Judas sempre viveu em conflito entre a Paz do Cristo e a Guerra dos homens.

Judas (Qeryoth) sempre viveu em conflito entre a Paz do Cristo e a Guerra dos homens.

Yehudhah ish Qeryoth [era este o nome hebraico (transliterado em portuguêsque Judas possuía entre seus companheiros] seguiu Yehoshua, dispersando seus comparsas com um aceno imperioso de mão e sem lhes dirigir a palavra. Os outros sicários permaneceram ali, ainda sob a hipnose das palavras que tinham ouvido. Alguma coisa se revirava dentro deles e os inquietava. Alguma coisa que faria que a quase totalidade não mais continuasse na vida de crimes e assassinatos que vinha levando até aquele momento mágico. A figura autoritária de Yehoshua os tinha impressionado profundamente e mesmo quando todos já se haviam dispersados, eles permaneceram ali, parados, cada qual mergulhado em si mesmo. Aos poucos foram-se sentando no chão, silenciosos. Alguns rabiscando com o dedo um desenho qualquer na areia e nenhum conversando com um companheiro. Cada qual estava profundamente recolhido aos seus próprios pensamentos.

Yehoshua caminhou em silêncio, trazendo atrás de si, também silencioso, seu discípulo insubordinado. Quando chegaram perto da rua mais movimentada da cidadezinha, o Mestre se desviou e tomou a senda que levava à estrada de pedra construída pelos romanos. Andaram por ela em direção a Cafarnaum, mas não chegaram àquela cidade. Yehoshua retirou-se para a mata que ladeava a estrada, movimentada àquela hora do dia, e se embrenhou ali, sempre seguido pelo seu discípulo silencioso. Finalmente, à margem de um córrego de águas cristalinas, o Mestre tomou assento numa pedra e fechou os olhos, tomando a posição padmasambava. Judas sempre tentara imitá-lo, sem resultado. Tinha as juntas do corpo muito duras e, por isto, desistira de o fazer.

André Barjonas, irmão de Simão Barjonas, ou Cefas ou, ainda, Pedro.

André Barjonas, irmão de Simão Barjonas, ou Cefas ou, ainda, Pedro.

Iscariotes (Qeryoth) não esperou mais. Sabia que Yehoshua, quando se sentava daquele jeito, costumava permanecer assim por duas horas ou mais. Então, rodou nos calcanhares e foi atrás dos outros discípulos. Encontrou-os sentados perto da rua onde sempre havia feira livre. Ali, caravanas vindo de diversos locais faziam parada para descansar e seguir viagem, geralmente para Cesaréia ou arredores. O porto da cidade era muito procurado pelos mercadores, de onde embarcavam suas mercadorias para outros países próximos. Juntou-se a eles sem mais delongas, percebendo que os hebreus da cidade, que comerciavam com os goins, falavam muito do que havia acontecido com o Mestre dos Mestres. As informações eram as mais desencontradas, mas todos concordavam num ponto: a seita dos sicários estava ao lado do pregador rebelde e o tinha salvado do linchamento.

Simão Barjonas, o Apóstolo Pedro.

Simão Barjonas ou Cefas, o Apóstolo Pedro.

—Por onde andavas? — Perguntou Cefas (nome de Pedro, em aramaico. Em hebraico era Simão), olhando-o censuroso.

— Cuidando de minha vida — foi a resposta ríspida, seguida de um olhar penetrante secundado por uma face com expressão irritada, que não intimidou o outro.

— Tens a tarefa de cuidar de nosso dinheiro. Quando desapareces, ficamos em apuros…

— Não parece. Vejo que estais bem fornidos de alimento — respondeu Iscariotes estendendo a mão para um pão com fatias de carne dentro dele. Um tapa violento na mão, que lhe aplicou André, irmão de Pedro, sustou-lhe a intenção.

— Este pão é meu! — rugiu o forte André, também olhando de modo ameaçador para o detestado companheiro. Qeryoth mirou nos olhos do outro e, sem se incomodar com ele, bruscamente tomou do pão e partiu-o ao meio.

— O Mestre ensina que devemos repartir entre nós o que temos — disse, com voz surda. — Então, faze como ele orienta. Não importa que não me ames. Eu também não gosto de ti. Então, estamos empatados. Aliás — e o olhar ameaçador correu pelas faces dos outros — não gosto de nenhum de vós. Por mim, mandar-vos-ia ao diabo sem peso na consciência.

— Por que não tentas? — Abespinhou-se André, pondo-se de pé de modo beligerante. — Se julgas que eu temo tua sica, enganas-te. Já desanquei gente como tu, antes. Aproveita que o Mestre não está aqui e…

Ele fez coisas que os narradores bíblicos não contaram por vergonha de expor suas mesquinhezas.

Ele fez coisas que os narradores bíblicos não contaram por vergonha de expor suas mesquinhezas.

A figura de Yehoshua se fez subitamente presente entre eles, que ficaram siderados com aquela aparição repentina e do nada. Parecia que Yehoshua flutuava sobre o solo, mas sua voz era perfeitamente audível.

Ai de vós se vos envolverdes em querelas sem propósito outro senão vosso orgulho tolo e desprezível — E a voz, embora suave, tinha um quê de ameaça que fez tremer a todos os espantados discípulos. — Não vos escolhi para que continuásseis a vos comportardes como tolos e animais. Sois superiores aos homens comuns e assim eu os fiz há pouco. Então, descobri vossa superioridade através do sufocamento de vossos impulsos bestiais. Não necessito disto para a missão a que vos vou designar.

Tão de repente quanto surgira, Yehoshua desapareceu, deixando os discípulos mudos de susto e temor. Mesmo o irascível Qeryoth estava lívido e olhou espantado para seus companheiros.

— Era ele mesmo? — Perguntou Cefas, mirando um a um os outros ao redor de si. — Todos aqui o viram chegar de repente e desaparecer como fumaça? Viram, ou eu estou ficando doido?

— Não, não estás. Ele veio, deu-nos um puxão de orelhas e… se foi. Não faço idéia de para onde, mas se foi tão de repente quanto de repente chegou. ele me atemoriza — E Tiago Maior mirou a face de seu irmão, João Mozzer, o mais novo e o mais alegre de todos, futuramente chamado de o Evangelista, que também o olhou com o coração acelerado.

— Não sei se ele é um mago poderoso ou é mesmo o filho do Criador de todas as Coisas — murmurou o “Evangelista”, engolindo em seco. — Mas sei que sua mensagem é bem clara: devemos amar nosso próximo como a nós mesmos e jamais provocar derramamento de sangue, de lágrias ou despertar o rancor nos outros, visto que esse rancor, um dia, se virará contra nós mesmos. Então, eu creio, Qeryoth não deve ser hostilizado por nós. Ou será que estou errado?

Ninguém disse nada, mas vários concordaram com acenos de cabeça.

— Então, deixemos nossos juízos de lado e adotemos receber uns aos outros sempre com amor fraterno e compreensão. Afinal, meus irmãos, embora seja eu o mais novo e aquele que não constituiu família entre todos aqui, com exceção do próprio Yehudhah ish Qeryoth, creio que todos compreendemos bem a Lei pela qual Yehoshua se rege e deseja que nós também nos rejamos.

Os outros assentiram com acenos positivos de cabeça. Rindo, talvez para descontrair a tensão que havia entre seus companheiros, João Mozzer falou.

— Aliás, Yehudhah significa entre nós que o possuidor deste nome é o Abençoado. Então, nosso irmão aqui, embora muito esquentado, é o melhor de todos nós, não é mesmo? É abençoado desde o nascimento. Quem de nós já nasceu abençoado de berço, com exceção, claro, do próprio Yehoshua?

Risos entre os apóstolos, demonstrando que João Mozzer tinha alcançado seu objetivo. Yehudhah, então, tomou dois pães, uma bilha de leite de cabra e algumas frutas frescas e se pôs de pé, convidando os outros a segui-lo.

— Para onde pretendes levar-nos? — Perguntou Cefas.

— Ao encontro d’Ele — Respondeu Yehudhah, sucinto. Os outros não questionaram nada e se puseram de pé, recolhendo os sacos com alimentos e demais pertences de cada um. Em silêncio puseram-se a seguir o discípulos rebelde. Andaram sempre observando os homens por onde passavam. Notaram que a maioria comentava sobre o acontecido no templo da cidadezinha e uma parte significante deles discordava da postura de Yehoshua. Aquilo causou grande preocupação em todos. O mais atento era Yehudhah, que memorizava cada comentário e a face dos que eram mais ácidos e exaltados contra a postura de Yehoshua.

Nos ensinamentos do Cristo, a família humana é sagrada e uma criação direta do Criador Eterno. O homem não tem prevalência sobre a mulher, embora os machos da raça tenham invertido totalmente este conceito. Até hoje as mulheres sofrem a discriminação sexual por parte daqueles que elas mesmas pariram, amaram e educaram.

Nos ensinamentos do Cristo, a família humana é sagrada e uma criação direta do Criador Eterno. O homem não tem prevalência sobre a mulher, embora os machos da raça tenham invertido totalmente este conceito. Até hoje as mulheres sofrem a discriminação sexual por parte daqueles que elas mesmas pariram, amaram e educaram.

Chegaram ao local e encontraram Yehoshua exatamente na postura em que Yehudhah o havia deixado. Sem falar, sentaram-se ao redor da pedra onde o Mestre deles estava. Aos poucos, todos foram fechando os olhos e se concentrando no chakra cardíaco (Anahatha), tal como lhes tinha ensinado Yehoshua. Este tipo de meditação de força, como o tinha denominado o Mestre, fazia que o Amor à Vida fosse despertado e este Amor abrangia tudo, da Terra aos Céus. Irmana o Homem a tudo o que o rodeia, sem distinção qualquer. Um Amor que eles não conheciam, ainda. O Anahatha é o chacra responsável pelo sentimento de Amor Divino, bem como pelas reações emocionais sinceras de gratidão, bondade, perdão, desprendimento e generosidade. A Força Cósmica do Amor Límpido, Puro, Divino, representado neste chacra, não é limitado ao amor entre dois parceiros, mas abrange o amor aos seres humanos indiferenciadamente e à Vida que se manifesta em todas as Formas, animais ou não. Segundo ensinara Yehoshua, quando o homem bloqueia o Anahatha, sua capacidade de Amar se reduz a quase zero e isto pode gerar emoções muito fortes de egoísmo e ressentimentos que levam às guerras e ao fratricídio. Os discípulos tinham aprendido, embora se esquecessem disto com facilidade, que os apelos do mundo Mayâvico eram demasiadamente fortes e atingiam facilmente o Elemental Físico ou corpo humano, estimulando nele os mais rudes e primitivos impulsos emocionais. E, segundo ainda Yehoshua, este acontecimento era natural, pois o homem encarnado não vivia sob o influxo direto do Espírito, mas sim da Alma Mortal, que é toda formada e voltada para o meio humano onde aprende os vícios e os rudimentos de virtudes que, ao fim e ao cabo, levam os homens a criarem suas leis, suas regras de vida e suas organizações políticas. No entanto, sendo a Terra um local rude e totalmente primitivo, o avanço das organizações sociais, religiosas e políticas do homem era por Natureza lenta e muito árdua, muito trabalhosa. Nem todos podiam viver abstraídos da interação social, pois a família e o enredo em funções sociais diversas terminavam por exigir deles que dessem toda atenção aos dilemas ilusórios da Vida material. Além do mais, tinham recebido a ordem irrefutável de crescerem e se multiplicarem. E esta multiplicação era, no final das contas, a fonte das maiores tentações e dos maiores perigos para o despertar do Espírito. O coito não era crime diante dos olhos do Criador, mas era censuroso ao seu Julgamento o homem se deixar enredar totalmente pelos atrativos do Mâyâ, perdendo-se totalamente do Caminho da Verdade e da Vida. Yehoshua se casara com Miriam de Magdala para mostrar objetivamente que o coabitar com uma mulher não era repulsivo e censuroso, como a crença da religião hebraica disseminava entre o povo. A mulher era uma criação divina tão importante quanto o próprio homem, embora isto tivesse sido distorcido pelos rabis. E para que sua importância aos olhos do Criador fosse reconhecida, só a ela era possível a maternidade e só a ela tinha sido dada a porta de chegada ao mundo Mâyâvico do Espírito Divino de todo homem.

Quando sabia que tinha semeado a dúvida e provocado confrontos entre seus ouvintes, Ele se distanciava dos grupamentos e ia meditar e alhear-se do mundo humano de dores, e dúvidas, e sofrimentos.

Yehoshua sempre meditava em padmasambava, estimulando seu chakra cardíaco.

O tempo transcorreu e o silêncio do ambiente era quebrado apenas pelo trinar das aves e pelo suave marulho da água cristalina do riacho. Entre os discípulos, o único que não conseguira alcançar a paz interior era Yehudhah. Sua mente divagava pelas recordações recentes e isto o mantinha preso à realidade mayâvica, o que fazia que sentisse o incômodo daquela posição incômoda. Por isto, pôs-se de pé e buscando não fazer barulho, afastou-se do grupo e retornou à vila. Estava totalmente preocupado com os boatos que corriam e geravam mais boatos sobre Yehoshua. Yehudhah não deixava de alimentar o sonho de ver Yehoshua, cercado de seres celestiais armados de espadas e lanças e arcos e flechas de fogo exterminando todos os inimigos do povo escolhido por Yodcheva. Aquela glória era seu sonho maior. E dentro deste sonho ele seria o escolhido para comandar os seres celestes nas épicas lutas entre os goins e os escolhidos. Seria sua Glória! Mostraria ao Mestre o seu valor como guerreiro e certamente Yodcheva o distinguiria e o glorificaria entre os guerreiros de Judá.

Inicialmente o incômodo da posição tomou conta da consciência de todos os dez discípulos, visto que Tomé já estava a caminho de Caxemira e Qerioth não se encontrava mais entre eles. Com o decorrer do tempo e do esforço para se manter com a mente aprisionada na área física do coração físico, todos foram, aos poucos, perdendo a sensação de incômodo. Um bem-estar que se manifestou de modo leve, logo se intensificou. A mente, num dado momento que nenhum deles saberia precisar, passou a sentir o influxo de uma força estranha, que intuíam vir da vida que se manifestava ali, no ambiente geográfico em que se encontravam. Vida dos insetos, das árvores, da água do riacho, das pedras e do próprio solo. Vida que deixava entrever uma Força além de qualquer força conhecida por eles. E aquela Vida era Sentimento e o Sentimento não continha nada que sequer se assemelhasse às mesquinharias dos homens. Não havia medo, nem raiva, nem desejo de vingança, nem discriminação odiosa, nem mentira, nem falsidade, nem traição, nem mesquinharia, nem inveja… Nada disto. Absolutamente nada disto. Havia uma reação emocional estranha, que sentiam vir dos insetos e das aves. Um gafanhoto sendo aprisionado por formigas que o estavam esquartejando todo. Os discípulos sentiam que no gafanhoto não havia medo nem revolta. Ele se debatia tentando libertar-se, mas não tinha nenhuma reação emocional contra suas torturadoras. Parecia que sentia aquilo como natural. Ele também matara para se alimentar e parecia entender que, agora, serviria de alimento para as formigas carnívoras. Pronto. Era apenas isto. Os discípulos sentiam e “observavam” o sacrifício do gafanhoto com deslumbramento. Não entendiam aquele modo de compreender o que entendiam por “morte”. Não odiar seu assassino? Como? E aquela percepção também vinha do calango no bico de uma ave, que o devorava inteiro e vivo ainda. A vítima não exudava ódio ou outra reação emocional semelhante. Era seu fim e pronto. A Vida Natural era de pura harmonia. Apenas isto: harmonia. Comer e ser comido era natural e nesta alternância não havia espaço para ódios, frustrações, raivas e apegos a nada, absolutamente nada.

E então, todos se viram subitamente arrebatados para uma dimensão brilhante, onde uma cor azulada e dourada ao mesmo tempo inundava tudo. Ali não havia calor nem frio. E não havia sensação de duro ou macio. Era algo indescritível. Não havia paisagens, embora todos se sentissem dentro de um ambiente belíssimo. Integrados totalmente a ele.

E Yehoshua lhes apareceu. Vinha vestido numa roupagem de luz branco cegante, mas eles o enxergavam perfeitamente bem. Sorria e seu sorriso lhes despertava imensa felicidade. Seres luminosos e simpaticíssimos o acompanhavam e sorriam para eles, os discípulos extasiados.

E “O Rei dos Reis” pregou para eles…