Ele me aprontou uma daquelas...

Orozimbo me aprontou uma daquelas…

Igreja cheia. Tudo gente de cor. Tudo negro mesmo. Cabelo de tuim, nariz tendente a chaboque, olhos negros e roupas mais ou menos conservadas, engomadas ainda com a goma de antigamente. E todos de terço nas mãos. Solenidade? Um batizado. Eu foi convencido a ir pelo meu amigo Orozimbo. Ele me disse que se tratava do batizado do primeiro filho de um professor da escola de seu netinho e que ele gostaria muito de me ter como convidado de honra. Eu nem conheço o sujeito, mas fui. Contrariado, mas fui.

Era de manhãzinha. A igreja tinha poucos fiéis e todos eram negros. Nem mesmo um mulato. Tudo negróide da silva.

Nós nos pusemos ao redor da pia batismal e a criança, negra retinta como seus pais, foi colocada nas mãos do padre. Este, após rezar em voz baixa e conjurar sei lá o quê, perguntou ao pai:

— Que nome pretende dar ao seu filho?

Houve um momento de silêncio que eu achei que era proposital. E era mesmo.

Batismo na Religião Católica de uma criança negra (notícias UOL de 11/2016)

Batismo, na Religião Católica, de uma criança negra (notícias UOL de 11/2016)

O padre ergueu o sobrecenho direito em sinal de interrogação. Então, no silêncio expectante que se fizera, ouviu-se a voz firme do pai dizer:

— Meu filho se chamará “João Paulino Irokô Brasileco Juizeco de Primeira Instância”.

Orozimbo levou a mão à boca para conter uma sonora gargalhada. Eu arregalei os olhos e mirei sua cara negra. O safado sabia de antemão o nome do menino e me tinha convidado ao insólito batizado para que eu presenciasse a cena. Eu não tinha sido convidado coisa nenhuma. Os pais daquela criança nem sabiam que eu existia na vida. Tinha sido armação de meu velho amigo. Ele é quem era amigo do professor que dava aquele estranho nome ao seu filho.

— O senhor quer repetir o nome que pretende dar a esta criança? — Pediu o Padre com cara de poucos amigos. O pai não titubeou:

João Paulo II devia estar se dobrando de rir, lá onde está agora.

João Paulo II devia estar se dobrando de rir, lá onde está agora.

João Paulino Irokô Brasileco Juizeco de Primeira Instância. — E explicou: — João Paulino é uma homenagem a João Paulo II, de quem nós somos admiradores, minha esposa e eu. Irokô é a entidade de nossa religião africana, primeiro filho de Oxalá, o mais velho Orixá e o mais resistente e trabalhador entre os Orixás. Os seus filhos são dedicados, resistentes às agruras e sofrimentos e são íntegros seja qual seja a situação em que se encontrem. Este país que nós, negros africanos, criamos e mantivemos através dos séculos, deve muito à minha gente, filhos de Irokô. Então, o nome deste Orixá na composição do nome de meu filho é uma homenagem a todos os negros, mas também é um pedido de proteção ao nosso grande Orixá. Agora, Brasileco é para lembrar a ele que jamais vai passar da condição de negro discriminado e que será sempre visto e renegado como um descendente de negros escravos, os mesmos que construíram com sangue, suor e lágrimas este paiseco que, grande em território, é humilhado e aviltado pelos brancos que se entronaram no Poder para se sevarem nele às custas de nosso sangue, suor e lágrias, como faziam seus ancestrais, que o diabo os tenha. Juizeco de Primeira Instância é uma homenagem ao Juiz de Primeira Instância que mandou prender os soldados do Mal, que servem aos Criminosos de Colarinho Branco contra o nosso povo, branquelos e negróides que trabalhamos duro, dia a dia, suamos e choramos e gememos sob o chicote do Quinto dos Infernos a que continuamos submetidos pelos branquelos que se arvoram em Deuses Intocáveis nas nossas Casas Legislativas. Também é uma singela homenagem ao Juiz de Primeira Instância, Sérgio Fernando Moro, o homem que representa este sexo com total integridade e honra, mas que foi desrespeitado por um patife que, quando Orokô quiser, vai terminar na cadeia. Mesmo que em cadeia privilegiada, será cadeia e isto maculará sua moral política para nunca mais retornar sobre nós. É o que todos esperamos. Inclusive o senhor, ainda que o senhor seja branquelo.

Um pesado silêncio se fez. O padre passeou o olhar pela multidão de negros e descentes, que, agora, estavam fechados ao redor da pia batismal. Ele hesitou um momento, mas os olhares de repreensão e intimidação o fizeram decidir acertadamente e realizou o batismo mais esdrúxulo que meus olhos já viram.

Terminada a cerimônia eu tratei de puxar meu velho amigo e retornamos para minha casa. No caminho eu lhe perguntei que diabo de idéia tinha sido aquela. Eu não conhecia ninguém dos que ali estavam.

— E apois — disse ele a título de início de prosa. — Véi cunvidô vancê pra vancê vê qui os nego véios tombém são sabido, num sabe? Aquele negão pai do neguim qui foi batizado, cuma eu já lhe dixe, é prefessô na iscola de meu netim. Ano qui vem ele vai sê o prefessô de Arthurzin, e véio quiria qui vancê cunhecesse o modo dele pensá.

Permaneci calado. Aquelas palavras me diziam que eu teria muita prosa sobre o tal professor…