Eis o Temido Caifás, numa representação cinematográfica da atualidade.

Caifás, Anás e todos eles não foram registrados com justiça, pelos que escreveram sobre a História do Rei dos Reis.

Yehudhah ish Qeryoth estava firme e olhava com olhar intenso as faces de cada um dos juízes ali presentes. Sabia serem homens perigosos. Sabia que estavam de olho em Yehoshua. E sabia que não gostavam dele, pois era um sicário que, com freqüência, não respeitava a ordem de não matar judeus.

— Conta-nos o que tem feito teu Mestre, Yehudhah — ordenou com voz irritada, Anás. O discípulo rebelde não gostava nem um pouco da arrogância daquele homem. E já andava alimentando um desejo sombrio: pegá-lo com sua sica numa emboscada. Mas tão logo pensava nisto, de modo rancoroso, logo as palavras de Yehoshua soavam em sua mente e o agoniavam, lançando-o numa luta íntima contra si mesmo, contra seus valores e seu juízo. Dentro de si soavam as palavras impressionantes ditas com voz de trovão: “Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás. E também foi dito que quem matar será réu no dia do Juízo. Eu, porém, vos digo que não deveis matar nem mesmo os animais, pois a Vida que em tudo se manifesta pertence a um único dono: Meu Pai que está no céu”.

Yehudhah não gostava dos rabis e sua fé em que Yehoshua viesse a levar o povo a se rebelar estava cada vez mais fraca e confusa.

Yehudhah não gostava dos rabis e sua fé em que Yehoshua viesse a levar o povo a se rebelar estava cada vez mais fraca e confusa.

Num ímpeto que nem mesmo ele compreendeu, Yehudhah recitou aquelas palavras olhando firmemente nos olhos do ancião. Os dois rabis se entreolharam e voltaram a olhar para a face pétrea do discípulo rebelde.

— O que queres dizer com isto, homem? Por acaso buscas nos insultar? — E a voz trovejante de Anás revelou a raiva que o possuía. — Alteras o que está em nosso livros sagrados e não tens nenhuma autoridade para fazer isto. Advirto-te que um qualquer que ouse tamanho insulto já merece ser lapidado. E tu estás diante justamente dos que, representantes do Sagrado, podem ordenar o cumprimento desta sentença.

— Não tive a honra de ser aquele que primeiro emitiu estas palavras — respondeu, com íntima satisfação, o apóstolo rebelde. — Foi Yehoshua que as disse para uma multidão muito grande, que ao redor dele se reuniu para ouvir suas mensagens. E posso garantir-vos que sua mensagem não desdiz nenhuma palavra de nossos livros sagrados. Apenas ele dá mais clareza ao que ali consta de modo velado.

— Tu disseste “multidão”? — Intrometeu-se Caifás. — E de quantas pessoas era composta tal multidão? Que classe social estava presente em sua maioria?

— Não tinha como contar a quantidade dos que ali estavam, mas posso afiançar que eram muitos e vinham de todas as partes. Vi até indianos, atentos todos ao que Yehoshua falava. E ele não dizia nada que já não estivesse nos livros sagrados que vós guardais com tanto zelo. Nisto, não se pode condená-lo — e o olhar do discípulo rebelde transmitia um sorriso de escárnio que foi plenamente captado por Anás. Este, porém, se conteve e continuou o interrogatório com voz mansa demais, para os ouvidos atentos de Yehudhah.

— Há muitas maneiras de se dizer o que ali está contido, Yehudhah — rebateu o rabi, melifluamente e andando devagar ao redor do discípulo rebelde. Este o acompanhava atentamente, com os olhos. — E os maldosos inserem interpretações indevidas às palavras dos profetas e da Lei. Não será este o caso de teu Mestre?

“Pois em verdade em verdade eu vos digo: se a vossa justiça não for maior nem mais perfeita do que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino de meu Pai, pois Ele não aceita imperfeições nem iniqüidades”. — Citou Yehudhah para espanto de si mesmo e dos que o ouviam atentamente.

— Tu nos chamas de iníquos e imperfeitos? Quem és… — Trovejou Anás, avermelhando-se todo. Mas Caifás cortou seu parceiro com um gesto imperativo de mão.

— O que citas são palavras de Yehoshua? — Perguntou, com voz perigosamente melíflua.

— Sim, são. E não vejo nelas nenhuma falta contra o Templo — disse o discípulo rebelde, fuzilando com os olhos o raivoso Anás. — E se quereis saber, não somente eu, como também todos os que o seguem e aqueles que o ouviram concordamos com ele, visto que suas palavras são justas. Não sois vós, do Templo, venais? Podeis negar isto a mim, que sou de família de rabi também?

— Blasfemas! Insulta-nos! Mereces a lapidação! — Urrou Anás, apontando um dedo acusador para Yehudhah, que instintivamente levou a mão ao cabo da inseparável sica. Estavam só os três ali, pois aos rabis não interessava que outros ouvissem o que quer que conversassem entre si. Então, era-lhe muito fácil cortar a garganta do detestado rabino. E, então, para espanto de Caifás, o discípulo rebelde voltou a recitar, com voz soturna e ameaçadora:

“Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás. E também foi dito que quem matar será réu no dia do Juízo. Eu, porém, vos digo que não deveis matar nem mesmo os animais, pois a Vida que em tudo se manifesta pertence a um único dono: Meu Pai que está no céu”. Diante do que disse o Mestre, vós não tendes o Poder de mandar matar-me, eis que estareis infringindo a Lei do Pai Celestial – acrescentou o discípulo rebelde para espanto dele mesmo.

Anás bufou de raiva, mas antes que o grito chamando os guardas saísse de sua boca espumante de ódio, seu companheiro, Caifás, ergueu a mão e o olhou censuroso.

— Espera, Anás. Quero falar contigo a sós. Quanto a ti, aguarda-nos aqui.

E sem mais delongas Caifás tomou o furibundo Anás pelo braço e o arrastou para longe do discípulo rebelde. Quando julgou que não poderiam ser ouvidos, falou quase sussurrando.

— Não é possível que não tenhas notado. Aquele esbirro está sob a magia do livro oculto Zohar. O Livro que só nós, os altos sacerdotes, podemos ler e consultar e que nos ensina a Magia Divina das Sephirot. Através dele o próprio Yehoshua nos insulta, cospe em nossas caras. Espertamente, ele se serve de seu discípulo criminoso para nos atingir. E não podemos sequer comentar sobre isto sem nos denunciarmos como praticantes de artes mágicas, perante o povo. Lembra-te:”“As coisas encobertas são para o SENHOR, nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos, para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei”. Isto está em Deuteronômio. E a Magia que aprendemos em Sefer Yetsirah concede àquele que a domina o poder de falar pela boca de outrem, fazendo, deste, seu mensageiro, sem que ele mesmo o saiba que o é. Yehoshua conhece profundamente o Sefer Yetsirah e até mais do que ali se contém, visto que é egresso de um mosteiro himalaico. Temos de lidar cuidadosamente com o que ouvimos da boca do sicário. A rigor, ele não é responsável pelo que recita, pois não creio que tenha a capacidade de ouvir o que jamais ouviu antes e possa, depois, citar o que foi dito palavra por palavra. Geralmente as pessoas citam apenas o que apreenderam do que ouviram. Citam o que interpretaram segundo suas capacidades de conhecimento. Estamos lidando com um Mago Poderoso e é aí que está o perigo. Não te enfureças contra o sicário. Ele não passa disto. Agora, vamos continuar a interrogá-lo e ouvir de sua boca o que o Mago nos quer fazer ouvir.

Anás hesitou um pouco, mas cedeu e ambos voltaram a se postar diante de Yehudhah, que os olhava expectante. Anás tomou a palavra novamente.

— Tudo o que dizes, Yehudhah, é impressionante. Tens uma memória privilegiada. Alguma coisa foi dita pelo revoltoso ao qual vigias para nós, contra nosso Templo Sagrado? Alguma coisa insultuosa, que o denuncie quanto aos intentos malévolos?

“Os rabis e seus semelhantes entre outros povos cobram dos homens que façam suas ofertas ao Pai diante de altares de pedra e com tais ofertas constroem templos suntuosos que só deslumbram e impressionam os pobres de espírito. Mas eu vos digo que o único altar a que Meu Pai assiste é o coração de seus filhos. Portanto, não deis importância a templos suntuosos nem a altares pejados de pedrarias e ouro e prata. Nada disto tem valor nem brilho diante de meu Pai. E se estiverdes perante vosso altar íntimo para ofertar ao Pai vossas orações e a Ele fazer vossos pedidos e, naquele momento, vos lembrardes que vosso irmão tem alguma coisa contra vós, por injúria ou insulto vosso, abandonai vosso Templo e ide reconciliar-vos com vosso irmão, pois a ira dele, mormente se justa, nublará e tornará fétido o ar que houver em vosso Templo íntimo”. Foram estas as palavras que Ele disse em relação aos Templos suntuosos, mas de modo algum e em momento algum citou nominalmente o Templo de Jerusalém. Ele falou genericamente…

— Então, ele também nos citou, visto que nosso Templo é suntuoso, como devem ser todos os templos dedicados ao Esplendor dos Esplendores. E se teu mestre condena a suntuosidade do Templo de Israel, condena também ao nosso Deus e isto é imperdoável, não achas?

— Não ouvistes direito o que acabei de citar ou será que propositadamente tapas teus ouvidos por uma necessidade doentia de perseguição a um homem que não ataca senão a imoralidade humana? — E ao falar os olhos do discípulo pareciam vitrificados e seu olhar, perdido algures, à frente de si. Caifás trocou um olhar significativo com Anás que, agora, prestava toda atenção nos mais mínimos detalhes do comportamento de Yehudhah e percebia sinais de que ele falava induzido pelo homem a quem chamava de Mestre. Compreendeu que ambos, ele e seu sogro, Caifás, estavam diante do Poder do Zohar sendo usado com mestria por um homem que a ele cada vez surgia como perigosíssimo.

— Quantas pessoas estimas que tenham ouvido estas palavras insultuosas de teu mestre, Yehudhah? — Perguntou Anás, agora bem mais calmo e melífluo.

— Já te disse. Uma multidão de miseráveis e mendigos, que mais desejavam as curas de seus males físicos que a cura de seus males espirituais. Não somente entre os premiados com as riquezas do mundo material se encontram pessoas indignas dos favores do Divino. Yehoshua não incita a rebelião, como pensais. Ele, ao contrário, prega a paz a qualquer um e entre todas as nações. Ele não pode ser considerado um agitador, pois que não diz uma palavra contra o que é certo e bom. Mas condena com veemência o egoísmo e o apego a bens materiais, pois, segundo seus ensinamentos, o Pai Celestial não aprova o crime, seja qual seja a vestimenta com que se apresente entre os homens. Ele prega a simplicidade e a caridade. Mas condena aqueles que as exploram em benefício próprio.

Anás e Caifás permaneceram silenciosos por um longo tempo, fitando a face inacessível do apóstolo rebelde. Então, com um suspiro, Anás o dispensou com um gesto de mão. Yehudhah, entretanto, não se moveu.

— O que queres? Por que não te vais?

— Não pensais que venho aqui trazer-vos as informações que desejais assim, de mão beijada. Quero minha paga. Afinal, eu como, eu tenho necessidades como qualquer um, inclusive vós mesmos.

Anás meteu a mão em uma  bolsa que trazia presa à cintura e dela retirou algumas moedas de prata que depositou nas mãos de Yehudhah. Este contou cinco ciclos de prata. Sorriu satisfeito, rodou nos calcanhares e se retirou sem qualquer cumprimento aos dois poderosos do Templo.

— Um dia — disse Caifás entredentes — terei o prazer de mandar apedrejar esse insolente. Talvez até consiga fazer que seja dependurado na cruz romana, já que não mais podemos nós mesmos, fazer isto.

— Ele morrerá quando não mais nos interesse. Neste momento é valioso, pois através dele o Mago misterioso se revela a nós. E como o faz! É assombroso que domine tão bem os segredos ocultos do Zohar. Nem mesmo nós dois alcançamos tal domínio. E se tem este poder, pode fazer o que bem desejar. Pode transformar fogo em água e óleo em sal. Pode até mesmo ressuscitar os mortos, o que sabemos, tu e eu, é algo delicadíssimo por envolver a violação de Leis que devem ser respeitadas e só violadas pelos que são verdadeiramente Grandes perante o Inominado. E se Yehoshua é um destes, então, para nós, ele é um dilema crucial. Creio que, antes de pensar em mandar eliminá-lo, seria melhor pensarmos em dele nos aproximarmos para tentar conquistá-lo para nosso lado. Não será fácil, mas de certo modo ele está conosco, visto que prega nossas Leis, as mesmas que nos foram dadas através de nossos Livros pelos profetas de nosso povo. Profetas que falavam diretamente com o Incriado, como foi o caso de Moisés…

— E como faremos isto, visto que ele demonstra por suas palavras ser contra nós? — Perguntou curioso Caifás.

— Temos de fazer chegar até ele um convite para a próxima festa que realizaremos aqui em Jerusalém. Um convite para que venha pregar diretamente aqui. As multidões que aqui vai encontrar supera muito as que porventura amealhe pelos campos e pelos vales por onde anda. Aqui vem gente de nível social muito melhor que os pastores e pescadores e oleiros e construtores com que normalmente se envolve. Creio que será uma tentação. Nossa próxima festa será o festival de sucot (NOTA: festival das cabanas). Podemos convidá-lo para pregar no  sétimo e último dia do festival, o dia em que os rolos da Torá serão retirados para que os rabis os leiam para os peregrinos. Ele poderá ser convidado a fazer a leitura e a interpretação de um texto que nós escolheremos para isto. Se disser alguma palavra que se possa interpretar como criminosa…

Caifás abriu um sorriso de alegria. Seu genro era realmente esperto.