Orozimbo gosta de me provocar.

Orozimbo gosta de me provocar.

Eu me preparava para continuar a saga desconhecida de Yehoshua quando a campainha tocou. Fui atender ao portão e era Orozimbo. Cumprimentou-me como de costume, com um aceno de cabeça, e sem mais aquela entrou pelo meu gramado e foi direto para a varanda, subindo os poucos degraus da escada que levam a ela. Sentou-se em seu toco, acendeu seu pito e ficou ali, baforando e olhando o vazio. Fui buscar seu café amargo e lho dei, perguntando se desejava conversar sobre algum assunto. Se não, então eu voltaria ao que ia fazer quando ele chegou. Respondeu-me que sim, que queria conversar. Puxei uma cadeira e me sentei ao seu lado. O sol já começava a incomodar, mas raramente ele aceitava entrar em casa. Gostava de ficar ali devido ao toco que lhe servia de cadeira. Na verdade era mesmo um toco. Um tronco de mangueira, grosso, com a altura mais ou menos do joelho de uma pessoa. Eu o colocara ali por gozação, mas para minha surpresa, ele adotou o tronco como se “toco” de assento e não largou mais.

— E então, do que vamos falar, hoje? — Instiguei, curioso. Quando meu amigo vinha aqui é porque queria conversar ou estava “incafinfado” como ele dizia.

— De vancê — respondeu-me ele, desconcertando-me.

Eu sorrindo

Adoro o Orozimbo, mas às vezes ele me deixa encurralado.

— De mim?! Por que eu?

— É qui véi uviu uma conversa interessante quando tava na feirinha. Véi ispixô as urêia e achô interessante o qui uviu. E aí, véi se perguntô: e cumo é a opinião de meu amigo a respeito disto?

— A respeito de quê? — Ele tinha capturado minha atenção.

— Morte. Sua morte — E ele me lançou aquele olhar matreiro que eu conhecia bem.

— Ei! Eu não estou nem um pouco preocupado com isso aí! — Protestei. — De uns tempos pra cá… Uns anos, para ser mais exato, adotei a postura de que não devo me preocupar com a Magra. Quando chegar, chegou e pronto.

— Bom… Mas cuma vancê incara deixá seus fios aqui? Cuma vancê vê se separá de sua muié? Cuma vancê acha que vai reagir cum relação a suas posses, suas casas, o carro… Tudo isso aí?

Olhei para sua cara preta de olhos brilhantes e profundos, desconfiado. O que diabo ele queria provocar com aquela conversar? De qualquer modo, sua pergunta merecia uma resposta, até porque ele me olhava com insistência e determinação de quem não vai aceitar respostas evasivas. Então, com um suspiro profundo, falei francamente. Aliás, não fazer isto era terminar enrolado pelo velho esperto como o diabo. Seu linguajar engraçado escondia uma mente ágil e brilhante.

Esta beleza de mulher me diz que tem um "Brito" dentro de si e quando ele estrebucha é difícil segurar sua fúria.

Esta beleza de mulher me diz que tem um “Brito” dentro de si e quando ele estrebucha é difícil segurar sua fúria.

— Filhos, meu velho, não são dos pais — disse eu, sério. — Na verdade eles são uma carga pesada para qualquer um e quem disser o contrário está mentindo. Filhos pesam sempre. Principalmente se são como os dois que eu criei desde quando deram seus primeiros vagidos. Lindos, felizes e grudados com a gente. Eles tornam seus pais heróis e estes têm de se virar e ser exatamente isto, para o bem dos cidadãos que eles virão a ser. E como isto pesa… Solteiro e descompromissado a gente pode, por exemplo, quando furioso por uma trapaça de um mau caráter, partir pros finalmente sem pensar duas vezes. Eu era assim e você sabe bem disto. Mas com filhos de olhos pregados na gente e copiando tudo o que fazemos, mesmo quando parecem distraídos e brincando, a coisa muda. Temos de nos segurar e buscar a “civilidade” com o patife que bem merecia ser morto para o bem de muita gente. Veja, tenho ouvido de minha filha que ela “tem um Brito” dentro de si e tem de se esforçar muito para segurar o sujeito, quando a raiva lhe assoma o peito. Vê o que eu lhe disse? E meus filhos homens me dizem isto de todas as formas possíveis. Nós, pais, não percebemos que filhos são computadores de copiar. E copiam tudo e gravam tudo num disco rígido que não se apaga jamais.

Orozimbo sorriu, matreiro. Pitou um pouco e tornou a falar.

— Hum-hum, vancê tá certo nisso aí. Mas num arrespondeu à pregunta deste véio. Vancê acha qui vai levá sardade deles? E dos otros lá do Rio tombém?

Eu ri um riso descontraído.

 — Sabe, Orozimbo, já andei aos tabefes com este dilema. Eu cometi a mesma ação de meus pais, embora nossos motivos tenham sido diferentes. Na verdade, vivi uma parte muito intensa dos motivos que levaram meu pai a se separar de minha mãe. A família desta jamais o aceitou e ele era hostilizado por todos os lados e sem tréguas. As agressões a ele eram violentas e as provocações eram suicidas. Ele, que tinha sido um cangaceiro briguento de marca, teve de se conter à custa de muita agonia para não partir para os “finalmentes”. A par com isto, havia dificuldades intransponíveis na vida sexual do casal e eu só vim a saber disto muitos anos depois que eles me tinham abandonado. Como homem adulto, conhecedor dos segredos da alcova, entendi que meu pai fez o que pôde para sustentar a situação, mas não deu. Em uma de minhas relações — e você sabe muito bem disto — eu também fiz o que pude numa situação semelhante, mas também não deu. Não pelos mesmos motivos que os de meu pai, mas porque minha parceira entrou em “break down” psicótico e nossa vida virou de cabeça para baixo. Eu tive de cair fora para não terminar nossas vidas numa horrível tragédia, e deixei pra trás três filhos com ela. E como meu pai, por injunções de vida, principalmente pela guerra sem tréguas que me movia a distinta e um de seus companheiros de aventura, como sempre mais um judeu na minha vida, também quase não os via. Nós nos separamos definitivamente quando deixei o Estado em que eles ficaram vivendo. Houve muito mais caroço por debaixo do angu dos meus pais, mas não me interessa, a esta altura da vida, querer saber quais foram estes caroços. Afinal, meu caldo de vida também tem caroços sobrando, e você sabe disto, não é?

— Ingraçado… — E ele me olhou com o cenho franzido — Vancê teve pedaços de sua vida qui forum iguazim iguazim aos de seus pais. Esse negóço de muié fria… amalucada… Vancê teve duas, num foi?

— Hum-hum.

— Mas vancê arresorveu bem esse pobrema. Véi sabe munto bem pruqui acumpanhô sua luta feroz contra o pobrema delas.

— Hum-hum.

— Num qué falá a respeito?

Muitas vezes tive de lutar com os Dilemas da Vida para não lutar contra pessoas iguais a mim.

Muitas vezes tive de lutar com os Dilemas da Vida para não lutar contra pessoas iguais a mim e matá-las inutilmente.

— Não. Isso já passou. Já morreu. Eu recebi as provações e não fugi da luta. E venci sem usar a Psicologia, o que foi muito bom pra mim e melhor pra elas. Mas como qualquer prova de faculdade, após a nota que lhe é atribuída a folha de papel é jogada no lixo. No caso de nossas vidas, ela é arquivada na Luz Ódica, num fio conhecido como Sutratma. Um lugar no qual, creio eu, nunca vou precisar mexer de novo…

— Vancê num sabe nadica de nada do que há do otro lado, home. E se há um arquivo de registo de tudo o que si viveu nas vida, entonce, há um motivo pra isto, num é?

— É. Mas que eu não pretendo revisitar minhas histórias, não pretendo mesmo. Até porque eu creio que fechei não somente mais um capítulo de um longo livro de aventuras que venho escrevendo através dos tempos, mas também porque sinto que nesta última existência concluí tudo o que tinha a ser concluído e compreendi o que todos temos de compreender, ou seja: compreendi que “Meu reino não é deste mundo!”. Hoje, o mundo dos Elementais Físicos, as pessoas, como você já sabe, não tem nenhuma graça para mim. E creio que se me fosse dada minha juventude elemental de novo e o fogo sexual que eu tinha, acho que eu o usaria muito pouco. Mulher não tem mais atrativo para mim. Vejo-as, a todas, como esqueletos revestidos de músculos e pele. Músculos e pele que um dia se despencarão, perderão viço e beleza e terminarão apodrecendo, sobrando apenas ossos amarelados num ossuário qualquer. Tal como meu corpo mesmo irá apodrecer e seus ossos jogados de qualquer jeito com outras centenas num ossuário até que um dia se lhes dê o destino final: o forno crematório. Somos todos iguais, neste item, na condição de Elementais Físicos, e somos todos passageiros desta estalagem chamada Terra. A chamada “alma gêmea” só o é aqui. Do outro lado somos todos irmãos. Apenas isto.

— É mermo? — E ele novamente me lançou aquele olhar matreiro que me punha em guarda. — Entonce, a morte num parece mais pobrema pra vancê?

Isto verdadeiramente nada vale, mas muitos vendem sua alma para pôr as mãos nele. Mesmo que seja por pouco tempo...

Isto verdadeiramente nada vale, mas muitos vendem sua alma para pôr as mãos nele. Mesmo que seja por pouco tempo… Exemplo? Lula.

— Pra mim, não. E quanto aos bens materiais… Nunca foram meus de verdade. Aliás, nada sobre a terra e debaixo do céu pertence realmente a qualquer indivíduo. Até o corpo que ele ocupa não é seu e Yehoshua, o Jesus dos cristãos, disse isto claramente: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os destroem, e onde ladrões arrombam as casas para roubá-los”. Eu sempre sonhei intensamente ter uma casa para mim, não um apartamento alugado. Queria um teto sobre minha cabeça quando tivesse de partir. Mas aquele desejo quase desesperado foi-se esgarçando ao longo do tempo e das minhas migrações forçadas de Estado para Estado no Brasil. Hoje, tenho mais de um teto e isto não me toca em nada. Eu os olho com total indiferença. Aprendi que para mim, tanto faz que este Elemental Físico — que meu Espírito ocupa — morra sob um teto e num leito em casa, ou em um leito de hospital sem qualquer parente por perto. A partida do Espirito que abandona seu Elemental Físico é um acontecimento absolutamente solitário.Mesmo que todo o Brasil esteja à volta do leito, o que vai partir está só com sua Consciência. E esta… Você mesmo já me disse isto, esqueceu-se?

— Nhor não. Véi se alembra de tudo o que dixe e feiz. Mas num sabia qui vancê tombém se alembrava.

— As coisas importantes não desaparecem nunca da memória de nosso Espírito, Orozimbo. E quanto mais nosso Elemental Físico envelhece e perde  seu elã vital, seu Prana Solar, mais o Espírito se revela de sob a escuridão da Matéria.

— Apois sim, home, apois sim! Muntos se vão sem um tiquim ansim de luz em seu Ser. Vão imbora em desespero pelos bens que deixa pra trás. Otros, as muiés mais qui os home, se vão em agunia pur causa daqueles a quem pensa qui são seus fios…

O Elemental Físico da Mulher tem de se dobrar ao Amor pelo filho que foi gerado dentro de si.

O Elemental Físico da Mulher tem de se dobrar ao Amor pelo filho que foi gerado dentro de si.

— E são. Não do Espírito que ocupa um Elemental Físico feminino, mas deste Elemental mesmo. Na verdade, Orozimbo, quem se desespera pelos filhos é a parte feminina dos Elementais genitores, que se espelham nos seus gerados como um prolongamento de si mesmos. E certamente que o são. Geneticamente, os filhos dos Elementais Físicos levam em si muito da estrutura física dos Elementais que lhes deram origem. As mulheres, mais do que os homens, sentem isto, esta força de atração. Intelectualmente, também. Os tempos sociais dos Elementais dos filhos mudam em relação aos tempos dos Elementais que lhes deram origem. Tudo muda no quesito Mundo Social. Mas a genética, a herança, esta não muda e segue sua Lei: dá aos filhos características físicas dos genitores. E intelectualmente, os Elementais gerados recebem forte modelagem de como perceber, interpretar, sentir e reagir aos estímulos sociais dos ambientes em que vivem ou terão de viver. Esta organização social mortal, finita, é necessária para que o Mundo Elemental Humano possa seguir sua saga… Sua Evolução…

— Vancê comprica uma coisa simpres, home. Pru qui é qui vancê fala desse tar de Elemental, se pudia falá simplesmente corpo?

— Força do hábito… Eu creio. Durante mais de quarenta e cinco anos eu só estudei e pesquisei a Vida dos Elementais  humanos e sempre com este nome. Na Teosofia, no Budismo… Mas tanto faz, pois este nome designa o corpo físico mesmo.

— Bão, entonce vancê num dá a mínima nem pros seus bens, nem prus seus fios… É isso?

— Sim. Quem devia se desesperar por deixá-los seria meu Elemental Físico. Mas ele não me perturbará com isto, pois eu mesmo, Meu Eu Superior, ou meu Espírito Imortal, sabe perfeitamente que não pode ser o Pai de outro Espírito que divinamente é igual a ele. Os corpos físicos, sim, geram outros corpos físicos. Mas corpos físicos se desfazem para sempre. Acho que são as únicas coisas que quando acabam é para sempre, pois os genitores que lhes deram origem nunca mais estarão presentes para lhes transmitir de novo suas características fisiológicas e seus modelos sociais. E tem mais: os ambientes sociais em que um Elemental Físico nasceu, cresceu, viveu e deixou para trás, não se repetirá. Em constante evolução tecnológica, os ambientes sociais serão sempre estranhos e inadequados a Elementais Físicos que já passaram por aqui. Tudo na Terra está em mudança perene, Orozimbo. E eu sei muito bem que você sabe disto melhor que eu.

Ele riu baixinho e falou algo que devia ter-me desconcertado, mas não o fez.

— Home, a Ciência dos tar de Elemental chegô ao ponto de num percisá mais morrê. Eles congelam os tar de ispermatozóide e os ovos das muiés e muntos anos depois, pelo qui eu uvi dizê, eles pode fazê nascer os fio dos qui já morrerum…

— Sim, eles poderão fazer isto. Mas os nascidos no futuro, vindos de um passado muito remoto, nascerão dentro de um sistema social estruturalmente novo, com “pais” instrutores novos, que os prepararão para o novo meio social em que terão de crescer e viver. Talvez, não sei, a genética dos Elementais do Futuro esteja totalmente modificada para que eles possam se adaptar a um mundo, a uma Terra, ambientalmente bem diferente da Terra que nós vivemos, agora. Por exemplo: uma Terra onde o ar seja constituído de dióxido de carbono e, não de oxigênio, como é hoje. Então, os Elementais conservados artificialmente para nascerem naquele futuro, certamente terão de viver engaiolados, pois não têm herança genética que lhes possibilite viverem num ambiente que, para seus ancestrais, que somos nós, hoje, era muito venenoso.

Orozimbo permaneceu calado e meditativo. Então, com um suspiro se pôs de pé e me fitou nos olhos.

— Sabe, home, véio gosta de vir cutucá vancê. Vancê sempre cumprica as coisa, mas dá munta informação preste véio pensá. Entonce, véi vai imbora pra sua arucaia pra pensá mió no qui uviu aqui. Inté a vorta.

E lá se foi ele, com seu gingado de capoeira no balanço do corpo atlético.