por um longo tempo, em silêncio. Então, com um aceno de mão, enfarado, dispensou-o. Bem que gostaria de mandar chicotear o insolente, mas no momento ele era importante para os rabis do Templo e estes bem poderiam arrancar mais e melhores informações do desgraçado. Iscariotes rodou nos calcanhares e se retirou lépido, sem o cumprimento que devia fazer. Por outro lado, Pilatus lhe tinha dado as costas e também se retirado sem dar a mínima importância ao hebreu detestado. 

Iscariotes voltou a perambular pelo meio do povo. Estava curioso. Nenhum comentário sobe Yehoshua. Era como se o povo nunca o tivesse visto falar no Templo. E ele sabia bem que seu Mestre havia agitado aquela gente, quando lá estivera. “É, o povo não tem memória. Isto é bom para ele, mas eu não gosto de tamanha indiferença. Como unir gente tão dispersa?” Pensamentos semelhantes cruzavam inquietantemente a mente de Judas, que continuou seu périplo até quando  a luz do sol se apagou e a escuridão da noite transformou a cidade de Jerusalém em um local de vultos fantasmagóricos. 

Aborrecido e irritado o discípulo rebelde bateu à porta da casa de Caifás. Um criado abriu-a e lhe franqueou a entrada, já que tinha sido avisado de que ele viria ter com o dono da mansão. Judas entrou sem cerimônia e foi direto para o peristilo em semi-círculo, local onde Caifás recebia seus convidados. Em tudo aquele local se parecia com os dos romanos. No luxo, no estilo dos móveis, no lago artificial com trepadeiras artisticamente distribuídas ao redor do tanque e até mesmo nos vinhos que ali se tomava. Judas olhou o ambiente com censura em seu coração. “Traidor. Todos eles são traidores. Juntam-se ao inimigo, sem pudor. E adaptam as Escrituras para suavizar o sofrimento dos que são explorados por eles mesmos e pelos kittins.” 

— Que bom que estejas aqui, Iscariotes! — Exclamou com falsa alegria o dono da casa. — Então, tens novidades para nós? Senta-te, come e bebe. Sei que tens sede e estás cansado. Tu perambulaste pelos arredores do templo e do palácio de Pilatus. A propósito, o que ele queria contigo?

A mão do homem pousava sobre o ombro do discípulo do Cristo e seus olhos mergulhavam fundo nos olhos deste. Queria transmitir ao outro segurança e conhecimento do que acontecia ali e nos arredores. Iscariotes assentiu com a cabeça e sentou-se, lavando a mão direita na água da bacia de pedra que lhe trouxera um escravo. Depois, comeu com apetite a carne assada, os pães e as verduras que lhe foram trazidas. Sem falar, bebeu à vontade. Quando, finalmente, se deu por saciado, sempre observado atentamente por seu anfitrião, recostou-se, arrotou sem cerimônia e dispôs-se a falar.

— Parece que o povo daqui esqueceu de Yehoshua, o que muito me alegra.

— Por que julgas isto?

— Andei por muitos lugares de Jerusalém  e não ouvi uma palavra sobre ele. Nem mesmo entre os estrangeiros, os que mais se impressionam com meu Mestre — e ao dizer isto, o olhar penetrante do discípulo mergulhou nos olhos do seu anfitrião, que, entretanto, não se abalou.

— E… Teu mestre, como dizes, o que tem feito? — A voz de Caifás era suave demais e o leve riso em sua boca não prenunciava nada de bom.

— Coisas. Muitas sem grande importância. A não ser os milagres que prodigalizou em Cafarnaum…

Caifás se endireitou na cadeira e seu olhar se tornou brilhante de interesse.

— Conta-me sobre isto — ordenou. E ouviu com minúcias o que Judas lhe contou. Depois, cofiando a barba, permaneceu em silêncio por um longo tempo.

— Então… Ele tem mesmo poder… Quem diria! Um simples filho de construtor… Tu estás bem certo do que me contas? Ele curou as tais mulheres? Eu não ouvi nada a respeito. Ao menos, até agora.

— Cafarnaum é longe daqui — disse Judas sem grande interesse. — As notícias demoram a chegar…

— Mas os rabis podem andar a cavalo e algum devia ter vindo contar-nos o que aconteceu. Isto que tu narras é de grande importância, compreendes? Teu… Mestre, como o chamas, pode usar de tal poder para sublevar o povo contra Herodes. E isto é perigoso. Uma guerra intestina logo atrairia os exércitos de Roma e seria uma desgraça para nossa gente.

— Fica sossegado — disse Iscariotes, sério. — Yehoshua não tem a mínima intenção de sublevar o povo contra ninguém. Aliás, seu modo de vida simplérrimo diz bem do quanto despreza o poder e o luxo dos reis. Dorme no chão e prefere estar com os pobres e os simples do que com os ricos e poderosos. Infelizmente ele frustra todas as minhas esperanças.

—Judas, vejo que não és bom estrategista. Teu… Mestre é um homem esperto e muito inteligente. Estar em permanente contato com os miseráveis e os pobres alimenta neles a fé em que possa realizar milagres…

— E ele os realiza — cortou Judas com ênfase — eu mesmo vi o que fez e se tu também tivesses visto crerias nele.

Caifás calou-se e estudou cuidadosamente a face de seu informante. Não gostava do que ouvia e menos ainda do entusiasmo de Iscariotes.

— Bom, pode ser. Afinal, há centenas de milagreiros vindo de todas as partes do mundo fazer milagres por aqui. Parece até que a Palestina atrai essa gente ímpia, que se serve das artes negras para impressionar os tolos. De minha parte, creio que Yehoshua aprendeu certos truques com os monges do Himalaia. Não desconheço que esteve lá por muitos anos e sabemos que aquela gente é ardilosa em magia negra.

— Não é magia negra o que ele faz — tornou a cortar Judas, desta vez com um olhar duro e ameaçador. — Ninguém faz magia falando em nome de Yaveh, bendito seja seu nome. E é justamente em nome de nosso Deus que ele age. E tem mais: sempre prega a fé no Criador de Todas as Coisas. Só não entendo porque se diz sistematicamente seu filho, quando sabemos que Yaveh, bendito seja seu nome, não tem família, logo, não tem filhos.

— Tem, sim, tem sim. Aí é que tu te enganas, Iscariotes — cortou, enfático, o rabi. — Por acaso tu te esqueces que no Gênesis é dito que o Todo Poderoso criou o homem do barro e lhe soprou nas narinas sua vida? Somos aquela vida, homem. Somos o barro fecundado pelo Criador. Então, se somos parte de seu hálito, somos filhos seus. Tu, eu e Yehoshua, todos somos filhos do Criador, logo, somos deuses menores e, também, irmãos entre nós.

Judas franziu o cenho. Se Caifás concordava com o que pregava Yehoshua, por que, então, perseguia-o tão ferozmente? O que temia nele? E não deixou para depois para fazer sua pergunta.

— Não é que o temamos, homem. Ele em si não nos preocupa. O que pode um homem sozinho contra exércitos? Nada. Nem contra a guarda pretoriana de Pilatus nem contra os mercenários de Herodes. O que não gostamos em Yehoshua são suas palavras, suas pregações. Ele sempre encontra meios de envenenar as mentes das gentes contra nós, os rabis do Templo de Israel. Ele prega a negação do dízimo e instila rebelião no povo contra o pagamento dos impostos…

— Nunca ouvi que ele fizesse ou dissesse isto. E já o  ouvi pregar uma centena de vezes — cortou Iscariotes, sério.

— Negas que ele ataca nosso Templo e nossos costumes? Negas que ele ataca a Torá Oral?

— Não, não nego. E concordo com ele quanto às censuras que faz às Leis orais que vós criais. São absurdas e inexplicáveis. Nosso Criador não proibiu nada ao homem que criou. Deu-lhe a Terra e tudo o que nela habita. Não lhe fez proibição de se locomover em qualquer dia que fosse. Apenas impôs que o sétimo dia fosse dedicado ao descanso. Isto, eu acho mais que justo e Yehoshua não discorda desta norma.

— Mas ele prega no sábado! — Exclamou jubiloso Caifás.

— E não o fazeis também? Quantas vezes assisti aos cultos que fazeis nos sábados? E para vir até aqui, os fiéis têm de violar uma das regras da Torá Oral, a que proíbe que um judeu ande mais de duzentas passadas além da sua casa. Como explicais isto?

— É diferente, Iscariotes! — Trovejou Caifás, irritado e se pondo de pé. — Para a oração e as oferendas ao nosso Pai  Yaveh não se deve cumprir as regras estabelecidas na Torá Oral. Adorar ao Criador sobre todas as coisas, inclusive sobre as normas criadas por nós, homens de fé, é uma obrigação de todo hebreu. Ninguém viola a Lei se age segundo este princípio, entendes?

— Então, Yehoshua não comete crime, pois tudo o que faz é em adoração a Yaveh — teimou Iscariotes, mesmo sabendo que provocava a raiva do rabi.

— Não! Não é! Quando ele cura nos sábados…

— Nunca o vi fazendo tal coisa — cortou o discípulo do Mestre. — Quando fez alguma cura, disse-o claramente que não tinha sido ele e, sim, nosso Deus Yaveh, bendito seja seu nome.

Caifás parou diante de Iscariotes e o olhou com olhar pesado. Estava irado contra o seu espião. Então, falou com voz contida.

— Iscariotes, tu não és um rabi, logo, não te cabe discutir nossa Religião. Compete a ti e aos demais homens hebreus apenas seguir o que nós, rabis, determinamos, pois somos os ungidos para esta missão sagrada. Então, volta e observa aquele a quem chamas teu Mestre. E se ele continuar aumentando o número de seus seguidores e pregando contra nossas Leis, então, comete crime e tu tens o dever de vir relatar isto a nós, os juízes do povo em nome de Yaveh, bendito seja seu nome. Agora, vai!

Judas levantou-se devagar, olhar cravado na face iracunda de Caifás. Temia-o não como homem, mas como um ungido do Santo dos Santos. No entanto, o que ouvia de Yehoshua começava a lhe abalar este temor e este respeito pelo rabi intransigente e mandão. Como diferia de Yehoshua, que era manso e raramente se irritava com alguém. Certo que lhe dera uma surra, mas tinha sido merecidor e, por isto, não recriminava seu Mestre. Mas o homem diante de si era muito perigoso não somente pela ardilosidade de suas palavras, mas também porque era senhor de um poder sujo, muito diferente do Poder que Yehoshua emanava de si naturalmente. Em silêncio, cumprimentou o rabi com um leve aceno de cabeça, murmurando “Será feito conforme sua ordem, rabi” e se retirou controlando o ímpeto de sair porta-a-fora intempestivamente. Caifás permaneceu quieto, olhando a porta por onde o seu esbirro tinha saído. “Iscariotes é um homem perigoso e, ao que parece, começa a se deixar embromar pelo espertalhão a que segue. Talvez eu tenha de mandar eliminá-lo quando dele não mais necessitar. Bronco, não percebe que Yehoshua espertamente está reunindo multidões ao redor de si. Multidões de revoltados, da escória das cidades. Justamente a que não tendo nada a perder, pode muito bem ser levada a pegar em armas não somente contra o Templo, mas também contra Herodes. Afinal de contas, desde que nasceu que sobre sua pessoa pesa o reconhecimento de que é legítimo descendente da linhagem de David, logo, o legítimo herdeiro do trono de Israel. Mas não é ele que nos interessa, a nós, os que dominamos esta escória rebelde para a obediência aos preceitos divinos. Interessa-nos Herodes, pois, mesmo sendo somente descendente de família judaizada, defende nossos interesses comuns.”

Iscariotes foi direto a uma taberna onde bebeu até ficar tonto. Então, saiu dali e foi para a periferia de Jerusalém, onde cúmplices seus, todos sicários, lhe deram guarida. Dormiu pesadamente sob o efeito do vinho. Ele não sabia, mas um idoso rabi estava chegando a Jerusalém para dar informações trucadas sobre as pregações de Yehoshua no Templo…