Yehoshua

Ele aproveitava qualquer momento para pregar sua Boa Nova. E assim ia traçando seu caminho rumo ao Gólgota.

Os apóstolos estavam atônitos. Yehoshua, depois das curas milagrosas que pusera Cafarnaum em rebuliço simplesmente havia desaparecido. Parecia até que a terra o tinha engolido.

— O que vamos fazer? — Perguntou Cefas a Bartolomeu que, depois de um demorado silêncio, respondeu que o melhor que tinham a fazer era permanecer em Cafarnaum e esperar pelas notícias que certamente surgiriam a respeito de mais milagres levados a efeito pelo Mestre. Ao que parecia, ele estava totalmente entregue àquela missão, ou seja: dar testemunho da entidade misteriosa a que chamava de Pai, custasse o que custasse. Ali mesmo, em Cafarnaum, a balbúrdia era grande. Uns, os que de alguma maneira tinham sido beneficiados pela ação assombrosa de Yehoshua, defendiam-no e ao seu modo de interpretar a Torá escrita. Também lhe davam razão quando combatia sem piedade a Torá oral, aquela que tornava qualquer ação um insulto a Yaveh. A cisão era clara entre o povo. Os que não tinham assistido aos feitos assombrosos do “milagreiro” ou ainda não o tinham ouvido pregando nas sinagogas davam apoio irrestrito aos rabis que combatiam furiosamente não somente a posição de Yehoshua contra o Templo e suas Leis orais, como também os milagres que ele realizava em nome do tal Pai misterioso.

Yehoshua o doutrinador

No início de seu trabalho, ele desnorteava seus discípulos.

Uma semana se passou sem que os aturdidos discípulos soubessem qualquer pista sobre o paradeiro de Yehoshua. João Mozzer, o mais alegre do grupo, sugeriu que permanecessem ali mesmo. Com toda a certeza Yehoshua faria algo assombroso em algum lugar e eles saberiam para onde ir. Enquanto isto, sugeriu ele, que tal angariar fundos para o sustento do grupo? Houve um longo debate sobre como fazer isto e finalmente concluíram que o melhor era se darem a conhecer como os seguidores de Yehoshua. A fama de “milagreiro” que ele angariara era o suficiente para que as pessoas não se negassem à contribuição. A negativa poderia fazer cair sobre a cabeça do usurário a fúria do Pai Celestial de Yehoshua…

E já na semana seguinte souberam que um jovem milagreiro estava atraindo muita gente da Celessíria para Cesaréia de Filipe. Curas milagrosas eram realizadas em multidões e o jovem pregava uma nova doutrina que estava chamando a atenção dos habitantes da cidade. Ele era bem aceito, visto que Cesaréia era cosmopolita. Ali não viviam somente hebreus. Havia mais gregos, sírios, egípcios e outros povos que judeus propriamente dito. Os discípulos apressaram-se a ir em busca de Yehoshua. Não reclamavam de seu modo estranho de desaparecer e aparecer longe deles. Já começavam a aceitá-lo como um Senhor acima de qualquer outro ser humano. Era já quase a 12ª hora quando finalmente o encontraram sentado sob uma figueira, à beira de um poço, cercado por viajores das mais diversas paragens. Havia muitas mulheres judias, mas eram raros os homens deste povo. Os que ali estavam, pelas vestimentas e pelas mãos calosas, eram pobres trabalhadores no campo. Yehoshua parecia tranqüilo e feliz. Seus discípulos tomaram assento diante dele, mas o Mestre pareceu não os ter notado. Ele não pregava propriamente dito. Ouvia perguntas e dava respostas. E naquele momento um homem, egípcio, lhe dirigia uma pergunta.

— Diz-se que tu és da Galiléia. Então, não és judeu puro. É por isto que falas contra as Escrituras dos judeus?

Yehoshua olhou em silêncio para o homem. Um gigante de pele morena escurecida pelo sol causticante do deserto. Ele sustentou o olhar do Mestre sem se mostrar nem agastado nem temeroso. Finalmente, Yehoshua falou.

— Sim, não sou da Judéia e sim, sou da Galiléia. Mas não falo contra os livros sagrados dos judeus, que são válidos também para os galileus. Apenas, e já o disse muitas vezes, vim para trazer um novo modo de se entender meu Pai. Os livros antigos estão ultrapassados. Neles há mais temor ao Pai do que amor a Ele. Se tu temesses teu pai que sempre é bom contigo e te protege a vida dia e noite, achas que ele gostaria de saber que ainda assim tu o temes? Não preferiria ele que fosse amado por ti?

— Com certeza que eu creio que ele não gostaria de saber que eu o temo — respondeu o homem, despertando interesse em toda a platéia que, na observação de Yehudhah ish Qeryoth, chegava aos cinqüenta.

— Pois é isto que vim fazer. Vim trazer a boa nova e esta é justamente resumida em duas sentenças.

— E quais são elas, rabi? — Perguntou uma mulher jovem, embora maltratada pela vida dura de pobre que levava. Seus dentes estavam estragados e os da frente já não mais existiam. Yehoshua olhou-a com ternura e respondeu.

Ele falava às multidões e mesmo que a platéia fosse grande, todos o ouviam muito bem.

Ele falava às multidões e mesmo que a platéia fosse grande, todos o ouviam muito bem.

— Elas são: Amai a Deus de todo vosso coração; com todas as vossas forças. E amai ao vosso próximo como amais a vós mesmos. Não façais aos vossos irmãos o que não desejais que se faça a vós e ajudai-os, mesmo que não recebais paga por isto. O Pai nos dá com abundância sem nos cobrar nada. Sigamos Seu exemplo. Se puderdes fazer isto de todo vosso Ser, então, não precisareis de rabis nem de livros para vos indicar o caminho da Salvação, pois este caminho está convosco desde a criação do mundo. Buscai-o dentro de vosso Ser, dentro de vossos sentimentos. Descartai os maus pensamentos que estimulam maus sentimentos e levam a más ações. Sêde donos de vós mesmos, pois vossos corpos são vossos mundos, visíveis e invisíveis. Voltai-vos para este último, que requer esforço para que vos recuseis às ilusões fáceis do visível. Não vivais para comer e vos divertir, nem vivais para cobiçar o que é de vosso próximo. Aceitai com resignação o que o Pai vos dá, visto que Ele sabe porque o faz. Ninguém está aqui sem que seja de Seu conhecimento. Ele sabe tudo o de que necessitais e vos dá exatamente na medida certa do que precisais para encontrardes o caminho em vosso íntimo. E quando o encontrardes ficai certos de que o mundo exterior não mais terá força de atração sobre vós. Então, estareis verdadeiramente no caminho certo. 

— E se este próximo for um… kittin? — Balbuciou a mulher, com medo.

O fato de alguém ter nascido em local diferente da Judéia ou da Galiléia ou da Fenícia ou da Traconítide não o torna inimigo vosso, minha irmã. Deveis respeitá-lo em seus costumes e em suas crenças, se não puderdes mostrar-lhe o caminho mais fácil, pois o homem nunca encontrará na Terra nenhum caminho que não o conduza ao meu Pai Celestial. Uns podem ir por um caminho mais fácil e menos sofrido; outros, por caminhos mais longos e mais cheios de dores e rangeres de dentes. Mas todos chegareis a Ele, pois d’Ele viestes e forçosamente a Ele tereis de retornar. O fato de lhe dar, ao vosso irmão, o direito de ser e praticar o que é e o que pratica, não deve ser motivo para que o desprezeis. Um dia poderá haver em que tu venhas a necessitar da ajuda daquela pessoa e se tu a respeitaste com humildade e companheirismo, certamente que ela te auxiliará com a mesma atenção.

— Um kittin? Tu nos dizes que um kittin faria isto? — A voz era de Qeryoth. — Perdoa-me mestre, mas esse povo, os romanos, não são senão animais em forma de gente.

Muitas cabeças assentiram em silêncio. Yehoshua sorriu e respondeu.

— Qeryoth, quem tomou da sica e feriu primeiro: tu ou um kittin?

Qerioth sempre levava uma lição dura de seu Mestre, mas seu orgulho e seu patriotismo doentio não o deixava perceber o caminho que lhe era apontado.

Qerioth sempre levava uma lição dura de seu Mestre, mas seu orgulho e seu patriotismo doentio não o deixavam perceber o caminho que lhe era apontado.

Houve um momento em que todas as cabeças e todos os olhares se voltaram para Yehudhah ish Qeryoth. Os hebreus logo o reconheceram como o líder da seita dos sicários e alguns se inquietaram em seus lugares. Qeryoth pigarreou e devolveu os olhares com outro, ameaçador. As cabeças se abaixaram e os olhares foram desviados dele.

— Quem fez tua fama de mau, um kittin ou tu mesmo?

Houve um prolongado silêncio, durante o qual Yehudhah se manteve impassível, olhar pregado nos olhos do Mestre. Não havia senão desprezo pelo resto, em seu coração.

— Em verdade, em verdade eu vos digo: o homem traça para si o caminho que deseja seguir. Pode negar isto com veemência, mas ninguém na Terra vive uma fração da hora em sua vida além do momento atual sem que os acontecimentos dentro daquele momento não tenham sido adredemente traçados por suas palavras, seus pensamentos e seus sentimentos. O ódio e o temor que tua presença leva os teus irmãos a sentirem diante de ti não são coisas deles, mas conseqüências do que tu fizeste anteriormente. Já te vi entre homens que desconheciam tua má fama e eles, porque não te conheciam, não tiveram nenhuma reação negativa em tua presença. Os romanos têm seu Imperador e a ele acreditam que devem obediência cega. Talvez isto seja necessário para que se mantenham coesos como uma Nação, visto que neste mundo quem não domina é fatalmente dominado. Este modo de viver é totalmente contrário à Lei de meu Pai, Yehudhah. Os homens são, todos, sem exceção, seus filhos e como um bom pai ele quer que vivam em harmonia. Mesmo que trajando roupas diferentes e tendo crenças, costumes e hábitos diversos entre si, todos deviam viver em respeito mútuo e sem desejos de conquistas, pois nada aqui pertence a nenhum homem. Tudo é de meu Pai e tanto assim é que a ninguém é permitido que leve nem mesmo um grão de mostarda, quando, morto, seu Espírito sobe ao encontro do Pai Celeste. 

Houve um murmurar longo entre os presentes e Yehoshua não falou até quando o silêncio voltou a se fazer.

— Ao Pai pertence tudo o que diga respeito ao homem vivo na terra — disse o Mestre, quando os olhares voltaram a se fixar nele. — E o Pai dá ao filho que o ama o que este filho desejar.

A mulher desdentada levantou a mão e perguntou:

— Só ouvi alguém falar que Yaveh é bondoso, hoje. Nas sinagogas os rabis pregam temor a Ele e o apresentam como uma entidade todo-poderosa, que está pronto a punir com rigor a qualquer um que desobedeça a Lei. Então, quem é esse Pai a quem tu te referes sempre?

— Teu criador. Meu criador. O Criador de tudo o que vive. O Criador do céu e da terra e de tudo o que neles há.

— Se Yaveh é bondoso, como tu podes provar isso?

— E por que eu teria de prová-lo a ti? Pede com fé; pede com contrição; pede com amor verdadeiro o que desejas e com certeza, eu to garanto, Ele te atenderá.  

— Se eu rogar um milagre a Jeovah, agora, ele o faria para mim?

— Fecha teus olhos e roga em teu íntimo o que desejas. Mas faze-o com fé. O milagre se fará em ti.

Grande expectativa surgiu súbito na platéia e todas as cabeças se voltaram para a mulher que, de olhos fechados, rogava a Yaveh que lhe devolvesse os dentes estragados e um hálito perfeito. Por quase uma hora todos esperaram, mas nada aconteceu. Então, todos os rostos se voltaram para Yehoshua. Este, pôs-se de pé e rogou em voz alta.

— Pai que nos ouve e assiste. Peço-te de todo meu coração que ouças nossa irmã. Não é que ela não tenha fé, mas é que em seu coração há um medo desarrazoado em se dirigir a ti. Antes de o fazer, ela se julga da pior maneira que alguém se pode julgar: culpada de uma montanha de pecados que, na verdade, não existem. Sei que diante de ti os pecados dos homens não têm valor. Só há um pecado real para Ti, meu Pai: a falta de amor e devoção por ti. E disto esta irmã que te pede o milagre não é culpada, visto que o medo lhe foi instilado por línguas viperinas e mentes sujas.

Novamente um pesado silêncio se fez. A mulher, então, arregalou os olhos e levou as mãos à boca.

— Tem alguma coisa crescendo dentro de minha boca! — Gritou, alarmada. — Alguma coisa que… que…

Ela meteu os dedos na boca e gritou de susto.

— Meus dentes! Eu tenho dentes, novamente. Jeovah, bendito seja seu nome, atendeu os meus rogos!

Um murmúrio cresceu entre os presentes e todos se voltaram para a mulher, cercando-a e lhe pedindo que mostrasse a boca. Sim, ali estavam dentes alvos e perfeitos. A bulha foi grande. O burburinho cresceu e quando a turba, finalmente, se voltou ansiosa para onde estava Yehoshua só viram as pedras da borda do poço. Nem ele nem qualquer de seus discípulos estavam mais ali…