Meu amigo me deixou preocupado.

Meu amigo me deixou preocupado.

Eu estava às voltas com a secura do ar. Nesta época do ano, quando, no passado, o clima do Centro-Oeste brasileiro era super agradável, o ar atualmente fica quase sem água. O calor, então, é estranho. O ar está quente e seco. Não há umidade suficiente e nossa pele, nossos olhos, nossas fossas nasais, tudo arde como se estivesse sendo assado em fogo brando. A cabeça dói uma dor constante, latejante e que perturba o sentido de equilíbrio. Ao menos nos velhos, como eu. Para aliviar a secura, de duas em duas horas molho os  121 m2 de meu “jardim” diante da varanda de casa. Pois bem, estava eu fazendo isto, já às 6:30 h, quando, para minha surpresa, Orozimbo me surge no portão. Abri-o e ele entrou lépido. Como sempre não perguntou o que eu fazia. Era olhar e ver, portanto, meu velho não desperdiçava palavras. Simplesmente me deu um tapa doloroso no ombro esquerdo e foi-se sentar em seu toco, entregando-se ao seu costume de sempre: colocar fumo dentro do pito. Continuei molhando o gramado, a jaqueira ainda em crescimento (tem mais ou menos 1,75 m de altura e 9 meses de idade), o limoeiro (mesma altura e mesma idade), a laranjeira (um metro mais ou menos e mesma idade que as duas outras) e o preguiçoso pé de jabuticaba (cinco anos e mais ou menos 80 cm de altura). Junto deles, um pé de mirra, um arbusto que está espalhando galhos para todos os lados. Quando acabei meu trabalho, entrei e peguei o café preto e sem açúcar para Orozimbo. Então, sentei-me a seu lado e esperei que falasse. E ele falou.

— Home, cuma é qui vancê vê o Brasil daqui a quinhentos ano?

Olhei-o com o sobrecenho franzido. O que meu amigo queria com aquela pergunta? Fiz-lhe o questionamento e ele me respondeu que a pergunta não era dele, mas da professora do seu netinho, o Arthur, num dever de casa. O garoto tinha de fazer uma redação sobre o tema.

— Bom… Acho que do ponto de vista político…

— Nhor não, num é deste ponto de vista. Inté pruqui a criançada da iscola de meu netim num faiz idéia deste assunto, num sabe? É do ponto de vista da terra mermo. Cuma dixe a fessora: da geografia do país.

— Ah, sim… Bom…

Pensei um pouco e cheguei à conclusão que aquela era uma questão pouco adequada para crianças com apenas dez anos de idade. Mas tentei colocar-me como um menino com essa idade e busquei pensar como aquele menino. Levei um tempão para encontrar o caminho de volta aos meus dez anos… Enquanto eu pensava, Orozimbo me observava atentamente. Então, como eu estivesse demorando muito a lhe dar uma resposta, ele deu um tapa em minha perna e falou.

— Foi ansim mermo qui este véi aqui ficô, num sabe? Cuma imaginá uma coisa desta? Meu netim tava todo inrolado. Entonce, véi apelô pros búzio. E tomô um susto danado. Véi jogô os buzio treis veiz e treis veiz eles arresponderum a merma coisa…

Esperei impaciente, mas meu velho amigo tinha o olhar perdido algures e parecia ter-se ausentado do ambiente em que estávamos. Toquei-lhe a perna e perguntei:

— E então? O que os búzios lhe disseram?

O jogo dos búzios africanos de Orozimbo sempre me deixavam tenso.

O jogo dos búzios africanos de Orozimbo sempre me deixavam tenso.

Orozimbo voltou a focar os olhos e me mirou, com expressão de preocupação na face negra de olhos brilhantes.

— Os búzio me disseram qui daqui a quinhentus anu num vai mais havê Brasil.

Franzi a testa e sacudi a cabeça, tentando apreender o que ele me dizia.

— Como assim? O Brasil vai deixar de existir? E o povo, como fica?

— E apois, home, véi tombém ficô curioso e tratô de preguntá mais a Exu. Vancê sabe bem qui é Exu qui dá as resposta através dos buzio, num sabe? Entonce, ele arrespondeu qui num vai mais existi brasileiro, nhor não. O povo vai-se espaiá pelo mundo cuma os judeu, num sabe? E já naquele futuro, quaje num vai havê brasileiro vivo nem país qui preste. Vai tá tudo perdido. A língua qui nóis fala, agora, num vai mais izisti. No lugá dela, um dialeto qui num tem mais iscrita, só fala. O nosso país, home, vai virá um tremendo deserto. Onde há a Amazona, hoje, num vai tê nem mais capim.  O solo deste país vai ficá isturricado, num sabe? Um desertão qui véi acha qui ou é maió qui o tar de Saara, ou do mermo tamanho. Aqui só vai tê munto sol, munta secura e nadica de nada de água. Num vai mais tê animá nem ave nem répiti, nem nada. Só poeira vermeia vuando num vento quente e tão seco cuma esse de agora. Inté pió mermo, e apois!

Eis o rio Amazonas. Já pensou tudo isto transformado em areia?

Eis o rio Amazonas. Já pensou tudo isto transformado em areia?

— Peraí! — Exclamei aflito. — E o imenso rio Amazonas? Ele não nasce aqui no Brasil, mas nos Andes. O rio Amazonas, meu velho, nasce no rio Apurimac, que fica na encosta do Monte Nevado Mismi, na Cordilheira dos Andes, no Peru, a 5.600 metros acima do nível do mar. Ele não é grandão como é quando chega no Brasil, mas já tem muita água. Tudo aquilo não pode desaparecer assim…

— Pode, sim. Cuma a terra do Amazonas é pobre e arenosa, quando as arves forem matadas pelos doidos de hoje e do amenhã, ela vira um sumidoro, num sabe? as água qui vem lá de riba da montanhona vão sumi na terra morta. Aí… Só fica o deserto mermo.

— Mas temos a floresta costeira, a Mata Atlântica…

— E apois! Ela tombém vai pro brejo, home. Liás, vancê sabe munto bem, que ela tá caxi istinta, num é não? Num resta mais qui dez pur cento da coitadinha. E os doido do Brasil tão derrubando o qui restô. No futuro, vai ficá apenas morros pelados e nada mais. Se nascê arguma coisa, é matinha sem importânça. Sem servintia nem prus bichos…

Fiquei calado, tentando absorver o que Orozimbo me dizia. Seu jogo de búzios era infalível. Eu tinha comprovação disto. Mais de cem vezes eu o vi jogar, fazer as previsões e elas acontecerem ao pé da letra. Não tinha motivo para duvidar.

— Orozimbo… Você disse isso ao Arthur?

Chiquinho do Berro era um Capitão do Mato que também jogava a mortal capoeira e não perdia contenda.

Arthurzinho estava quase Mestre nas cinco modalidades de jogo de capoeira. Era uma arma viva e difícil de ser batida num combate.

— Entonce, home, aí é qui tá a incalacração deste véi, num sabe? Cuma dizê pr’ele qui seu país vai-se acabá? Cuma dizê qui os fios e os netos dele vão se daná de fome, de miséra de todo tipo? E inda pru riba, num vão mais sabê falá? Véi aquerdita qui se Arthurzim iscrevê uma coisa desta, ou vai levá uma bronca danada da fessora, ou vai tê de sentá os pé na cara de munto minino branco mitidim a besta. Arthurzim já anda sintindo na pele o tar de racismo, home. Otro dia, véi têve de ir inté a iscola pruqui ele tinha disancado a pernada dois muleque branquelo qui tinha insurtado ele pru causa de seus cabelo de tuim. Os dois forum pará no hospitá, de tanto apanhá. Num deu grande coisa pr’ele pruqui inté duas fessoras qui num são fessoras dele contarum qui os mulequi branquim é qui tinha insurtado e provocado meu netim. Mermo ansim, ele levou um sabão daqueles. Véi num gostô, mas achô mió num dá asa pro netim, senão ele vira bicho mermo.

— Bom, a gente tem uma saída — disse eu, ainda abalado com o que tinha acabado de ouvir. — Tenho muitas revistas que mostram como a Amazônia brasileira está morrendo. Todo ano mais de trezentos campos de futebol em área desmatada é denunciada pelos órgãos da Imprensa. O IBAMA é totalmente incapaz de impedir os madeireiros criminosos em suas ações desertificadoras e os políticos não fazem nada para impedir este crime. As reportagens mostram os rios amazônicos sofrendo de um fenômeno que eles não conheceram desde quando o Brasil surgiu no mapa: a seca. Neste ano mesmo, o rio Madeira está com o leito à mostra, quase totalmente seco. O Rio Negro também tem passado por esta experiência alarmante. Ainda assim, os madeireiros, a maioria a serviço de estrangeiros, ainda que sabendo o dano que causam ao país, continuam desmatando. E para piorar a história triste, os fazendeiros gananciosos não se incomodam de desmatar gigantescas áreas nativas para plantar capim e criar gado. O capim não enriquece a terra e o gado pisoteando o solo, extingue os mananciais e ajudam na desertificação do solo amazônico. E não pára por aí os danos na floresta. Os rios têm sido represados por enormes barragens, descontroladamente, sem o devido cuidado com o meio ambiente, o que leva para o fundo das gigantescas lagoas formadas pelas represas uma quantidade imensa de árvores. Tudo isto é desertificação. O Arturzinho pode retirar da leitura destas revistas as informações de que precisa para desenvolver sua redação.

Orozimbo permaneceu pensando um instante e, então, com um suspiro de alívio, pediu as revistas. Fui buscar os exemplares da VEJA, da ÉPOCA e da ISTOÉ e os entreguei a ele. Agradecido e feliz, meu amigo foi embora sem saber que me tinha deixado no peito uma angústia muito grande pela impotência que sentia diante do futuro negro que se descortinava para este belíssimo país onde tive a felicidade de nascer e gerar filhos…