Orozimbo me meteu numa camisa de onze varas...

Orozimbo me meteu numa camisa de onze varas…

Chegou com uma garrafa de garapa gelada nas mãos. Estendeu a garrafa para mim e foi sentar-se em seu toco. Encheu o cachimbo de fumo e pitou em silêncio durante um longo tempo. Chovia uma chuvinha fina, daquelas que realmente molham a terra. O ar estava muito úmido, ao contrário do que vinha acontecendo por estas bandas nos últimos nove meses, quando era seco e o calor sufocava. Então, quando já havia bebido seu café preto e sem açúcar, bateu a mão na cadeira que colocara ao lado de seu toco preferido, chamando-me para sentar. Obedeci, curioso. Era raro ele não entrar já conversando pelos cotovelos. Geralmente alegre, agora estava com ar preocupado. Sentei-me e o olhei, curioso.

— Home, cuma é o nome do negão qui manda nos tar de americanu?

— Obama — respondi. — Por que?

— É verdade qui ele vai intregá o manto de chefe daquele povo pr’este peste louro cum cara de bode dos inferno?

Ele representa o Espírito do Senhor das Armas, que encarna em todo aquele que se elege Presidente dos Estados Unidos da América.

“Olhaí, gente, o Trump vai trumpicar vocês. Tratem de consertar o erro ou…”

— É — respondi, curioso. — Por que você está preocupado com o que acontece a muitas léguas d’aqui?

— É isso qui este véio vei sabê cum vancê. Se o negão foi um bom chefe daquela tribo de branquelo azedos, pruquié qui tem de passar o bastão pro peste louro?

— Democracia, meu amigo. Democracia. O Obama tinha prazo para governar. Chegou ao fim este prazo. Agora, depois que o povo escolheu o Trump, ele tem de deixar o palácio de governo americano, chamado de A Casa Branca, para…

— Casa Branca?! — Estranhou Orozimbo.

— Sim. Por que?

— Mas num pudia sê Casa Preta, não? Afiná, quem tava lá dentro era uma famia de negos, num era?

— Ih, Orozimbo, isto é uma longa história. Talvez tenha haver com o fato de que os Americanos do Norte sempre tenham sido racistas e o Símbolo Máximo do Poder lá no país deles não podia deixar de exaltar o Poder Branco.

— Mermo?! — Espantou-se ele, olhando-me com assombro.

A Luz chegava à Casa Branca com uma família de negros...

A Luz chegava à Casa Branca com uma família de negros…

— Não, não. Na verdade, não sei a razão de denominarem aquele prédio de A Casa Branca. Verdade é que ele é todo pintado de branco, assim como na Argentina o prédio do Poder Governamental Federal se chama de A Casa Rosada e o prédio realmente é pintado de rosa. Mas a fundamentação para que as cores dos prédios designarem a residência dos mandatários máximos desses países eu não sei. E se quer saber, não estou nem aí pra isto. Não aumenta um grama de comida no meu prato. Então, pra que vou esquentar os miolos buscando conhecimento inútil? Meu tempo para isto já passou faz tempo…

Orozimbo me considerou por um tempo, suspirou e deu de ombros.

A Escuridão ameaça cair sobre a Casa Branca com o branquelo destrambelhado.

A Escuridão ameaça cair sobre a Casa Branca com o branquelo destrambelhado.

— Tá certo. Vamo deixá pra lá as isquisitice deles, né não? Mas véio qué mermo sabê pru qui é qui o negão bão tem de passá o bastão pro brancão mau. Óia, sabe o professô qui deu aquele nomão isquisito ao fio dele? Apois bem, ele tava falando pra nóis, os pais dos pestinha qui ele vai tê de aguentá ano qui vem, qui o desbotado cum cara de jumento cum fome num é quirido pela metade mais meia-dúzia do povo de lá. E qui ele vai sê munto ruim pro Brasil. Ora, a gente já tem sarna pra se coçá que tá sobrando, num sabe? Entonce, véi ficô se preguntando pra qui diabo vamo tê de nos coçá cum os destrambelho do branquelo azedo do lado de lá. Pru qui é qui, num sendo querido pelo povo de lá, ele vai assumi o comando? Pru qui é qui o povo se arrevorta contra o peste, se foi o povo mermo qui escolheu ele?

— Bom… — encalacrei. Como explicar para um ex-escravo que nasceu dois séculos atrás, o que era o conceito e o sistema democrático? Pior, como explicar o sistema Republicano-Democrático que muitos países, inclusive o nosso, afirma adotar, mas que é pura mentira?

— Bão…? — Insistiu ele, todo interessado.

"Me escolheram? Agora vou enfiar até o cabo! Guenta, povão!"

“Me escolheram? Agora vou enfiar até o cabo! Guenta, povão!”

— Bom, na verdade não foi o povo mesmo que escolheu o Trump. Se fosse pela vontade do povo, ele não teria ganhado as eleições. A Hilary é que teria levado o bastão, entende?

— Nhor não. Se ele num foi o escoído, entonce cuma é qui é quem vai governá?

— É complicado, mas vou simplificar. Vamos dizer que nesta cidade, que é composta por vários bairros, em cada bairro haja uma pessoa escolhida como representante dos moradores daquele bairro. Todos se unem para escolher um governante para toda a cidade. O povo é chamado a votar. Há dois candidatos. O povo escolhe o candidato A, mas os delegados preferem o candidato B. Então, B ganha o cargo de chefe da cidade, embora tenha sido A o preferido pelo povo. Está entendendo?

— Hum-hum! — fez ele, atento.

— Os Estados Unidos são assim. Para cada Estado há um número de delegados que representam as cidades ou grupos de cidades, quando estas possuem poucos habitantes. Os delegados é que representam os moradores do Estado. Como no caso dos bairros de que falei, antes. O povo vai votar e pode escolher alguém que, no entanto, não é o preferido pelos delegados. Então, mesmo que o escolhido pelo povo ganhe em número de votos, não será eleito, pois quem vai dar a última palavra são os delegados dos Estados que compõem os Estados Unidos. Entendeu?

Orozimbo ficou em silêncio, testa franzida, pensando. Então, abriu um sorriso e disse que sim, tinha entendido sim.

— Entonce, home, a questão é munto simples. Os americano qui num querem o branquelo se reúne e vai falá c’uns tais delegado. E diz a eles qui num querem o sujeito lourão burro. Diz quem eles qué. E se os delegado se metê a besta de num aceitá o voto da maioria, eles descem o pau nos cabras e pronto. Tá tudo decidido. Num é não?

Tive de rir da ingenuidade de meu amigo.

— Não é tão simples assim, meu caro. A começar pelo fato de que lá o voto não é obrigatório. Vota quem quer. Mesmo que só um punhado de americanos vote, os delegados, no final das contas, é que vai decidir quem leva o bastão. Então, com muito ou pouco eleitores, sempre são os delegados que vão dar a palavra final. E como é a Lei, eles não podem simplesmente chegar e descer o pé nos delegados.

Orozimbo ficou pensando um tempão. Então, voltou-se para mim e falou.

— Munto parecido cum o qui nos acuntece, num é não?

— Como assim?

"Égua! É assim que você ensina sobre nós do PSDB e do PMDB? Cuidado! Você está mal na foto..."

“Égua! É assim que você ensina sobre nós do PSDB e do PMDB? Cuidado! Você está mal na foto…”

— Ora, ninguém quiria mais os tar de PSDB no Puder do povo. Eles tavam fazendo uma merda danada. Entonce, o povão elegeu os peste do PT, pensando que eles ia arresorvê o rolo qui os do PSDB vinha fazendo lá im riba, no Governo de nosso país. Mas acuntece qui os diabo vermeio era munto pió do qui os pestes do PSDB e meterum a gente brasilera num buraco dando de fundo. Virarum tudo de cabeça pra baixo. Aí, o povão foi pras rua gritá contra a desgraceira. Num dava pra arresorvê as coisa no pé. Entonce, entrarum os de toga, cuma vancê chama os homão das Lei, e a muié que vancê chamava de A Doida do PT foi arretirada lá de riba à força, num foi ansim?

— Bom… Não foi bem assim. Os Togados não entraram na história da retirada da Dilma. Quem derrubou a dona foram os políticos que, sentindo a revolta do povo e percebendo que o melado ia entornar pra cima deles, trataram de satisfazer o povo. Mas não deu muito certo, porque o caldo entornou mesmo e, agora, todos estão feito ratos em navio que está afundando. Eles correm pra todo lado buscando um meio de não se afogar…

— Entonce, home, a históra vai se arrepeti lá nos Estados Unido, né? O povão vai esperniá inté os puliticus de lá retirá o peste louro… Este véio só ispera qui eles faça isto antes qui o caldo intorne. Inté pruqui o povo de lá é doido pur uma arma de fogo, né não? E o peste louro dá toda corda aos qui gosta de metê bala a torto e a dereito nos otros. Se num tivé cuidado, ele vai fazê uma guerra doida, num é?

— Não, meu amigo. Quem tem fiofó tem medo. O Trump pode ser destrambelhado, mas vai aprender rapidamente que no Governo o buraco é muito mais abaixo do que ele pensava. Vai ter de encarar o mundo todo e ele não é Maciste, nem Sansão nem Hércules pra peitar esta guerra.  Se ele provocar uma guerra vai ser a mesma coisa que fazer fogueira perto de barril de pólvora. A menor faísca vai fazer explodir o paiol todo e tudo se acaba. Ele é metido a cabra-cega, mas enxerga muito bem…

Orozimbo pensou um tempo. Então, pondo-se de pé, colocou a mão sobre meu ombro e falou, e sua fala me fez correr um frio pela espinha.

— Eta cabra bão qui vancê é, home! Agora este véi tem cuma argumentá cum o prefessô a respeito do maluco louro dos americanu. Basta arrepeti o qui vancê insinô e o home vai imbatucá. El vai fazê trump!

— Trump?! —Estranhei.

— Sim! Trump é quando um cabra da peste descuidado trupica numa preda e se esparrama todo no chão. É ansim qui meu povo negão entende Trump. Vancê trumpica e se arromba todo, ô xente!