Ele pregava falando leve e livremente, mas tinha o cuidado de nunca fugir ao que o Tanakh pregava. No entanto, dava nova interpretação ao que ali se continha e isto pavimentava seu caminho para o Calvário.

Ele pregava falando leve e livremente, mas tinha o cuidado de nunca fugir ao que o Tanakh pregava. No entanto, dava nova interpretação ao que ali se continha e isto pavimentava seu caminho para o Calvário.

O dia amanheceu nublado e um vento frio soprava do mar para a terra. No entanto, Yehoshua trajava a mesma roupa leve e branca de sempre. Não parecia sentir o frio que fazia os outros tiritarem. Sentados ao redor da fogueira, eles conversavam animadamente enquanto faziam o desjejum. Junto com os discípulos estavam cinco romanos, sendo duas mulheres entre eles; três árabes, dois fenîcios, cinco sírios – sendo duas mulheres entre eles – e um casal egípcio. Todos muito animados com o que tinham ouvido do Mestre no dia anterior. Como sempre, Yehudhah ish Qeryoth, e Simão Barjonas disputavam com João o lugar direito ao lado do Mestre. Mas foi João aquele que se sentou ali.

Yehoshua se divertia com a disputa entre seus discípulos, principalmente entre João, o Boanerges, como ele o apelidara, e Yehudhah, devido aos interesses secretos que os motivavam àquilo. Um, João, queria ficar ao lado de Yehoshua porque se sentia profundamente protegido quando estava próximo dele. Talvez sentisse, e não soubesse como explicar isto, a poderosa força do Corpo Egóico do Mestre, que a todos envolvia como um útero materno. O outro, ao contrário, queria ouvir cada sílaba do que ele dizia para, depois, relatar com o máximo de fidelidade aos dirigentes do Templo e a Herodes o que Yehoshua dissera.

Qeryoth não era um traidor, mas um discípulo em conflito por causa do que ouvia de Yehoshua.

Qeryoth não era um traidor, mas um discípulo em conflito por causa do que ouvia de Yehoshua.

Yehoshua sabia da luta interna de Qeryoth; das dúvidas que o perturbavam e do quanto ele lhe era fiel, embora por esperanças erradas. Conhecia sua disposição íntima de defendê-lo se e quando um dos dois tronos de Israel decidisse prendê-lo: Herodes ou os dirigentes do Templo. Por isto é que mantinha sempre por perto um punhado de sicários prontos para a luta até à morte. Aquela fidelidade enternecia o Mestre, embora ele fosse quase sempre muito duro com aquele discípulo renitente.

— Mestre Yehoshua — ouviu-se a voz de Adinayr, esposa de Cadmo, o fenício, irmão de Adir, cuja esposa, Akymara, toda atenta assentia com a cabeça a cada frase dita por Adinayr —, ontem ouvimos o que disseste à multidão que se reunia ao teu derredor. Muito nos impressionou, a mim e ao meu marido, tuas palavras. Mas poderias dar-nos maiores esclarecimentos sobre algumas de tuas sentenças?

Yehoshua assentiu com a cabeça, olhando sorridente para a bela fenícia.

— Disseste que a todos o Sol abençoa igualmente, todas as manhãs, e como um pai bondoso e dadivoso não discrimina seus filhos nem os separa por tribos ou descendências ancestrais. Então, o Pai a que tu te referes é o Sol? Pensas como os egípcios? Crês que o Sol é realmente o Pai Criador de Todas as Coisas?

— Não, Adinayr, eu nem de leve procurei dar a entender aos que me ouviram que o Sol é meu Pai e o Vosso Pai Celestial. Fiz uma singela analogia entre ele e nosso Pai Celestial. Sim, podemos dizer que nosso o Pai é o Sol Supremo e que além de Sua Luz de Bondade, Vida, Amor e Poder nada há, absolutamente nada há. Eu me referi à religião dos egípcios porque eles escolheram o único símbolo que verdadeiramente pode representar a Presença Divina entre vós e em toda a Terra. Não havendo a luz do Sol que ilumina este mundo, crês que poderia haver vida? Poderia haver a humanidade? Não, não poderia. O frio seria imenso e permanente e nenhum homem o suportaria. E é verdade que a luz do sol que vos ilumina e a tudo na Terra, não escolhe nem seleciona a quem vai ou não, prodigalizar com sua luz e seu calor. Ele, obedecendo às Leis d’Aquele que o criou, banha de luz e mantém a vida de todos, bons ou maus, aleijados ou sãos, ricos ou pobres. Foi isto que eu disse.

— Mestre — chamou Cadmo —, também disseste que o Pai Celestial dividiu a raça humana em sete grupos. Quais seriam eles e onde nós, os fenícios, nos incluímos? Nosso povo é um destes grupos?

Yehoshua, o Cristo

Yehoshua sempre revelava informações ocultas a seus discípulos, mesmo que em presença de estranhos, quando estes eram sinceros na vontade de aprender.

— Não, os fenícios se incluem no grupo da Raça Branca, assim como os africanos se incluem no grupo da Raça Negra. Além destas duas raças ainda há a Raça Amarela, a Raça Vermelha e mais três que já não mais existem neste mundo de agora. Eram os Filhos da Fumaça (hiperbóreos, que não tinham corpos físicos), os Filhos da Água Ilhada (os atlantes) e os Filhos do Pelo (os hominídeos).

— Nunca ouvimos falar destas raças, Mestre — disse Akymara.

— Certamente que não — concordou Yehoshua, sério. — Elas constam de livros que não estão ao alcance dos homens comuns. Entre os hebreus, no Zohar, cujos segredos não podem ser revelados a qualquer homem. Por isto não é comentado nas sinagogas. Nem mesmo no Templo. Mas também há informações e descrições destas raças já passadas no Himalaia, nos mosteiros de lá. Entretanto, não creio que tal conhecimento possa ajudar-vos nos momentos de vossas vidas. Não sois monges e certamente não o sereis. Não nesta vida, ao menos. Todos vós estais comprometidos com o sistema de vida que adotastes e certamente nenhum está disposto a abandonar tudo o que amealharam para, sem mais nada que um par de sandálias e duas mudas de roupas, entregar-vos aos rigores de uma vida monástica. Entretanto, para que se acalmem vossos corações, eu vos digo que não há caminho que não leve ao nosso Pai Celestial. Uns, podem ser curtos; outros, longos, muito longos e muito sofridos. Mas todos, ao final, chegarão a Ele.

— O que acabas de dizer é muito interessante — cortou Akymara —, pois nos mostra que defendes o retornou de nosso espírito a este mundo. Crês mesmo nisto?

— Dize-me, Akymara, tu acreditas que a raça humana já conhece tudo o que tem para conhecer? Já aprendeu tudo o que tem para aprender?

— Não entendi…

— Nosso Mestre — falou Cefas — segue o pensamento dos fariseus que defendem o retorno do Espírito à carne para consertar o que fez de errado na vida anterior…

— Não é bem assim — disse Yehoshua sorrindo. — O que digo é que há uma infinidade de coisas que o Pai escondeu neste mundo para que o Espírito do Homem, através do despertar de Sua Consciência Divina, avance em conhecimento e descobertas. E o Espirito não desperta de repente, visto que está sob o jugo da Vida da Carne. Vejam, em um país muito longe daqui e que conheceis como as terras do Sol Nascente, os homens descobriram como fazer fogo sem usar madeira nem nada que se usa normalmente. Tomaram o enxofre, a pedra amarela vomitada pelos vulcões, e do salitre e do carvão moído e através de muitas tentativas criaram um pó preto. Acreditavam buscar um elixir que prolongasse por muitos e muitos anos a existência nesta vida carnal. Mas o que descobriram foi a pólvora, que Moisés sabiamente soube usar para obrigar um povo rude, rebelde e avesso à obediência, a segui-lo e obedecê-lo. Posso dizer sem erro que os hebreus, como uma nação, são filhos da pólvora do povo do Sol Nascente.

Qeryoth arregalou os olhos e mirou a face de cada um de seus companheiros. Yehoshua acabava de dizer que o maior profeta hebraico tinha sido um espertalhão. Isto seria sua condenação, se suas palavras caíssem nos ouvidos de Caifás ou de Anás.

— Somos comerciantes. Viajamos pelo mundo fazendo comércio. Conhecemos as terras do Sol Nascente, a China, e conhecemos a pólvora — disse Samir, um árabe que até ali se mantivera calado e todo atento ao que ouvia. — Lá também se diz que o Moisés hebreu aprendeu os segredos do emprego da pólvora com os flamen dialis, os sacerdotes da casta mais instruída e sábia dos egípcios, com os quais estudou na condição de filho do faraó Amenofis.

— Então, é mesmo verdade que foi o povo do Sol Nascente que deu a Moisés a  pólvora? — Perguntou Qeryoth, olhos arregalados de espanto.

— Eles não deram a Moisés o conhecimento de como fazer a pólvora — respondeu Samir. — Um comerciante chinês, aprisionado por um dos faraós anteriores, que alguns afirmam ter sido Tut-Mosis, comprou sua liberdade revelando o poder da pólvora chinesa ao faraó e aos seus flamen dialis. O segredo daquela descoberta foi guardada ciosamente pelos sacerdotes de Amon, pois com ele podiam apresentar maravilhas diante dos olhos do povo e convencê-los do Poder de Amon. 

Voltando-se para Yehoshua, Qeryoth perguntou, coração aos pulos:

— Yehoshua, como sabes com certeza que nosso Legislador empregou a pólvora para ludibriar a fé de nosso povo?

— E quando foi que eu afirmei tal coisa? — Perguntou de volta o Mestre, olhando sério nos olhos de seu discípulo. Eu disse que ele usou a pólvora para obrigar um povo rebelde a obedecê-lo. E fez muito mais e seus feitos constam nos livros hebraicos, logo, não falo com língua mentirosa pois não consta ali que Moisés, irado pelo povo hebreu ter adorado um bezerro de ouro, chamou para junto de si aqueles que eram filhos de Deus e logo a ele se juntaram os filhos de Levi? Não consta ali que Moisés mandou que os levitas tomassem de suas espadas e matassem seus irmãos, seus vizinhos, seus amigos e todos os demais que tinham rendido homenagem ao Bezerro de Ouro?

Os estrangeiros se entreolharam com espanto. Não compreendiam o que acabavam de ouvir. Se o Pai de quem Yehoshua falava era o Senhor do Amor e da Bondade, como ele afirmava, como, então, permitir que em Seu nome irmãos matassem irmãos por causa de um simples bezerro de ouro?

— No entanto, tal carnificina jamais foi aprovada pelo meu Pai, pois que a ele abomina absolutamente o derramamento de sangue, seja de homem ou animal — disse Yehoshua, como se respondendo ao questionamento que havia nos estrangeiros. — Tudo o que Moisés fez, fê-lo por ação Política, nunca por ação Religiosa. Mas os que escreveram os Livros alteraram tudo porque o próprio Moisés, fugindo à sua responsabilidade perante os homens, atribuía as atrocidades que pensava que tinha de cometer para obter a obediência dos hebreus, ao Pai Celestial. Ele se apresentava diante do povo amedrontado como somente um instrumento da ira do Pai. No entanto, não cabe atribuir tal sentimento ao verdadeiro Deus, ao verdadeiro Inominado e absolutamente inalcançável pelo homem mesquinho e insignificante na imensidão de Sua Criação. É por isto que vos digo, a vós, meus discípulos, que não vim destruir a Lei, mas vim corrigir a base errada em que vós, homens de nenhuma Fé, plantaram-na para que vicejasse entre vós. Moisés errou quando colocou o Pai fora do homem, pois em verdade em verdade eu vos digo: o Pai de todos nós vive perenemente em cada um e não há um til de pensamento que vos cruze as Almas Mortais que Ele não perceba e não conheça seu início, seu meio e seu fim.

E dizendo isto, Yehoshua pôs-se de pé e se dirigiu ao promontório para falar novamente à multidão que começava a se formar ao redor, sequiosa mais de milagres que lhe aliviassem seus sofrimentos do que de ouvir a palavra do Sábio dos Sábios. Os estrangeiros que o acabavam de ouvir também o seguiam, mas com suas cabeças dando voltas e mais voltas no esforço para entender o que tinham acabado de ouvir. Qeryoth também o seguia, totalmente confuso e com o coração acelerado. Se o Mestre ousasse expressar suas opiniões tão rebeldes diante da multidão, certamente rabis e espiais do Templo e de Herodes o ouviriam e correriam a informar àqueles antros de traidores. O Mestre corria perigo.

Qerioth decidiu que não permaneceria ali. Tinha de correr a Jerusalém para informar corretamente sobre a linha de pensamento desenvolvida por Yehoshua e que não visava atacar o conteúdo dos livros sagrados, mas sim esclarecer e corrigir absurdos que ali havia. Só ainda não sabia como poderia realizar tarefa tão hercúlea…