Eu sorrindo

Sim, você e os seis e meio bilhões de habitantes da terra são ansiosos. E como!

Se alguém lhe perguntar: “Você é ansioso(a)?” Quase sempre a resposta é alguma coisa como: “Um pouquinho!” ou “Mais ou menos…” ou “Muito!” ou algo parecido. Mas eu lhe digo: neste século que adentramos há somente poucos anos, todos somos muito ansiosos. E nossas respostas comportamentais sócio-interativas refletem nosso grau de ansiedade. Ela pode-se manifestar num tratamento seco, rude, áspero, grosseiro. Ou pode-se manifestar em sintomas fisiológicos, como gastrite, sudorese nas extremidades do corpo, tremores das mãos, obnubilação da consciência (obscurecimento da sensação ou do pensamento), boca seca e língua de papagaio, respiração presa, coartada, arritmia cardíaca, sono entrecortado ou de difícil conciliação e vai por aí. A relação dos sintomas da ansiedade é muito vasta e chega mesmo a ter ressonância no desempenho sexual coital. Augusto Cury nos fala de um novo tipo de descrição da manifestação da ansiedade, ao qual chama de Síndrome do Pensamento Acelerado.

Ao ver de Cury, a sociedade moderna alterou algo que devia ser inviolável: o ritmo da construção do pensamento. É por isto que as pessoas têm pressa em julgar o que quer que seja, desde uma expressão qualquer, gestual ou expressada verbalmente, até um ato descuidado de alguém. Antes de parar para pensar no outro, o indivíduo pensa em si mesmo(a) e parte para a ameaça, a agressão verbal ou, se seu pseudo-desafeto está diante de si, para a violência física. 

Estamos estressados. Altamente estressados. E como o estresse do dia-nosso-de-cada-semana é permanente, estamos irrevogavelmente doentes. Doentes do mal-humor; doentes de egoísmo acre, azedo; doente de uma desconfiança permanente com relação ao outro. Ninguém mais vê o seu próximo como seu irmão, seu semelhante. Concomitantemente, pouquíssimos são os que ainda agem para com o outro como para consigo mesmo.

O consumismo desembestado de informações desenfreadas, elas mesmas fatores ansiogênicos, faz milhões de indivíduos viverem dependurados no celular. A vida destas pessoas ficou resumida à telinha do aparelho. É como se elas fossem prisioneiras em uma dimensão sem atrativos. Prisioneiras que olham avidamente a “liberdade” através de um quadrilátero por onde só sua visão pode passar. Coitados…

E pela janelinha lhe chegam milhões de gritos silenciosos, exarados em palavras escritas certas ou erradas graficamente, não importa. Se estão erradas as prisioneiras da Vida sem Vida lhes dão o sentido que acham que devem ter e pronto. A mensagem foi traduzida. Pode até não ser aquela que o emissor desejava transmitir, mas o que importa? Os prisioneiros do celular precisam apenas que algo lhes chegue do mundo “lá fora”. O resto, eles completam usando sua fantasia também desembestada e azeda.

Mesmo que a névoa da ignorância ou do medo ou da covardia nos esconda Sua Presença, Ele está sempre conosco.

Mesmo que a névoa da ignorância ou do medo ou da covardia nos esconda Sua Presença, Ele está sempre conosco (foto de Marcos Estrella)

Há milhões de fotos na internet. São tantas que é impossível se saber quais “têm reserva de domínio” e quais não. Um dia, buscando naquele riquíssimo manancial uma foto de Jesus, dei de cara com uma que me fascinou. Na foto o Cristo Redentor do Rio de Janeiro aparecia sobre uma camada de nuvem que escondia tudo o mais. Transpus para meu blog aquela belíssima foto. Dias depois de publicar o artigo recebo do fotógrafo uma observação. Dizia ele: “Gostaria de lhe pedir que ao usar uma de minhas fotos tivesse a gentiliza de citar a autoria. Obrigado. Marcos Estrella”. Fui ao seu blog e vi dezenas de fotos lindíssimas. Sim, retifiquei meu erro com o máximo prazer. E aquele fotógrafo desconhecido terminou meu amigo. E eu, dele. Sempre que desejo uma foto especial, busco entre as que ele posta generosamente. Tenho sua autorização para isto. Não são fotos de pessoas PÚBLICAS, e, sim, de paisagens enxergadas sob ângulos que só um artista percebe. E Marcos Estrella é uma destas pessoas privilegiadas. Tenho o maior orgulho de lhe citar o nome e chamá-lo meu amigo, ainda que não nos conheçamos pessoalmente. 

Juiz Sérgio Moro. Um homem público. Sua imagem não pode ter "reserva de domínio". O máximo que se pode pedir é que quem a use indique de onde a obteve. No caso, www.diariodocentrodomundo.com.br

Juiz Sérgio Moro. Um homem público. Sua imagem não pode ter “reserva de domínio”. O máximo que se pode pedir é que quem a use indique de onde a obteve. No caso, eu a consegui no endereço que há sob a foto publicada na internet: http://www.diariodocentrodomundo.com.br

A foto de um político é de domínio público. Como tal, não pode ser “privatizada”; não pode ter reserva de domínio, pelo fotografoAo menos foi isto que minha advogada me informou. Exatamente porque o Político é um ente público e o que faz, o que diz e como se comporta são também de domínio público, desde que esteja exercendo atividade política, tudo o que diga respeito a ele enquanto servidor público, não pode, quem quer que seja, reservar-se direitos sobre fotos (imagens) deste servidor, mesmo que tiradas por uma máquina particular. Se não deseja que ela seja usada publicamente, então, não a coloque na internet, à disposição dos que por ali transitam. Assim sendo, quando alguém – não somente eu – coloca uma charge usando a foto de um político, seja exprobando negativamente seus atos no Poder (que é Nosso), seja para o elogiar, o cidadão tem o direito de fazer isto. Ou não haveria revistas, dezenas delas, nem jornais, centenas deles, mostrando em fotos o indivíduo público. Já pensou alguém reservando-se direitos privativos sobre uma foto (que, a rigor, é a imagem) do Juiz Moro em sua atividade jurídica ou simplesmente andando por um aeroporto? Como fica sua excelência? Eis que sua imagem, que é sua, particularmente sua, passou a ser propriedade privada de alguém. Isto é um absurdo, não é?

Um artista com uma câmera com a qual ele capta o que os olhos comuns não enxergam. Ele é Marcos Estrella.

Um artista com uma câmera com a qual ele capta o que os olhos comuns não enxergam. Ele é Marcos Estrella.

Pois bem, há pessoas ansiopatas que se aborrecem e são deselegantes, quando alguém usa alguma foto que ela bateu, de uma entidade pública (e uma pessoa passa a ser uma entidade pública na medida em que exerce atividade pública em um dos Três Poderes), achando-se donas da imagem pública de um servidor público. Gente assim, precisa de ajuda especializada, mas precisa mais que nunca, deixar os clichês de lado. E precisa, com urgência, de se mirar no Espelho Mágico da Vida. Ninguém é sozinho no mundo globalizado. Nele, tudo é público, exceto aquela parcela minúscula de coisas que a pessoa produziu para si, exclusivamente para si, e não a disponibiliza na internet que é globalizante. Exemplo? A foto de Marcos Estrella que coloquei acima, com muito orgulho. Marcos Estrella é uma pessoa que não vive na dependência do mundo celularizado. Ele olha para fora e enxerga o que muitos nem vislumbram. Suas fotos são particularíssimas. Poderia guardá-las ciumentamente para si mesmo. Teria todo direito. Até legalmente falando. Mas não. Ele as compartilha generosamente, apenas solicitando que quem delas fizer uso cite o autor. Mais que justo.

Há juristas que dizem que “a partir do momento em que você disse (seja à polícia ou a qualquer outra pessoa), ou filmou o que você disse (filmou, fotografou ou assinou) poderá ser usado como prova contra você. Você abdicou de seu direito no momento em que resolveu produzir a prova”. Mas há, aqui, uma observação óbvia: se você apenas reproduz o que é dito amplamente pela Mídia ou Imprensa Livre, então, você não está produzindo prova contra si. Apenas reproduz o que é veiculado por centenas de revistas, jornais e pasquins, além de comentado amplamente e de modo público pela internet, bem como é dito e mostrado por imagens através da TV. A Imprensa Livre é formadora de opinião e você tem o direito de exarar sua opinião a favor ou contra a opinião de outras pessoas. O que a Imprensa produz é de domínio público e descartável. Nenhum órgão da Imprensa se enciuma do que seus repórteres mostram em fotos ou filmes. Tudo isto é produto de consumo, logo, descartável. No máximo se deve citar o nome do fotógrafo, como uma gentileza e como respeito ao seu trabalho. A questão, aqui, é que fotos e noticiários se tornaram de domínio público e, assim, não pode ser particularizado por ninguém para se cobrar de alguém. Para tanto, tem-se de cobrar primeiramente a fonte da notícia. A Lei nº 9610 protege a OBRA LITERÁRIA, a OBRA ICONOGRÁFICA, a OBRA EM PINTURA, a OBRA EM FILME, a OBRA EM FOTO etc… Note que a Lei protege a OBRA, algo específico de um autor específico. Ela não protege como reserva de domínio pessoal o que é de domínio público e é amplamente divulgado por todos os meios, livremente. E é lógico, pois tais coisas não são “obras”, não são “artes”, são de uso coletivo, público, portanto. E não sou em quem diz isto, mas uma pessoa formada em Direito. Mais precisamente, um juiz.

No entanto, pessoas em crise de ansiedade, já quase beirando a doença emocional de origem social, se perdem e agem sem refletir tornando-se rudes no falar e no exigir. Suas palavras soam ameaçadoras e, logo, desagradáveis. Mas há que se compreender que são doentes ou, como se dizia outrora, estão no horrível estado de quase são, quase doentes. 

A Síndrome do Pensamento Acelerado não existia nos tempos em que fiz a Faculdade de Psicologia. É uma nova modalidade de desequilíbrio psicossomático, fruto do domínio da tecnologia sobre o humano. Mais uma variedade das inúmeras formas através das quais a Ansiedade se faz presente no ser humano sofredor deste século dos perdidos e isolados. Hoje, esta Síndrome está por todo lado. Ela se manifesta nas pessoas de nossa família; segue-nos no ônibus; entra no cinema em nossa companhia. Enfim, ela é alguém altamente desagradável e que nos ataca e nos “destrambelha” silenciosamente…