Quem era Ele? O Budha Maitreya, o Senhor do Mundo? Ou outra entidade ainda não conhecida? Uma coisa é certa: Ele não era deste mundo. Ou, ao menos, não mais.

Quem era Ele? O Budha Maitreya, o Senhor do Mundo? Ou outra entidade ainda não conhecida? Uma coisa é certa: Ele não era deste mundo. Ou, ao menos, não mais.

Ninguém jamais soube nem jamais saberá o que foi pregado pelo Cristo Cósmico aos dez homens escolhidos para serem seus emissários entre os encarnados. Onde estavam não havia som de palavras. Imagens à velocidade de relâmpagos surgiam e sumiam e se sucediam numa confusão incompreensível para quem não estivesse entre os dez. Quanto tempo aquilo durou? Eles nunca souberam. O que tinham aprendido? Eles também jamais chegaram a sequer mencionar de leve. Aliás, seis meses depois do sacrifício de Yehoshua os dez homens ainda não tinham nenhuma lembrança do que haviam visto naqueles momentos fabulosos. As idéias, traduzidas para a dimensão tacanha dos homens daquele passado através de mensagens religiosas, foram toscos arremedos do que lhes havia sido gravado na memória espiritual. Por isto, aqueles espíritos determinaram-se a retornar em épocas diversas, sempre na condição de líderes mundiais voltados para a Ordem e o Progresso dos povos entre os quais nasciam. E em várias nações do mundo, pelos três séculos que se seguiram àquele da sagração da Cruz do Sacrifício pelo sangue do inocente derramado em luta justa pela Verdade, pelo Caminho e pela Vida, os apóstolos escolhidos têm encarnado sucessivamente, sempre buscando redimir a Mensagem do Mensageiro dos Mensageiros. Mas o progresso da condição humana no animal humano é tão lento quanto o crescimento de uma montanha e eles são obrigados a fazer esforços inauditos no sentido de recuperar as Almas que a cada geração mais e mais se perdem no tecnicismo que mata em quase todos a idéia de Deus, o Criador e o Senhor Sempiterno e Onipotente.

Quando eles despertaram Yehudhah ish Qeryoth estava chegando, vindo da vila. Trazia uma grande quantidade de alimentos e sentou-se entre seus companheiros sem parecer perceber que eles tinham mudado não somente de aparência, mas também de saúde física. Havia em todos eles uma aura invisível de autoridade e paz semelhante à que Yehoshua emanava de si naturalmente. Yehoshua ainda continuava sentado em padmasambava, mas não mais estava em estado meditativo. Sorria feliz e sua felicidade parecia brotar de todos os seus poros e inundar todo o ambiente à volta.

Qeryoth olhou para Cefas (o apóstolo Pedro) e arregalou os olhos. Ele estava incrivelmente diferente. Passeou o

Ele ficou assustado com o que aconteceu com seus companheiros.

Ele ficou assustado com o que aconteceu com seus companheiros.

olhar sobre os demais apóstolos e seu queixo caiu. Não havia mais um grupo de homens rudes, desgrenhados e feios. Ao contrário, ali, diante deles, estavam os outros apóstolos. Os mesmos, mas totalmente diferentes. Fortes, perfeitos, isto é, sem seus defeitos físicos, como era o caso de Bartolomeu, que sempre tivera dores na perna direita devido a grandes varizes. Naquele momento, sentado, Qeryoth podia ver que sua perna estava perfeita, sem nenhuma veia calombosa sobressaindo de sob a pele. Olhou-o com uma interrogação na face. Natanael (conhecido na Bíblia como Bartolomeu) riu, feliz, e deu de ombros, como resposta.

— O que se passou aqui? O que houve com vocês? Foi obra de Yehoshua?

Mateus, Tiago Maior e Tadeu explodiram numa gargalhada que contagiou a todos diante do espanto e da desorientação de Qeryoth.

— Nós acreditamos que não foi obra de Yehoshua, mas que ele teve muito haver com isto que vês, teve sim — respondeu Tiago Menor, ainda gargalhando pelo espanto espelhado na face de Qeryoth.

— Nós acreditamos que o que nos aconteceu foi obra de nosso Pai Celestial. Agora, sim, sabemos que Ele existe de verdade e é muito superior a Yeveh — disse Tadeu, agora sério.

Qeryoth olhou para a face de Yehoshua, que ria e comia frutas secas sem olhar para ninguém, apenas para o prato onde elas estavam. Aos poucos todos silenciaram, pois Qeryoth não dizia mais nada, mas seu olhar demonstrava claramente que ele desejava ouvir o próprio Yehoshua.

— Bom — começou a falar o Mestre — tu não estiveste presente aos acontecimentos deste dia, juntamente com teus companheiros.

— Certo, até aí não me revelas nada, Yehoshua. Tu sabes muito bem que não me acerto com este negócio de ficar parado feito uma árvore, de olhos fechados e imaginando meu umbigo. Além da posição ser muito forçada, mesmo que não cruzando as pernas como tu fazes, é cansativa. E a mim, não me parece trazer nada de novo, a não ser as dores nas juntas das pernas e nas costas pela posição forçada da coluna.

— Pena… — lamentou o Mestre, voltando a catar uvas passas no prato de madeira diante de si. Levou o punhado à boca, mastigando os frutos e, depois de os engolir, voltou a falar, desta feita olhando dentro dos olhos de seu discípulo rebelde.

O Grande Pastor obrara um milagre em todos os seus 10 discípulos presentes ao encontro de transmutação de suas condições tacanhas. Judas e Tomé.

O Grande Pastor obrara um milagre em todos os seus 10 discípulos presentes ao encontro de transmutação de suas condições tacanhas. Judas e Tomé foram os únicos fora do evento.

— Imediatismo, eis um dos mais destacados modos de o homem cometer erros às vezes irreparáveis. A afobação é a companheira do Imediatismo. E tu, Yehudhah, tens estes dois males em sufocante quantidade. No entanto, como teus companheiros te podem confirmar, um quarto de hora diariamente é suficiente para que se obtenha o resultado que tu observas aparvalhado. E um quarto de hora, hás de concordar, não é grande coisa se considerarmos todas as horas de um dia. Mas tu, quando chamo a todos para aprender os segredos que, mesmo estando à vista, aqueles não desejam desvelar por si mesmos, segues o caminho da escravidão ao Mâyâ. Tu te ausentaste. Tens o direito de fazer isto. Mas a cada escolha que um homem faça, haverá sempre uma conseqüência que pode ser agradável e enriquecedora para ele, ou o contrário. 

Yehudhah permaneceu silencioso por um tempo, sem desgrudar os olhos da face sorridente de Yehoshua. Então, falou e sua fala tinha um quê de ressentimento.

— Tenho a obrigação de zelar pelo bem de todos. Tu me deste esta tarefa ingrata. E eu fui cumpri-la, já que minha natureza não se inclina para a inação, como teus estranhos ensinamentos indicam. Sou um guerreiro, Yehoshua. Guerreiros não têm paciência de permanecer desperdiçando tempo, pois isto é um bem que não se readquire jamais.

— Belíssimo discurso — riu Yehoshua —, embora absolutamente vazio de sentido. Yehudhah, ouve. O mundo humano gira sem parar. Tudo se move na superfície da terra. Todos se dirigem a algum lugar, mas sempre estarão pisando a terra e podem até dar a volta a ela que não irão a nenhum lugar. Quem vive pelo Tempo aparente, corre, corre, corre… e não sai do lugar.

— O mundo… Gira? O que queres dizer com isto? — Perguntou desconfiado o discípulo incrédulo.

— Bem… Quero dizer que o mundo dos homens vive rodando e rodando e rodando ao redor de cada um. Vê, quando tu estás aqui, tudo parece parado, não é? No entanto, as aves voam e se afastam e outras vêm pousar onde elas estavam. Os insetos se deslocam freneticamente e nenhum fica parado no mesmo lugar. O vento, que não vês, mas sentes, também se movimenta, roda e gira e se vai. Só tu pareces estar parado, pois é de ti que parte a observação sobre o ambiente e o que nele sucede. E por isto, sempre tens a impressão de que és o centro do mundo, quando isto não é a verdade. Mesmo que estejas sentado, quando o outro se afasta de ti simultaneamente tu te afastas dele, embora só percebas a primeira parte do fenômeno. É por isto que teu girar não é notado por ti. Quando estavas no mercado, tudo lá mudava constantemente. As pessoas se afastavam de ti e tu, ainda quando parado ou sentado em algum lugar, também te afastavas delas. As pessoas não permaneciam ao teu lado o tempo todo e tu também não permanecias ao lado delas. Os animais não permaneciam no mesmo lugar porque seus donos os arrastavam atrás de si. As mercadorias também não estavam paradas. Não por si mesmas, mas se moviam na medida em que as pessoas as pegavam para avaliar ou para comprar ou na medida em que tu te distanciavas delas e vice-versa. Então, tudo se move; tudo gira… E na medida em que tudo, girando, se aproxima de alguém, este alguém também se aproxima daquilo; mas quando aquilo se distancia de alguém, este alguém também se distancia daquilo. Nenhum fenômeno sobre a face da Terra acontece sem seu correspondente oposto, para que nada se desequilibre. Estás entendendo?

Não. Yehudhah ish Qeryoth não estava compreendendo o que Yehoshua lhe falava, mas não quis admitir sua ignorância diante dos outros. Então, tratou de buscar uma saída da situação embaraçosa em que se encontrava.

— E… E o que tem isto que dizes com o que eu dizia e com o que aconteceu aqui?

— Tem que tu te moveste enquanto os outros permaneceram quietos. Eles, por um momento, não giraram. Estavam aqui, parados, centrados em si mesmos. Tu te afastavas de nós e nós nos afastávamos de ti na medida em que, em nossas mentes, tu perdias importância diante do trabalho a que todos nos entregávamos…

— Eu sei que me afastei de vós, embora não tenha entendido bem isto de vós vos afastardes de mim porquanto estáveis parados — rebateu o discípulo, impaciente.

Ele não pregava e ensina somente nas sinagogas. E para seus discípulos ele o fazia sempre.

Ele não pregava e ensina somente nas sinagogas. E para seus discípulos ele o fazia sempre.

— Pensas que ouvir os mexericos onde estão as pessoas é mais importante que dar atenção a ti mesmo, homem — disse Yehoshua sem se incomodar com a confusão de Yehudhah. — Mas mexericos se desvanecem tão logo as pessoas girem… movam-se tangidas por suas necessidades aparentemente prementes. Quando não se permite que palavras soltas ao vento nos entre pelos ouvidos, então elas se afastam de nós e nós nos afastamos delas também. No entanto, o que te entrou pelos ouvidos e encontrou eco em tuas fantasias não gira mais. Ficou aprisionado dentro de ti e reciprocamente te aprisionou às fantasias que passaram a gerar dentro de tua Alma Mortal, a tua Mente Pensante. Então, Yehudhah, graças à força que emprestas à tua fantasia, o que te entrou pelos ouvidos se torna como um animal inteligente e com vida própria, que passa a gerir teus pensamentos e a determinar teu giro no mundo. Aquilo que permitiste entrar em tua mente, agora tem vida própria e se tornou dono de ti. Não devias te permitir ser escravo de teus pensamentos ou de teus medos ou seja lá do que seja que te dita teu girar em teu mundo e no mundo onde estás inserido. Na Mente que pensa, os pensamentos não permanecem sozinhos. Tão logo ali entram se associam a outros que lhe sejam semelhantes. Logo estão fortalecidos em tal intensidade que se assenhoreiam de ti e te fazem escravo. Se tu e todos os homens entendessem isto, seriam moucos para palavras soltas ao vento.

— Eu… Confesso que tu me confundes mais ainda — obtemperou Yehudhah com uma ponta de irritação na voz.

— Escuta, Yehudhah. Tu podes ser o dono de tuas pernas e de teu destino. Mas podes emprestar tuas pernas para que elas sejam dirigidas por teus pensamentos e moldem teu destino e, quando isto acontece, tu te escravizas à tua Alma. E a Alma sempre se engana, meu irmão.

— Continuas falando de modo confuso — e a irritação, agora, era patente na voz de Yehudhah.

Filipe tenta convencer a Natanael sobre ser Yehoshua o verdadeiro Messias. E o convida a ir em sua companhia, conhecê-lo.

Filipe tenta convencer a Natanael sobre ser Yehoshua o verdadeiro Messias. E o convida a ir em sua companhia, conhecê-lo.

— Tu foste atrás das palavras dos outros homens — intrometeu-se Natanael, até ali calado e observando tudo.

(NOTA: Natanael tinha sido convencido a seguir Yehoshua quando este o encontrou na companhia de Filipe. Filipe o havia convidado a ir conhecer Yehoshua, a quem anunciava como o verdadeiro Messias. E o chamou para isto depois de ouvi-lo perguntar em dúvida: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” Atendendo à insistência de Filipe, Natanael decidiu segui-lo. Quando os dois encontraram Yehoshua, este se voltou para Natanael e comentou: “Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo.” Estranhando aquele elogio de alguém que ele desconhecia, Natanael perguntou ao Mestre: “De onde tu me conheces?” E Yehoshua, sorrindo simpaticamente, respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira.” Natanael espantou-se. Sim, ele estava estudando a Torá sob uma figueira, antes que Filipe chegasse. Era costume dos hebreus fazer isto, pois o interior de suas casas geralmente era muito barulhento. Além disto, a figueira, tendo uma copa densa, dava uma sombra refrescante, apropriada para quem precisasse de um lugar protegido do calor da luz solar. Aquele acontecimento insólito de um homem tê-lo visto ainda mesmo antes de se conhecerem prendeu a atenção de Natanael. Ele decidiu seguir Yehoshua, movido pela curiosidade de conhecer a razão daquele homem poder ver coisas e pessoas à distância. E depois que Yehoshua lhe dissera tê-lo visto antes que Filipe o encontrasse fez que, curioso, decidisse permanecer ao lado do estranho de olhar profundo para questioná-lo sobre seus poderes) 

— E quando damos atenção ao que de mexericos e futilidades os outros dizem — continuou Natanael —, ficamos à mercê das fantasias deles e perdemos nossas pernas, simbolicamente. Tu te dirigiste à vila e, ali, ao mercado, tendo um objetivo em teus pensamentos: ouvir o que se dizia sobre Yehoshua. Tuas pernas, teu corpo, tua mente, tudo estava a serviço de teus temores, entendes? Tu não foste lá buscar alimento para nós todos, visto que já o tínhamos trazido quando aqui viemos juntos. Os alimentos extras que tu compraste serviram apenas para disfarçar teus propósitos íntimos: escutar os mexericos das pessoas… Já ali eras escravo de palavras erradas, palavras soltas ao vento, que tens ouvido desde mesmo quando tu te entendeste por gente neste mundo. Elas te entraram na Alma pensante e desta se tornaram senhoras… 

— Ah, sim, entendi — disse Yehudhah com alívio. — Mas se vós todos tivésseis ouvido o que eu ouvi, certamente não estaríeis assim, tão calmos.

— Eu, por mim —, cortou Tadeu — não dou a mínima atenção ao que o vento leva, Yehudhah. Se alguma coisa pode valer a pena é o que os rabis vão contar sobre Yehoshua e sobre tu e teus sicários, aos rabis do Templo, em Jerusalém.

— Ah, é? — Abespinhou-se Yehudhah. — E eles vão dizer que Yehoshua está dividindo o povo, incutindo em muitos, modos rebeldes de ver e compreender a política de nossos dirigentes; modos que vão de encontro com o que é desejo de Caifás, de Anás e de Herodes. Um choque político perigoso, senhores. Sei que Yehoshua pode, quando assim o desejar, convocar os anjos de seu Pai Celestial para vir à guerra e desbaratar nossos inimigos. Mas…

Yehudhah calou-se diante das expressões de consternação que viu nas faces cujos olhares nele se fixavam.

— Guerra?! Inimigos?! — Era Cefas quem falava. — Por que tu vives pensando em guerrear, Yehudhah ish Qeryoth? Ainda não compreendeste que somos todos irmãos e entre irmãos é erro haver inimizades? E por que pensas em guerra, se isto é a maior demonstração de atraso do homem diante de nosso Pai Celestial?

Yehudhah passeou os olhos pasmos diante do que ouvia. Será que eles todos tinham sido magicamente mudados pelos poderes de Yehoshua? Será que seu Mestre o tinha traído, fazendo que todos ali seguissem subitamente seu modo de pensar? Era óbvio que só pela guerra a Palestina poderia livrar-se dos romanos e dos goins em geral.

— Yehudhah — disse Yehoshua pondo-se de pé e vindo pousar sua mão o forte ombro de seu discípulo. — Haverá outra transformação para os que não estiveram aqui, hoje. Espero que tu estejas entre os outros, ou perderás a maior oportunidade de nunca mais necessitares de retornar a esta realidade.

E voltando-se para os outros o Mestre os convidou a segui-lo com um aceno de cabeça. Ele se pôs a andar em direção a Cafarnaum e todos, inclusive o desnorteado Yehudhah, o seguiram…