Não é que ele não acreditasse em seu Mestre. É que não o compreendia em seus objetivos.

Não é que ele não acreditasse em seu Mestre. É que não o compreendia em seus objetivos. Foto de (http://iadrn.blogspot.com.br).

Yehudhah ish Qeryoth caminhava cismador. Ainda lhe ressoavam na mente o que tinha ouvido de seus companheiros. Era-lhe um tremendo esforço compreender o que para os outros parecia tão fácil. Todos eles, agora, pareciam falar a mesma linguagem que Yehosua. Passou a se censurar por não ter permanecido junto a eles e ter perdido aquele poder que bem poderia ser usado de modo mais objetivo, quando chegasse o momento. Afinal, todo Rei precisa saber pregar sua Política e seus comandantes têm a obrigação de saber convencer pela palavra. Yehoshua vinha demonstrando sempre e sempre que preferia as palavras à ação. Não que não soubesse lutar. Ele mesmo já havia levado uma humilhante surra daquele homem estranho, valoroso e… Humilde. Uma combinação desconcertante.

Chegaram à rua principal de Cafarnaum, que fervilhava de gente vindo das mais diversas regiões daquela época. Um chinês, vestido a caráter, barba branca e longa e andar imponente passou pelo grupo. Mas não avançou muito. Parou à margem da rua e se voltou para olhar o estranho grupo de homens que pareciam seguir um líder, cuja vestimenta, estranhamente branca, prendeu-lhe a atenção. O chinês caminhou até o homem de roupas brancas e se postou diante dele, cumprimentando-o com as mãos juntas adiante do corpo e os braços formando um círculo. Yehoshua sustou o passo e mirou a face de pele amarela queimada pelo sol do deserto. O corpo rijo e musculoso do chinês dizia de sua força espantosa.

— Salve, senhor do Mundo — cumprimentou o chinês, fazendo que os discípulos se entreolhassem com espanto pela estranha saudação.

— O que desejas, homem? — E a voz de Yehoshua tinha um quê de autoridade que não lhe era comum. Isto prendeu a atenção de todos os discípulos em sua figura imponente.

— Se me permites, senhor do mundo, quero pedir tua benção. Vou para um encontro de vida ou morte e gostaria de contar com tua proteção.

— E por que eu protegeria um assassino? — E a voz de Yehoshua pareceu ameaçadora. Seu olhar se tinha tornado duro e fixavam a cabeça curvada do homem diante de si.

Mestre em Wu-shu chinês exagera. Enforca-se para meditar, dominando e ignorando a dor e o sufocamento. (http://www.gadoo.com.br/)

Mestre em Wu-shu chinês exagera. Enforca-se para meditar, dominando e ignorando a dor e o sufocamento. (http://www.gadoo.com.br/)

— Não sou assassino, senhor do mundo — rebateu o chinês, erguendo o corpo e mirando na face de Yehoshua. — Sou Feng Chu Li um mestre de artes marciais, criador do Punho de Feng, e fui desafiado por um adversário que deseja provar que sua escola é superior à minha. Não posso permitir que ele permaneça sem punição, ou minha escola perderá sua honra diante dos meus alunos e eu cairei em desgraça no mundo marcial. A honra…

— Não há honra em ferir, humilhar o próximo ou matar a quem quer que seja — cortou Yehoshua com entonação dura na voz. — Não há honra em combater por crenças fúteis e inúteis. Nenhum homem é superior a outro apenas porque sabe bater e tirar sangue de seu irmão, a quem toma por adversário, oponente ou inimigo. Vós todos sois irmãos perante o Inominado Pai, o Criador de todos vós. Não te abençoarei nem te desejarei vitória ou derrota, pois desde agora mesmo já és um vencido. Vai, segue teu caminho de ilusão e tolices e me deixa prosseguir no que tenho de fazer.

Yehoshua era um grande combatente, mas não defendia o emprego da Arte Marcial em combates sangrentos. Apenas como disciplina para educação e fortalecimento da Alma Mortal. Apenas para isto. Foto de http://atl.clicrbs.com.br/

Yehoshua era um grande combatente, mas não defendia o emprego da Arte Marcial em combates sangrentos. Apenas como disciplina para educação e fortalecimento da Alma Mortal. Apenas para isto. Foto de http://atl.clicrbs.com.br/

O chinês permaneceu calado por um longo momento, olhos nos olhos do Rei dos Reis. Não havia temor nem agastamento em sua figura, em sua postura. Então, com um silencioso curvar de cabeça, braços estendidos e mãos juntas, a direita fechando-se sobre o punho cerrado esquerdo e com os braços num semi-círculo, ele recuou sempre de cabeça baixa e quando se encontrou ao lado da rua, de onde viera, ergueu-se, rodou nos calcanhares e sumiu caminhando rápido. Yehoshua também retomou sua caminhada com passos firmes. Yehudhah parecia ser o único que não tinha compreendido nada daquele encontro insólito e, menos ainda, do diálogo entre Yehoshua e o Mestre chinês.

O Sol já descia seus raios quentes, fazendo todos suar abundantemente e procurar a sombra das árvores que se espalhavam pelas ruas estreitas. A comitiva do Mestre se encaminhou para um lado da cidade que não era muito frequentado pelas pessoas. O lado onde se amontoavam mendigos, coxos, cegos, mancos, deformados, “imundos” tomados por possessões demoníacas e toda espécie de doenças incapacitantes. Aquele restolho humano era impedido violentamente de mendigar entre os normais, os trabalhadores “honestos” e os sãos por obra e graça de Jeovah. Estavam doentes porque seus pais haviam pecado contra o Todo Poderoso e pagavam com suas dores os pecados de seus pais. Eram um exemplo, um aviso aos sãos de agora para que não pecassem nem agissem contrariamente às Leis da Torá, tanto a escrita quanto a falada, pois sobre todos pesava a ameaça de um dia serem jogados naquelas condições miseráveis suas descendências porque tiveram ofendido ao terrível Jeovah, o Impiedoso. E se havia algo que os hebreus defendiam e zelavam com muito cuidado era sua descendência.

O silêncio e o constrangimento se fez entre todos os discípulos. Eles compreendiam que Yehoshua era um ser especial, mas daí a serem levados a se misturar com a escória era outra história. Qerioth era o mais interessado e o mais curioso, além de ser aquele que não se incomodava com ser misturado aos rejeitados, visto que ele mesmo o era também.

As mãos trêmulas e temerosas se estendiam num pedido mudo de ajuda. Olhos lacrimejantes de pranto silencioso. Cabeças abaixadas de pessoas desiludidas. Gente se encolhendo e lançando olhares de desesperada esperança para aquele homem de figura altaneira, olhar sobranceiro e gestos suaves. Parado, Yehoshua passeava o olhar sobre a enorme e quase interminável fila de gente que se encolhiam junto aos muros e às pedras da tortuosa rua estreita e cheia de dejetos. Seus olhos se enxeram d’água e ele murmurou com a voz embargada:

— Nenhum filho de meu Pai merece tamanha miséria. Que vós todos sejais curados, mas que recebais conforme o merecimento que tenhais diante do Juízo caridoso de vosso Pai Celestial”.

Poucos foram os que ouviram suas palavras. Na verdade apenas Cefas, André Barjonas e Bartolomeu, que estavam praticamente colados ao Mestre.

Um grito de susto e alegria explodiu ao longe. Era de uma mulher que se pôs de pé com as mãos ao alto. Ela gritava entre prantos: “Eu vejo! Eu posso ver novamente! A luz de meus olhos me foi devolvida por Yaveh! Bendito seja seu santo nome!”

E logo outro grito. E outro, e mais outro. E centenas de homens e mulheres se punham de pé aturdidos com o milagre da cura que lhes acontecera subitamente. Não todos foram curados. A grande maioria continuou como estava, olhando com inveja para os que choravam de alegria, satisfação e espanto com o que lhes acontecia. Mas muitos dentre estes sentiram uma mudança profunda em suas dores e o abatimento que os mantinha ali, rancorosos de dependerem da caridade dos outros. Um bem-estar quente, que sossegava seus corações. E eles também choraram. Não saberiam jamais dizer a razão de seus prantos, mas choraram. E ao chorar, suas lágrimas aliviavam seus corações revoltados contra a sorte ingrata que os jogara naquelas condições de penúria extrema.

Cinco mulheres que tinham sido curadas da tuberculoso que as atormentava com falta de ar e tosse sangrenta avançaram, trêmulas, em direção ao Rei dos Reis. Próximo d’Ele, jogaram-se aos seus pés em pranto e aos soluços diziam:

— Tu… Tu nos curaste. Nós não mais sofremos com a dor da tosse sanguinolenta que nos atormentava. Bendito seja tu, que vens em nome do Senhor!

A elas outros e mais outros vieram temerosos, mas deslumbrados, ajoelharem-se diante de Yehoshua que, parado e imóvel, mais parecia uma estátua. Então, ele pigarreou e levantou os braços pedindo que todos se acalmassem e se sentassem. Enfermos e curados fecharam um círculo diante dele, todos de olhos pregados em sua augusta figura. E Yehoshua lhes falou.

Irmãos meus, sois filhos do Altíssimo. Em nada sou eu superior a vós, senão que avancei mais no caminho em direção ao nosso Pai Celestial. Não O chameis mais que Pai, visto que nenhum nome entre os homens O pode designar. E crede em mim: eu não os curei, mas os que foram curados são os que encontraram diante da Justiça e da Caridade Celestial a Piedade porque tiveram seus corações purificados pela dor e pelo sofrimento. Crede em mim: revolta, raiva, rancor, incapacidade de aceitar com resignação o que recebestes por merecimento pelos vossos atos, vossas palavras e vossas ações é que impede muitos dentre vós de obter a cura para vossos corpos martirizados. Mas eu vos digo em verdade que só o corpo é o torturado. Vossos Espíritos não podem ser punidos pelos erros de vossas Almas. No entanto, se desejais que vossos espíritos retomem nas mãos o bem-estar de vossos corpos decidais por vossas próprias vontades abandonar o mau pensar e o mau agir. Sede humildes, pois o Senhor dos Sete Céus é o mais humilde dentre todos os Deuses que possais imaginar. E a Ele, visto que é humilde e caridoso, cabe todo Poder e todo Amor. 

— Não mateis mais, que a Vida não vos pertence para que a tomeis a alguém;

— Não mintais mais, que a Mentira é a Escuridão que cega o Espírito e envenena a Alma;

— Não levantai mais falso testemunho, que tal ação indigna torna vossa língua mais venenosa que a víbora do deserto;

— Não guardeis em vossos corações rancores inúteis contra qualquer irmão vosso, visto que todos sois filhos de um Único Deus, não somente os hebreus;

— Não vos deixeis levar pela luxúria, visto que a beleza do corpo é fugaz e ilusória e o que permanece são as ações boas ou más. As primeiras para vos engrandecer perante o Pai Celestial; as segundas para vos acarretar dores que vos mostrem o caminho correto da Salvação;

— Não levanteis falso testemunho contra vosso irmão apenas para tomar o que nem a ele nem a vós pertence. Pois os tesouros da Terra são da Terra e nenhum homem poderá levar um grão de pó consigo, quando daqui se for;

— Não vos revolteis se a vós não for concedido por Nosso Pai Celestial as benesses e as riquezas que a outros são prodigalizadas. Em verdade em verdade eu vos digo: a riqueza terrena é a maior provação que um Espírito Humano pode enfrentar. Em vez de invejar os que levam esta canga pesada nos ombros, orai por eles, pois sendo irmãos tendes vós o dever fraternal de pedir proteção para os que tudo têm, menos o sossego do Espírito daqueles que nada têm.

— Andai por este mundo distribuindo toda a Caridade e toda a Piedade de que todo Espírito Humano é rico. Trabalhai na seara do Pai Celestial, em silêncio, com dedicação e afinco, para que Ele vos desperte as qualidades que todos vós tendes em vosso íntimo e, deste modo, possais, como eu mesmo o faço, prodigalizar alívio aos sofredores e descanso aos caminhantes.

— Não desprezeis o que digo: trabalhar vossa seara íntima é muito mais árduo e difícil que lutar em qualquer campanha nos sangrentos e inúteis Campos de Marte em que vos matais bestialmente. No entanto, se buscardes fazer que vosso campo espiritual floresça e germine bons frutos, então, voltai-vos para vosso interior e orai em silêncio ao nosso Pai, meu e vosso, e eu vos garanto que Ele vos ouvirá e vos atenderá no silêncio da simplicidade e do Amor.

O silêncio era total e todos os olhares, dos curados e dos que ainda sofriam suas dores, prendiam-se ansiosos ou esperançosos naquela face esplendente de luz e paz. Então, de repente, Yehoshua rodou nos calcanhares e andando tão depressa que era difícil a seus discípulos o seguirem, voltou à mata de onde havia saído para realizar aquele milagre coletivo. Em uma das curvas do caminho, já bem adiante de seus discípulos, ele sumiu. Ansiosos, seus homens O buscaram por todos os recantos onde sabiam que ele gostava de ficar. Em vão. Ele não foi encontrado. Reuniram-se, aturdido, no lugar de onde tinham saído para aquele acontecimento sobre-humano e, sentados, confabulavam entre si sobre o que tinham visto e ouvido.

Enquanto isto, em Cafarnaum os curados espalhavam o espanto e a incredulidade entre os “bons e sãos”. Pela descrição do milagreiro capaz de tamanha façanha os que ouviam os relatos identificavam o jovem Yehoshua, o filho do Construtor Yoseph. Mas ainda assim duvidavam do que ouviam. Como podia um jovem simples, sem qualquer destaque que não sua erudição nas Escrituras, fazer o que os curados afirmavam que fizera? Logo a cidade era uma confusão de opiniões as mais desencontradas. E logo os cinco rabis que ali pregavam corriam a se reunir alarmados.

Eles não viam as curas como algo bom. Viam-nas como um perigo iminente para o rei Herodes, os Sacerdotes do Templo e até mesmo para os kittins. Se a crença num milagreiro maior que todos os demais se espalhassem entre o povo de Israel, o perigo de uma guerra sangrenta era iminente. Deviam ir relatar o que tinha acontecido a Caifás e Anás. Certamente eles saberiam o que fazer.