Eles o seguiam fascinados pelo Poder que d'Ele emanava naturalmente.

Eles o seguiam fascinados pelo Poder que d’Ele emanava naturalmente.

A cidade de Séforis e a de Tiberíades eram grandes e muito cosmopolitas. O comércio nelas era agitado e os povos que por ali transitavam não eram fixos. Comerciantes e empreendedores de várias partes do mundo de então, elas tinham populações flutuantes. Por isto, Yehoshua não se empenhou em pregar nestas grandes e movimentadas cidades. Sua preferência era por Cafarnaum, às margens do Mar da Galiléia, por cujas praias Yehoshua demonstrava ter amor. Então, foi para lá que o Mestre se dirigiu quando saiu do poço em Cesaréia de Filipe. Andaram rapidamente os quase trinta e cinco quilômetros que separavam as duas cidades. Chegaram a Cafarnaum à décima hora (dezesseis horas em nosso horário atual) do dia seguinte àquele do milagre dos dentes da mulher no poço em Cesaréia de Filipe. Tinham passado a noite em um bosque, afastados das gentes que os procuravam afanosamente buscando algum milagre que lhes aliviasse o peso daquela dura vida que levavam. Eram gente comum, a maioria sem propriedade e que, por isto, ou se alugavam como escravos aos latifundiários das terras palestinas, quase todos estrangeiros, ou labutavam como meeiros, quase não possuindo nada de seu do que produziam. Agora, Yehoshua se encaminhava para os arredores da cidade, um local onde havia uma elevação com aclive suave. Tão logo foi reconhecido e já uma multidão de gente pobre começou a se formar para o seguir. Muitos o temiam e o tinham por um poderoso mago; outros o temiam porque o tinham por enviado de Satã, pois assim o descreviam os rabis locais. E a grande maioria O seguia para ver com os próprios olhos os milagres que se dizia que fazia. Mas a maioria, a quase totalidade dos desesperados esperava obter dele o que não podiam conseguir em nenhuma outra parte da Terra: saúde.

Do que Ele mais gostava era de falar às multidões. Não fazia distinção entre as pessoas, desde que não fossem egoístas e más de coração.

Ele hipnotizava as multidões com suas palavras certas e colocadas nos momentos necessários.

Yehoshua se posicionou sobre uma pedra, sentado, e esperou que a multidão que crescia a cada instante fosse se acomodando ao longo do largo pedregulho. Então, quando achou que sua platéia estava de bom tamanho, começou a falar.

— Tenho ouvido que dizem de mim que sou enviado de Satã, mas eu vos pergunto: pode um enviado do inimigo de meu Pai fazer as cousas que eu faço? Pode um enviado do inimigo de meu Pai sarar os doentes e recuperar as mentes dos ensandecidos? Pode um enviado de Satã ser caridoso e praticar a piedade como eu vos exemplifico? Até onde sei, há, sim, inúmeros enviados de Satã, mas estes todos sois vós que mentis, que abrigais a inveja e a maldade em vossos corações, que traís a confiança de vossos irmãos e que desejais o que a eles pertence por trabalho justo e honesto. Quereis a cura de vossos males, mas eu vos pergunto: o que tendes feito de bom e piedoso para que mereçais o que desejais agora? Primeiro, vós adoeceis vossas almas e estas, doentes por vossos pensamentos, vossos sentimentos e vossas ações, adoecem vossos corpos, pois em verdade em verdade vos digo que o corpo reflete o que a alma guarda em segredo. Ainda assim, quando estais expondo aos olhos de todos as doenças de vossas almas, sem qualquer arrependimento, ainda que freqüentem o templo para realizar vossas oferendas inúteis, abrigais em vossos corações a esperança de que o Pai Celestial vos socorra e vos conserte. Se não desejáveis ficar doentes, por que fizestes por onde merecer a doença?

Entre os que estavam ali havia muitos curiosos e entre estes, espiões dos rabis que O temiam. Nem todos eram mendigos ou doentes. Um daqueles espiões pôs-se de pé e fingindo humildade perguntou:

— Rabi, a Lei nos diz que se temos doenças ou se somos tomados por demônios, isto acontece porque nossos pais pecaram contra Yaveh, bendito seja Seu nome. Mas tu nos dizes que as doenças e as possessões que se assenhoreiam de nós é resultado do adoecimento de nossas Almas. Então, a Lei está errada?

Yehoshua mirou na face do homem que não se agastou e permaneceu de pé, desafiadoramente. Um murmúrio se fez entre os presentes e muitas cabeças se moveram para o olhar e voltar a mirar o pregador com demonstração de tensão.

— Quem fez a lei a que tu te referes? — Ouviu-se, súbito, a voz de Yehoshua quebrando o silêncio expectante que se tinha feito.

— Os profetas, principalmente Moisés — respondeu o homem com firmeza e em voz alta para que todos o ouvissem. — Em Deuteronômio está escrito que Yaveh disse a Moisés, em relação aos ídolos adorados pelos pagãos, que o povo hebreu não deve se prostrar diante deles nem lhes prestar culto, porque o Altíssimo é um Deus zeloso, que visita os pais nos filhos até a terceira e quarta gerações daqueles que O desprezaram. E no Primeiro mandamento dado a Moisés e repetido em Deuteronômio diz bem claramente: “Amarás ao Senhor Teu Deus sobre todas as coisas, de todo teu coração, de todas as tuas forças”. A doença, então, ensinam os rabinos, é a visita do Senhor à descendência do homem que não cumpriu sua Lei. Mas tu pregas o contrário. Por que o fazes? Não és crente na Lei?

O murmúrio que se fizera, antes, agora era inquietante. Aquele homem era Abimael, um grande entre os grandes rabis itinerantes do Templo de Jerusalém. E suas palavras eram verdadeiras na Lei.

Os rabis temiam a fala de Yehoshua. Ele subvertia a Lei e arrastava atrás de si uma multidão de revoltados que bem podiam-se transformar em grande dor de cabeça para o Templo.

Os rabis temiam a fala de Yehoshua. Ele subvertia a Lei e arrastava atrás de si uma multidão de revoltados que bem podiam-se transformar em grande dor de cabeça para o Templo.

Yehoshua deixou que a assistência se inquietasse e para isto manteve silêncio por alguns minutos. Abimael, vendo-o em silêncio, exultou e abriu os braços para os presentes, num gesto muito significativo de depreciação ao falso profeta. Mas Yehoshua falou. E quando suas palavras soaram, o silêncio se fez, expectante.

— Então, segundo tua interpretação e a daqueles a quem chamas de rabinos (e o Mestre frisou bem estas palavras), o Demônio é um serviçal de nosso Pai e, não, Seu inimigo.

Yehoshua fez uma pausa e também abriu os braços em resposta ao gesto depreciativo do rabi itinerante. E prosseguiu, quando viu que os olhares se voltavam para seu desafiante.

— Sim, porque sendo, Aquele a quem chamais Yaveh, nosso Pai, a Perfeição do Amor em sua manifestação infinita, ainda que esta Sua Excelsa qualidade não seja plenamente apregoada nos livros dos Profetas, não pode ser, Ele mesmo, Aquele que pratica a vingança. Embora as Sagradas Escrituras dos hebreus afirmem constantemente que nosso Pai, o Pai de toda a humanidade, prima pelo rancor, pela vingança e pelo assassinato em massa…

— Blasfemas! — Urrou furioso o rabi itinerante. — Só por estas palavras tu mereces a lapidação!

— Eu?! — Exclamou Yehoshua fingindo espanto. — Então, o que dizer de Josué que narra que Jeovah alegou ter introduzido os hebreus nas terras dos amorreus e, depois, entregou a estes nas mãos dos adventícios hebraicos para que eles os passassem a fio de espada? Não é este procedimento indigno de um bom Pai? Sim, não podes negar que todos os homens nasceram de um só, aquele que o Criador de Todas as Cousas fez com o barro da terra.  E se todos viemos ao mundo sob sua ordem absoluta a  partir daquele primeiro homem feito do barro, como consta no Gênesis, onde se registra esta ordem na forma peremptória do “crescei e multiplicai-vos”, todos somos filhos de um único pai e todos somos irmãos. Eu  estou errado? Estou inventando tudo isto? Não, não estou. O que digo aqui está escrito nos livros sagrados do povo hebreu. E aí eu te pergunto: como pode, então, o Pai Supremo autorizar a uma porção de seus filhos que passe a fio de espada outra porção? Quem dos aqui presentes cometeria tal barbaridade com sua prole? Quem os incentivaria a se tornarem inimigos entre si?

Yehoshua silenciou e o silêncio pesou sobre todos os presentes, que se voltaram expectantes para o rabi itinerante. Mas este também ficou calado. Yehoshua, então, prosseguiu.

— Em Gedeão está escrito que o Senhor Deus dos hebreus se jacta perante o povo, através de um Seu enviado, de ter lançado fora os amorreus e entregado aos hebreus as terras daqueles. Que pai que assim procedendo com seus filhos, dividindo-os e deixando que a parte preferida sua assassine a parte à qual vota inimizade, merece consideração e respeito? Por acaso a Lei não mandaria que tal pai também fosse lapidado? Pois não é dever dos pais hebreus ensinar aos filhos que se amem e se respeitem e poupem suas vidas mutuamente?

Novamente todas as cabeças se voltaram dele para o rabi Abimael e o silêncio deste se fez pesado sobre todos. Yehoshua deixou que o eco da sua defesa falada em alto som terminasse de penetrar fundo nas mentes dos que ali estavam, observando-lhes a reações que eram as mais diversas. Iam da dúvida à aceitação da acusação gritada contra ele por Abimael. Então, falou. E sua voz novamente soou como um trovão dentro do silêncio.

— Se O Pai Celestial de todos nós assim fosse, cruel e divisionista; se agisse com preferência entre seus filhos, este Pai Celestial a quem chamais Yeveh seria rancoroso e punitivo e, então, não poderia Ele castigar a vingatividade, a mentira, a falsidade e a rancorosidade em sua criação, o homem, visto que este é à sua Imagem e Semelhança e isto também se contém nas Escrituras do povo hebreu. Ou será que estou errado? Se o Pai Celestial é maculado pelos pecados comuns ao homem, Ele, para punir-vos, só se explicaria pelo envio do Demônio, o seu oposto, como seu emissário! Para que tal fosse possível, meus irmãos, deveria constar nas Escrituras que o Todo Poderoso, antes de tal ação vil, teria perdoado a insubordinação de Luzbel e o transformado em Seu instrumento de insana crueldade, mas isto não consta em nenhum dos livros sagrados hebraicos. Sim, porque com toda a certeza, nenhum Arcanjo de Luz seria enviado em missão tão covarde e má, pois os que possuem a Luz não praticam a iniqüidade. Talvez só o Demônio como emissário do Pai possa explicar a razão de tamanha injustiça d’Aquele que não tem mácula, mas que envia o maldito para punir os pecados dos avós ou bisavós em um inocente, que não participou da falta grave de seu ascendente de terceira ou quarta geração. Vós não podeis ver que esta interpretação da Lei é errada? Sois cegos a tal ponto?

Todas as cabeças se voltaram para Abimael, que se mexeu inquieto sobre a pedra onde estava de pé, mas não se deixou calar.

— Explica, então, ó Mestre dos pobres e mendigos, como é que a doença surge na descendência de um pecador e não surge na descendência de quem é justo e cumpridor da Lei?

Yehoshua riu um riso divertido e rebateu:

— Podes citar-nos ao menos um justo cuja ascendência ou descendência tenha sido absolutamente pura?

— Abraão — Gritou, jubiloso, Abimael. — Abraão viveu muitos anos e nunca sofreu males comuns aos pecadores. E não consta que algum descendente seu…

Vozes dissidentes passaram a citar inúmeros descendentes do patriarca hebreu que morreram de doenças impuras, o que fez que Abimael se calasse. O silêncio se prolongou sem que Yehoshua nada dissesse. E quando aquele silêncio começou a incomodar; quando Abimael se retirou aproveitando o silêncio pesado dos que miravam expectantes a figura imponente do Rei dos Reis, ele voltou a falar...