Elas eram assim há 15 dias. Já dobraram de tamanho, hoje.

Elas eram assim há 15 dias. Já dobraram de tamanho, hoje, 1/12/2016.

Meu velho amigo sentou-se em silêncio e pitou com expressão introversiva na face. Parecia estar muito longe de seu toco predileto. Eu, por minha vez, não me preocupei com ele e fui cuidar da pequenina filhota da Atena. Sua irmã, a esta altura, está muito longe e para nunca mais nós a veremos de novo. Gozado, senti uma tristeza muito grande quando a sua dona (a mesma do cão que cruzou com nossa cadela) veio buscá-la para vender a uma senhora que mora no Tocantins. Fiz questão de não ver qual das duas ela escolheria. A alegria e o amor de ambas a mim me tocou fundo.

Às vezes ele vinha cheio de guias e nunca me deu explicação sobre isto. Desta vez também foi assim.

Às vezes ele vinha cheio de guias e nunca me deu explicação sobre isto. Desta vez também foi assim.

Quando, finalmente, vim sentar-me perto de Orozimbo ele me olhou em silêncio por um tempo e, então, me perguntou à queima-roupa:

— Home, vancê teme a morte?

Permaneci calado olhando-o nos olhos de jabuticaba que me miravam com curiosidade.

— Um pouco. Sim, tenho um pouco. Em relação ao que já senti quanto a isto, diria que estou com somente 25% do que já senti. Mas devo acrescentar que este medo não é meu mesmo; não é de meu espírito. É de meu elemental físico e eu sinto profundamente isto em meu íntimo. E, se quer saber, é muito bom ter-me livrado de um incômodo que me fazia angustiado quando me detinha para pensar no fato.

Orozimbo permaneceu calado um longo tempo, olhar perdido à frente. Então, sem se virar para mim, voltou a perguntar:

— O que fez vancê ter a certeza de que o medo que sentia da morte num era seu, mas desse tar de elementá físico?

— Yehoshua. Escrever sobre ele.

Yehoshua o doutrinador

“Vai. Livra-te de tudo o que tens e, então, quando não tiveres mais nada, vem e me segue”.

Orozimbo me olhou com o cenho franzido.

— Explico. Ele não tinha nada de seu. Andou pela terra o tempo todo com um par de sandálias extra e uma muda de roupa também extra. Além disto, uma pequena tesoura para aparar cabelo, uma faquinha para fazer a barba e um pente rústico. Além disto só um pedaço de sabão. Com apenas isto ele viveu tranqüilamente até ser crucificado. Foi embora sem ter nada que pudesse dizer “isto é meu”.

Orozimbo continuou a me olhar com curiosidade. Então, com um suspiro voltou a indagar.

— Só pruqui vancê iscreve sobre esse home aí, perdeu o medo da morte?!

— Quando a gente se centra no Homem de Nazaré, meu amigo, tudo muda dentro da gente.

— Tem argum pastô mitido nessa sua históra? — Perguntou Orozimbo com um olhar desconfiado para mim.

— Pastor? Evangélico?! Não, não. Eu não dou a mínima para a lenga-lenga deles. São mortos que vivem para enterrar seus mortos. São cegos que guiam cegos. Quero distância deles.

Gente como este homem me despertam asco. Eles insultam meu irmão, Yehoshua.

Gente como este homem me despertam asco. Eles insultam meu irmão, Yehoshua.

Orozimbo permaneceu calado um tempo. Então, com um suspiro, soltando aquela cusparada amarela, voltou a falar.

— Véi inté hoje num intende esse tar de Ye… Ye…

— Yehoshua — completei.

— Esse sujeitinho de nome inrolado aí. Véi sabe qui os branco impareiarum ele a Oxalá, filho de Olorum, mas véi sabe tombém qui um num é o otro. São dois ser diferentes. Bem diferentes mermo. Liás, ele é o tar de Jesus, num é não?

— Sim, é.

— Uma veiz, este véi te levô inté o mundo de dor dos isprito sofredô. Num foi isso qui fez vancê mudá de idéia, não?

— Não, meu velho, não mesmo. Aliás, para uma pessoa despreparada, ver o que vi só vai aterrorizar o coitado.

— Por que? — Estranhou ele.

O Hades é uma ilusão bem concreta para os que se vão ainda cheios de Personalidade.

O Hades é uma ilusão bem concreta para os que se vão ainda cheios de Personalidade.

— Ora, cada pessoa sabe muito bem dos pecados que cometeu e que esconde ciosamente do conhecimento de seus semelhantes. E cada pessoa, mesmo os que se dizem ateus e incrédulos, guarda no íntimo a esperança de que a tão temida “morte” não seja o fim absoluto. Se vê o que eu vi, com certeza sua força fica abalada. E começa a se perguntar se não irá para aquele lugar horrível, quando partir daqui. Pode crer: é muito melhor não se tomar conhecimento daquilo.

Orozimbo balançou a cabeça em sinal de assentimento. Depois de um momento calado, voltou a questionar-me.

— Bão, vancê dixe qui iscrevê sobre o home de Nazaré feiz vancê mudá em relação ao medo da morte. Pode me ixpricá mió esse processo? Ele viveu cuma um pobre, tá bão. Mas véi cunhece munto bem os pobre de hoje e qué sabê? Pelo meno os pobre desta época se pelam de medo da morte. Será que os da época dele num se pelava tombém não?

— Eu não sei. Mas segundo minhas conclusões, tem medo da morte quem vive pela Carne.

Orozimbo franziu a testa em sinal de estranheza.

— Explico. Nós somos Espirito-Alma-Corpo. O Espírito não é nem de leve vislumbrado pela consciência a que a ciência chama de Personalidade e Yehoshua chamava de Alma mortal. A Alma mortal, portanto, é a tal Personalidade, que é, por sua vez, isto que temos como Consciência. É, em síntese, fruto da Educação e da Aprendizagem da pessoa durante a vida. Como você mesmo diz, a aprendizagem não tem fim. Dura a vida toda e vai além. Mas as pessoas, na maioria, pensa que ela termina na morte do corpo.

Aí está a parte mais valorizada da anatomia das mulheres brasileiras. Que lástima!

Aí está a parte mais valorizada da anatomia das mulheres brasileiras. Que lástima!

O corpo é tão-somente um amontoado de pele, pelos, músculos, veias e artérias, neurônios, ossos, sangue e vísceras. Tudo isto funcionando tocado pela Eletricidade. Unicamente pela Eletricidade, no que tange ao viver carnal. Outras energias atuam no corpo, mas a mais importante e a mais necessária a ele é a energia elétrica.

O corpo tem uma vida primitiva, independente daquilo a que chamamos Consciência (Alma Mortal) e totalmente independente do Espírito, o sopro Imortal que nos anima. É por isto que ele é conhecido como Elemental Físico, pelos Ocultistas e Teosofistas… Você está entendendo? O assunto é meio complexo.

— Véi já uviu tantas veiz vancê falá disso qui num tem difirculidade pra intendê seu modo de pensá. Entonce, vá em frente. Quando inrolá, véi progunta.

Na minha juventude eu andava mais era interessado em mulheres com corpos como este. E tinha uma sorte danada com elas...

Bonita? Não. Só aparência exterior. No interior há fezes, urina e uma porção de micro-organismos que se pudéssemos ver até nos despertaria nojo… Mas apenas ao Espirito. O Corpo atrai o Corpo e é assim que vive a humanidade.

— Bom, a Personalidade é criação do meio social e geográfico em que vivemos. Então, ela é criada totalmente em função dos ambientes de que vivemos cercados. Ela nos leva à adaptação do corpo às novidades tecnológicas que surgem no mundo humano, assim como às alterações que nosso modo de viver errado causa no sistema terrestre. Ela necessariamente se volta para o concreto, para o aqui e agora. A personalidade não tem tempo para se voltar para o alto. Simbolicamente, ela passa a vida olhando para o solo e não vê o céu nem as estrelas acima de sua cabeça. Entende?

— Hum-hum. Vá in frente.

— Uma vez que o mundo tecnológico nos solicita constantemente; uma vez que vivemos pela Personalidade e esta pelo e para o Corpo, nós não temos a mínima consciência do mundo elevado do Espírito. Então, na maioria de nós, o Espírito permanece à parte, adormecido, ignorado…

Olhei para aquela face negra, mas ele fitava a grama abaixo de nós atentamente. Dei de ombros e continuei.

Antes, ele provocava OH! de admiração. Hoje ele provoca um Oh! de espanto.

Antes, ele provocava OH! de admiração. Hoje ele provoca um Oh! de espanto. Isto é o corpo: uma pura ilusão. O desfazimento do corpo é algo implacável e inexorável.

— E vivendo pelo e para o mundo da carne; o mundo a que chamamos objetivo, tendemos a nos apegar ao que deste mundo obtemos como nosso. Perdemos a consciência de que nada deste mundo terreno nos pertence de verdade. Tudo pertence à Terra. Nem mesmo nosso corpo é nosso, mas é, sim, apenas um empréstimo da Terra ao nosso Espírito. Veja você, já houve um tempo que eu ansiava por ter uma casa para chamar de minha. Um carro para chamar de meu. Uma TV 3D para ter o conforto de assistir filmes em terceira dimensão e deixar de ir às salas excessivamente refrigeradas dos cinemas dos shoppings. Ter a capacidade de entrar em luta e vencer até a vários adversários. E de repente eis que tenho duas casas, o carro, a TVzona, o sonzão, o telefone LG última geração, o conhecimento de técnicas de combate, o computador e uma porção de tralha que só me custaram dinheiro.

E descobri que as casas e o automóvel são anzóis que a Administração Pública usa para me tomar dinheiro até quando respiro. A TVzona só passa os mesmos filmes e as notícias são peneiradas e somente são veiculadas aquelas que a censura oculta deixa que passe. O LG último tipo se tornou um meio de eu dar dólares ao dono do FACE e das concessionárias de telecomunicações; pior, alimenta em minha Personalidade a satisfação de fazer chegar a centenas de outras pessoas meus escritos, mesmo sabendo que eles a elas parecerão apenas como fogos fátuos que surgem nos cemitérios sobre os túmulos e logo se desfazem com uma luz fantasmagórica… E decidi não mais usá-lo senão para o que estritamente devem servir: comunicar-me com quem queira falar comigo.

Mestres invencíveis caem quando menos esperam. E se vão para sempre...

Mestres invencíveis caem quando menos esperam. E se vão para sempre…

E comecei a me questionar sobre qual é o valor disto tudo? NENHUM, eis a conclusão a que cheguei. A família se desmanchou. A filha se casou e se mandou para seu apartamento. O filho seguiu-a quase colado em seus calos e também se foi. Fiquei com uma companheira que há muito deixou de despertar em mim senão o costume da companhia, nada mais. Meu interesse se voltou quase obsessivamente para a vida do Homem de Nazaré que vejo na Luz Ódica. Uma História belíssima, que de modo algum ficou realmente registrada para a posteridade tal e qual se deu. Passei a refletir sobre isto tudo e a olhar de modo crítico a vida que me cerca e na qual estive mergulhado por toda esta rica vida que vivi. E repentinamente percebi que o mundo que observo é um mundo que está sistematicamente se criando, se modificando e se recriando de novo; se destruindo e se reconstruindo indefinidamente, pois ele é tão-só fruto dos sonhos, das cobiças e dos desejos do Elemental Físico e nada mais. Se alguém pudesse colocar em suas mãos tudo o que amealhou, roubando ou não, logo, logo só teria pó ali dentro e nada mais. O tempo, outra ilusão do viver encarnado, a tudo destrói impiedosamente.

São bonitas, mas são passageiras. Como tudo neste mundo de ilusão.

São bonitas, mas são passageiras. Como tudo neste mundo de ilusão.

Vejo as mulheres sendo usadas pela Propaganda. Não passam de pele cobrindo músculos, veias, sangue e ossos. Elas se enfeitam, se contorcem para se apresentar “apetitosas” e “chamativas” a fim de despertar o Desejo nos machos da espécie. Mas no fim não passam do que há por baixo de todos nós: músculos, vísceras, ossos, sangue e linfa. No leito nada podem fazer de diferente, pois todos fazem o que todos já fizeram pelos séculos sem fim já passados. E tudo de repente não passou de pó diante de minha percepção. Uma gigantesca ilusão que, no entanto, é frágil quando a gente começa a perceber que se trata de um Mundo de Mentirinha, onde a Mentira rege tudo. Uma centena de questionamentos invadiram minha Mente, minha Personalidade. E eis que a resposta foi encontrada sem palavras, sem a lógica dos mortos que pensam que vivem. Não devo dar valor a nada que não seja meu Espírito. E meu Espírito nem mesmo percebe este mundo ilusório. E quando me voltei para buscar um meio de me encontrar com ele, eis que o caminho foi Yehoshua. No seu modo alegre de viver; nas suas palavras singelas e profundas ao mesmo tempo; no seu desprezo pelo tolo e pelo fútil. Na sua absoluta indiferença às coisas do mundo humano. No seu se bastar a si mesmo independentemente de qualquer coisa sobre a Terra. Então, quando compreendi profundamente tudo isto, entendi o que ele quis dizer quando afirmou: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Quem não vier por mim, não chegará ao Pai”. Nosso Pai, aquele que Ele sempre asseverou que vive perenemente em cada um de nós, é o Espírito Imortal que realmente nós somos. E se não vivermos como ele viveu, nunca sairemos de Abred, o círculo das reencarnações segundo o ver dos Druidas. 

Sou um homem que viveu intensamente a vida. Agora, vivo para dentro de mim mesmo.

Sou um homem que viveu intensamente a vida. Agora, vivo para dentro de mim mesmo.

Meu desapego não aconteceu em função de minha Vontade diretamente voltada para isto. Não. Meu desapego chegou de modo que eu ainda não sei definir. De repente as coisas passaram a perder importância para mim. O mundo passou a ser um sonho confuso, embolado, sem nexo, visto que toda a luta dos humanos termina rapidamente dentro de um buraco de sete palmos de fundura. E a história de cada um some como fumaça ao vento, depois de um tempo. Às vezes nem é preciso morrer para que isto aconteça. Vivi a maior parte de minha vida no Rio de Janeiro. Ali tive muitas aventuras amorosas, das quais de poucas me recordo. Ali, vivi momentos de ódio e de angústias tão grandes que cheguei a sofrer um AVC. Ali vivi perseguições terríveis porque não cedi em minhas convicções. Ali, sob tremendo sofrimento, sob um vendaval de emoções das mais desencontradas eu consegui terminar uma faculdade. E como o melhor aluno da Universidade. Nem eu sei explicar isto, visto que estava totalmente desorientado, perdido, sem rumo, sem chão sob meus pés. Ali gerei famílias, aos trambolhões. Quando menos esperei estava sendo virado pai. E não tive tempo de madurar isto e já estava com outra fêmea gerando outros filhos e novamente sendo jogado ao mundo para aprender a ser aquilo que quase não tive: pai. E durante muitos anos eu me perguntei a razão de ter-me envolvida com a mulher que me deu uma segunda família, se no fundo, no fundo, eu não a amava com aquele ardor dos jovens inexperientes. Somos diametralmente opostos em tudo. Do modo como vemos e sentimos o mundo até o modo como somos capazes de nos dar ao outro, não sendo este outro apenas eu e ela, mas a todos os outros. Aliás, até hoje acho que nunca a amei e seu modo de ser, sentir e compreender o mundo é totalmente diferente do meu, o que, com freqüência, gera grandes conflitos entre nós. Como ficamos juntos, se toda a sua família era contra mim? Não faço a minha idéia. Certo que a resistência e os quase enfrentamentos que seus irmãos causaram me estimularam ao desafio. Mas não sei se isto por si só explica nosso viver juntos até hoje. Eu vivi uma vida de constantes desafios. Muitos perigosos e até mortais. Mal saía de um e já entrava em outro. Uma verdadeira roda viva… E os filhos, meu amigo, me pesaram sobre os ombros. E como pesaram em minha vida. E como exigiram de mim que me segurasse para poder criá-los sem as dores e as penúrias a que fui jogado pelos meus genitores… Quase consegui. Talvez, se não tivesse mudado de companheira, eu tivesse conseguido. Não sei.  Deixei três no Rio de Janeiro e vou morrer sem jamais voltar a viver um tempo mínimo que seja com eles… era nosso script de vida? Vá saber! Mas de repente tudo o que vivi se tornou ínfimo diante de minha Consciência Espiritual. Nada teve mais qualquer valor. Historinhas medíocres e nada mais. O mundo humano é totalmente medíocre, Orozimbo. Tudo passa. E tudo some como poeira, pois a verdade é que a vida humana não passa disso: poeira.

A humanidade é uma caravana de pessoas que passam sobre um caminho de areia sem deixar rastro de sua passagem...

A humanidade é uma caravana de pessoas que passam sobre um caminho de areia sem deixar rastro de sua passagem…

A verdadeira vida não precisa de carrões, nem palácios, nem de apartamentos, nem de TVzonas, nem de nada que se pensa que tem valor. A verdadeira vida só precisa que se viva em harmonia com tudo. Harmonia, Paz e Compartilhamento é o mínimo e o máximo necessário à vida. O resto, o que é do Corpo e da Personalidade, não deve ser valorizado. Nem procurado. E se nós o obtemos, façamos aquilo que Ele recomendou a todos nós: “Volta e distribui tuas riquezas. Então, quando estiveres livre dela, vem e me segue”. Descobri que não preciso de muito para viver alegre e feliz comigo mesmo. Gosto de minha paz interior. Gosto de minha indiferença pelo mundo externo. Gosto de não mais desejar o que não me traria senão preocupações e escravidão, pois quem tem o que quer que seja torna-se um escravo tão mais escravo quanto mais possuir. Viver pelo Espírito é tão fácil… E tão difícil ao mesmo tempo. Não é algo que se consiga porque se quer, mas sim quando é chegado o momento. E este momento não chega para todos em uma única vida. Agora entendo o que os videntes e mestres ocultistas me diziam quando afirmavam que eu sou um Espírito muito velho e muito sábio… Só eu, enquanto Corpo e Personalidade, não sabia disto.

Eu me calei e o silêncio durou um grande tempo, até que me dei conta de que estava sozinho. O portão estava aberto. Orozimbo tinha-se retirado em silêncio. Nunca vou saber a razão de ele ter provocado aquele meu desabafo nem a partir de quando tomara a decisão de me deixar falando sozinho…

É, Orozimbo é um caso sério.